quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

FESTA DE FAMÍLIA


Para finalizar o ano e dar as boas vindas a 2009, escolhi para vocês este recorte da história pós-natalina “Família Sagrada” do álbum “Vale Tudo- os quadrinhos mais revoltados do mundo” (Opera Graphica) a mais recente publicação do cartunista rocker e morador do grande ABC Marcio Baraldi.
Meus sincero agradecimentos a todos vocês que acompanharam este blog durante este ano,deixando comentários, comentando por e-mail ou apenas lendo. E um abraço especial à minha adorada salve-salve Olga Defavari, que fez surgir este blog e faz com que ele prossiga existindo.
Para todos então um
Feliz Ano Novo !!!

RETROSPECTIVA

O ano novo inicia terrivelmente velho na faixa de Gaza. Em três dias morreram 60 civis palestinos, vitimados pela resposta israelense motivada pelos insistentes bombardeios do Hamas em direção à cidade de Sderot, a mais próxima de Gaza. Antes, porém, em junho, tanto Israel quanto o Hamas romperam o cessa-fogo. Como há dois meses não entram jornalistas em Gaza, vale voltar a “Palestina – Cidade Sitiada” e “Palestina- na Faixa de Gaza” obras do jornalista e quadrinista Joe Sacco. Postei texto sobre ambas HQs em agosto deste ano (Os Dois Lados da questão).
Com 2008 termina a Era Bush, período dos mais esquecíveis da história dos Estados Unidos, cujo momento mais emblemático foi a sapatada levada pelo Comandante em Chefe no Iraque, reveladora da completa desmoralização de sua administração. Com ele, perdem força os heróis truculentos que espelhavam com perfeição seu governo belicoso. A seguir, texto que escrevi sobre o seriado 24 Horas, num longínquo 2007 mas que mantém certa atualidade, não pelo que o liga ao moribundo governo George W. Bush, mas pelo Eterno Retorno da questão Palestina.
A QUESTÃO PALESTINA NÃO CABE NO MANIQUEÍSMO DE JACK BAUER

Nesta sexta temporada, 24 Horas não se preocupou em fazer de vilões aqueles que defenderam a “política do medo” de George W. Bush após os atentados de 11 de setembro. Mostrou os absurdos das prisões arbitrárias de cidadãos de descendência árabe e criticou o ataque militar a nações islâmicas como resposta a ações terroristas. “Nem todos nesses países estão a favor dos terroristas” nos lembra o assessor da presidência Tom Lennox.
Tudo muito elogiável. Elogiável até demais, afinal se trata de uma série de ação que reprisa a manjada oposição entre os EUA e o resto do mundo, sendo os EUA, claro, os mocinhos. Enxergar e desvelar a sujeira e os erros de seus governantes, então, não é pouca coisa.
No entanto, toda a complexidade utilizada no retrato da chamada “doutrina Bush” (reacionarismo de direita, tendência à supressão de direitos civis e belicismo histérico) desaparece quando se trata de compreender os terroristas islâmicos bem como as motivações desses grupos.
De início nos é mostrado que quem explodiu uma bomba nuclear em solo norte americano (ponto de partida da atual temporada) e ainda ameaça detonar mais quatro é o terrorista islâmico Abu Fayed. Dez anos atrás o vilão da série seria provavelmente um narcotraficante colombiano e, vinte, algum russo maluco vestindo um casaco cafona e um chapéu de pele de urso. Mas os tempos são outros.
Em oposição a Fayed está um ex-terrorista, Hamri Al Assad, que abdicou da luta armada e quer um acordo de paz com os EUA. Para isso ele se aliará a Jack Bauer na busca por Fayed, que não aceita o cessar fogo proposto por Assad e se põe a sabotá-lo. A simplificação é de assustar. Ao colocar Assad no lado dos mocinhos, entendemos que o terrorista “bom”é o que, unilateralmente, abandonou a luta armada, numa mensagem de que é pela via da negociação que as coisas devem ser feitas, não pela luta suja e assassina de Fayed (que é apenas uma alegoria para Osama Bin Laden). Dito assim, ninguém há de discordar. Mas e Jack Bauer, por acaso ele não mata e tortura também? Apenas quando não há outra alternativa , nos diz a série, quando há um “bom motivo”. Já os terroristas só usam de agressão por que são incapazes de enxergar a tal outra alternativa, a da negociação pacífica. Curioso, não? Pois então, Assad acaba morto por radicais de direita norte-americanos , golpistas que querem o poder por vias outras que não a da democracia(algo impensável para qualquer norte americano), o que põe ainda mais em risco o processo de paz.
Mesmo sendo Fayed uma representação de Bin Laden, também podemos identificar em sua luta com Assad os dois lados claramente distinto da Palestina atual, na qual os EUA de Jack Bauer estão diretamente envolvidos. O “Fayed”de lá é o grupo islâmico que não abdica da luta armada, o Hamas. Já o Fatah é partido árabe que não age em nome da religião e que busca diálogo com o ocidente, ou seja o “Assad” da questão . Os EUA e Israel nunca economizaram armas nem dólares para fortalecer o Fatah na Palestina, mas mesmo assim, talvez pelas várias acusações de corrupção e de submissão a interesses estrangeiros, o Fatah foi perdendo prestígio até que a maioria do Parlamento acabou ficando com o Hamas. Recentemente o governo de coalizão entre os dois acabou de vez, quando o Hamas expulsou o Fatah da faixa de Gaza. EUA e Israel entraram em polvorosa e, sob o argumento de que o único líder legítimo eleito democraticamente era Mahmoud Abas, do Fatah,deram início a um embargo econômico a Gaza.
E ai temos a seguinte situação: um partido que tem maioria num Parlamento eleito democraticamente pelo povo palestino não só não é reconhecido pelos EUA como legítimo, como sofre sanções econômicas e repressão militar. Onde está, então, a opção pelo diálogo? Cadê a deposição das armas que eles tanto pedem aos “terroristas”? Parece que, no fim das contas, virar a cara para a via da negociação pacífica não é privilégio de extremistas islâmicos...
Mas façamos justiça à série. Alguns episódios mais tarde, ficamos sabendo que na verdade quem arquitetou o plano de explodir a bomba nuclear na terra do Tio Sam fora, na verdade, um russo maluco vestido num casco cafona, Vladmir Gredenko. Seu motivo? Ele se ressentia da vitória dos EUA na Guerra Fria... Esse sim merece levar uns tapas de Jack Bauer !

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

CANAL TCM INCONTORNÁVEL ESTA SEMANA

o TCM traz um filme simplesmente imperdível. Confira:
A semana começa endemoniada hoje, às 17 h55 com Fritz Lang e seu “Fúria”, filme de 1936, primeiro filme de sua fase americana. Lang cometeu jóias raras do cinema como Metrópolis (1926) ,Dr.Mabuse(1922) e M.,o Vampiro de Dusseldorf (1931).
Daí em diante,sempre às 22h.:
terça-feira, dia 9, tem Todos os Homens do Presidente (1976), de Alan J. Pakula, que, todo mundo sabe, é sobre o caso Watergate e todo aspirante a jornalista deveria assistir.
quarta-feira tem o suspense Pacto de Sangue (Double Indemnity), de 1944. Ainda não assisti, mas é Billy Wilder , portanto teremos um olhar irônico, quase europeu do cinema (e do mundo) do sujeito que fez coisas como Crepúsculo dos Deuses(1950) e Quanto mais Quente Melhor (1959),talvez o melhor filme de Marylin Monroe. De quebra Pacto de Sangue traz a mais fatal das mulheres, Barbara Stanwick.
quinta-feira vem com o imperdível terror O Enigma de Outro Mundo do incomparável (porém subestimado) John Carpenter . É a história de cientistas presos no Ártico às voltas com uma criatura alienígena.
sexta-feira uma raridade absoluta: “Agonia e Glória” de Samuel Fuller (!!), diretor que na década de 60 dividiu a França em duas metades: a de seus admiradores (a geração revolucionária da Nouvelle Vage) e seus detratores (todos os outros).

QUANDO OS QUADRINHOS TENTAM SER CINEMA











Entre o Homem de Ferro de 2007 (a primeira imagem de baixo para cima, ) e o de 1979 há grandes diferenças.
Na cena extraída de Guerra Civil nº 7, publicada pela Panini ano passado e que tem desenhos de Steve McNiven, vemos claramente uma daquelas tentativas dos quadrinhos de super-heróis de se aproximarem do cinema em mais de um aspecto . Em primeiro lugar, a busca por um certo realismo dos desenhos (com as proporções dos corpos correspondendo às humanas, o uso correto da perspectiva,etc) que é parte de uma tendência de se tornar as histórias “sérias” de dar a elas “complexidade” inserindo tramas mais complicadas e longas , muitas vezes com intrigas governamentais. Às vezes tem-se resultados muito bons, noutras vezes , constrangedores, o que não é o caso aqui. A seqüência é um exemplo de decupagem cinematográfica, com o uso correto de plano e contraplano (mostra-se o rosto do Capitão,depois o do Homem de Ferro, então volta ao Capitão) numa seqüência lógica que poderia muito bem ser um storyboard (os desenhos feitos a partir do roteiro e que orientam o diretor) de um filme.
Já o de 79(extraída de Os Grandes lássios do Homem de Ferro nº1,com traço de John Romita Jr), tem à sua disposição muito mais elementos que são próprios à linguagem dos quadrinhos e só a ela. Se isso lhe custa em “realismo”,em desenhos detalhados, lhe dá em expressividade e riqueza de significado. Um simples fundo azul, ali é entendido como um céu, linhas brancas tanto como vento ou velocidade. Um fundo amarelo (absolutamente irrealista, sem cenário ou figura de fundo),por exemplo, amplia o impacto visual e dramático de um desenho.
Lembremos que o cinema, em seus momentos expressionistas (na Alemanha dos anos 1920) a fim de conseguir estes mesmos efeitos(com objetivos outros,claro), trabalhava arduamente para extrapolar as sombras, explodir a iluminação e distorcer cenários, maquiagem e cenografia.
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Extraídas de seus contextos, o resultado é desigual. O desenho de McNiven se enfraquece sem a seqüência que o sustenta, que é impactante, com belos desenhos, mas não mais do que isso. Já o de Romita Jr poderia muito bem ser transposto para uma tela e pedurado numa parede de Galeria de Arte que ganharia significado próprio, dialogando com a linguagem da pintura (a tela, as cores, a tinta) e sua tradição visual bem como com o público, que participaria da interpretação da obra a partir de seus elementos mais abstratos (as linhas, as cores puras).
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Quanto às histórias, a mais recente é claro, é mais madura,complexa e melhor construída (ainda que a primeira traga o interessante lado alcoólatra do Homem de Ferro), com noções de clímax e depuração de roteiro superiores. Mas isso está ao alcance do cinema.

DIA DE CÃO, DIA A DIA

É assistindo a Um Dia de Cão, que Sidney Lumet dirigiu em 1975 que percebe-se como grandes filmes (e grandes romances,contos,peças) não envelhecem e ainda ganham constantemente novos significados.
Baseado num caso real, conta a história de Sonny (Al Pacino nos bons tempos) e seu parceiro, que invadem um banco, mas acabam encurralados pela polícia, dividindo-se entre as exigências absurdas (um helicóptero e um jato para a fuga) e a simpatia do população (que cerca o local) e do reféns, que se divertem com o fato de não estarem trabalhando.
A presença das câmeras de TV no local, os entrevistadores falando ao vivo por telefone com Sony , tudo isso faz dele uma celebridade instantânea . Um momento iluminado é o que mostra um entregador de pizzas (negro com o melhor visual black power)na porta do banco e que, após receber o dinheiro de Sony, faz alguns passos de dança e grita: “sou uma estrela”.
Impossível não relacionar com a estupidez de apresentadores-animadores como Brito Jr, Geraldo Luís e outros tantos na condução de casos policiais, o mais recente deles o de Lindemberg Alves que terminou com assassinato de Eloá Pimentel em Santo André.
E numa outra análise, com os bancos sendo parte da roda de ganância que atirou os EUA e o mudo numa recessão quase sem precedentes, ver o povo aplaudindo alguém que ataca uma instituição bancária (mas não seus funcionários) e atira notas em direção à multidão tem um outro significado, atualíssimo.
Duas coisas:
1- De lá pra cá boa parte da imprensa não aprendeu nada.
2-Fosse dirigido por um Michael Bay (Transformers, Armaggedon) da vida esse filme já teria sido esquecido. Mas não, é obra de quem entende do riscado, e por isso permanece.

DE VOLTA AO BALCÃO

Bem, primeiramente peço desculpas ao leitores como o Dj Mandio e o caríssimo Daniel Luppi, que perguntaram o motivo das férias prolongadas deste blog. Concluídos(ou quase) os compromissos acadêmicos, já posso voltar a escrever.
E a primeira dose é por conta da casa!

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

HULK, JÁ PRO DIVÃ !!!




Que dizer do mais recente filme da Marvel Entertainement, Hulk? Que, nos melhores momentos, é tão somente um passatempo divertido. E esse problema não se deve em nada ao fato dele ser adaptação de uma história em quadrinhos de super-heróis e sim ao filme não ter absolutamente nada a dizer.
Sem rodeios: não há história, só um jogo de gato e rato entre o Hulk e seu perseguidor ,o obcecado General Ross, pai da namorada do herói, Betty.No meio do caminho, um dos soldados de Ross exagera nas vitaminas e acaba se transformando no Abominável, um monstrengo maior e mais assutador que o próprio Hulk. E é a isso que esse filme se presta, a mostrar a briga dos dois gigantes. De resto, só um vazio barulhento.
Quem é esse exército que o persegue? O que ele representa? Nada. Quanto do drama de um pai que quer prender e destruir a todo custo o grande amor da vida de sua filha é aproveitado? Apesar da dimensão humana (pais e mães castradores, que buscam frustrar a vida pessoal de seus filhos a fim de mantê-los sempre dependentes e próximos são comuns) , absolutamente nada. E que uso o diretor Louis Letterier faz do drama do homem que tem de viver longe de todos os que ama por que põem em risco a vida deles por se transformar num mostro? Nenhum. E olha que levar isso para a vida real é bem fácil, basta buscar uma identificação com pessoas com certos tipos bem comuns de comportamentos anti-sociais e transtornos (obesssivos-compulsivos, neuróticos, esquizofrênicos) que os faz, nalguns momentos, “monstruosos” aos olhos de parentes e amigos.
Para ficar em outro exemplo da própria Marvel, Homem de Ferro é um filme cheio de ação mas que, logo em seu início enfia o dedo na ferida da política externa americana, mostrando que quem lucra com as guerras em países distantes como Iraque e Afeganistão são os milionários, fabricantes e vendedores de armas que se divertem com uísques caríssimo e belas modelos enquanto jovens são mortos nas trincheiras. Tony Stark, o herói, é um deles. Um filme de super-heróis não precisa ser vazio.
O Divã
O Hulk, um gigante descontrolado que surge quando o Dr. Banner fica irritado é, no fim das contas, um caso clínico, uma derivação simplificada do “Mr. Hyde” de “O Médico e o Monstro”, novela que Robert Louis Stevenson escreveu em 1866 (há até mesmo os dois Drs. como alter-egos dos monstros) . Mas se surgiu simplificada não quer dizer que tenha de permanecer assim para sempre.
Vale transcrever uma fala do Dr.Jeckyll, sobre sua transformação ( tradução é de Mario Fondelli): “Ao primeiro sopro desta nova vida, senti de ser malvado,vendido como um escravo à minha primitiva crueldade”. Já Vieri Razzini, no prefácio à edição da Newton Compton (1996) diz : “O ‘mal puro’que Hyde encarna emana da sua própria pessoa(...)Hyde personifica,e reflete nos outros,a maldade interior,sem que seu corpo mostre qualquer deformação”. A deformidade do corpo é cortesia de gravuras subseqüentes que ficaram no imaginário popular gerando versões de desenhos animados (Pernalonga e Pica Pau, entre tantos outros), filmes (A Liga Extraordinária e Van Helsing por exemplo) e o próprio Hulk.
Outra diferença fundamental entre os dois está na origem dos monstros: como de praxe nos quadrinhos de super-heróis, Dr.Banner“recebe” seus poderes de Hulk, que, no entanto, lhe são quase uma maldição, tamanhos os transtornos que lhe causam, através de uma experiência malsucedida, um acidente.Ele é uma vítima, portanto.
Já Dr.Jeckill fazia de tudo para “esconder meus prazeres...com um senso de vergonha quase mórbido” e por isso toma a poção para conseguir uma espécie de libertação da moral repressora de seu tempo.
Uma versão em quadrinhos feita para o selo Ultimate da Marvel (histórias paralelas à cronologia oficial da editora) é bastante ousada e interessante. Banner, um cientista com todo tipo de frustração, cria o “soro do Hulk” com a justificativa de ajudar o Capitão América, mas que na verdade busca dar a ele força superior e outra personalidade que lhe possibilitem a fuga de suas fragilidades (faz isso logo após levar um fora de Betty Ross). Se Hyde era uma reação violenta à repressão, este Hulk é uma busca desesperada de uma pessoa frágil por ser super (como seus colegas de equipe), exatamente a exigência que a sociedade faz a todos nós (falei a este respeito no texto sobre Nelson Rodrigues). O Hulk aqui é uma clara analogia para as drogas (ou à posse de uma arma!).
Com todas estas possibilidades, o filme de Louis Letterier preferiu ser um mero passatempo barulhento. Fazer o quê?

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As imagens (clique para ampliar)que reproduzi são da revista Marvel Millenium-Homem Aranha, publicada pela Panini em abril de 2003(com desenhos do espetacular Bryan Hitch) e republicada posteriormente em volume encadernado . O Hulk, nesta versão “Ultimate”(que no Brasil recebeu o nome de Millenium) é cinza, com era, aliás, nas primeiras histórias da década de 60, que podem ser conferidas no encadernado de luxo Enciclopédia Marvel- Hulk da mesma Panini . Problemas técnicos nas gráficas fizeram com que acabasse sendo impresso verde.
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"O Médico e o Monstro" , como Crime e Castigo, de Dostoiévski, é daqueles livrosque antecederam a psicanálise na compreensão de que existem motivações obscuras por detrás dos atos humanos e que, sobre elas, a razão tem pouco domínio .

terça-feira, 14 de outubro de 2008

COMO SERÃO OS FUTUROS SUPERVILÕES ?


Não tenho acompanhado quadrinhos de super heróis já há algum tempo, no entanto sei (pela revista Wizmania, da Panini) que a nova estratégia da Marvel Comics para atrair leitores é a de dizer que muitos de seus heróis são, já há muito tempo, Skrulls disfarçados e que os heróis verdadeiros estão desaparecidos ou raptados. Ninguém até agora sabe quem, entre os superpoderosos é humano ou um Skrull. Para quem não está entendendo nada, explico : os Skrulls não são nada mais do que uma raça de alienígenas transmorfos malvados. E alienígenas malvados, todos sabemos muito bem, são a metáfora perfeita que os norte-americanos encontraram para todos aqueles que eles temem, ou seja, os estrangeiros. A tal da ameaça externa, gente bárbara e gananciosa que querem destruir a terra da oportunidade e da democracia. Há inúmeros exemplos, principalmente no cinema dos anos 1950, auge da Guerra Fria que fazia dos aliens uma versão fantasiosa dos soviéticos.

Pois bem, agora os vilões não são mais meros invasores(como eram os klingons de Star Trek), são transmorfos, ou seja, aqueles que se fazem passar um de nós, como foram os terroristas do 11 de setembro. O clima de delação e desconfiança estimulado por Geroge W.Bush levou os norte-amerianos a demonizarem tanto quanto possível os imigrantes. O reflexo está aí, nos quadrinhos .

Interesante é imaginar de que forma a nova crise , desta vez financeira, irá afetar o imaginário dos americanos (e, em consequência, os quadrinhos e o cinema). É uma rise de confiança também afinal tudo iniciou com a concessão livre e desenpedida de crédito, mas desta vez ela recai sobre os próprios norte-americanos, afinal foram eles mesmos quem contraíram dívidas e não conseguiram pagar, gerando a bola de neve que arrastou bancos centenários para o buraco e, na esteira, o resto do mundo.
Aí fica a pergunta : Que forma terão os futuros vilões, quando tudo isso for assimilado pelos artistas? Como fazer de seu próprio povo um monstro, da mesma maneira que eles tão facilmente sempre fizeram com o resto do mundo?
Acho que os próximos apítulos serão os mais interessantes.


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A imagem foi extraída da wikipédia e é a capa de Fantastioc Four 2, de janeiro de 1962, desenhada por Jack Kirby, onde os Skrulls aparecem pela primeira vez. Essa história foi republicada pela Panini na série enadernada de luxo Encilopédia Marvel - Quarteto Fantástico.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Para quem assistiu ou pretende assistir Ensaio sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles é praticamente obrigatório dar um pulo neste link:

http://www.revistacinetica.com.br/blindnessdebate.htm
A Revista Cinética reuniu nada menos do que 9 textos curtos escritos por seus redatores, cada um com uma opinião bem particular (e muitas vezes divergente das dos outros) sobre o filme.

BATMAN EM LIVROS DE ARTE? - UMA BELA DOR DE CABEÇA (parte2)


Para completar devidamente a postagem anterior, é preciso dizer que também existem livros da Taschen dedicados a cineastas como Antonioni, Kubrick e Truffaut e que também é possível analisar a construção das cenas estáticas no cinema, como se fossem pinturas. Este, aliás, foi o tema do curso “Afinidades Eletivas: Cinema e Pintura” ministrado pelos Profs.Dr.s Marcelo Augusto e Vera Bungarten entre os dias 03 e 13 de abril deste ano. Dito isto, é preciso ressaltar que se no caso dos quadrinhos a ligação com a pintura é ainda mais íntima (exatamente por causa dos desenhos) ,reproduzir uma página inteira de uma HQ equivale a reproduzir não uma única cena de um filme, mas toda uma sequência.
Desta maneira os limites ficam bastante embaralhados. De qualquer modo Neil Adams é um artista gráfico soberbo, que sabe dominar como poucos toda a expressividade dos traços sintéticos e do uso do nanquim. Em minha opinião, não pode haver violência maior do que colorizar seus desenhos.

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Para não ficar no “achismo”e lidar de maneira imprecisa com os termos, vale dizer que , segundo o Dicionário Teórico e Crítico de Cinema de Jaques Aumont e Michel Marie (Papirus Editora) seqüência é “um momento facilmente isolável da história contada por um filme:um sequenciamento de acontecimentos,em vários planos,cujo conjunto é fortemente unitário”que também “pode ser contida em um único plano(o que se chama,justamente,de um plano sequência)”.

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Faltou dizer também que as imagens foram extraídas da revista Batman - Almanaque Classic que a Opera Graphica lançou em 2001, acertadamente em preto e branco.

LINHA DE PASSE - O VERDADEIRO JOGO DA VIDA

Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, tem uma virtude rara: não é preconceituoso. Sabemos bem que cinema é feito para uma elite que pode pagar R$ 15,00 para ver um filme. E, quase sempre quem escreve e dirige (para a TV, inclusive)pertence a um grupo ainda mais restrito, ou seja, de conta bancária beeem gorda. Então o que vemos com uma freqüência assustadora na representação audiovisual é a repetição das mesmas idéias pré concebidas. Repare num comercial de TV que se passa dentro de um ônibus e você verá que ninguém ali se parece realmente usuários de transporte público. Esse pessoal quase sempre retrata a si mesmo e, quando não o faz, nos mostra o que eles acham dos Outros, os “pobres”(o que quer que eles entendam por isso).
Linha de Passe é, então, uma exceção. Lá os protestantes não são nem desonestos nem fanáticos idiotas, como não são também os torcedores que vão a estádios de futebol (numa bela sequência,logo no início, vemos que a fé os une), o futebol não é um mundo mágico de encanto, mas sim o lugar onde se faz todo tipo de falcatruas, de forjar identidade falsa à vender vaga na equipe. Os tais “pobres” (qualquer pessoa que não more em áreas nobres de São Paulo ou na zona sul carioca) não são criaturas disfuncionais, grotescas (como na maioria dos filmes) nem ingênuos bondosos e quase cômicos(como em 100% das telenovelas).
E o ônibus não é um lugar onde criaturas esquecidas por Deus sofrem o pão que o diabo amassou de cada dia,mas uma metáfora de liberdade, movimento , que a grande idéia por trás do filme, “seguir em frente”. Bem diferente, vale notar do keep walking da propaganda de Whisky ou do caminhar dos vitoriosos economicamente da propaganda da Nextel. Em linha de passe o que temos é muito mais próximo do conselho tradicional em horas difíceis: bola pra frente.

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Linha de Passe, paradoxalmente, fica completamente fora do alcance das pessoas nele retratadas. Se o públio que pode pagar R$16,00 num ingresso de cinema de shopping Center, que dirá daquele que pode se deslocar à avenida paulista para ver o filme?
Mesmo com Sandra Corvelloni tendo recebido prêmio de melhor atriz em Cannes.

A VIDA NÃO É TÃO SIMPLES NO MUNDO DOS SOPRANOS


A partir de hoje às 21h o Warner Channel passa a exibir o seriado Família Soprano, cujas seis temporadas já passaram na HBO e estão disponíveis em DVD. Serão dois episódio seguidos, diariamente até o dia 10 quando a emissora passa a exibir a série aos domingos, também às 21h.
Família Soprano, quase todo mundo já sabe, foi, junto de Sex and the City, a responsável pela existência das chamadas “séries adultas”, que não economizam em violência, sexo e palavrões e trata da vida de Tony Soprano (James Gandolfini), um chefe mafioso que sofre de síndrome do pânico e tem de se confrontar com sua insuspeita fragilidade indo a uma psicanalista.
Mas é muito,muito mais do que isso. Família Soprano tem tramas e personagens complexos como raramente (estou sendo otimista) se vê no cinema, principalmente se o filme for produzido em Hollywood. Por tramas e personagens complexos entenda-se “incompletos”, que não se fecham em si mesmos, ou seja, nada lá é tão simples. Tony é um chefão violento, mas ao mesmo tempo (em não em contraposição) um pai amoroso, marido dedicado, mas também infiel. Por vezes arrepende-se de suas traições amorosas e das mortes que causa, por vezes não. E não nos é dito o tempo todo o porquê das coisas. Não veremos também, como seria o caso de um filme medíocre de gângster (e eles existem às pencas), uma oposição entre a família (mulher e filhos) e a famiglia mafiosa. Tudo se mescla, chega praticamente à unicidade. E é assim com todos os personagens, que podem ser a um só tempo justos e decentes , egoístas e mesquinhos. Não somos todos assim?
As tramas também fogem para bem longe da obviedade, ou seja, se algo de ruim acontecer com Dra.Melfi (Lorraine Bracco), não espere por ela pedir socorro a Tony, que, assim, agiria como agente vingador de nossos sentimentos de espectador, aquele que lava nossa alma e que nos faz exclamar “é isso aí”, heroificando-o através da catarse. A vida não é assim. E não espere também que, ao longo dos 86 episódios você vai conhecer os personagens tão bem a ponto de antecipar cada atitude deles. ninguém conhee uma pessoa tão a fundo assim.
É essa indefinição das coisas e pessoas, essa complexidade, que faz desta uma das melhores séries de TV já exibidas.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

BATMAN EM LIVROS DE ARTE? - UMA BELA DOR DE CABEÇA



Na sua coluna no site omelete
(http://www.omelete.com.br/conteudo_colunas.aspxid=100014953&secao=colunas) Érico Borgo , ao resenhar a HQ encadernada Batman por Neil Adams -vol.1, lançada este mês pela Panini fez duas afirmações bastante interessantes. A primeira foi :
“Na série, Adams começou a experimentar os limites da arte seqüencial. Aos poucos, foi deixando de lado o engessamento dos quadros e passou a explorar o dinamismo que o meio tornava possível”
Incontestável. Dá para ver isso na primeira figura, onde há um claro “desrespeito”para com os quadros e o próprio espaço entre eles passa a compor a cena, que ganha assim enorme expressividade.
A outra afirmação faz referência à uma das mais conceituadas editoras de livros de arte, a Taschen:
“Não fossem tais personagens propriedade da DC, creio que veríamos coleções da elegante Taschen dedicadas a criadores como Neal Adams”.

Analisar a questão é complexo, envolve um mergulho em teorias da arte, terreno em que existe pouquíssima unanimidade. Seria preciso estabelecer um critério para o que é arte e assim dizer se seu desenhos, desvinculados das histórias, teriam valor de “grande arte”(taí outro conceito espinhoso) a fim de figurar ao lado de catálogos de pintores como Michelangelo ou Matisse. Uma aproximação mais obvia e tentadora seria com a Pop Art. E,já que falamos da Taschen, vamos a ela, mais propriamente ao livro Pop Art, deTilman Osterworld:
“A trama estereotipada opõe uma retenção impessoal de criatividade. É assim que se manifesta claramente a contradição entre a emoção pessoal e a emoção anônima”.
Osterworld fala sobre toda a Pop, mas mais especificamente sobre Roy Lichteinstein, que reconstruía imagens extraída de histórias em quadrinhos em suas gravuras. O essencial na Pop é a impessoalidade (um conceito que nasce com Marcel Duchamp) expressa nas figuras da sociedade de massas, os quadrinhos, a publicidade e por aí vai. Não seria então sob o rótulo de Pop Art que os desenhos de Neil Adams, figurariam (fosse o caso) num livro da Taschen.
Isto tudo pode parecer bobagem, mas o caso é que os quadrinhos, entendidos Omo ate, precisam ser encarados não só como desenho, mas também como narrativa. Entendê-los só como desenho seria o equivalente a ver atributos artísticos no cinema somente através da figura estática (o fotograma), uma imagem pausada. No livro “A Estética do Filme”(Ed.Papirus), Michel Marrie fala que “a fim de provar que o cinema era de fato uma arte, era preciso dotá-lo de uma linguagem específica, diferente da linguagem da literatura e do teatro” a fim de mostrar todo o problema que envolve reconhecer uma “linguagem” ou uma “gramática” do cinema, que é um dos caminhos para reconhecer seu atributo artístico.
Portanto, se levarmos em conta só os desenhos de Neil Adams, teríamos de abandonar todo ritério para o qual os quadrinhos são reconhecidos (com boa dose de má vontade) Omo a Nona Arte.
Bom, tudo isso para retornar à pergunta: o trabalho de Adams cabe num livro da Taschen ou, é Arte por si só, livre da estética dos quadrinhos?
Não vou me aventurar a responder agora (antes, estudarei melhor o tema), mas se a editora lançasse um livro destes eu o compraria com certeza. A força da segunda figura fala por si só.

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“Existe, todavia, uma maneira radical de superar a heterogeneidade da linguagem crítica e da linguagem objeto de análise(o filme).Consiste na utilização do próprio filme como suporte de análise do cinema:o cinema didático não tem qualquer dificuldade em citar extratos de outros filmes,basta-lhe reproduzi-los,como faz uma análise crítica que cita um texto literário” – diz Marrie no livro já citado. Trazendo a coisa para os quadrinhos, dois autores fizeram o equivalente, ou seja, discorrer sobre a linguagem das HQs , seus limites e possibilidades utilizando o próprio meio,ou seja, uma HQ. Um deles é Scott McCloud, no livro Desvendando os Qudrinhos (M. Books). O outro é o brasileiro Jozz em O Circo de Luca(Devir), premiado como artista revelação no último HQMix.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

CACHORRO,NÃO !

O documentário Waldick- Sempre no Meu Coração, dirigido por Patrícia Pillar (e de que já falei neste blog)passa hoje às 22h no Canal Brasil.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

BELEZA E SIMPLICIDADE EM "MESA PARA DOIS"


Uma garota é contratada por Milo, um escritor com bloqueio criativo que quer alguém para conversar ( vale notar que ele na verdade é o Lourenço Mutarelli, para quem o álbum é dedicado). Em paralelo, vemos que ela trabalha num restaurante onde conhece um garoto de cabelos bagunçados. Ele, nas horas vagas é músico, mas não um rocker estiloso, mas um trompetista de uma orquestra que toca em bailes onde a maioria dos freqüentadores são idosos.
Eles pegam lotação juntos e às vezes conversam. Ele gosta dela, ela não sabe.
Foi sem pretensão ou grandiloqüência que os gêmeos paulistas Fábio Moon e Gabriel Bá , vencedores em três categorias do Eisner Awards (o Oscar dos quadrinhos) deste ano, conseguiram com este "Mesa para Dois"(Devir) algo raro (até mesmo no cinema, principalmente o brasileiro) : construir uma história simples (apenas na forma) mas encantadora sobre a incompletude de todos nós ,a dificuldade que temos em nos comunicar e sobre a importância das pequenas coincidências em nossas vidas.
O senhor Milo diz que a gente não enxerga as coisas que estão bem debaixo do nosso nariz”, diz a garota. Verdade.

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dedicado especialmente ao casal Mário e Leila (e à Sophia também !)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

O QUE FAZ VOCÊ FELIZ? - continuação

Só como complemento ao "o que faz você feliz", vale dizer que na chamada para o programa Dr. 90210(ignoro o nome que ele tem na tv aberta), reality show sobre a vida de um cirugião plástico exibido pela RedeTv! domingo passado a apresentadora anunciava que iriram mostrar "como a operação plásica pode melhorar a vida profissional de alguém".
Também em outdoors pode se ver o anúncio de uma marca de calçados infantis cujo slogan é "a sandália que faz o meu mundo mais colorido".
Em comum a ambos a noção de que uma transformação externa leva a alguma forma de melhora na vida ( o "colorido"). Isso, calro, vaoi na contramão de toda psicanálise, para quem os desonfortos tem,na realidade, origem intena. Não é nem a posse de um bem, ou a conquista de um "grande amor", ou o "banho de loja" que elimina as angústias (usando os termos om toda liberdade a que um não psicológo pode ter).

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

NELSON RODRIGUES E O LEMA " O QUE FAZ VOCÊ FELIZ?"

O conto O Pastelzinho, de Nelson Rodrigues, que pode ser lido no livro “A Coroa de Orquídeas e outros contos de A Vida como ela É” (Companhia das Letras) é um dos cinco encenados pela Cia Paulista de Artes na peça As Noivas de Nelson, que tem direção e adaptação de Marco Antônio Braz. Segue um trecho:

Muito carioca, estabanado, Sérgio mudava diante da noiva assim doce e assim macia. Sem querer, ele a tratava com relativa e involuntária cerimônia. O chamado “beijo bem molhado”era a máxima liberdade formal que se permitia. Mas, na véspera do casamento, ela o chamou de lado.No seu jeito manso, começou:
- Vou lhe pedir um favor, meu filho.
Abriu-se:
- Pois não!
E ela:
- Eu não queria que você falasse mais em “beijo molhado”. Acho tão sem poesia!
Pela primeira vez, Sérgio quis resistir:
- Mas,meu bem,escuta cá- por quê?
Explicou:
- É o seguinte: - quando você fala assim eu penso logo em saliva.
O outro animou-se:
-Mas é por isso mesmo!A graça do beijo está, justamente, na saliva meu anjo.-E insistia, já inspirado:-Na mistura de saliva.
Dalva encerrou a discussão com sua doçura irredutível:
- Eu não penso assim.
Sérgio transigiu, imediatamente:
- Está bem, coração. Todo meu interesse é de te agradar
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Acerca dos personagens de Nelson Rodrigues, Ruy Castro diz na apresentação do livro “O Melhor do Romance, Contos e Crônicas” (Companhia das Letras/Folha de São Paulo) que eles são “homens de bem, senhoras honestas e virgens de catorze anos, roídos por fantasias inconfessáveis”.
É interessante notar o quanto isso mudou, o quanto a sexualidade reprimida dos tempos de Nelson (e que levava seus personagens a situações constrangedoras e de desespero) hoje é escancarada. Basta dizer que qualquer celebridade de quinta categoria hoje faz um filme pornográfico e vai a programas de TV divulgar seu “trabalho”. Isso não pode ser explicado apenas pelo que se chamaria de “evolução dos costumes”, mas sim por uma cultura que privilegia o prazer e a felicidade do indivíduo acima de tudo. A evolução ocorreu sim e uma peça como Beijo no Asfalto, em tempos de Parada Gay, soa até estranha. E se um dia já foi considerada valorosa e “decente” a mulher que permanecia virgem até o momento do casamento, hoje ela é motivo de, no mínimo, estranheza. Mas há mais do que apenas a evolução da sexualidade rumo a uma maior liberdade.
Hoje a obrigação é ser feliz, e o que conta mesmo é o Indivíduo, e não há porque se colocar entraves à satisfação de nossos desejos (sexuais, de consumo ou de outra ordem). Daí muito daquilo que antes era moralidade ser hoje tabu, (por exemplo, a virgindade).
A publicidade o tempo todo nos mostra imagens de pessoas felizes (O que faz você feliz? -nos pergunta um anúncio da rede Pão de Açúcar) e que assumem uma postura vitoriosa diante da vida. Ficamos assim numa obrigação de sermos “vencedores” e “felizes” (passando por cima de tudo quanto de abstração há nestas palavras). Se não nos encaramos nem como vitoriosos nem como felizes (e se todo sofrimento é inaceitável, toda dor, um defeito) temos sempre à mão nossas soluções mágicas, que já não são mais os patuás benzidos ou as fitinhas trazidas de alguma romaria, mas sim produtos de uma sociedade que mesmo quando é religiosa, se mostra “científica” e, quando se diz “científica”, é quase mística.
Temos desde as pílulas do amor e as da felicidade a inúmeros livros de auto-ajuda que nos “ensinam” a obter “sucesso” e ter uma vida “vitoriosa”, curiosamente as mesmas promessas feitas por tele-evangelistas, padres cantores e todo um sem número de crenças religiosas, que, ao contrário do que vemos nas peças de Nelson, buscam não mais recalcar, mas exacerbar. Se, por um lado, seus problemas podem ser resolvidos engolindo alguma pílula, eles também podem desaparecer apenas assumindo a atitude “correta” (seja ela o “pensamento positivo” dos livros ou a afirmação da fé, ou mesmo algum tipo de doação)
A transformação da aparência é apenas outra face da solução mágica. Não é de surpreender a busca desesperada pela operação plástica ou a crença (literalmente) no poder de um banho de loja. Acredita-se, do mesmo modo, que mudando o “visual” muda-se a personalidade – os livros de auto-ajuda falam em “mudança de atitude”; o “banho de loja” que muda para melhor a vida de uma pessoa é comum em filmes, principalmente as comédias românticas e é apresentado como o primeiro passo para a superação dos obstáculos apresentados ao protagonista( a conquista do grande amor , o sucesso no emprego, etc). Essa crença na personalidade “ideal” conseguida através da construção da identidade (maquiagem da aparência) está no cerne da existência, por exemplo, dos sites de relacionamento e boa parte da comunicação via internet. É no universo virtual que se transforma naquilo que se gostaria de ser e assim se apresenta aos outros.
O que a idéia de soluções mágicas traz consigo é que tudo está ao seu alcance (o que faz você feliz?) , basta assumir a atitude correta. Portanto o “fracasso” ou a frustração gera toda uma nova gama de males, como síndrome do pânico, consumismo, ninfomania e depressão (vale notar que Freud se referia apenas à melancolia).
É o mal-estar da pós-modenidade.

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não há nada de especificamente psicanalítico na idéia de depressão. Na verdade,pode-se afirmar que a depressão,na forma como a concebemos hoje, é produto tanto da influência sutil da indústria farmacêutica no modo como encaramos nossa vida emoional quanto da medicina psicológica. Os fabricantes de antidepressivos fazem questão de que a aflição seja entendida como depressão para criar a necessidade dos seus produtos” diz Jeremy Holmes no pocket book “Depressão” (Ediouro/Duetto).

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Que as drogas tenham se tornado uma epidemia não surpreende. Elas são a maneira mais rápida e fácil de se obter prazer e esquecer frustrações.

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Não passa nem perto das intenções desse texto dizer que a obra de Nelson Rodrigues está ultrapassada. As figuras de filhos dependentes, mães castradoras, sogras dominadoras e toda sorte de tipos urbanos estão vivíssimos. E o repórter justiceiro e oportunista de Beijo no Asfalto só trocou os periódicos sensacionalistas pela TV.

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A peça As Noivas de Nelson está em cartaz no Teatro Arthur Azevedo (av.Paes de Barros,955-Mooca) até o dia 28 deste mês que é também quando sai de cartaz Senhora dos Afogados, dirigida pelo gigante Antunes Filho, que está no Sesc Consolação (r.Dr.Vila Nova,245- região central).

PAPO DE BALCÃO

- Um grande abraço para o superamigo Zidane, cuja identidade secreta é o jornalista do Diário de São Paulo, Fábio Saraiva !

- Reproduzo aqui o recado do Nicolau Soares, jornalista do site Futepoca (futebol,política e chachaça). Já visitei e recomendo. Ao recado : O Futepoca (www.futepoca.com.br) está com a promoção Praga do Zé que vai premiar com três exemplares do Prontuário 666 (ed. Conrad) as melhores pragas de futebol. Vale texto, vídeo, charge, desenho, repente, cordel etc. contra time de futebol, jogador, técnico, cartola... É só ver no blog como participar. Aguardamos as contribuições!

- Um abraço também para a e para o retorno do Daniel Lupi !

- E finalmente ao Anderson (Dj Mandio) que mesmo sem poder postar comentários, continua visitando este Bar1211 !

NELSON RODRIGUES EM HQ- O GRANDE DILEMA

Na hora de se fazer uma adaptação de Nelson Rodrigues, uma HQ sai em larga desvantagem em relação ao cinema e o teatro. Nestes, os diálogos perfeitos de Nelson podem ser reproduzidos com pouca ou nenhuma alteração. Já numa história em quadrinhos eles têm obrigatoriamente de ser mutilados e espremidos para caberem dentro dos balões, o que é uma agressão e tanto à obra do dramaturgo. Agrava ainda o fato das palavras disputarem a atenção do leitor com a força da imagem . Sendo assim, talvez (o grifo aqui é importante) uma adaptação ideal de Nelson devesse ter os diálogos deslocados do quadro onde estão inseridos os desenhos, ou, como na obras de Will Eisner, os desenhos ficariam melhor soltos na página, livres dos quadros, com mais espaço para o texto. Mas essa versão de Beijo no Asfalto graphic novel da dupla Arnaldo Branco e Gabriel Góes publicada pela Via Lettera tem seus triunfos: o desenhos “relaxado”, ajuda a compor a caráter dos personagens. Arandir, que está na desconfortável posição de ser acusado por um jornalista de homossexualismo (que é tratado como um crime- voltamos aqui ao post anterior) tem o corpo pequeno em proporção à enorme cabeça, que o fragiliza. O delegado boçal e violento por vezes tem o rosto deformado em relação aos desenhos anteriores, o que mostra bem sua mutação perigosa de personalidade. Isso sem falar nos violentos jogos de preto e branco das imagens, que têm tudo a ver com essa história onde se opõem obscurantismo retrógrado e ingenuidade,certo e errado, inocência e culpa acusadores e acusados, discurso proferido e os desejos inconfessáveis.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

PAPO DE BALCÃO – DE VOLTA AO BATENTE

Depois de fechar uma semana para balanço, este Bar1211 reabre as portas. Sem enrolação, vamos aos abraços e agradecimentos (aliás, isto aqui está muito bem freqüentado!) a quem apareceu aqui pela primeira vez:
Ao magro de alma gorda, André di Peroli ator e idealizador da peça Hoje Acordei Gorda, que aliás deve reestrear em breve. Avisaremos assim que isso acontecer.
Stella Florence, autora do livro que inspirou a peça, por ter visitado este Bar1211.
Jô Barranova, contista e poeta que milita pela democratização da cultura em Santo André com afinco invejável. Pouca gente têm a propriedade que ela tem quando diz que “No subsolo. É assim mesmo que as coisas acontecem nesta cidade.”
E, Maria Batatais, garanto que as letrinhas chatas na hora dos comentários não vão mais dar o ar da graça.

O MISTÉRIO DO SAMBA – POR ONDE ANDAM OS SAMBISTAS?

O Mistério do Samba, de Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda é um filme imperdível por mais de um motivo; não só por ser belíssimo, mas também por seu caráter documental, de raridade mesmo.
A memória do brasileiro, diz a sabedoria popular, é curta. E é para corrigir este problema, que este documentário serve.
Artistas brilhantes e esquecidos existem em qualquer gênero musical de qualquer país. Muita gente boa, por um motivo ou por outro acabou jogada para escanteio ou recebendo um reconhecimento tardio. Pode-se dizer isso de Ike Turner, que pouca gente sabe, foi autor de “Rocket 88”, primeira composição de rock and roll, mas que ficou famoso pela violenta convivência com a ex-mulher, Tina. King Keppard, maior músico de Jazz de seu tempo, que poderia ter se tornado o primeiro artista do gênero a ser gravado (o que não o fez por medo de que outros músicos aprendessem a tocar como ele após ouvirem o disco). Aqui, entre tantos outros exemplos, poderíamos citar Johny Alf, precursor (e transcendente, nas palavras de Ed Motta) da bossa nova que acabou ofuscado pelo gênero que poderia tê-lo consagrado. Pode acontecer até com quase todos os grandes nomes de um gênero musical. Foi assim com um a soul music, que “morreu” ao surgirem seus desdobramentos, o funk e a disco, até renascer nas gargantas de Joss Stone, Amy Winehouse e Duffy. O ocaso destes músicos, compositores e cantores é mostrado no filme “Only The Strong Survive”, de que já falamos aqui neste blog (no post sobre Isaac Hayes).
No entanto, quando isso acontece com todo um gênero musical vivo e pulsante, podemos dizer que os motivos são outros e bem mais mesquinhos.
Não foi só a ganância das gravadoras multinacionais que afastou boa parte dos sambistas do grande público, mas há um sistemático isolamento das velhas-guardas que acontece dentro das próprias Escolas de Samba, que em certo momento passaram a privilegiar o espetáculo em detrimento das composições. Disso padeceu Jamelão, que morreu tendo sua carreira como cantor de sambas-canção e grande intérprete de Lupicínio Rodrigues quase completamente esquecida.
O grande público hoje ignora, não um ou outro, mas quase todos os grandes nomes do samba. E, infelizmente, iniciativas como esta O Mistério do Samba são raras. Para uma comparação, vale ver quantos documentários sobre jazz estão disponíveis nas lojas de DVDs. De alguns oportunistas, como “Lois Armstrong – um retrato íntimo do pai do Jazz” (que erra já no título, ao atribuir uma paternidade que não é dele) de John Akomfra, até o magnífico “Jazz”, de Ken Burns com mais de 12 horas de duração, há uma oferta enorme. Tivemos, é verdade, Cartola – Música para os olhos, Paulinho da Viola- Meu tempo é hoje e a ficção Noel, o poeta da Vila . É pouco. A TV, os jornais e as revistas também só raramente se lembram do samba, muito menos de seus ídolos.
Agora, sobre o filme propriamente: acompanhamos durante os pouco mais de 70 minutos de duração, a cantora Marisa Monte, (por vezes acompanhada por Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho) na busca por canções nunca gravadas de grandes compositores da Portela. Nessa jornada, que durou aproximadamente dez anos e gerou, além deste documentário, três álbuns, nos deparamos com entrevistas históricas como as primeiras de Argemiro Patrocínio e Seu Jair do Cavaquinho. Históricas porque, por iniciativa deste projeto, eles gravaram seus primeiros discos somente em 2002, respectivamente, com 80 e 79 anos (ambos morreram durante a produção do filme, Argemiro em 2003 e Seu Jair três anos depois).
É absolutamente encantador de se ver (e ouvir) como o samba é vivo, como continua passando de geração a geração e como pulsa nas comunidades, mesmo que distante da mídia.
Das muitas histórias deliciosas, veremos Seu Jair contar que saiu de casa às broncas da esposa, que se irritava com o fato dele ir para o samba, onde estaria rodeado de mulheres. Ao retornar, percebeu que estava trancado para o lado de fora. Só com muita conversa é que conseguiu entrar em casa, onde, na maior cara de pau, apresentou à companheira o samba “Voltei”, criado durante a noitada:

Voltei, voltei
Já chegou quem lhe socorre
Já lhe avisei
Que por falta de amor
Você não morre
Voltei pra matar os desejos seus
Pra não me esquecer a quem não me esqueceu
Lhe adoro tanto criatura
E o nosso amor ainda não morreu


Já Argemiro Patrocínio canta “Solidão”, de versos rascantes como: “É dor, angústia e sofrimento/ O tédio é um eterno tormento/Assim é a solidão” para logo em seguida, sobre o mesmo tema disparar que “pelo menos pra isso a mulher serve, pra brigar. Tem vezes que isso faz falta”.
Com se tudo isso não bastasse, vale ainda dizer que será literalmente impossível segurar os aplausos após as apresentações musicais (feitas em botequins e barracões), como se elas estivessem acontecendo ali mesmo no cinema.
É bom corrigir, O Mistério do Samba não é só imperdível, é obrigatório.

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Podemos ouvir samba tradicional aqui no ABC com o projeto Samba de Terreiro de Mauá, que inclusive já trouxe para uma homenagem, outro compositor esquecido, o octagenário Xangô da Mangueira. É um trabalho de resgate não só de sambas antigos, (semelhante ao que faz o Berço do Samba de São Mateus), mas também de uma tradição, a de tocar numa roda em volta de uma mesa, emendado um samba com o outro e, por vezes, contando histórias entre eles. Em cada apresentação há também exposição de capas de discos históricos e raros, livros, pinturas outras coisas ligadas ao universo do samba. Neste sábado (dia 13) eles estarão no Bar SET, avenida Padre Anchieta 230 em Santo André, por volta das 21 h.
Quem quiser conhecer um pouco mais pode visitar: http://www.terreirodemaua.blogspot.com/

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No caso da memória da nossa cultura musical, as majors (grandes gravadoras multinacionais) fizeram de tudo para encurtá-la ainda mais. Jogaram carreiras num buraco tão profundo que acabaram tragadas, elas também, para dentro dele. Num dado momento, trataram de fazer duas coisas: investir em modismos, com criação (promoção) de artistas em linha de produção (foi assim com o sertanejo, depois com o axé e o pagode), sempre copiando ao de maior sucesso no gênero. Para isso, viciaram as rádios a só tocarem músicas mediante o famigerado jabá (valor pago pela gravadora por música executada ou incluída nas “mais pedidas do dia”. E trataram também de desmontar a cultura do álbum musical, ao investir na venda de coletâneas com as “melhores”músicas de cada artista e nos “Ao Vivo”. Não havia a necessidade de se investir na gravação de um novo disco e o lucro, conseqüentemente, era bem maior. Com interesse concentrado num único gênero musical por temporada e fazendo o possível para despersonaliza-lo ao máximo (desagradando ao menor número possível de pessoas) gente muito boa foi sendo esquecida, as grandes composições foram rareando e o gosto popular, se degradando. Chegou a pirataria dos CDs e o MP3 e as gravadoras, sem nomes consistentes, sem a cultura do disco físico (que valorizava não só a música, ma a capa e o encarte) que eles trataram de destruir , desmoronaram. Com elas, foram suas lacaias, as rádios FM, que agora estão nas mãos de outras empresas (Mitsubishi Motors, Oi, Sul América).

EU NÃO FUI CACHORRO NÃO! – O ÚLTIMO UIVO DE WALDICK


Waldick Soriano, morto na última quinta-feira é figura central do livro Eu Não Sou Cachorro Não(Editora Record) de Paulo César de Araújo (o mesmo da biografia censurada de Roberto Carlos). Nele o autor mostra o preconceito da imprensa que ignorou o fato de que os “cafonas” foram tão perseguidos e censurados pelo regime militar quando os “inteligentes” (aspas enormes) da MPB. Mas também o de gente ligada à música, como Nelson Motta, que em seu livro de memórias “Noites Tropicais” “esquece”. (aspas maiores ainda) que escreveu a música “Drama Passional” em 1976 para Odair José.
Mas o mais interessante é que ele desmonta o conceito de “cafona”.Para ele, as definições tradicionais (grandiloquecia, sentimentalismo exagerado e artificial) também se aplicam perfeitamente a músicas consagradas como, por exemplo, Rosa, de Pixinguinha que tem versos “Waldickianos” como tu és a forma ideal, estátua magistral, oh ! alma divinal. No entanto, só se chama de “cafona”ou “brega”a musicas de artistas de apelo abertamente popular. Paulo César separa a música brasileira em duas tendências: a tradição que engloba toda música feita até 1945 e a modernidade ou tudo o que veio depois de 1950. A produção musical entre estes períodos seria tachada de “baixo nível artístico”. Assim, à toda a geração de cantores e cantoras do rádio (Nora Ney, Cauby e Ângela Maria inclusos) seria legado o limbo. E todos aqueles não identificados com as duas vertentes (como as canções aboleradas) seriam “cafonas”. Sofreu com isso também Nelson Gonçalves, que teria várias vezes negado o direito à gravação de sua voz e depoimentos no MIS (Museu da Imagem e do Som).
Já nosso man in black de beira de estrada, nosso Johnny Cash de coração mole, Waldick ainda poderá ser visto mais uma vez quando (se) estrear em circuito do documentário “Waldick, sempre no meu coração” feito ano passado pela atriz Patrícia Pillar e que foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo deste ano em duas apresentações.

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A opção é sempre por entrevistar artistas articulados, bem vestidos e com livre trânsito em festas badaladas, bairros nobres e casas de empresários colunáveis. Os motivos vão desde o eficiente trabalho das assessorias de imprensa destes artistas, que tratam de “plantá-los” em colunas sociais e eventos cheios de jornalistas bem como ao extrato social preconceituoso de onde vem os jornalistas das editorias de cultura (sem generalizações, claro), que têm uma noção bem particular de “bom gosto” e acham que um Seu Jorge ou uma Ana Carolina têm muito mais a dizer do que tinha, por exemplo, Argemiro Patrocínio. “O Mistério do Samba” e “Eu não sou cachorro Não” provam bem o contrário.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

MORREU O CRIADOR DA MIRZA

A notícia que era ruim ficou pior, morreu Eugênio Colonese. Ele está enterrrado no cemitério da saudade na Vila Assunção em Santo André. A prefeitura do município, sempre cheia de boas intenções, nunca lhe rendeu uma homenagem maior do que a exposição de seus desenhos no subsolo da biblioteca municipal.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

PAPO DE BALCÃO: ABRAÇOS E RECADOS DO BALCONISTA

Abraços : justiça feita às mulheres
O primeiro(e duplo) vai para a mamãe da Sophia (que está chegaaando) adorável Leila, que nem precisa ficar mais P da vida com este humilde balconista !
E um enorme para os braços, pernas, voz e coração deste blog: minha querida Olga Defavari !!!

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O comentário do amigão Anderson foi muito interessante: Zé do Caixão passando num cinema de Mauá. Talvez a maior barreira foi superada, aquela que faz com que a maioria dos filmes brasileiros(até mesmo alguns da GloboFilmes) fiquem ou restrito aos cinemas da avenida Paulista ou consigam no máximo duas semanas em cartaz em cinemas de shopping.
Aliás, como os links da semana passada foram mal colocados, vai aí novamente os endereços para quem quer conhecer melhor o projeto Vira5Acaba10 : http://www.myspace.com/vira5acaba10http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=42191922http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=42191922
E quem quiser saber o que o site BaresSp achou do dom deles no PuriMuziK dê um pulo em:
http://www.baressp.com.br/fotos/fotos.asp?b=9019

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Altamente recomendado o programa semanal Quadrinhos – A Nona Arte, do canal Brasil (passou ontem 21h) que conta a história das HQs por aqui. Entre os entrevistados (o pesquisador Álvaro de Moya, o ilustrador Patati) está o grande mestre Waldomiro Vergueiro, que já visitou este blog. Na próxima terça-feira, o tema será os quadrinhos de terror e quem assistir verá um pouco mais da Mirza, de que tratamos em nosso primeiríssimo post. Reprise hoje às 15h30 e sábado 12h.

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Infelizmente Eugênio Colonnese, criador e desenhista da Mirza, sofreu um AVC recentemente. Está incapacitado não só de desenhar como de dar aulas de desenho. Com pouco tempo de contribuição ao INSS e sem ainda ter conseguido qualquer befício, sua situação é bastante difícil.

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Saiu um box com três filmes da Blaxploitation (que comentamos no post sobre Isaac Hayes), Rififi no Harlem (1970), O Chefão do Gueto(1973) e Sweet Sweetbacks Bacadassss Song´s (1971) – os nomes são sensacionais!. A nota vale pela curiosidade, uma vez que a distribuidora é a Magnus Opus, o que significa preço alto (cerca de R$ 120,00 a caixa) que nunca entra em promoção.

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Cientistas divulgaram esta semana um estudo que prova que o Homem de Neandertal não era um “parente burro” do Homo Sapiens, era apenas fisicamente diferente. Seu desenvolvimento tecnológico, ficou provado, era equivalente ao de nossa espécie. As razões para sua extinção (que antes era m atribuídas á incapacidade de construir ferramentas eficientes), portanto, permanecem um mistério. Isso vem ao encontro das idéias expressas lá no início deste blog, acerca da ingenuidade das idéias “evolucionistas” que infestam nossa cultura pop.

FAT IS BEATIFUL ! – PEÇA “HOJE ACORDEI GORDA” É UM SAUDÁVEL CONTRAPONTO ÀS NEUROSES DE NOSSA SOCIEDADE



Nossa sociedade é de uma hipocrisia assustadora: inúmeras inovações tecnológicas (a escada rolante e o controle remoto) nos prometem conforto, mas terminam por reduzir drasticamente nossa atividade física total no final do dia. Nos acelera o ritmo de vida e, em nome da conveniência nos oferece o fast-food entupido de gorduras literalmente venenosas (as trans) que, aliás, só com pesada pressão da opinião pública foram ou diminuídas ou informadas ao consumidor de sua existência. E por fast-food entenda-se não só a comida de shopping, mas também aquela coxinha ou pastel que substituem a refeição na correria do dia-a-dia.
A publicidade exclui o gordo de anúncios onde se ofereçam lanches, refrigerantes e cervejas. Neste mundo irreal, todos são não só magros, como atléticos.
O único retrato sem maquiagens dessa realidade cínica e cruel acabou vindo de uma ficção, a maravilhosa animação Wall-E, (ainda em cartaz e na qual deteremos com mais profundidade numa próxima oportunidade). Lá vemos um anúncio de tv de uma empresa, BnL(prováveis siglas para Buy and Live – compre e viva, corrupção da máxima cartesiana do “penso, logo existo”) que promete disponibilizar todo tipo de conforto (espécie de “tudo ao seu alcance”) em um misto de shopping center e condomínio de luxo no espaço. Alguns séculos depois, é mostrada a aterradora realidade: os seres humanos são como animais obesos de laboratórios que mal podem se mover sem a ajuda de cadeiras flutuantes. O corpo, gigantesco, é desproporcional aos membros atrofiados. Desnudada a publicidade, vemos a realidade de todos nós.
Que o ideal de beleza seja hoje a magreza, não é de se surpreender, uma vez que é preciso sobretudo tempo para se manter, ou magro ou tornar-se atlético. Gordura já foi sinal de beleza quando a população era composta por uma maioria absoluta de famintos. Das “Três Graças” de Rubens, no séc17 às várias “Banhistas” de Renoir dois séculos depois, as pinturas nos mostram exatamente isso. Comer bem (muito) já foi um privilégio e fazer exercício físico, um indicativo de trabalho braçal, portanto,de pobreza. Era preciso tempo de sobra para poder engordar.
Engordamos com facilidade, mas não só não admitimos isso como odiamos essa realidade. É no cinema e na TV que declaramos isso. Ao gordo é reservado quase sempre papéis cômicos (o tipo atrapalhado simpático), bizarros (normalmente um porcalhão ou um tipo esquisito) e, às vezes, vilanescos. Se é para ser um herói, que o seja um do tipo atrapalhado, que atinge seu objetivo mais por uma conjunção de fatores (tudo conspira a seu favor), como, por exemplo, num filme do tipo de Kung-Fofo. No limite, temos a horrenda versão de Eddie Murphy para “Professor Aloprado” (cujo original, de Jerry Lewis, será tema de um texto em breve), onde uma família gorda (todos interpretados pelo próprio Murphy) senta-se à mesa como verdadeiros animais, chafurdando a comida, arrotando, peidando, cutucando o nariz e se divertindo muito com isso. Ser gordo é ser nojento, grosseiro e imbecil, nos diz o filme.
“Hoje Acordei Gorda” é um monólogo musical engraçadíssimo baseado no livro de mesmo nome escrito por Stella Florence, adaptado pela dramaturga Adélia Nicolete e cujos vários personagens são interpretados por André di Perolli sob a direção de Daniele Pimenta.
A peça é, em mais de um sentido, uma experiência singular. Primeiro por que trata da questão da obesidade sem julgamentos de valor, sem uma mensagem edificante-mala (do tipo ‘vamos nos aceitar como somos’) e o, melhor, sem ridicularizar as pessoas gordas. Está tudo lá, da crítica à sociedade que oferece gorduras e depois produtos emagrecedores à neurose da dieta. Mas o que de mais interessante ela oferece é nos aproximar da vida dos gordinhos com humor (mas não com escárnio), e mostrá-los não através de abstrações ridículas (com os exemplos já citados), mas como pessoas que todos conhecemos.
Veremos lá a Mama Italiana com suas comidas tão deliciosas quanto gordurosas, a mulher que, aos tantos anos de casamento, ouve do marido um “tu tá gorda” e se vinga preparando para ele comidas irresistíveis (e extremamente calóricas), ou ainda a garota que, após levar um fora, entra numa dieta severa a fim de aparecer “gostosa” e com ar de superioridade na frente do ex. Feito isso, comemora matando uma lata de leite condensado no bico. Há ainda várias outras personagens, todas muito engraçadas, mas o destaque acaba ficando com as músicas.Só este trecho já dá uma boa idéia:
Croissant, fondant, bombom/Petit four, fricassé, filé mignon/ Baguete, croquete, pardon!/ Engordar em francês é “très” bom!
Para completar o “combo”, há ainda divertidas citações a Psicose, Iluminado e Star Wars.Vale dizer que os gordinhos pagam meia-entrada, concedida após pesagem numa hilária balança em frente à bilheteria. Quem quiser assistir terá de queimar algumas calorias e correr, pois ela fica em cartaz só até o próximo final de semana (sábado e domingo, às 20h) no Teatro Elis Regina (R. João Firmino, nº 900) em São Bernardo do Campo. A entrada inteira custa R$ 20,00. Informações pelo telefone: 4351-3479

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Quem quer que tenha visto filme, novela ou programa humorístico onde haja um gordo fazendo papel ridículo, estará ajudando muito este blog se disser qual foi.
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Pelo que ouvi dizer,a animação Kung-Fu Panda não compartilha destes estereótipos manjados. Estou certo? Alguém assistiu?

OS DOIS LADOS DA QUESTÃO – A PALESTINA VISTA PELO CINEMA E PELA HQ


Primeiro de tudo, alguns dados históricos:
- 1850 aC – é o ano que alguns pesquisadores estimam que os fatos atribuídos ao patriarca Abraão tenham ocorrido.
- 70 – Tito toma Jerusalém e destrói o Templo, expulsando os sacerdotes e autoridades judias. Ob domínio romano, passa a ser Aelia Capitolina e a Judéia , a Palestina.
- Desde 638, quando o sultão Omar tomou Jerusalém do Império Bizantino, os árabes estão instalados na região da Palestina (que inclui a cidade santa). Entre 1099 e 1187 Jerusalém fica sob domínio dos cruzados, até que Saladino a devolva aos muçulmanos.
- 1917 é o ano em que cai o Império Otomano e os Ingleses tomam toda a região.
- Em 1947 havia resolução da ONU aprovando a criação de um Estado Árabe e um Estado Judeu na região da Palestina.
- Em 14 de maio de 1948 foi instituído o Estado de Israel como forma de compensação pelos horrorres nazistas ao povo judeu. O movimento sionista, marcadamente anti-árabe, teve preponderância no processo. Logo em seguida, inicia-se o primeiro conflito entre árabes e judeus.
- Na Gerra dos Seis Dias, conflito em 1967 contra a frente árabe(Egito Jordânia e Síria) Israel (armado pelos EUA) antecipa-se à guerra e ataca primeiro ficando com territórios que esses países haviam conquistado m 1948 ( incluindo a Cisjordânia ). Incicia-se a colonização judia das áreas ocupadas.

Tudo isso serviu para duas coisas, mostrar o quão complexa é a questão palestina e o quanto qualquer recuo na História (com vistas a justificar a “razão’de um ou do outro lado) não só não resolve nada como pode tocar o terreno da mitologia.
Dito isso, fica mais fácil dizer o quanto o noticiário é falho, quando não burro, na hora de tocar a questão. Tanto na mídia impressa, com sua sanha de dizer tudo ocupando cada vez menos espaço e tomando menos tempo do leitor, quanto na televisiva com a superficialidade que lhe é peculiar, o que temos é meramente a notícia (homem bomba explode e mata sei-lá quantos). E a parcialidade é tamanha que só sabemos dos atos de violência dos terroristas palestinos, quase nunca dos do exército israelense muito menos há a comparação de dados dessa violência (o número de mortes causados pelo exército israelense contra o número de mortes causadas por terroristas ) não é exposto tampouco nos é mostrado toda a violência e arbitrariedade destes.
Sendo-nos inútil o jornalismo, vejamos o que a Arte nos oferece:
Palestina (Conrad), escrita e desenhada por Joe Sacco é uma HQ em duas partes (“Uma Nação Ocupada” e “Na Faixa de Gaza”) fruto do período entre 1991 e 1992 em que o artista-jornalista esteve na região. Foi na forma de uma história em quadrinhos que Sacco encontrou o meio ideal para fazer seu documentário que percorre ruas, entra em casas e mostra de muito perto toda a violência e sofrimento causados pelo exército israelense, o que incluía desde prisões arbitrárias e tortura de “suspeitos” a ações repressoras como impedir os palestinos de cavarem poços, o que engessa boa parte de sua economia,como o plantio de tomates(convenientemente eliminando a concorrência). Também nos é mostrada a ação das milícias que atacam casas de palestinos a esmo.
O grande triunfo do formato dos quadrinhos é que ele não trata com a imagem fotográfica (como o cinema) que clama para si o estatuto de “verdade”. Uma pintura é só a visão de um artista sobre um fato (sabemos bem do falseamento da realidade em O Grito do Ipiranga, de Pedro Américo), mas um filme não, afinal as imagens são captadas mecanicamente. O filme parece incontestável, o que é um problema maior ainda quando se trata de um documentário (Eduardo Coutinho é um dos que encaram o desafio de provar a subjetividade do meio). A HQ não nos obriga a ter fé nela mesma, pelo contrário, exige descrença. E Sacco não crê nem por um instante na objetividade; não nos esconde o fato de que sua presença altera os rumos (e o conteúdo) das conversas com os entrevistados, desconfia deles e de suas convicções. Seu traço irônico e escrachado, herdado do estilo da revista MAD, por contraditório que possa parecer, nos dá todo o peso da existência sofrida dessas pessoas, ao captar suas feições, sua individualidade.
Lemon Tree, filme de Eran Riklis que está em cartaz nos cinemas da Paulista e arredores, foi significativamente filmado nos dois lados (palestino e israelense) para nos contar a história real da viúva Salma Zidane que se opõe ao Ministro da Defesa israelense quando este decide derrubar suas oliveiras com a justificativa de que elas podem servir de esconderijo a terroristas que pretendam atacar sua casa (eles são vizinhos separados por uma enorme cerca metálica e torres de guardas). É uma metáfora perfeita (involuntária, dado que é história real) da situação de pessoas que moram no mesmo território mas não conseguem superar o muro que as divide. O filme se chama Lemon Tree pelo fato do diretor ter optado por trocar as oliveiras (cujo significado emotivo para os palestinos podemos ver no primeiro volume da HQ de Sacco) por pés de limão, talvez pelo fato de os frutos renderem suco refrescante (vemos o tempo todo pessoas bebendo limonada), tão vital num local árido como aquele. E sendo a água fonte da vida, sua necessidade nos faz todos iguais. É uma opção pela poesia, o que faz deste um filme universal, não fechado no contexto da Palestina, muito embora vejamos vez por outra as arbitrariedades israelenses. “Lemon Tree” fala a todos nós desta universalidade trataremos semana que vem.

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A situação mudou muito desde que Sacco escreveu Palestina. Ele mesmo avisa isso no prefácio, que é de 1995: “Os habitantes de Gaza têm agora algum grau de liberdade pessoal. Por exemplo, eles não encontram mais patrulhas israelenses nas suas vizinhanças nem são submetidos ao toque de recolher noturno(...)mas o panorama atual de Gaza está longe do ideal”. De lá para cá houve a retirada dos assentamentos judeus nos territórios ocupados e, anteontem, Israel libertou sem contrapartida 198 prisioneiros palestinos. No entanto três coisas não mudam: as negociações de paz são cheias de indas e vindas, ainda não foi criado um Estado Palestino e ainda muito pouco sabemos do dia-a-dia dessas pessoas.

domingo, 24 de agosto de 2008

DUAS ÓTIMAS CRÍTICAS DE "ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO"

Este não é um blog de crítica, mas sim de reflexão a partir de filmes, HQs, peças, etc. Quem quiser ler textos excelentes sobre Encarnação do Demônio deve visitar as revistas eletrônicas Paisá e Cinética. Abaixo, alguns trechos. Primeiro, do amigo Francis Vogner dos Reis, na Cinética, depois de Filipe Furtado, na Paisá. Ambos, vale lembrar, são professores do curso "Panorama do Cinema Japonês" citado no post anterior:

"Se as cenas de torturas e sangue, por exemplo, escapam ao fetichismo (que é a sensação da série Jogos Mortais), é porque elas não são concebidas como uma câmara de tortura para um espectador voyeur e sádico, mas como um delírio, um pesadelo. O próprio personagem/diretor seria um maestro de cenas extremas, que impressionam mais pela plasticidade e agressão, do que pela mera e simples crueldade. Cenas como a mulher saindo da barriga do porco e a cena de sexo inundada por sangue, ou mesmo o purgatório com Zé Celso Martinez, aproximam mais o diretor da parceria Luis Buñuel e Salvador Dali do que desses recentes filmes de horror de tortura, porque o horror vem pela via das imagens absurdas (e até do sarcástico), não da mera representação da dor e da psicose" disponível em : http://www.revistacinetica.com.br/encarnacaododemonio.htm

"Tudo no filme gira em torno do ícone. A começar por um Zé do Caixão muito mais sedutor, capaz de trazer consigo um séqüito de admiradores e de encontrar belas mulheres mais do que dispostas a carregar seu filho. Não deixa de ser uma bela metáfora para a carreira do próprio Mojica: o Zé do Caixão de Encarnação é pop, mas é ainda mais marginal". Disponível em:
http://www.revistapaisa.com.br/agosto08/encarnacao.htm

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

PAPO DE BALCÃO: AGRADECIMENTOS, ABRAÇOS E SUGESTÕES DO BALCONISTA

*Primeiro, os abraços:
Ao Mário César, historiador, grande amigo (de longa data) e, de quebra, pai da Sophia (que na barriga da mamãe Leila já adora ouvir Roberto Carlos). Um texto sobre as tiras do Calvin está no forno.
Ao grande camarada Anderson, também conhecido como Dj Mandio. Para quem quiser conferir o set list do rapaz (que num pulo vai de Tim Maia a Funkadelic, passando por indie rock, eletrônico e hip hop old school) ele está quinzenalmente no Puri Muzik, na Rua Augusta 2052, no projeto Vira5Acaba10 e numa porção de outros locais. A agenda do fera está em:
http://www.myspace.com/vira5acaba10

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=42191922

A querida Letícia Macedo, jornalista francófona a quem devo um pastel de bacalhau do Mercadão. Quem quiser conferir uma de suas matérias feitas para a editoria de Turismo do IG é só dar um pulo em : http://turismo.ig.com.br/julho/noticias/2008/07/29/europa_em_dezembro_1476247.html

Ideal para quem pretende passar uns dias na Europa.
Ao Daniel Lupi, colega das aulas do Inácio Araújo.
Dois abraços muito especiais pelos e-mails elogiosos e por terem me honrado visitado o blog:
ao Prof.Dr. Waldomiro Vergueiro, presidente do Núcleo de Pesquisas em Histórias em Quadrinhos da USP e referência nacional e internacional no estudo das HQs.
E o jornalista e escritor premiado Luiz Ruffato (autor de Eles Eram Muitos Cavalos,entre outros), de cujas aulas de criação literária eu tive a felicidade de participar.

*Quem se interessa em conhecer mais sobre cinema e cultura japonesa não pode perder o curso Panorama do Cinema Japonês ministrado pelo jornalista, professor e crítico das revistas eletrônicas Cinética e Paisà, Francis dos Reis, que também costuma dar as caras neste boteco. Junto dele, outros bambas da nova geração de críticos, Sérgio Alpendre e Felipe Furtado apresentarão desde os clássicos de Ozu, Mizoguchi e Kurosawa até os contemporâneos, como Takashi Miike. Curso recomendado por ninguém menos que o mestre Inácio Araújo. As aulas serão dadas todas as quintas-feiras de 04 de setembro a 20 de novembro, a partir das 19 h Informações pelo telefone 3825-8141 ou pelo e-mail cursos@revistapaisa.com.br .

*Bobeada feia: faltou dizer, sobre a HQ Prontuário 666, o básico; que ela é uma prequel ao filme Encarnação do Demônio, ou seja, conta fatos que teriam acontecido durante o período em que o Zé do Caixão esteve preso. Foi mal (sem trocadilho).

BOSSA NA OCA- UMA NOVA (VELHA) FORMA DE SENTIR O TEMPO E OUVIR MÚSICA

Em tempos de excesso de informação e imagens e escassez de tempo, quando se busca fazer tudo ao mesmo tempo (ver tv, falar ao celular, navegar na internet- o iphone chega ainda este ano !) visitar a exposição Bossa na Oca parece ser um ato da mais absoluta transgressão. Viver o “menos é mais” do som criado por João Gilberto no final dos anos cinquenta e que foi emblema das modernizações dos tempos JK é ir na contramão da vida contemporânea;é preciso, sobretudo, “perder tempo” percorrendo os três andares da exposição, gastá-lo deitado em confortáveis estofados espalhados pelo chão vendo documentários, ou recostado num sofá ouvindo Tom Jobim e assistindo imagens que são projetadas no teto e nos mostram praias desertas, ondas que se chocam com as rochas, e mar, muito mar.
É preciso esquecer de tudo para melhor “sentir”a música, seja tocando a areia da praia, seja contemplando o calçadão de Ipanema (reconstruído especialmente para a exposição).
Contra as neuroses dos zapping e da conhecida sensação de que “o tempo passa cada vez mais rápido”, um convite à lentidão, contra o excesso de informações, o silêncio absoluto da câmara anecóica (sem eco).
A exposição fica até o dia 07 de setembro na Oca, Parque do Ibirapuera. O horário de funcionamento é das 10 às 21h e o ingresso inteiro custa R$ 20,00, e às terças é grátis. Informações pelo telefone: 4003-2050

ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO: MOJICA TRANSGRIDE TODAS AS CONVENÇÕES EM SEU NOVO FILME


O Brasil mudou muito desde que Zé do Caixão fez suas últimas vítimas em Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967). Enquanto o coveiro tinhoso penou 3 décadas trancado na Casa de Detenção (e mais uma num manicômio), o diretor José Mojica Marins viu tudo aquilo que sustentava seu personagem praticamente desaparecer.
Viu as antes abundantes salas de cinema de rua, que fizeram a glória de artistas populares como ele e Mazaroppi, desaparecerem para ressurgirem na forma de multiplexes, cobrando ingressos caros e trancadas em shoppings centers que cobram até pelo estacionamento. Se o cinema virou uma diversão elitista, o terror deixou de ser uma abstração, de ser uma idéia metaforizada na forma de monstros de cinema e chegou à porta de todos, ricos ou pobres, na forma da violência urbana. Aliás, o próprio país passou a ser predominantemente urbano, tornando os matutos que ele assombrava nos filmes anteriores, mera recordação.
Mudou também a religiosidade; a carolice católica das cidades pequenas, contra a qual Zé se batiacomendo carne de cordeiro na sexta feira santa, deu lugar ao tele-evangelismo e a um tipo de culto produto da sociedade do espetáculo, que se manifesta seja na forma dos “Shows da Fé” protestantes ou na das Showmissas carismáticas, onde se enfatiza a busca pelo felicidade, o sucesso e a realização pessoal.
Para piorar, aparentemente não havia mais nada que transgredir, afinal a transgressão virou norma; sexo , violência e bizarrices são trivialidades, atrações de todo dia nos Superpops da vida. Algo que seria impensável nos anos sessenta: a ausência de polêmica em torno da foto da revista Playboy na qual a atriz global Carol Castro aparece nua, usando como adereço apenas um crucifixo.
No âmbito econômico o Brasil deixou para trás o papel secundário de nação “terceiromundista” para adentrar o mundo globalizado como destaque entre os emergentes e assumir papel de destaque no mercado internacional. Até a dívida externa, que a crença popular dizia vir “desde os tempos de Don Pedro”, desapareceu e o Brasil passou de devedor a credor.
O país mudou mas Zé Mojica/Zé do Caixão não ficou indiferente a essas mudanças.
No filme, Zé do Caixão sai da prisão e vai para uma favela onde se depara com o terror nosso de cada dia (aquele que recheia os telejornais) e fica assustado.Vê policiais assassinando crianças e apavorando a população. Vê essa mesma população acomodada com a bandidagem. Vê a miséria que, ao contrário da dívida externa, não só não desapareceu como persiste sendo nossa maior vergonha.
Já Zé Mojica enfrentou outro desafio: conseguir filmar. Cinema é feito hoje basicamente com dinheiro oriundo de empresas que abatem este valor de impostos devidos ao governo. Quem decide qual filme vai receber a verba é normalmente um executivo da área de marketing, alguém que não necessariamente (na verdade quase nunca) entende de cinema. Sendo assim, têm muito mais possibilidade de viabilização os filmes mais alinhados ao que este pessoal entende por “bom gosto” ou que agreguem “prestígio” a suas empresas. Na hora de escolher entre um filme da Xuxa (ou qualquer um da GloboFilmes) e um terror de Zé do Caixão, por exemplo, a escolha (para eles) parecia óbvia e Mojica seguia sem filmar.
No entanto, contra todas os prognósticos, tudo o que parecia impossível aconteceu. O filme não só saiu como é transgressor até o osso. Mojica desrespeita todas as convenções (há personagens incoerentes, que são violentos mas também paspalhos e engraçados, colagens de clichês) e despeja violência na medida certa para afrontar o último bastião, o do bom gosto (do público, dos exibidores, dos financiadores). E por fim, tem a loucura visual: que poderia ser mais transgressor do que o embate Zé Celso- Zé do Caixão, sob um céu cor-de-laranja, entre pessoas que comem vísceras e o olhar impávido de uma morte pálida, anoréxica e fashion? Ainda somos violentos, egoístas e desiguais é o que nos diz as loucuras deste novo filme de Zé do Caixão. Apesar de todas as mudanças, o Brasil ainda é um horror!

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O destaque do Brasil no mercado internacional tende a aumentar, principalmente com a crescente demanda por biocombustíveis e alimentos. No entanto, a despeito do destaque no cenário internacional, continuamos relegando a segundo plano os investimentos em educação (quase todos tem acesso a escolas, mas de péssima qualidade), artes (ainda privilégio de uma elite) e esporte (basta ver o pífio desempenho de nossos atletas em Pequim). Isso para não falar no vergonhoso sistema carcerário.
O Brasil entrou de fato na nova ordem mundial, só sua população é que ainda não. A este respeito, vale assistir o documentário “Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá”, dirigido por Sílvio Tendler (2007).

O ADEUS A ISAAC HAYES

Ganhou pouquíssimo destaque em nossa imprensa a morte de Isaac Hayes, ocorrida no último dia 8. Para muita gente ele será lembrado pela dublagem do personagem Chef, da animação South Park . Para outros, ele foi o precursor dos cantores de vozeirão sexy como Barry White e Teddy Pendergrass e autor de pérolas eróticas e dançantes do final dos anos 1970 como “Moonlight Loving (Ménage A Trois)” de 1977 e Love Hás Been Good To Us, esta um clássico da Disco de 1979. Mas ele bem foi mais do que isso.
Isaac Hayes, em parceria com David Porter, foi o mais prolixo compositor da emblemática Stax, gravadora que, junto da Atlantic e da Motown, era a ponta de lança da música negra norte americana dos anos 1960. Foram mais de 200 composições (incluindo o hino do gênero, “Soul Man”) até que ele resolvesse se lançar como cantor, em 1971, com “Never Can Say Goodbye”, música de Clifton Davis que, naquele mesmo anos estourava com o fenômeno Jacksons Five. Mesmo assim a música (em tom erótico-melancólico, bem diferente da animação do grupo de Michael) alcançou 5º lugar na parada de R&B (de música negra). No mesmo ano ele dá seu maior passo e compõem o primeiro álbum conceitual da música negra, a trilha sonora para o filme “Shaft”. Shaft, o disco, foi o primeiro da música negra a utilizar orquestra sinfônica a ser produzido pelo próprio cantor e a usar e abusar da complexidade, portanto abriu caminho para maravilhas como Whats Going On, de Marvin Gaye (1972) e Superfly, de Curtis Mayfield (1973). “Shaft”, o filme deu largada à chamada Blaxploitation, filmes feitos por e para negros, que eram também maioria no elenco. A trilha sonora era encomendada, quase sempre, a grandes nomes da soul music. Foi assim com o já citado “Superfly” e com “Trouble Man” (1972), trilha de Marvin Gaye, entre outros.
Se a Soul Music foi peça chave na construção do orgulho dos negros norte-americanos, a Blaxploitation foi sua decorrência direta.
Quem quiser ver o impacto de sua presença, tem a sua disposição em DVD os documentários “WhattStax”, dirigido por Mel Stuart em 1972 e que mostra o evento para 100 mil espectadores, o Woodtscock da black music, onde Hayes é atração principal, e “Only The Strong Survive”, espécie de Buena Vista Social Club da soul music, dirigido por Chris Hegedus e D. A Pennebaker em 2003 em que captura o destino de várias estrelas do soul nos anos 2000. Hayes esteve no meu do gigantesco turbilhão cultural norte-americano e ajudou a movê-lo.Toda homenagem é pouco.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Hoje às 15h10 passa Mutum no Cine Vila Lobos 1 (Av. das Nações Unidas, 4777). Vale notar como o caminho naturalista que o filme tomou com o uso de não-atores (e conseqüentemente a fala improvisada, quase “real”) é o oposto da literatura de Guimarães Rosa. Observação sem julgamento de valores, vale dizer.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

REENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO! Zé do caixão retorna aos quadrinhos em álbum de luxo


Zé do Caixão está de volta, não só nos cinemas, com o filme Encarnação do Demônio, como também nos quadrinhos, no álbum Prontuário 666 lançado este mês pela Conrad. Em ambos os casos o retorno não tem nada de saudosista nem faz nenhuma tentativa tola de “atualizar” o personagem. Por enquanto ficamos só com a HQ.
O ilustrador Samuel Casal (conhecido por seu trabalho na Folha de São Paulo) que dividiu o roteiro com Adriana Brunstein foi uma escolha duplamente acertada pois livrou a HQ não só da armadilha de ser “realista” (retratar fielmente Mojica e a Casa de Detenção) como da de imitar o traço incomparável de Nico Rosso, desenhista que ilustrou várias histórias em quadrinho do Zé do Caixão no final dos anos 1970.
O traço expressionista de Samuel é perfeito para criar um ar irreal, claustrofóbico e perturbador que traduz em desenhos toda aura de maldade que envolve Zé do Caixão. Corpos dilacerados, sangue e vísceras desenhadas realísticamente não teriam hoje metade do impacto que tiveram nos tempos de Rosso. Os filmes de terror conhecidos como torture porn (como Jogos Mortais e O Albergue) levaram a violência gráfica a um novo patamar, mas mais do que isso, a violência real, via tv ou mesmo em sites de internet (onde qualquer criança consegue ver fotos de tragédias aéreas), fazem com que o desenho tenha de buscar outras saídas caso queira transmitir sentimentos, principalmente medo e repulsa.
Quanto ao texto a história é bem outra.Os diálogos, escritos com uma ingenuidade inacreditável, prejudicam a HQ. Não dá para acreditar que alguém ainda coloque a frase “peguem-no” na boca de um personagem. Cruz-credo!

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

GUIMARÃES ROSA EM TRÊS MOMENTOS: QUADRINHOS, CINEMA E TEATRO



Alfred Hitchcock sabedor que era do problema de se adaptar obras-primas da literatura, quase sempre transformava em filmes livros menores e com eles fez clássicos cinematográficos como Os Pássaros, Psicose e Janela Indiscreta, muitas vezes ignorando boas porções das histórias originais. Em entrevista ao também cineasta François Truffaut publicada no livro Entrevistas –Hitchcock Truffaut (Companhia das Letras) ele diz, a propósito da obra imortal de Dostoievski, Crime e Castigo: “ ... há muitas palavras lá dentro e todas têm uma função(...)para expressar a mesma coisa de modo cinematográfico, seria preciso fazer um filme que substituísse as palavras pela linguagem de câmera,durasse seis ou dez horas, do contrário não seria sério”.
Visto por este ângulo, nada pode ser mais problemático do que a adaptação de uma obra de Guimarães Rosa seja no cinema, no teatro ou nos quadrinhos, afinal o autor não só embaralhou os limites entre os gêneros literários (poesia e prosa), narrativos (conto e romance) como extrapolou os da linguagem. Rosa era um antinaturalista por excelência, alguém que fazia pouco da máxima “a arte imita a vida”. Nunca reproduziu o mundo sertanejo (o que o faria dele mais um autor regionalista como Graciliano Ramos ou Euclides da Cunha) mas transformou-o no mundo, o que deu a sua obra caráter universal, atemporal. Tampouco reproduziu a fala do mineiro, recriou-a; o uso abundante de neologismos (que dão dimensão poética às palavras) é um de seus instrumentos na reconstrução tanto do mundo como da linguagem do sertanejo. É assim com a cidade do “Aõ ” de Noites do Sertão, o “amormeuzinho” ou a “colossalidade” de Sagarana e a célebre “nonada ”que abre Grande Sertão: Veredas.
Abarcar toda a grandiosidade de Rosa é impossível, claro, e cada adaptação tem de escolher um aspecto em que se focar. No caso dos quadrinhos o problema é ainda maior, pelo fato de lidar diretamente com a palavra escrita e ter de encarar a inevitável questão: “manter ou não o texto original? Estórias Geraes (Conrad) não se aventurou a adaptar Guimarães, mas, no melhor estilo Guimaraniano, recriou-o. Uma série de histórias passadas no sertão mineiro e que se ligam umas às outras compõem o álbum escrito por Wellington Sberk e desenhado pelo brilhante Flávio Colin, morto em 2002. Sberk assume outras influências tão diferentes como Ariano Suassuna e Dias Gomes. Mas o espírito de Guimarães Rosa está todo lá no traço brilhante de Colin, que não busca em nenhum momento reproduzir a natureza e sim recria-la com desenhos sem tons de cinza, que chegam a se parecer com xilogravuras. O texto, no entanto, vai por outro caminho, o da mera reprodução da fala popular. Sberk e Colin fizeram um belo trabalho. Falta agora alguém que encare diretamente a “colossalidade” do sertão de Rosa.

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Muito do caráter mítico da literatura de Guimarães Rosa nasce de sua recriação do mundo, que tem o sertão por matéria-prima, não um fim em si, um cenário a ser retratado. Foi o sertão mítico, místico, metafísico que o grupo andreense de teatro amador Transpiração escolheu para privilegiar em sua adaptação de Primeiras Estórias. O texto, como bem prova a série de palestras “O texto no teatro contemporâneo” (que ocorre às quartas-feiras até 3 de setembro no espaço Satyros) é mais um dos recursos cênicos, talvez nem o mais importante. Foi enfatizando o cenário que o Transpiração não só construiu uma peça memorável, como colocou o espectador em contato com a dimensão mística de Rosa. A peça (que já não está mais em cartaz), encenada à noite, levava os espectadores, convidados pelos próprios personagens, a passear por um parque que fazia as vezes de sertão. Em cada local (muitas vezes de acesso um pouco “dificultoso”) se assistia de perto ao drama da Santa Nhinhinha ou ao assustador Famigerado. Já a estreante Sandra Kogut trocou a riqueza das palavras pela das imagens na hora de adaptar Campo Geral. É delas que nasce a poesia do sertão do filme Mutum (2007). Cinema, afinal, é a arte das imagens e por muito tempo quase prescindiu de palavras. Sandra sabiamente evitou a transcrição do texto original (algo que não ocorreu, por exemplo, com o filme Um Copo de Cólera (1999), de Aluízio Abranches, adaptação do livro de Raduan Nassar) e se valeu de muitos não atores, para, como de certa forma fez Sberk, recriar a obra de Guimarães Rosa, sem ter a pretensão de alcançá-lo. Caso contrário, como disse Hitchcock, seria preciso um filme de “seis ou dez horas” e olhe lá.