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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A ARTE CENSURADA PELO MARKETING


Em matéria de Silas Martí, no caderno Ilustrada da Folha de São Paulo de 29/11 , ficamos sabendo que o Centro Cultural Oi Futuro, “bancado” pela empresa de telefonia Oi ,vetou a exposição de fotografias e vídeos da norte-americana Nan Goldin que estava marcada para estrear em janeiro no espaço carioca. Vetou porque considerou de mau gosto e ofensivo o material que continha fotos de adultos fazendo sexo ao lado de crianças ou uso de drogas e nudez. Segundo o comunicado, as obras vão contra os “os programas educacionais” apoiados por eles e que seguem “os preceitos do Estatuto da Criança e do Adolescente”.

O palavrório é só mais uma prova da profunda anemia intelectual dessa gente que detém o dinheiro e que “banca” o que você e eu temos o direito de ver exposto, seja numa galeria, museu, cinema ou teatro. Digo “banca” porque eles não fazem muito mais do que direcionar o dinheiro que deveria ir para os impostos através de leis de incentivo e lucrar muito com isso. Quase nada sai realmente dos bolsos deles. E,no fim das contas, é tudo uma questão de Imagem(Santo Baudrillard, rogai por nós!). Manter um espaço cultural agrega inteligência, vanguarda, modernidade,beleza e outras abstrações que os consumidores associam a arte e que transferem diretamente à imagem da marca. Programas educacionais mostram que eles não estão só interessados em esfolar os clientes mas estão preocupados, veja só, com nosso “futuro”. Sacou? E o mesmo bla bla bla vale para a tal da “sustentabilidade”.

Hoje a coisa é mais ou menos regulada, porque o Estado é quem aprova quais projetos culturais estão aptos a serem s beneficiados pela Lei Rouanet (a que permite a destinação de parcela do Imposto de Renda)e assim financiados pela iniciativa privada que pode escolher entre eles. Como quem decide o que é, ou não,  art,e é um engravatado com gel no cabelo que não entende nada do assunto, mas sim de marketing,  temos essa daltonismo mental que não diferencia uma coisa de outra e que permite, quando lhe convir, largar a arte às traças (com o HSBC fez com o Cine BelasArtes) para ir fazer propaganda com outra coisa qualquer. E dá-lhe todo mundo querendo financiar o Chico Buarque, a Maria Bethania e o Cirque Du Solei, porque,afinal, que não quer sua marca colada à imagem deles.

É uma pena, porque quem viu The Ballad of Love Dependency , de Nan Goudin, na última Bienal sabe que a nudez ali não tem essa conotação pornográfica que os engravatados retrógrados lhe atribuem. Sua obra tem a força de um soco no estômago, mas dado com toda ternura.

Lucidez absurda teve Hemingway quando, no autobiográfico Paris é uma Festa, escreveu a propósito de seus primeiros anos como escritor em contato com os muito ricos:

Quando exclamavam: “está ótimo, heim! Excelente!Você nem calcula a força que ele tem!”, eu me punha a abanar o rabo,de tanta felicidade,e me entregava àquela vida de prazeres,como se fosse apanhar uma vara que tivessem atirado para seu cachorro buscar,em vez de refletir:”Se esses cretinos gostaram do que escrevi,devo ter cometido um erro qualquer”.

***
Existe atualmente uma proposta para mudar a Lei Rouanet e, de uma tacada, tirar o poder de decisão que hoje fica nas mãos da iniciativa privada e corrigir a distorção  absurda que permite a concentração de 80  % dos recursos no eixo  rio-São Paulo. É o ProCultura, projeto de Lei o qual a iniciativa privada,como é de se imaginar, não vê com bons olhos.
A íntegra do projeto,que é de fevereiro de 2010,  está aqui:
http://www.cultura.gov.br/site/2010/02/03/74194/


segunda-feira, 13 de junho de 2011

FILMES " BARROCOS " (Atualizado)

Diz-se que o horror italiano é barroco ou que tal e tal cineasta é barroco. Com toda imprecisão que a definição ganha ao ser tirada de seu contexto original(pintura,escultura e arquitetura- e sobre isso já tratamos aqui neste blog ) pode –se dizer que barroco, no cinema, é um

termo que conota o bizarro,a complicação ou a estranheza, é utilizado para designar uma arte muito ornamentada,extravagante,sofisticada,com preciosismos
(AUMONT,MARIE, pg31).

De todo modo é interessante forçar as fronteiras só para ver o alcance e a limitação do termo.

O filósofo Heinrich Wölfflin, no início do século 20, procurou estabelecer uma metodologia que permitisse estabelecer categorias capazes de caracterizar a arte e,assim, definir os estilos artísticos. Para o alemão existiriam pares de conceitos opostos, um caracterizando a pintura renascentista, outro a barroca. Seriam eles:

Linear em oposição a pinturesco, planar em oposição a recessional , forma aberta sendo o oposto de forma fechada e,por fim, multiplicidade diferindo de unidade.

As pinturas Renascentistas,para Wölfflin, seriam lineares (os contornos das figuras são perfeitamente delineados e elas recebem luz de maneira uniforme),planares(os planos de profundidade são paralelos), fechadas(a composição é equilibrada, com figuras secundárias ou cenário “fechando” o quadro em torno da figura principal) e unidas(essa categoria se refere à maneira como cada elemento parece isolado pela luz, tendo sua cor própria, independente da influência de outros elementos).


ESCOLA DE ATENAS(1509-1511) Rafael, afresco na Stanza della Segnatura,Vaticano.

Uma pintura barroca, em oposição, teria os contornos das figuras obscurecidos pelo jogo de luz e sombra(as pinceladas mais ágeis), as figuras não em planos paralelos, mas numa profundidade dada por linhas diagonais, portanto não contidas dentro do próprio quadro por nenhum elemento e cujas cores se misturam, de uma figura para outra, de uma parte a outra da mesma figura.



Seria ingenuidade tentar transferir um a um os conceitos de Wölfflin para o cinema,mas é interessante notar que,pelo menos, uma das características presentes em “Suspiria” e “Máscara do Demônio” é correspondente : o uso da perspectiva em diagonal.

A “sofisticação” a que se refere Aumont é aquela que já discutimos aqui (ver postagens sobre o "Rococó") e que claramente está presente no cinema de Bava e Argento na forma de elementos de cena que muitas vezes são lançados para o primeiro plano, indo além da construção de cena comum, em que os atores estariam em primeiro plano e o restante seria meramente descritivo (para sabermos que aquilo é uma floresta e que as pessoas envolvidas são monges). Aqui o conjunto ganha em expressividade(não vamos falar em “expressionismo” pra não complicar de vez as coisas) e dramaticidade. Dramaticidade, aliás, conseguida também por meio do violento jogo de luz e sombra “caravagesco”. Mas , é bom sempre repetir, não da par ser sistemático quanto a  isso: são apenas aproximações possíveis.

                                          Rembrandt: A ronda noturna(1642)

Apenas para que o leitor não fique alheio: Como maneira de se definir o barroco, ou mesmo de procurar um meio de explicar o que define um estilo artístico, a análise de Wölflin, apesar de criteriosa e instigante, é considerada ultrapassada porque

permite uma análise sistemática do próprio produto artístico que se limita à sua descrição,compreensão e explicação,sem considerar a expressão de juizos de valor:fornece o método para reconhecer o mecanismo e o código de cada poética, excluindo a interpretação valorativa e intuitiva da obra de arte,inclusive o recurso análise extra textuais,como baseadas em documentos históricos

(CALABRESE,1987,24)

BIBLIOGRAFIA UTILIZADA

AUMONT, Jacques/ MARIE,Michel. Dicionário teórico e crítico de cinema. São Paulo: Papirus,2003.

AUMONT, Jaques. O olho interminável (cinema e pintura).São Paulo: Cosac Naify,2004.

CALABRESE, Omar. A linguagem da arte. São Paulo: Globo,1987.

WOODFORD, Suzan. A arte de ver a arte. São Paulo:  Circulo do Livro, 1983

Sobre Dario Argento , Suspiria e Mario Bava (fontes digitais)


Os esqueletos da imagem: o enigma do espaço em Dario Argento, por Jean-Baptiste Thoret ( Tradução: Luiz Soares Júnior). Disponível em:
http://dicionariosdecinema.blogspot.com/2011/02/o-esqueleto-da-imagem-o-enigma-do.html

Dario Argento- by Xavier Mendik. Revista digital "Senses of Cinema". Disponível em:
http://www.sensesofcinema.com/2003/great-directors/argento/

Kinoeye - new perspective on european films - edição especial Dario Argento. Disponível em:
http://www.kinoeye.org/index_02_11.php

Mario Bava’s Black Sunday aka The Mask of Satan By Christopher J. Jarmick. Disponível em:
http://www.sensesofcinema.com/2003/cteq/black_sunday/

























AUMONT, Jaques. O olho interminável (cinema e pintura).São Paulo: Cosac Naify,2004.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

OUTRA FACE DO CONCRETISMO


Encerraram-se dia 3 deste mês duas excelentes mostras dedicadas à arte  concreta e seus desdobramentos. Uma  era retrospectiva de Judith Lawland,  outra, mais  ampla, composta por diversos artistas desde os anos 50. Mas o concretismo, de influência poderosa na cena artística nacional, pode ser visto novamente,  agora na  Caixa Cultural, pelas mãos de outro artista fantástico, Dionísio DelSanto.

Dionísio é gravador(faz xilo, serigrafia) e coloca em contato com o racionalismo e a lógica da arte concreta a xilo, com toda suas linhas errantes além de um misticismo todo particular.


Caixa Cultural - Conjunto nacional , Av Paulista, 2083.
Visitação até 24 de abril
de terça a sábado das 9 às 21 horas
Domingos e feriados das 10 às 21 horas

terça-feira, 29 de março de 2011

ROCOCÓ-3

Para terminar nossas postagens sobre o rococó incluo aqui um dado complementar:
a construção do palácio de Versalhes (imagens ao lado e abaixo) custou 2 milhões de liras (algo como 1 bilhão de euros hoje, dados do historiador Michel Vergé-Franceschi) e foi, junto de sucessivas guerras , do auxílio à independência dos EUA ,do atraso crônico da indústria têxtil francesa e das más colheitas de grãos,  um dos componentes que faziam o mundo da nobreza marchar para um fim que eles não percebiam e que decretaria a morte definitiva da arte rococó.


Diz Eric Hobsbawn(a tradução é de Maria Tereza L.Teixeira):

As 400 mil pessoas aproximadamente que,entre os 23 milhões de franceses,formavam a nobreza(...)gozavam de consideráveis privilégios, inclusive a isenção de vários impostos(mas não de tantos quanto o clero,mais bem organizado),e o direito de receber tributos feudais”.

Para se ter uma idéia melhor do violentíssimo contraste desse fausto que era a vida da nobreza com a do povo, uma descrição precisa do historiador Alain Frerejean (tradução de Marly N.Peres):
O trabalhador agrícola na França,no século XVII,geralmente morava numa casa de um único cômodo,algumas vezes,aklgumas vezes compartilhada com outra família.No interior,colchões de palha jogados no chão de terra batida(..)De maio a outubro,iam até os domínios dos nobres,do clero (...)para ajudar na colheita(...)Jornadas estafantes,nas quais homens,mulheres e crianças,dobrados sobre si mesmos durante horas e horasse esfalfavam a serrar,cortar,atar e empilhar.

A refeição dos camponeses restringia-se,quase exclusivamente,ao pão,uma mistura de centeio e de trigo,em porções diárias de cerca de 700 gramas,molhada numa sopa de legumes(...)Quase nunca havia carne ou derivados do leite(...)A caça e a pesca eram privilégio do senhor,mas alguns componentes,furtivamente,se arriscavam a abater um coelho ou conseguir um pouco de peixe”.




Obras consultadas

A Era das Revoluções (ed.Paz e Terra), Eric J. Hobsbawn

Revista História Viva ano III- nº25

Revista História Viva Especial temática nº2

sexta-feira, 25 de março de 2011

ROCOCÓ-2


Luis XIV (1701) , Hyacinthe Rigaud


A escolha entre o desenho e a cor foi mas do que uma questão técnica;a decisão em favor da cor subentendia uma posição contrária ao espírito do absolutismo, à autoridade rígida e à arregimentação racional da vida-era também o sinal para um novo sensualismo e culminou em fenômenos como Watteau e Chardin(...)A tendência para o monumental,o cerimonioso e o solene já desaparece nos primeiros tempo do rococó e dá lugar a uma qualidade mais delicada e mais íntima.Na nova arte, a preferência recai sobre a cor e as nuances de expressão em lugar do grande e firme traço objetivo,e a nota da sensualidade e sentimento será ouvida em todas as suas manifestações
                  - Arnold Hauser, "História Social da Arte e da Literatura"  ,ed.Martins Fontes.

A sugestão do autor acima, quem acmpanha os comentários do blog viu que foi do grande amigo e historiador Mario Cesar (o Marioc). A imagem acima eu incluí  a fim de que o leitor possa contrastar aquilo que Hauser identifica como "monumental,cerimonioso"  e "firme traço objetivo" com a arte rococó, da penúltima postagem . Claro que  arte como essa (retrato dos reis) continua a existir com algumas das mesmas características  ao mesmo tempo  em que Watteau e Fragonard produzem suas pinturas delicadas. O interessante é a mudança de sensibilidade, de modo de pintar, de motivos que surgem com o enfraquecimento dessa figura absoluta  que é o Rei- e essa grandiosidade percebemos perfeitammente na pintura de Rigaud. Aliás, justamente essa pintura já esteve aqui no Brasil, em exibição na  Pinacoteca,com outras obras produzidas para os Luises (14,15 e 16) no qual podia-se notar sutis mudanças no modo de se retratar cada  rei para outro, sintoma das mudaças porque passava a monarquia e a arte no período.

PS. A divulgação do cineclube fica para o início da semana que  vem, logo após uma  última postagem sobre a França de Luis XIV. Já adianto que o filme é "Jejum de Amor", de Howard Hawks e a sessão será dia 07 de abril, às 20h.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O ROCOCÓ

Teatralidade e persuasão são as palavras chaves para se entender o período artístico imediatamente anterior a rococó, o barroco e com o qual há mais semelhanças do que diferenças. Era como se as figuras retratadas em suas pinturas (caravaggio, oos  irmãos  Carracci) e esculturas (Bernini)  fossem flagradas no momento mais impactante e comovente de uma cena de teatro . Vale ressaltar que não é o caso aqui de traçar a diferença entre barroco nórdico(protestante) e católico, vamos ficar mais com o último caso.



O Milagre de Sant´Anna,  Bernini


 Giulio Carlo Argan nota que
 “Em ambos os casos(católico e protestante) a religião preocupa-se mais em dirigir as escolhas e os comportamentos humanos do que em contemplar e descrever a lógica providencial do universo

Essa "lógica do universo" era a "alma" da arte dos dois séculos anteriores, o período  do renascimento.

As igrejas católicas barrocas (até por oposição à austeridade protestante) flertavam com o exagero e buscavam mostrar-se como uma antessala do paraíso que permitisse ao devoto um breve contemplar da glória divina. Para isso, o excesso pinturas, imagens, esculturas, colunas e,sobretudo,muito ouro.

                 Biblioteca do mosteiro de Melk

Dos arquitetos desse período, E.H Gombrich diz que
abandonavam todas as limitações(...)Há nuvens por toda a parte com anjos tocando música e gesticulando na bem-aventurança do Paraíso. Alguns pousam no púlpito, tudo parece mover-se e dançar,e a arquitetura que cerca o suntuoso altar parece oscilar ao ritmo dos cânticos jubilosos. Nada era normal ou natural em semelhante igreja,nem pretendia ser” .

A vida das cortes era também marcada pela teatralidade, por um excesso de regras de etiquetas e de conduta próprias de uma classe que não tem grandes obrigações e cujo maior orgulho era o ócio. As pequenas intrigas, os flertes amorosos são seu grande passatempo (a noção de família, amor e ciúmes eram bastante diferentes então a ponto da figura do/a amante ser quase uma instituição).

Quando chegamos à França do Rei Sol, Luís XIV(1638-1715), assistimos à transferência dessa lógica da teatralidade da arquitetura sacra para a das cortes. Ou, o que se chama de arquitetura rococó. Como nota John Summerson há mais semelhanças do que diferenças:

Tenho certeza de que ´retórica´ é a palavra chave. Nesses edifícios, a linguagem clássica é empregada com força e drama para vencer nossa resistência e nos persuadir da da verdade que elas têm a comnicar-seja a glória dos invencíveis exércitos britânicos,seja a magnificência suprema de Luís XIV,ou ainda a abrangência universal da Igreja Romana.”

O palácio de Versalhes, construído entre 1655 e1682 não busca outra coisa senão a ostentação, a criação de um mundo fantástico e artificial habitado pela nobreza. E a moda pega no sul da Alemanha(o norte é protestante) , Áustria e outros países católicos onde casas de campo de nobres ganham  pequenas cascatas,jardins labirínticos trasnformando-se em verdadeiros cenários teatrais, no qual seria vivida com mais  desenvoltura o jogo de aparências dos nobres,  regado a saraus e festas intermináveis. Era o perfeito contraste com as ruas escuras, imundas e violentas das cidades 

No entanto Luís XIV era um rei de tamanha onipresença que basicamente toda pintura de seu período produzida na França era um classicismo grandiloquente voltada quase que unicamente à sua glorificação(ou à de fatso históricos dão reino). A arte,tal como seu governo, era centralizada em sua figura.





                                                                                            Palácio de Versailles
É com sua morte e a  ascensão de Luis XV que as coisas mudam substancialmente tanto para o governo quanto para a pintura. O novo rei comporta-se como um mero mortal, despreza toda  a liturgia do trono que marcava seu antecessor. Jean-Chrsitian Petitfils, diz que
 “o belo relógio da etiqueta-com seus horário imutáveis-acaba desregulado:o cerimonial do despertar e do deitar varia em função das noites passadas com as amantes e do sono ser recuperado. Luis XV prefere refugiar em seus gabinetes,proteger sua vida privada do olhar alheio”.

É exatamente esse desprezo pela teatralidade que o tornará um monarca desprezado, não-sagrado e, de “protetor do rebanho”, a um mero tirano.

Sem o vórtice que era Luis XIV os pintores agora podiam atender aos nobres que queriam,sobretudo, ver seu ideal de vida nas telas. É o que chama-se de pintura rococó.E aqui a cisão é drástica com o barroco. Para José Manuel Pita Andrade era uma arte marcada pela “intimidade, ligeireza,às vezes voluptuosidade”.
São cenas de vida campestre, onde músicos fazem serestas para donzelas enamoradas em cenários irreais. Um elogio ao ócio, à alegria de viver, à beleza dos pequenos prazeres.

Há certamente diferenças marcantes entre nomes como Antoine Watteau(1684-1721) , François Boucher(1703-1770) ou Jean-Honoré Fragonard (1732-1806) e uma breve descrição com a feita aqui pode levar o leitor a pensar que se tratava de uma arte vulgar, menor, o que não é o caso. Para não nos extendermos, o que separa a pintura rococó da arte de um  Renoir  (pra ficar no exemplo da postagem anterior) é mais a técnica da pincelada do que a temática.

     Os felizes azares do balanço (1717)- Jean-Honoré Fragonard

 

De qualqer modo era a arte feita para uma classe que ingenuamente não se apercebia do rufar dos tambores que lhes alcançariam em 1789, com a Revolução Francesa. Que não via que os privilégios conseguidos mil  anos antes, como a isenção de impostos, eram profundamente  atrasados e que, atrasada também era a França, que ignorava a Revolução Industrial ocorroida na Inglaterra e que mudava o ritmo da vida das pessoas(da badalada  dos relógios da igreja para a contagem do ritmo das máquinas a vapor) e também dava nova feição à arte.
A revolução Francesa traria o fim desse modo de vida e também da arte e arquitetura rococó.

 














Peregrinação à ilha de Citera(1717) Antoine Watteau



Diana saindo do banho, François Boucher  


Fontes consultadas

Imagem e Persuasão (Companhia das letras)  - Giulio Carlo Argan

A História da Arte (LTC) - E.H.Gombrich

A linguagem clássica da arquitetura
(Martin Fontes) -  John Summerson

História Geral da Arte Pintura - vol2 (Altaya) -  Vários autores

Revista História Viva Especial Grandes Temas nº.2- A Revolução Francesa

FILMES
O historiador  Marc Ferro recomenda todo o cuidado do  mundo com o cinema para exemplificação de momentos históricos. Para ele,  por melhor que seja a reconstituição, ainda é a visão de  um diretor e não deve sob hipótese alguma ser tomado como documento histórico. Com esse cuidado em mente  e mais  outro(um fiolme é uma obra de arte, não deve ser reduzido apenas á fidelidade histórica ou servir apenas de muleta para professores) , recomendo os três filmes abaixo:

Maria Antonieta (2006), Dir. Sofia Copolla - – A era essa vida de frivolidades de uma nobreza imersa em seu mundo de fantasia e  que sequer  se apercebe da grande tragédia que está por fim, a Revolução Francesa e a decapitação do casal real. A saída de Maria Antonieta (Kisrsten Dunst) do palácio de braço dado com as filhas é de  uma tristeza imensa.
 
Casanova e a Revolução (1982) Dir. Ettore Scola - Reconstituição cuidadosa para mostrar o  símbolo e perfeita metáfora da nobreza, o conquistador Casanova  (Marcello Mastroianni), envelhecido  (como sua instituição) e contemplando um mundo que já não existe mais de dentro de uma carruagem, último refúgio de sua antiga condição. 
 
Ligações Perigosas (1988) Dir.Stephen Frears - Para driblar o tédio, nobres franceses do séc 17 divertem-se armando jogos de conquista amorosa e intrigas sexuais. 
 






quinta-feira, 11 de novembro de 2010


Terminada a Mostra Internacional de Cinema, voltemos às artes visuais.  Retomo do ponto em que parei, quando falava sobre o quanto  a relação entre arte e linguagem sempre foi problemática.

Que a arte “comunica” algo niguém nunca duvidou. O problema era saber “ler” a obra de arte,ou, ainda, estabelecer uma “gramática”, buscando leis e unidades mínimas que, bem entendidas e respeitadas, poderiam permitir a “leitura” de qualquer obra. Ou, em outras palavras, traduzir o significado da imagem num discurso.

Um após outro os teóricos davam com os burros n`água. Suzanne Langer(a última teórica que citei) explicava essa dificulade dizedo que a arte tem um “modo peculiar de falar”- (notar como a palavra “falar’ remete ao discurso, a lingüística, à gramática). Para ela, a arte não funcionaria como linguagem por que lidaria com “sentimentos”(para ela, ambíguos, plurais) e não com “pensamento”(objetivo). Hoje sabemos que nem o pensamento é tão objetivo assim como a arte ´sim uma forma de pensamento, um discurso sobre a realidade.

Está achando isso tudo muito teórico? Então dê um pulo no CCBB-SP confira a exposição I In U (eu em Tu), retrospectiva de 40 da artista Laurie Anderson composta de instalações, desenhos, fotografias, vídeos , música, documentação de performaces e filmes.

Na obra de Anderson “algo que parecia ser objeto é discurso e o discurso é a essência de seu objeto” diz Marcello Dantas, no folder da exposição.
O nome original dá melhor dica  do que sua tradução, afinal são duas letras que,pela sonoridade, significam palavras (I, U, eu, você). Ou : as unidades mínimas da linguagem que, agrupadas formam palavras, estabelecendo uma comunicação. E você irá percber com ela articula palvras e imagens, embaralha-as, dança com elas, criando e recriando significados.

Uma das obras é um livro que conta a história de coisas que tinha sdo roubadas de sua casa num assalto. Folha branco, na próxima só um palavra de um objeto(que nos remete à imagem dele). Em seguida, uma reproduçãode uma gravura (se não me engano, de Rubens), com um objeto da cena destav=cado em vermelho. Temos em nossa cabeça o significado da imagem, mas ela entra em conlfito com a a palvra escrita antes. Significante e significado em rota de colisão e recriando um ao outro.

Outra caracaterística da artista é contar histórias, narrar,de uma maneira quase ancestral, tocando mais no mistério(aquele algo que não se consegue explicar em palavras) mais do que na narrativa bem contada.
Com as artes visuais, ela recria a literatura, a oratória. Anderson lida com palavras, com imagens, com lguagem e mbém com sentimentos e sensações.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O ATO CRIADOR,PARA MARCEL DUCHAMP

Marcel Duchamp é sem dúvida, junto de Jean Luc-Godard, o artista mais importante do século 20 pela maneira como abalou e restruturou a arte de seu tempo. A seu respeito, Giulio Carlo Argan ,no fundamental "A Arte Moderna"(Cia das Letras) afirmou que

transformou as estruturas da teoria e da operação estética, chegando a negar que a arte seja o processo em que se realiza a atividade estética”.

Não é pouca coisa, definitivamente, é provavelmente a maior guinada na arte desde a revolução da arte grega.
Inicialmente um pintor ligado ao cubismo e um pouco ao futurismo(ao qual nunca se prendeu), filiou-se ao grupo Dadaísta, criado por Tzara, para negar de forma completa a arte de seu tempo através do riso, do escracho, da anti-arte.
Mas não foi um mero “negador” da arte, ele a reconstruiu partindo de uma visão muito bem estruturada que daria origem a toda a arte contemporânea e destruturaria as tentativas dos teóricos da comunicação de encontrar o tal”sentido” ou a “significação” de uma obra de arte de uma maneira semelhante à operação da lingüística exatamente porque acreditava que o sentido da obra era exterior a ela, não se findava no objeto.

É mais ou menos assim até hoje e o principal motivo de muitas pessoas ficarem atônitas frente a uma obra da Bienal e dizerem “isso não quer dizer nada”. Quer sim, só que chama ao diálogo, pede a participação, seja mental(a instalação de Chantall Akerman), seja física mesmo (as obras de Yonamine e Hélio Oiticica, por exemplo).

Duchamp utilizava a noção de médium para dizer que o artista não é dono de sua obra, nem sequer a compreende completamente e que há muito mais de intuição do que de objetivo na criação. A obra, para ele, só ganha seu sentido com o reconhecimento do público, mesmo que este só venha com a posteridade, sendo que pouco ou nada importam as convicções ou intenções do autor acerca de seu trabalho:

o artista pode proclamar de todos os telhados que é um gênio;terá de esperar pelo veredicto do público para que sua declaração assuma um valor social e para que,finalmente, a posteridade o inclua entre as figuras primordiais da História da Arte.”

O primordial não estaria na esfera do racional (que é aquilo que o artista “proclama de todos os telhados”quando quer provar que é gênio) mas na do “inexpresso”.

A relação artista-público é, para Duchamp, uma forma de “osmose estética” que se dá do primeiro para o segundo e na qual “o papel do público é o de determinar qual o peso da obra de arte na balança estética” ao interpretar suasqualidades intrínsecas inacessíveis ao criador. E, mais do que isso, o público é quem completa o processo e, assim, “acrescenta sua contribuição ao ato criador” que “não é executado pelo artista sozinho”.



As citações foram tiradas doo ensaio "O ato criador",  de autoria do próprio Duchamp, contido no livro "A Nova Arte", de Gregory Battcock  (ed. Perspectiva) .

terça-feira, 19 de outubro de 2010

JEAN LUC-GODARD NA BIENAL DE ARTES

Esta Bienal é também dos cineastas, afinal hoje a arte não reconhece mais fronteiras. Além de Akerman, e Apichatpong Weerasethakul( o tailandês vencedor da Palma de Ouro de Cannes deste ano e também contemplado com uma mostra retrospectiva, esta no Cinesesc) há também Jean Luc-Godard que levou a arte cinematográfica ao limite(e a seu máximo)e agora o transcendeu.

 Sua obra é um vídeo, só vendo para entender, feito com uma única fotografia. Godard consegue dar movimento ao estático(e não é a técnica manjada do zoom e deslocar a câmera pela foto). Assim consegue fazer cinema e pintura numa só tacada, enquanto lê um texto poderoso, daqueles que são um soco no estômago e uma agulhada no coração. “Cultura é a regra, arte é a execessão”, ele diz em certo momento. “Todo mundo quer saber da regra, ninguém liga para a exceção”.
Pensemos a respeito.

Lisbeth Rebollo Gonçalves, organizadora e um das autoras de ‘Arte Brasileira no século XX (Imprensa Oficial), diz que o conceito de cultura “em amplo espectro” é composto, além da arte, da religião, das feitas e os rituais,  pelos "comportamentos sociais, os modos de produção econômica, as estruturas sociais, políticas, os sistemas de comunicação”. Para ela, “nesta definição, entrecruzam-se as esferas: socioeconômica, política, recnológica, cinetífica-teórica, estética,religiosa”. Godard é um revolucionário, portanto vê na prática uma cisão onde a professora da USP vê uma unidade teórica. O cineasta percebe hoje uma hipertrofia da comunicação, da publicidade, da esfera socioeconômica suplantando as demais. Cultura é a regra, arte é a execssão.

A arte cria dissonâncias, atritos que a publicidade, a TV e o cinema de Hollywood fazem tudo para evitar repetindo fórmulas conhecidas, entregando produtos facilmente digeríveis.

Nada na Bienal é muito fácil (e nem tudo é de tão alto nível) mas tudo é parte da exceção.
A regra você encontra na Globo ou no Cinemark mais próximo.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

29ª BIENAL DE ARTES DE SÃO PAULO- Primeira visita


Quem for visitar a 29ª Bienal de Artes vai precisar de fôlego e tempo além de disposição para voltar mais uma ou duas vezes.

Foram três horas de visita e um andar inteiro (o último)ficou por ver, além de várias obras e quase uma dezena de vídeos vistos apenas superficialmente (me detive na ação dos pixadores, mas deixei passar Lygia Clark, por exemplo).

Esse blog não é muito de usar o texto em primeira pessoa, mas vamos lá. Minha primeira indicação está no piso térreo, é  o impressionante trabalho de Ai Weiwei e suas esculturas dos animais do zodíaco chinês, trazendo algo da monumentalidade e da eternidade da cultura chinesa e seu estranhamento ao ocidente.

No primeiro andar o angolano Yonamine (que tem obras expostas também na galeria SOSO- Av. São João, 313, Centro) traz o caos visual, os frangalhos urbanos numa instalação que usa algumas técnicas da Pop Art (colagens, repetição de imagens da cultura de massas, reprodução de fotografias) numa chave completamente diferente para pensar a Angola contemporânea , o excesso de informação e imagens e o estado de favelização de suas cidades.

 

Também no segundo piso, a canadense Chantal Akerman tem uma instalação poderosíssima que é dos pontos altos desta Bienal algo irregular; começa(ou termina, depende de que porta você entra) com numa sala apertada, escura, claustrofóbica onde um aparelho de TV pequeno, no chão, reproduz um vídeo em VHS captada de uma câmera posta em cima de um veículo(não sabemos qual). Não há trilha sonora, apenas uma voz feminina que fala sobre uma cidade da Alemanha oriental, mas na realidade não vemos nada além do céu escuro sem estrelas, a não ser algum semáforo que por vezes está no caminho do veículo. Tudo o que temos é a emoção da voz a mexer com nossa imaginação. Em seguida (ou logo antes) mais de uma dezena de aparelhos de TV, cada um deles mostrando pessoas detsa cidade, andando, fazendo tarefas ordinárias.
Estamos rodeados, envoltos pela vida desta cidade que é, na verdade, parte da memória afetiva da cineasta (como a narração na outra sala já nos indicava). É o excesso em contraponto ao vazio, a presença ante a ausência da outra sala. Por fim um curta metragem não narrativo (Chantal é também cineasta, teve mostra retrospectiva exibida no CCBB de São Paulo este ano) onde viajamos por esta cidade e vemos com olhos de alguém familiarizado que retorna ao lar e contempla, apenas contempla.

E há Jean Luc-Godart. A ele, retorno.


29ª Bienal de Artes de São Paulo - 25 setembro - 12 dezembro 2010
                                        http://www.29bienal.org.br/

Horários de funcionamento :

De 2ª a 4ª feira: das 9 às 19h.
5ª e 6ª feira: das 9 às 22h.
Sábado e domingo: das 9 às 19h.
Entrada permitida até uma hora antes do fechamento - Grátis.
















sexta-feira, 8 de outubro de 2010

BIENAL DE ARTE - AI WEIWEI

Ai Weiwei ,que está nesta Bienal ,é um artista chinês de forte acento político. Tão forte que este ano levou uma surra da polícia chinesa e acabou hospitalizado. Recentemente em Tóquio ele expôs uma serpente toda feita com mochilas escolares que de tão grande e circundava todo o museu. A serpente, na cultura chinesa representa o perigo permanente.
Ai fazia ali um discurso em forma de arte, sobre um terremoto que vitimou mais de  cinco mil e quinhentas crianças, tudo indica, pela fragilidade das escolas construídas pelo governo(apelidadas de escolas de areia).tudo o que restara delas eram as mochilas. O governo abafou o caso e Ai encabeçou num movimento para dar nomes as vitimas. Daí levou uma surra e seu blog foi bloqueado. Mas em Tóquio ele mostrou tudo isso numa criação a um só tempo monstruosa e fantasmagórica, assustadora.


 


Numa performance na Documenta de Kassel ele levou 1001 chineses que nunca haviam saído de seu país. Com eles, 1001 cadeiras em estilo tradicional chinês.
Encontro, choque e curiosidade de parte a parte, ocidente e oriente e todo um pensamento sobre presença, ausência, uso, beleza, estranheza que ocuparia páginas e mais páginas mas que é expresso apenas com objetos ordinários e pessoas. Porque a arte é pensamento mas é também um diálogo com quem a vê(vivencia). Como pregava Marcel Duchamp, aliás, a quem voltaremos.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A ARTE É UMA FORMA DE PENSAMENTO

A arte é um discurso sobre a realidade. Se esse discurso é político(mote da Bienal deste ano) ou não isso vai do artista, mas a Arte diz algo, senão é só exercício de perícia com o lápis, o pincel ou o buril. Mesmo as obras Renascentistas diziam algo além do tema (por tema entender deposição da cruz, mitologia, etc), sua obsessão pela ordem, pela composição triangular, até mesmo o uso da perspectiva eram parte das convicções dos 1400. Esvaziado esse sentido, vira maneirismo, exibicionismo de técnica.

A ciência fala sobre o mundo, seja a ciência exata ou a humana, ela discursa, aponta caminhos, explica, pensa. A arte também o faz, de outra maneira, assim como fazia (faz?) a mitologia ou mesmo a religião (quando não é mero balcão de negócios).
São maneiras de discursar, de entender e falar sobre o mundo. De pensar e fazer pensar. E para isso não é necessário que a obra seja complexa ou que tenha levado dez anos pra ficar pronta nem mesmo que seja agradável aos olhos.

O filósofo alemão Paul Cassirer acreditava que ciência, arte e mitologia eram formas de linguagem, ou melhor , tudo isso e mais a linguagem trabalhavam dentro do universo do simbólico. Entender a arte como linguagem causou um problema que se arrastou por décadas, mas isso não vem ao caso (pelo menos não agora). Vamos ficar com a idéia menos objetiva e mais livre de que a arte é um pensamento, uma forma de lidar com o mundo.

É com essa visão que prossigo analisando a arte contemporânea nas próximas postagens. 

VAMOS À BIENAL(PORQUE ELA NÃO VEM ATÉ NÓS)

No documentário “Jazz”,dirigido por Ken Burns, o trompetista diz que Charlie Parker, ícone máximo do bebop, é como Picasso, ele não vem até você, você é que tem de ir até ele. Com isso explicava a dificuldade dos contemporâneos de Parker(e mesmo das pessoas hoje) em apreciar sua arte “difícil”, que não tem melodias assoviáveis, nem se presta a passinhos de dança de salão(e jazz, na época, era sinõnimo de dança, de "fox").

Enfim, Picasso, no fim das contas, acabou vindo até nós por caminhos tortos, pela diluição do cubismo(ainda que ele fosse muito mais do que cubista), hoje até na embalagem do Toddy você vê figuras desenhadas a partir de mais de um único ponto de vista. Lógico, cubismo não era só isso, mas, de uma forma ou de outra, ele é “compreensível”à maioria das pessoas, que podem apreciar um quadro de Picasso sem grandes traumas.

Mas eis que retorna a Bienal de Artes de São Paulo, evento só superado em importância no mundo pela Documenta de Kassel, na Alemanha. Quem se aventurar não irá encontrar facilidade, não há um Romero Brito (aquele da embalagem do Omo ) de quem o curador Agnaldo Farias inclusive desdenhou em entrevista à revista Cult de setembro.

A arte contemporânea não se presta a uma interpretação fácil, logo aquele que vê não se agrada visualmente nem consegue se colocar na posição de diferenciar um bom artista de um picareta. Pra completar, ainda hoje persiste a idéia do “bem feito”, um quadro Renascentista , por exemplo, é bom porque é perfeito, quase real. Já as gravuras de Picasso (estão em exposição permanente na estação Pinacoteca, aqui em São Paulo), essas não são cubistas, parecem mais desenhos toscos feitos por uma criança, logo são uma porcaria.

Mudar a opinião de quem pensa assim dá trabalho porque requer um ensino de toda trajetória da História da Arte, das idéias de beleza, perfeição, etc.
Quem for à 29ª Bienal de Artes de São Paulo e não tiver lá muita familiaridade com arte contemporânea terá então de fazer algumas concessões.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

ARTE SEM FRONTEIRAS

Obs. o blogger está com problemas e teima em não carregar as imagens selecionadas. Retorno semana que vem com textos sobre a Bienal de Arte de São Paulo.

Não existem fronteiras estanques na arte. Mesmo os absolutamente sem talento, os oportunistas ou as pinturas que são vendidas em shopping centers para um público que não conhece arte dialogam em certa medida com a tradição artística seja por imitação, influência de professores ou outra razão.


Entre ao grandes isso não é raro, pelo contrário. Diz Susan Woodford em “A Arte de ver a Arte”(Circulo do livro) :
“Os artistas não criam num vazio.Eles são constantemente estimulados por outrso artistas e pelas tradições artísticas do passado.Mesmo ao reagirem contra a tradição, os artistas mostram sua dependência dela.é o solo onde brotaram e no qual se desenvolveram, e é dele que extraem seu alimento.Eles sabem disso e admitem-no sem constrangimento;o próprio Lichtenstein(Roy)disse: ´ As coisas que tenho manifestamente parodiado, na verdade, eu as admiro”.

E cita como exemplo a revolucionária Almoço na Relva(1863) de Manet cujas figuras estão dispostas da mesmíssima maneira da gravura de Marcantonio Raimondi, “O julgamento de Páris”(1520), esta por sua vez baseado numa pintura contemporânea, de Rafael. A fiura feminina tem seu modelo em esculturas gregas.

Enfim , nada disso é muito diferente do que ocorre com a chamada “cultura de massas”, as HQs de super-heróis no caso. Aqui nós vemos o tema da Pietá de Michelângelo, “repetido” pela “deposição da cruz” de Caravaggio e volta e meia reproduzido quando querem representar a morte trágica de algum super herói.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

ARTE EM ESTADO IMPURO


Moisés Patrício é da Vila Industrial ,região da Zona Leste de São Paulo relegada ao desprezo típico que normalmente recebem do poder público os bairros mais pobres e vizinhos a outras cidades. Grafiteiro, enveredou por outras artes visuais e hoje expõe suas cromotipias em locais como o Espaço Cultural Gambalaia.


Grafite e Vila Industrial estão impregnados em sua obra, composta muitas vezes de linhas retas sobrepostas por manchas de cores que mimetizam a decomposição dos muros sujos de fuligem, cobertos de pixo, pintados com publicidade. As cores não tem pureza, contaminam umas às outras, interpenetram-se rumando ao desaparecimento nas bordas do papel, como uma parede diversas vezes pintada e que perde sua cor. A que morre revela sua ancestral mas esta não conta nenhuma história de sua existência, não deixa testemunho, apenas rastros,pistas.


A arte de Moisés Patrício é urbana e atualíssima, uma vez que dialoga com o grafite, atual queridinho dos galeristas, sem negar sua origem de caos urbano(ao que os galeristas tem verdadeiro horror).E, é bom lembrar, mês que vem tem Bienal de Arte de São Paulo discutindo a pixação o que faz essa (última) oportunidade de ver a arte de Moisés ser ainda mais imperdível.


O Gambalaia funciona de segunda a sexta-feira das 10h00 às 12h00 e das 14h00 às 17h00 e nos finais de semana, das 20h00 às23h00. A entrada é gratuita. A exposição fica só até este domingo.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

PIXAÇÃO, ARTE E DESINFORMAÇÃO


Hoje no Bom Dia Brasil e depois no SPTV a jornalista Carla Vilhena chamou matéria em que dois pixadores foram flagrados pela Polícia (e pela câmera da TV Globo) e, em seguida, ao descer do prédio, caíram e foram levados ao hospital. O tom tanto da matéria quanto da locução de Carla, foi de comemoração. Só faltou dizer “bem feito”.
OK, ninguém é obrigado a gostar de pixadores ou de pixação e é quase lugar-comum dizer que “graffiti é bacana, pixação não”, mas a postura do jornalismo da Globo e de Carla Vilhena é a de sempre, a do desconhecimento dos temas que trata. A Bienal de Arte deste ano (abrirá em setembro) irá discutir exatamente isso, as fronteiras movediças entre arte , política, arte-política e “pixo” . E ninguém espere uma resposta, afinal eles não tem uma. A proposta inicial é de que o pixo é uma manifestação política, mas não arte. Isso é só uma idéia a ser discutida a partir de fotos e vídeos que serão expostos pelo pessoal que, ano passado, invadiu e pixou o andar vazio da própria Bienal, intitulada muito apropriadamente de Bienal do Vazio.
Ora, e no vazio de proposta e de perspectiva de uma Bienal de obras medíocres escolhidas uma direção então acusada de inepta e corrupta, o “pixo” foi o que mais chamou a atenção, logo, nada mais justo do que eles entrarem pela porta da frente e confrontarem suas ações à arte dadaísta(o gesto destrutivo, a irreverência, a não-arte).
Enfim, ninguém precisa gostar dos pixadores, mas também ninguém precisa engolir mais uma matéria moralista, “datenesca”, e vazia de informação. E levar informação é a obrigação do jornalismo.


**
Se eu pudesse, recomendaria à sempre preocupada Carla a leitura do fanzine Subsolo- Ruas do ABC Paulista
http://imprensaalternativanoabc.blogspot.com/2010/04/subsolo-ruas-do-abc-paulista.html e da Revista Graffiti Poético http://graffitipoetico.com.br
Repito: ninguém precisa gostar, mas deve conhecer.

***

A propósito, dia 11/06, às 19h00 em Santo André, lançamento do número 3 da Graffiti Poético. Informações no site.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

ANDY WARHOL


É absolutamente incortonável a exposição Andy Warhol, Mr.America por vários motivos. Primeiro para desfaze aquela idéia de que ele seria um violento rítico do capitalismo e dos EUA. Isso os textos e as próprias imagens fazem bem. Mas também para se captar toda a dimensão de sua arte porque existe uma mania terrível de se ler sobre um artista e ver as fotos de seu trabalho, seja num livro ou na internet e se acreditar que pode parar por aí. No caso do artista POP isso é ainda mais grave porque as obras dele buscam se pareer com gravuras, fotografias ou anúnios publicitários. E aí vem aquela idéia : bom, se isso se parece com um anúncio do "Seleções" pra quer ver ao vivo? O caso é que é preciso ter em mente que aquilo é uma obra de arte e expoxta num museu, portanto o fato dela parecer algo banal é bastante signifiativo. Ela seria banal se estivesse num lugar banal, ou seja m, se fosse só um anúncio de jornal, uma embalagem de sopa, etc. Mas é muito mais do que isso e sua forma quer nos dizer algo. É preciso estar frente a frente com as Marilyns em série para sentir a força daquilo a que Warhol se propõs a fazer. Engana-se quem pensa que uma foto, por captar todos os detalhes (de uma obra sem minúncias) é capaz de apreender toda suia dimensão.

É preciso estar lá para ver e sentir.


A exposição fica até 23 de maio na Estação Pinacoteca, Lgo Gen.Osório,66,Luz Centro-SP. Tel. (11)3335-4990, de Terça a domingo das 10h às 17:30. Ingressos : R$ 6,00, grátis aos sábados.

terça-feira, 30 de março de 2010

REFLEXÕES SOBRE A CRISE DO DRAMA

Reportagem da Ilustrada de ontem trouxe o tema “A crisedo drama” para falar da influência cada vez maior da cenografia no teatro que estaria, assim, se aproximando das artes plásticas. A cenografia (e o figurino)deixaria,assim, de se constituir apenas como apoio para fazer parte da peça.
E é fato, essa fronteira estanque entre as artes não faz mais sentido. As peças da Sutil Companhia atravessam as fronteiras. Ou esse H.A.M.L.E.T, que está em cartaz no Club Noir (R.Augusta, 331 tel 3257-8129) onde a cenografia chega ao status de arte visual. O cubo branco em que os atores encenam, vestidos de preto tem (e traz) significado- podemos pensar no cubo branco por excelência, o museu, instituição em crise quando confrontado com a arte contemporânea- como “catalogar, preservar e expor”(função dos museus) obras só duram o tempo de sua exibição, ou que existem só no registro fotográfico, ou que se desintegram num tempo breve?
Retornando ao teatro, nesta peça em que tudo tente à dualidade(e a pensar esta dualidade, que é a natureza do confronto e,portanto,do drama) talvez nem seja intencional (embora eu ache improvável) que o palco seja um cubo branco numa peça que radicaliza trazendo a arte visual para transformar a tradição do teatro, o drama, representado alio pela tradição máxima, Sheakspeare. O que há ainda para alcançar representando Sheakspeare alcem de conseguir financiamento fácil de empresas de telefonia? A modernidade aboliu a representação nas artes visuais não era preciso mais que você olhasse um quadro e visse ali algo que você pudesse reconhecer (uma árvore, um animal, um santo, o que seja).Num passo adiante, Marcel Duchamp deu o maior de todos os pontapés da História da Arte e colocou lá coisas que voc~e podia sim reconhecer, mas não tinham mais o significado que você estava acostumado a atribuir a elas. O significado original era apenas parte do significado real da obra, o qua quem daria, por fim não era mais o artista(antes o idealizador e dono da obra), mas o espectador, transformado daí em diante em fruidor (pense nos parangolés de Oiticia, pense não , viva-os no Itaú Cultural). Ora, a representação de uma história (o drama) ficou para trás da mesma maneira netse H.A.M.L.E.T que eu não me envergonho de dizer que não entendi de todo, até mesmo porque muitas das questões postas ali parecem dizer respeito à tradição de uma arte de que eu entendo pouco, o teatro. Mas trata-se menos de atualizar Sheakspeare(outra maneira de se conseguir abrir o bolso das empresas de telefonia) e mais de trazer o hamlet para outros cantos, outras artes, outras experiências de vida, que podem ser a minha e a sua.
Falei bastante sobre o fim do drama no cinema quando tratei de Alan Resnais. No cinema esta é uma questão muito forte porque a crença na imagem é quase a razão de sua existência como arte. E hoje, David Lynch ou Quentin Tarantino lidam com esse “fim do cinema”, com reaproveitar os escombros de uma arte que Alan Resnais , Goddard E Cia destruíram. Tarantino lida não mais com personagens próprios (a autoria também não lhe interessa) mais com criaturas clichês saídas da tradição de um cinema tornado ultrapassado. Seus gânsters, lutadores de kung fu são cópias descaradas de outros que já vimos várias vezes por aí.
É da reconstrução da arte que vive o cenário artístico atual.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

FUTEBOL / ARTE

Foi dica do grande amigo e leitor assíduo(um dos quatro ou cinco que este blog tem) o site :
http://www.mundogump.com.br/pinturas-incriveis/ que traz pinturas hiper-realistas de artistas que eu desconheço.
Pausa.
Esta semana, durante o programa Jogo Aberto apresentado pela encantadora Renata Fan na Rede Bandeirantes, o comentarista e ex-jogador Neto disse, a propósito de um lance polêmico :"quem briga com a imagem é porque não tem inteligência". A patada foi dirigida o jornalista Ulisses Costa, que se recusava a reconhecer uma falta ou um impedimento(não me lembro bem) que Neto julgava estar evidente no videotape.
Bom, a esta hora os quatro ou cinco leitores devem estar pensando o que é que o ponto inal do reto tem a ver com as calças.
Explico.
No blog indicado pelo Daniel, o autor tece vários comentários que podem ser resumidos num só "parece fotografia" o que, para ele, é um elogio. Parecer uma fotografia de fato deixou de ser um elogio à arte desde,pelo menos, Cèzanne (ou até mesmo em Goya, dependendo do ponto de vista). Há uma série de questões aí, que envolvem o valor da "representação" nas artes visuais e que eu não vou expôr sob pena de tornar este blog ainda mais chato do que já é. Mas o que dá para dizer é que a questão de modo algum é essa, de se parecer fotografia, ou parecer real. Ou melhor, parecer real é só um meio de se chegar ao ponto que é este mesmo tocado pelo Neto;"quem briga com a imagem é porque não tem inteligência". Muito pelo contrário, nos dizem estes artistas (mas o blogueiro lá não entendeu isto), essa imagem perfeita não é real. Não faz sentido ter um arte meramente imitativa num mundo que já tem a manipulação das imagens ao alcance de qualquer um com um photoshop em casa. Mesmo antes disso a ambiguidade da imagem já era a questão do cinema desde pelo menos os anos 50. A imagem induz sim ao erro, ela é, afinal, só uma casca. Um signo (ou ícone pra ser mais preciso) de algo que existiu ou aconteceu. Essa relação da semelhança e orrespondência entre a imagem e o real , entre o íone e o referente(ou a impossibilidade de se estabelecer tal correlação) também já ferveu uma ciência como a semiótica. Quem assistiu Vertigo-Um corpo que caiu, de Alfred Hitchcock vai ver como o mestre inglês já trabalhava esta questão.
Já falei um bom tanto aqui do hiper-realismo. Mas não custa frisar o quanto a imagem é portadora de dúvida. Não fosse isso, eles não passariam duas horas por dia discutindo se foi pênalti ou não, se tinha impedimento ou não.
E isso quem me ensinou não oi nenhum boleiro, mas um crítico de cinema, o Inácio Araújo. Golaço.
!!!
Não oi uma crítica ao ótimo comentarista que é o Neto. Mas ainda é uma crença bastante arraigada de que a imagem é portadora da verdade e é disso que vive o jornalismo. Um foto ou filmagem é o que "prova" que algo teria acontecido. Todo mundo sabe o quanto de erro isso já provocou.
As imagens via internet então nem se fala. Nunca se sabe se são reais ou não. Sobre isso, quem talvez melhor tratou a questão foi George Romero e seu Diário do Mortos, de 2008, onde as notícias sobre mortos vivos se espalham pela internet e pela Tv mas por vários motivos(principalmente credibilidade), todas são alvo de descrença.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

GAMES E ARTES PLÁSTICAS NO ITAÚ CULTURAL


Interatividade é a palavra chave para se compreender a exposição GamePlay que fica no Instituto Cultural só até o dia 30 deste mês e é composta por 6 instalações artísticas e 11 jogos, entre eles Halo 3 , Mario Kart wii e Fifa Street 3. Mais do que promover um encontro entre as artes plásticas e os games, a exposição busca explorar o conceito de gameplay, um “conjunto de experiências interativas entre 2 ou mais sistemas, humanos ou artificiais” e testar seu alcance. A atenção da curadoria se voltou para a capacidade única dos games de prenderem a atenção de quem joga (que é muito maior do que a de quem vê um filme ou admira uma obra de arte) e de tornarem possível uma autêntica troca de experiências entre a máquina e o jogador. Isso tudo se reflete nas instalações, que só se completam quando o visitante entra em ação. É assim com a melhor obra, “KinoArcade Machine”, em que um fliperama exibe o clássico Encouraçado Potemkin (1925), de Sergei Eisenstein. Extrapolando a tradicional ligação entre games e cinema (filmes que viram jogos e vive versa), este Arcade permite que o visitante, através dos botões e do joystick, interfira na textura e na ordem das imagens, acrescentando inclusive cores que inexistem no filme original, criando uma obra nova que não pode jamais ser reproduzida.
A GamePlay coincidiu com o 7º Simpósio Internacional de Artemídia e Linguagens Digitais (que aconteceu entre 7 e 12 de agosto no quase vizinho prédio da Casa das Rosas) e com o lançamento do livro ArteMidia e Cultura Digital, organização de Artur Matuck e Jorge Luis Antonio em que intelectuais se debruçaram sobre conceitos como realidade virtual, cibermídia, arquitetura líquida e games.
Olhar os jogos eletrônicos com atenção não é novidade;o próprio ItaúCultural já promoveu em 2002 outra exposição, a “Game o quê?” , onde o foco era a evolução tecnológica e as possibilidades criadas pela linguagem digital. Um ano antes o professor do MIT(Massachusetts Institute of Technology) dizia “chegou a hora de levar os jogos a sério como uma forma popular de arte que moldará a sensibilidade do século 21” lembrando de outras artes populares que por muito tempo foram vistas com desdém, como o Cinema, o Jazz e as Histórias em Quadrinhos*.
Agora, no entanto, quando se solidificam conceitos como “pós-humano” e “cíbrido” (a presença ao mesmo tempo no mundo físico e no ciberespaço) é que se pode medir a importância dos games, para além de sua relação com a industria do cinema ou da crescente sofisticação tecnológica. É a interação possibilitada por estes jogos que abre as portas do novo século.


O Itaú Cultural fica na Av Paulista 149 (próximo à estação Brigadeiro do Metrô) e está aberto à visitação de terça a sexta, das 10h às 21h e aos sábados e domingos, das 10h às 19h.
A entrada é gratuita e o visitante também não paga para jogar, precisa apenas retirar uma senha.
Mais informações em
http://www.itaucultural.org.br/gameplay/


* publicado originalmente na Technology Review e reproduzido pela Folha de São Paulo no Caderno Mais de 14/01/2001.