Mostrando postagens com marcador Terror. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Terror. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 31 de maio de 2011

DARIO ARGENTO- 4

A importância da cor Vermelha em suspiria  

Em Suspiria uma cor domina todo o filme: o vermelho. Ou melhor, domina a parte fantástica do filme, aquela partir do momento em que Susan deixa o aeroporto(a civilização) onde tudo é meio cinza, meio apagado. Uma figura,ainda lá, parece um prenúncio(como a chuva- ver post anterior) do mal: a mulher de vestido vermelho que passa apressada e é um corpo estranho, um fogo-fátuo em meio à calmaria. Por um rápido instante, o vermelho envolve Susan como vemos na imagem abaixo.


Antonioni, cineasta-pintor por excelência,como nos lembra Jacques Aumont, é um desses que utiliza as cores de maneira extremamente bem pensada:

“seu gosto pelas dominantes cinza (todo filme de Antonioni mostra a névoa), para fazer ressaltar melhor aí,como manchas fantásticas, a chama amarelo-limão das tochas de O deserto vermelho, as cores bem berrantes de Blow-up”.

Como já foi dito aqui, as cenas de Argento são construídas como pinturas e em Suspiria isso é ainda mais radical porque a imagem muitas vezes fica praticamente estática, convidando à contemplação. Nesses momentos Argento parece brincar com a arte abstrata, usando linhas, cores e os corpos das vítimas para criar uma imagem espantosamente bela. Não é por outro motivo que o sangue é de um vermelho vivo, que nos remete mais ao pigmento, à tinta, do que propriamente ao sangue real. A cena da garota pendurada no teto da escola é exemplar. Vemos ela morta, depois o chão, preto e branco. Em seguida goteja o sangue vermelho que começa a se espalhar, como se um artista o estivesse tivesse respingando com um pincel. E ela despenca junto dos cacos do vitral também vermelho.












O vermelho puro foi tradicionalmente usado na pintura figurativa para representar o fogo do Inferno, afinal é uma cor que,em demasia, gera  irritação, incômodo.

 Basta olharmos para a tela “A Morte da Virgem” (1605-06) de Caravaggio e sentir todo o incômodo do vermelho que torna a atmosfera asfixiante e nos passa sensação de temor, sofrimento e pesar.


Argento sabia bem disso quando fez a escola (fachada e interior) ser vermelha. Quanto mais Susan mergulha nos  domínios do mal, mais essa cor parece a envolver(e a nós também).


PS . Na última postagem da série, o cinema  "barroco" .

segunda-feira, 30 de maio de 2011

DARIO ARGENTO- 3

Suspiria

Um conto de fadas de horror


Para este filme Argento fez questão de trabalhar com o Technicolor, sistema já ultrapassado que tinha o inconveniente de empobrecer as nuances de cor. Para ele isso não era problema, pelo contrário, por que realçava as cores puras (tornando o vermelho ainda mais gritante) numa tentativa de mimetizar a paleta de cores do desenho animado da Disney, Branca de Neve. Por bom motivo: o sobrenatural, que ganhava espaço sobre o racional filme a filme, aqui toma conta e Suspiria, com a história de uma jovem bailarina que desce num aeroporto rumo à um prédio antigo e assutador no meio da floresta, não é outra coisa que não um conto de fadas, como aliás entrega o narrador em off logo antes dos créditos, como alguém que diz “era uma vez...”.


De fato há ainda a persistência do racional na presença de especialistas que “explicam” a bruxaria, no entanto não é a lógica que sustenta o filme, pelo contrário, desaba diante dele. Coisas acontecem sem explicação alguma ,como um braço que assassina um das jovens do internato. De onde vem? De quem é? Não se sabe.

Ocorre de início em Suspiria a cisão entre espaços, o moderno (civilizado) e o antigo (domínio do sobrenatural). A chuva torrencial com que a bailarina Susan Baynion é recebida no aeroporto é ao mesmo tempo a barreira a ser rompida entre os dois mundos mas também presságio do mal que virá. Sua volta, ao final do filme, induz mais ao mal-estar do que ao alívio,com seria comum. Ela não é um banho na alma, metáfora de purificação ou liberdade. Dado sua primeira aparição sinistra, indica uma permanência do mal , sua mutação, de fogo em água. Nisso Argento parece nos levar de volta à chuva que impede a fogueira de matar Asa, a princesa-bruxa de Máscara do Demônio, monstro ressurreto tal qual a Helena Markus de Suspiria.


De fato há ainda a persistência do racional na presença de especialistas que “explicam” a bruxaria, no entanto não é a lógica que sustenta o filme, pelo contrário, desaba diante dele. Coisas acontecem sem explicação alguma ,como um braço que assassina um das jovens do internato. De onde vem? De quem é? Não se sabe.

Ocorre de início em Suspiria a cisão entre espaços, o moderno (civilizado) e o antigo (domínio do sobrenatural). A chuva torrencial com que a bailarina Susan Baynion é recebida no aeroporto é ao mesmo tempo a barreira a ser rompida entre os dois mundos mas também presságio do mal que virá. Sua volta, ao final do filme, induz mais ao mal-estar do que ao alívio,com seria comum. Ela não é um banho na alma, metáfora de purificação ou liberdade. Dado sua primeira aparição sinistra, indica uma permanência do mal , sua mutação, de fogo em água. Nisso Argento parece nos levar de volta à chuva que impede a fogueira de matar Asa, a princesa-bruxa de Máscara do Demônio, demônio ressurreto tal qual a Helena Markus de Suspiria.

Os sons e o olhar

Se há um sentido profundamente enganoso em Suspiria, este é o olhar. É por meio dele que se comete todos os equívocos, é ele quem induz a julgamentos errados. Não à toa o personagem do pianista cego, antes de todos (e mesmo antes de nós, espectadores guiados pela visão) é que sabe o que realmente ocorre na mansão. “Eu sou cego, não surdo” ele sai dizendo ao ser expulso. A morte chega também para a garota que contempla sua imagem refletida na janela, durante uma noite chuvosa.


De fato, se o olhar é enganoso, a audição é indício constante da presença do mal.A trilha sonora composta pela banda de rock progressivo Goblins incorpora sons diversos, gemidos, sussurros que conferem vida ao inanimado e indicam essa presença fantasma, esse mal que percorre os domínios da mansão mas que em momento aalgum tem forma definida. Pelo contrário, ele(ou ela) é a indefinição completa, expressa somente pelos sons e por “imagens” que nada mostram. Como diz Jean Baptiste-Thoret:

“Quando o personagem penetra no lugar, o espaço subitamente se anima: gemidos e ruídos estridentes surgem na trilha sonora, sombras e manchas luminosas desfilam nas fachadas, até que um movimento de câmera- encarregado de reproduzir o ponto de vista ( ou o espírito?) de uma gárgula- fende o ar até o centro da praça. Tudo concorre aqui a movimentar o espaço, a transmitir a sensação de uma atividade espiritual ou orgânica, como se no coração destas estruturas imóveis palpitassem forças vivas e desconhecidas"

segunda-feira, 23 de maio de 2011

DARIO ARGENTO- 2

OS FILMES GIALLO


Apesar de Suspiria ser um dos melhores filmes de horror já feitos e a obra-prima de Dario Argento, o diretor estreou em 1970 com “O Pássaro das Plumas de Cristal” , filme do gênero giallo que,aliás, o fez célebre. Giallo na Itália é um gênero amplo, que engloba todo tipo histórias de mistério, trillers e suspense, freqentemente com um sujeito qualquer, que investiga crimes ajudando(ou à margem) da polícia. O nome vem de livrinhos baratos de capa amarela com tramas meio ao estilo Agatha Christie,bastante populares por lá.

Argento não era um novato, claro. Já tinha uma carreira como crítico de cinema em Roma quando, junto de Bernardo Bertolucci, escreveu o roteiro de “Era uma vez no Oeste”(1968), para Sergio Leone.

O Pássaro das Plumas de Cristal e seu filme seguinte, “O Gato de Nove Caudas”(1971), valeram a Argento o apelido de “Hitchcock italiano”, mais pelo estilo utilizado em algumas das cenas do que pelas tramas (o diretor inglês não fazia filmes de mistério*). Desde o primeiro longa algumas marcas já se impõem: um personagem cego, animais ocupando parte importante da trama ,a presença de um personagem masculino fraco, dominado por mulheres cruéis e mortes chocantes cujas vítimas freqüentemente são...mulheres.

As cenas ultra-violentas,aliás, se tornam a assinatura do diretor italiano,que faz o possível para se superar a cada filme. Mas também é marcante o fato do herói ser alguém de certa forma(ou amplamente) impotente perante os acontecimentos(em “O gato...” é um cego) e cujos erros na investigação não raramente causam mortes inocentes.

“O Gato...” traz uma guinada em relação às tramas tradicionalmente racionais dos giallo,feitas de deduções lógicas coerentes: a influência do absurdo, inexplicável, do fantástico. O desfecho do filme parece absurdo, incoerente, o que irrita muita gente.
                                                               "O Gato de Nove Caudas"

Seus filmes seguintes, apesar de não abrirem mão de personagens e tramas racionais, pendem cada vez mais para o fantástico. O ápice antes da guinada é “Profondo Rosso”,de 1975, que marca também a aproximação de Argento com o chamado cinema “de arte”, especialmente Michelangelo Antonioni.

A guinada,claro, é Suspiria, quando o fantástico toma a forma do horror e a investigação racional chega a ser quase um corpo estranho no organismo do filme. Quase.
 Cena de "Profondo Rosso"



* Hitchcock usava um exemplo para diferenciar suspense de mistério. No filme de mistério o assassino ou culpado só é revelado ao público e aos demais personagens no final. Trata-se de uma surpresa. No suspense sabe-se de início quem é o culpado(ou algo assim), mas os personagens,no entanto, ignoram.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

DARIO ARGENTO-1


Mario Bava

Não da para falar em Dario Argento, diretor de Suspiria, sem recorrer ao nome de Mario Bava, cineasta italiano que estreou tarde na direção(aos 46 anos)mas com uma dessas obras de impacto profundo, La Maschera del demônio.O filme, de 1959, é também chamado de “Mask of Satan” ou “Black Sunday”, dependendo do país e da versão, por causa da implicância dos censores da época com a violência inédita do filme.

A Máscara do Demônio(vamos chamar assim) reciclava o visual dos filmes da Universal Pictures dos anos 1930 e 40 para contar a história (baseada no conto “Viy”do russo Nikolai Gogol) de uma princesa do séc 17, Asa (interpretada por Barbara Steele, de “8 e ½”), condenada por seu próprio irmão, um inquisidor, por bruxaria e vampirismo.Sua pena é ter cravada no rosto uma máscara de ferro cheia de espinhos metálicos antes de ir para a fogueira. Asa promete retornar à vida e vingar-se de sua descendência.

A sequência de abertura , principalmente o golpe de marreta do carrasco no rosto de Asa, chocou a audiência e continua poderosa ainda hoje. Estaria fincada (com perdão do trocadilho) uma da bases do horror italiano, as cenas ultraviolentas.Visto então, o Drácula de Bela Lugosi parecia desconcertantemente ingênuo.



Mas fosse só por isso, A Máscara do Demônio não teria tido uma sobrevida mais longa do que a princesa Asa. Mario Bava demonstrou domínio pleno do preto-e-branco e um uso espantoso do jogo de luz e sombras(impressionante mesmo se comparado às obras da Universal Pictures) e da composição de cena que fazem o espectador esquecer algumas seqüências canhestras(até para a época) como um desajeitado morcego que ataca os invasores da cripta onde está a vampira. Bava compunha as cenas como um pintor “barroco”(vamos tratar disso adiante).

Com frequênca a câmera está em posição desconcertante e os objetos de cena ainda mais, quase colados nela, deixando os atores lá no fundo, numa perspectiva em diagonal.
Ou a ação principal é deslocada do centro para as lateriais da tela, deixando grandes áreas "livres" criando uma beleza literalmente assustadora. As cenas são para ser admiradas como belas pinturas, isoladas mesmo de seu contexto.
Tudo isso gera uma estranheza, um mal-estar que não passa desapercebido pelo espectador. 


Mario Bava não ficou restrito aos filmes de horror, até porque eles não eram populares na Itália,na época. Aventurou-se por um outro gênero, o giallo, que faria famoso Dario Argento, que soube absorver todas as lições do mestre, desde a violência chocante ao domínio da luz e da composição de cena.
A isso voltamos na próxima postagem.


sexta-feira, 4 de setembro de 2009

NAÇÃO DOS ZUMBIS



Foi com pouco dinheiro, uma câmera digital e uma boa dose de criatividade que Rodrigo Aragão fez seu “Mangue Negro”, originalíssimo filme de zumbis de que circulou o país em diversos festivais e agora aporta direto nas locadoras, sem ter estreado em circuito comercial. O longa metragem consegue ser original num subgênero do terror que ,salvo raras exceções, tem tendência a se repetir; mais do que mortos vivos de andar trôpego, vemos ostras monstruosas (!) , defuntos surgindo da água escura do mangue e feitiçaria cabocla, tudo mostrado com ajuda de muita maquiagem, animação em stop motion e até computação gráfica. Já a história é uma fábula, quase um “João e Maria” ultraviolento, contando tentativa de um casal de fugir do mangue e chegar ao topo de uma montanha, onde estariam livres da epidemia de mortos-vivos.
Em meio a tantas idéias, umas funcionam, outras não. Talvez o maior problema esteja nos diálogos muito formais, de português corretíssimo, que tiram algo do impacto brutal do manguezal, e dos rostos tão diferentes do que estamos habituados a ver na TV. Nisso ele só teria a lucrar soasse como O Céu de Suely (de Karin Aïnouz), Cinema Aspirinas e Urubus (de Marcelo Gomes) ou Baixio das Bestas( de Cláudio Assis) . O cinema do nordeste tem se mostrado dono de uma identidade fortíssima e sem medo do acento regional. Também o uso da maquiagem para envelhecer rostos parece despropositado, deixa os atores com cara de boneco de cera ou de quem sofreu queimaduras graves.
Mais até do que a originalidade, salta aos olhos o laboratório de influências que é este filme. Tem algo do Zombie, de Lucio Fulci , por causa das cenas ensolaradas, dos mortos putrefatos. As vezes o herói parece descaradamente com o Ash, da série Evil Dead- A Morte do Demônio, de Sam Raimi, de onde Aragão também parece ter tirado o gosto pelo humor. Já a sangueira é típica de HQ , assim como o visual de alguns cadáveres . E é num instante que surge um cenário tratado digitalmente e uma câmera em primeira pessoa que faz parecer que estamos diante de um game estilo “Doom”. Há também cenas que foram tiradas da prateleira dos clichês do filme de terror (a mocinha encosta num parede de madeira, de onde surge a mão do monstro que lhe agarra o cabelo). Tudo ali parece uma colagem com vista a se chegar a um produto novo, com identidade própria.Está errado? Não mesmo. É dessa mistureba que vive o cinema de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, por exemplo.
Ninguém é obrigado a gostar do resultado, mas todo mundo deveria dar uma chance aos zumbis “mangue beat” de Rodrigo Aragão. Chance que as salas de cinema não lhe deram.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

TEATRO- A LOUCADORA DE VÍDEO


No ano de 2012, num futuro dominado pelos DVDs e Blu-Rays , uma jovem linda e inocente(Luciana Caruso) decide entrar numa sinistra vídeo locadora em busca de filmes clássicos em VHS,que não existem em nenhum outro lugar. O que ela não imagina é que o lugar esconde muito mais do que fitas empoeiradas.

Esta bem poderia ser a sinopse de um filme de terror pra lá de vagabundo, no entanto também serve para descrever o divertido espetáculo “A Loucadora de Vídeo”, que entrou em cartaz esta semana no espaço N.Ex.T (Núcleo Experimental de Teatro) , no centro de São Paulo.
A brincadeira com o cinema começa já no nome da peça,que faz referência às típicas traduções brasileiras de títulos e se estende por toda a trama de Antonio Rocco (texto e direção) . O diretor faz uso de vários elementos dos filmes B , como a personagem desfigurada e com delírios de grandeza , o futuro “apocalíptico” ,a mocinha com pouca roupa e até mesmo a trama defeituosa, para tecer sua bem particular declaração de amor ao cinema e ao teatro. Pode não parecer, mas há porções iguais de comédia melancolia na história dessa estranha locadora onde os filmes ,antes de serem alugados, são interpretados na frente do cliente por Estúpido(Ivan Capuá), único funcionário e cativo da proprietária, Magdalena(Lulu Pavarin) . Com isso vemos cenas de “Cantando na Chuva” (inspiração também do cartaz) , “Dona Flor e Seus dois Maridos” , “Casablanca” e ” Ata-me”, bem como referências rápidas a vários outros filmes - a de “Um Corpo que Cai” é especialmente hilária.
A peça, que fica em cartaz até 26/07, comemora o aniversário de dez anos do N.Ex.T, que entre outros espetáculos de sucesso, lançou o Terça Insana, referência de humor nos palcos paulistanos.
Vale e pena chegar um pouco antes e curtir o espaço, que dispõe de bar, exposição de fotos de espetáculos encenados no local e curtir a seleção musical com temas de filmes que rola nas caixas de som.

O teatro N.Ex.T tem 70 lugares e fica na R. Rego de Freitas ,454, República – centro SP.
Sexta e Sábado 21h30, Domingo 19:30
Ingresso : R$ 30,00 (inteira) Estacionamento R$ 5,00
Informações pelo Tel. 3259-9636

domingo, 24 de agosto de 2008

DUAS ÓTIMAS CRÍTICAS DE "ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO"

Este não é um blog de crítica, mas sim de reflexão a partir de filmes, HQs, peças, etc. Quem quiser ler textos excelentes sobre Encarnação do Demônio deve visitar as revistas eletrônicas Paisá e Cinética. Abaixo, alguns trechos. Primeiro, do amigo Francis Vogner dos Reis, na Cinética, depois de Filipe Furtado, na Paisá. Ambos, vale lembrar, são professores do curso "Panorama do Cinema Japonês" citado no post anterior:

"Se as cenas de torturas e sangue, por exemplo, escapam ao fetichismo (que é a sensação da série Jogos Mortais), é porque elas não são concebidas como uma câmara de tortura para um espectador voyeur e sádico, mas como um delírio, um pesadelo. O próprio personagem/diretor seria um maestro de cenas extremas, que impressionam mais pela plasticidade e agressão, do que pela mera e simples crueldade. Cenas como a mulher saindo da barriga do porco e a cena de sexo inundada por sangue, ou mesmo o purgatório com Zé Celso Martinez, aproximam mais o diretor da parceria Luis Buñuel e Salvador Dali do que desses recentes filmes de horror de tortura, porque o horror vem pela via das imagens absurdas (e até do sarcástico), não da mera representação da dor e da psicose" disponível em : http://www.revistacinetica.com.br/encarnacaododemonio.htm

"Tudo no filme gira em torno do ícone. A começar por um Zé do Caixão muito mais sedutor, capaz de trazer consigo um séqüito de admiradores e de encontrar belas mulheres mais do que dispostas a carregar seu filho. Não deixa de ser uma bela metáfora para a carreira do próprio Mojica: o Zé do Caixão de Encarnação é pop, mas é ainda mais marginal". Disponível em:
http://www.revistapaisa.com.br/agosto08/encarnacao.htm

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO: MOJICA TRANSGRIDE TODAS AS CONVENÇÕES EM SEU NOVO FILME


O Brasil mudou muito desde que Zé do Caixão fez suas últimas vítimas em Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967). Enquanto o coveiro tinhoso penou 3 décadas trancado na Casa de Detenção (e mais uma num manicômio), o diretor José Mojica Marins viu tudo aquilo que sustentava seu personagem praticamente desaparecer.
Viu as antes abundantes salas de cinema de rua, que fizeram a glória de artistas populares como ele e Mazaroppi, desaparecerem para ressurgirem na forma de multiplexes, cobrando ingressos caros e trancadas em shoppings centers que cobram até pelo estacionamento. Se o cinema virou uma diversão elitista, o terror deixou de ser uma abstração, de ser uma idéia metaforizada na forma de monstros de cinema e chegou à porta de todos, ricos ou pobres, na forma da violência urbana. Aliás, o próprio país passou a ser predominantemente urbano, tornando os matutos que ele assombrava nos filmes anteriores, mera recordação.
Mudou também a religiosidade; a carolice católica das cidades pequenas, contra a qual Zé se batiacomendo carne de cordeiro na sexta feira santa, deu lugar ao tele-evangelismo e a um tipo de culto produto da sociedade do espetáculo, que se manifesta seja na forma dos “Shows da Fé” protestantes ou na das Showmissas carismáticas, onde se enfatiza a busca pelo felicidade, o sucesso e a realização pessoal.
Para piorar, aparentemente não havia mais nada que transgredir, afinal a transgressão virou norma; sexo , violência e bizarrices são trivialidades, atrações de todo dia nos Superpops da vida. Algo que seria impensável nos anos sessenta: a ausência de polêmica em torno da foto da revista Playboy na qual a atriz global Carol Castro aparece nua, usando como adereço apenas um crucifixo.
No âmbito econômico o Brasil deixou para trás o papel secundário de nação “terceiromundista” para adentrar o mundo globalizado como destaque entre os emergentes e assumir papel de destaque no mercado internacional. Até a dívida externa, que a crença popular dizia vir “desde os tempos de Don Pedro”, desapareceu e o Brasil passou de devedor a credor.
O país mudou mas Zé Mojica/Zé do Caixão não ficou indiferente a essas mudanças.
No filme, Zé do Caixão sai da prisão e vai para uma favela onde se depara com o terror nosso de cada dia (aquele que recheia os telejornais) e fica assustado.Vê policiais assassinando crianças e apavorando a população. Vê essa mesma população acomodada com a bandidagem. Vê a miséria que, ao contrário da dívida externa, não só não desapareceu como persiste sendo nossa maior vergonha.
Já Zé Mojica enfrentou outro desafio: conseguir filmar. Cinema é feito hoje basicamente com dinheiro oriundo de empresas que abatem este valor de impostos devidos ao governo. Quem decide qual filme vai receber a verba é normalmente um executivo da área de marketing, alguém que não necessariamente (na verdade quase nunca) entende de cinema. Sendo assim, têm muito mais possibilidade de viabilização os filmes mais alinhados ao que este pessoal entende por “bom gosto” ou que agreguem “prestígio” a suas empresas. Na hora de escolher entre um filme da Xuxa (ou qualquer um da GloboFilmes) e um terror de Zé do Caixão, por exemplo, a escolha (para eles) parecia óbvia e Mojica seguia sem filmar.
No entanto, contra todas os prognósticos, tudo o que parecia impossível aconteceu. O filme não só saiu como é transgressor até o osso. Mojica desrespeita todas as convenções (há personagens incoerentes, que são violentos mas também paspalhos e engraçados, colagens de clichês) e despeja violência na medida certa para afrontar o último bastião, o do bom gosto (do público, dos exibidores, dos financiadores). E por fim, tem a loucura visual: que poderia ser mais transgressor do que o embate Zé Celso- Zé do Caixão, sob um céu cor-de-laranja, entre pessoas que comem vísceras e o olhar impávido de uma morte pálida, anoréxica e fashion? Ainda somos violentos, egoístas e desiguais é o que nos diz as loucuras deste novo filme de Zé do Caixão. Apesar de todas as mudanças, o Brasil ainda é um horror!

Xxxxxxxxxx

O destaque do Brasil no mercado internacional tende a aumentar, principalmente com a crescente demanda por biocombustíveis e alimentos. No entanto, a despeito do destaque no cenário internacional, continuamos relegando a segundo plano os investimentos em educação (quase todos tem acesso a escolas, mas de péssima qualidade), artes (ainda privilégio de uma elite) e esporte (basta ver o pífio desempenho de nossos atletas em Pequim). Isso para não falar no vergonhoso sistema carcerário.
O Brasil entrou de fato na nova ordem mundial, só sua população é que ainda não. A este respeito, vale assistir o documentário “Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá”, dirigido por Sílvio Tendler (2007).

terça-feira, 12 de agosto de 2008

REENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO! Zé do caixão retorna aos quadrinhos em álbum de luxo


Zé do Caixão está de volta, não só nos cinemas, com o filme Encarnação do Demônio, como também nos quadrinhos, no álbum Prontuário 666 lançado este mês pela Conrad. Em ambos os casos o retorno não tem nada de saudosista nem faz nenhuma tentativa tola de “atualizar” o personagem. Por enquanto ficamos só com a HQ.
O ilustrador Samuel Casal (conhecido por seu trabalho na Folha de São Paulo) que dividiu o roteiro com Adriana Brunstein foi uma escolha duplamente acertada pois livrou a HQ não só da armadilha de ser “realista” (retratar fielmente Mojica e a Casa de Detenção) como da de imitar o traço incomparável de Nico Rosso, desenhista que ilustrou várias histórias em quadrinho do Zé do Caixão no final dos anos 1970.
O traço expressionista de Samuel é perfeito para criar um ar irreal, claustrofóbico e perturbador que traduz em desenhos toda aura de maldade que envolve Zé do Caixão. Corpos dilacerados, sangue e vísceras desenhadas realísticamente não teriam hoje metade do impacto que tiveram nos tempos de Rosso. Os filmes de terror conhecidos como torture porn (como Jogos Mortais e O Albergue) levaram a violência gráfica a um novo patamar, mas mais do que isso, a violência real, via tv ou mesmo em sites de internet (onde qualquer criança consegue ver fotos de tragédias aéreas), fazem com que o desenho tenha de buscar outras saídas caso queira transmitir sentimentos, principalmente medo e repulsa.
Quanto ao texto a história é bem outra.Os diálogos, escritos com uma ingenuidade inacreditável, prejudicam a HQ. Não dá para acreditar que alguém ainda coloque a frase “peguem-no” na boca de um personagem. Cruz-credo!

domingo, 27 de julho de 2008

MORTOS QUE VOLTAM À VIDA, LÁ E CÁ - PARTE 1

Mortos que levantam do túmulo numa espécie de semi-vida, os zumbis, são parte do folclore caribenho que tornaram-se tema muito caro ao cinema de horror norte-americano (e mundial) desde que, no turbulento ano de 1968, George Romero filmou o contracultural “A Noite dos Mortos-Vivos”. Este subgênero do terror foi à Itália, com Lucio Fulci (Holocausto Canibal) e tem até um exemplar sendo produzido neste momento aqui no Brasil, “Mangue Negro”, de Rodrigo Aragão.
George Romero retrabalhou a idéia original do morto ressuscitado pela magia vodu e lhe acrescentou algumas características que são repetidas até hoje, como a fome por cérebro e a o fato de que quem é mordido por um zumbi se torna um deles. A idéia do mal contagioso não é original (basta lembrar das lendas de lobisomens e vampiros) e expressa uma convicção que nasce com o crença mos rituais de bruxaria e nas lendas de íncubus e súcubus, que se deflagraram desde entre os sécs.14 e 15e tiveram vida mais longa nos países protestantes do que no resto da Europa, como nota Robert Muchembled em Uma História do Diabo (BomTexto, 2001).
Outra característica marcante dos filmes de zumbis é a perda da personalidade individual que se verifica quando alguém se torna um morto-vivo. Nisso, ela é inerentemente norte-americana, cujo maior pesadelo é a perda dos direitos individuais (“bandeira”dos pioneiros das treze colônias que deram origem ao país)daí seu horror a regimes totalitários e/ ou socializantes.A submissão completa do indivíduo a uma esfera maior e mais importante é para eles algo impensável.
Outro ponto de vista interessante quem nos trás é Roberto DaMatta em A Casa e a Rua (Rocco, 1997) DaMatta separa as sociedades em dois tipos básicos (com graus de variações, claro): as relacionais e as individualistas. A maneira como cada uma delas encara a morte é bastante diversa.
As chamadas sociedades individualistas (os EUA, por exemplo) tendem a pensar, discutir, filosofar a morte. Nas palavras do antropólogo, para eles “esquecer o morto é positivo, lembrar o morto é assumir uma espécie de sociabilidade patológica”. Já nas sociedades relacionais, que privilegiam as relações sociais em detrimento do indivíduo (Brasil incluso), temos o morto como alguém que deve ser lembrado, cultuado até. Mesmo após a morte, ele continua tendo um papel social. Muito significativa é a tradição (hoje em vias de desaparecimento) dos quartos cheios de retratos dos antepassados mortos. O morto, então, não é visto por nós como maligno,mas sim como alguém a quem se pede conselhos e que, por vezes, pode até vir “assombrar”, desde que tenha um motivo justo. Ao contrário, numa sociedade como a norte-americana (que leva ao extremo as características da sociedade individualista) o morto só pode ser visto como uma entidade maligna. E não são poucos os exemplos, os vampiros são mortos-vivos como tambémo são a múmia ou Fredy Krueger e Jason Voorhees.
Aqui no Brasil, o melhor exemplo está, claro, com o excepcional cineasta José Mojica Marins e seu personagem Zé do Caixão. Em À Meia Noite Levarei sua Alma, de 1964, vemos mortos que retornam à vida assombrando um pequena cidade. A procissão dos mortos (vista também em Pequenas Histórias, de Helvécio Ratton, ainda em cartaz)cumpre o dever de vingar as atrocidades cometidas por Zé do Caixão. Assustadores, perigosos, porém justos, os mortos-vivos brasileiros espelham perfeitamente a teoria de DaMatta e marcam a diferença de concepções entre nós e os norte-americanos.
Voltaremos ao tema.

MIRZA, DE EUGÊNIO COLONNESE, ERA UM DRÁCULA "TROPICALISTA"


Quem tem mais de 30 anos provavelmente já leu histórias em quadrinhos de terror e, se as leu, a possibilidade de uma delas ter sido estrelada por uma bela morena de corpo sedutor e dentes afiados é grande. Mirza, a mulher Vampiro, foi criada pelo desenhista italiano radicado no Brasil Eugênio Colonnese em 1967 (antes da prima rica Vampirella, é bom que se diga) e seguiu sendo publicada, com breves interrupções, por mais de 20 anos, um feito extraordinário para o eternamente turbulento mercado editorial brasileiro.
Hoje a personagem amarga injusto esquecimento, que começou com o desaparecimento dos quadrinhos produzidos por brasileiros das bancas de jornais, exceção feita às produções de Maurício de Souza. Não migrou para o cinema, não chamou a atenção de artistas, nem ganhou menões na tv. Não se tornou "pop", enfim. O limbo em que mergulhou a personagem (que teve suas histórias republicadas em 2001 pela Escala e só este ano uma edição de histórias que permaneciam inéditas pela editora Mithos ) é lamentável não porque estas fossem muito boas (nem sempre eram) nem mesmo pelos desenhos de Colonnese, estes sim invariavelmente excelentes. Mas porque, enquanto foram publicados quadrinhos de terror produzidos por autores nacionais, esta foi uma das raras criações realmente originais a surgir.
As histórias de Mirza eram notáveis por misturar, sem nenhum pressuposto teórico ou coerência de qualquer tipo, a tradição do terror anglo-americano (que nossos autores tanto copiavam) com algo de propriamente brasileiro.Mas que algo é esse?
Vejamos: Mirza é na verdade a aristocrata Mirela Zamanova, nascida na Cracóvia (só para não dizer Transilvânia) e filha de um poderoso conde dono de um soturno castelo, em cujas redondezas vemos árvores ressequidas e revoadas constantes de morcegos. Ela tem também um ajudante corcunda, maligno e puxa-saco que se traja exatamente como os mordomos ingleses que vemos nos filmes.Mais típico, impossível.
Por outro lado percebe-se uma esculhambação geral com outros elementos das histórias vampirescas , uma esculhambação que não tem nenhuma intenção de ser humorística, e que, não sendo paródia, se configura como subversão pura. Que outra coisa dizer de uma história que mostra Mirza de biquíni se bronzeando em plena praia de Ipanema? Um dos elementos mais caros à mitologia dos vampiros, todos sabemos, é a aversão destes seres ao sol. E qual o motivo disso ter sido simplesmente descartado nas histórias, sem merecer sequer uma justificativa? É esse algo de propriamente brasileiro, que nunca conseguiria conceber uma bela mulher cuja existência ficasse oculta aos olhos de todos, que não pudesse ser livremente admirada. É o gosto pelo corpo e não repulsão a ele. Mirza, então, nada tem em comum com o vampiro típico, cuja pele é pálida como a de um defunto, muito menos com uma mulher do leste europeu, o que é quase a mesma coisa, diga-se. E nunca, nunca mesmo se viu Mirza dormindo num caixão, rodeada pela terra de seu país natal. Seu criador não a via (e nem seus leitores) como uma morta-viva, como um aborto, uma subversão da Criação mas sim como uma força sexualmente agressiva, impossível de ser contida. Uma pulsão. Daí o gosto pelo Sol, pela praia, por histórias passadas muito mais em hotéis de luxo do que em becos escuros ou castelos sombrios.No fim das contas, não dá para dizer que Mirza fosse um personagem caracteristicamente brasileiro, ela não trazia em si nem a ambigüidade de caráter de um exú (como ocorre,por exemplo, com o Zé do Caixão),não tinha nenhum traço “macunaímico”, nem mesmo espelhava a cordialidade nas relações de poder. Seu valor estava justamente neste caldeirão que ferveu tradição, inovação e elementos culturais diversos sem reverência por nenhum deles.