Mostrando postagens com marcador cinema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cinema. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de março de 2012

IRMÃOS MARX X NOVO HUMOR: QUEM VENCE A BATALHA?


Disse Jô Soares em entrevista a Rolling Stone em novembro do ano passado, que a sua definição de humor é bastante simples: ou é engraçado ou não é. Na nossa opinião imaginamos sim que o humor pode sim ser usado de uma maneira irônica , agressiva, contestatória e blasfema, só que o texto por trás disso tem que dar a sustentação. Se não soa só como bravata de moleque bobo. Tai Monty Python que não nos deixa mentir. A Vida de Brian mesmo após 35 anos de lançado continua uma bomba atômica tanto de hilariedade como de ateísmo.
Nos últimos anos no Brasil, houve uma espécie de levante contra o humor, especificamente falando deste humor novo oriundo do circuito stand-up. Nomes como Danilo Gentilli e especialmente Rafinha Bastos foram milimetricamente perseguidos por tudo o que falavam e faziam. A infame piada de Rafinha sobre a gravidez da cantora Wanessa Camargo desencadeou uma série de eventos que culminaram na sua saída da Rede Bandeirantes , aonde tinha dois programas. Um deles o excelente A Liga.
Todos sabem qual a tal piada que levou a este quiproquó todo, entretanto cabem aqui três questões. Era uma piada engraçada, ainda que ofensiva? A honra da moça foi ofendida? O marido dela usou de suas relações  com os patrocinadores do programa para coagir e exigir a cabeça do agressor?
Não, não era uma piada engraçada, foi só agressivo e bobo; o que em momento nenhum pode justificar esse salseiro que foi criado. A honra da moça não foi ofendida. Foi uma situação tão exagerada e imbecil , que uma mera declaração da parte dela : ai que cara mais tonto – resolveria a situação.Quanto ao marido dela, se ofendido tivesse sido. Resolveria a contenda de uma maneira suburbana e prática. Esperaria o agressor na porta da emissora, daria meia dúzia de sopapos por ali e problema resolvido.
Paralelamente a isto tudo, tive a oportunidade de rever filmes dos Irmãos Marx. Contextualizando para a época no qual foram filmados, seriam o ápice do humor agressivo de então. Entendam, que o cinema recentemente tinha passado a ser falado. A censura , via código Hays , ainda não era um problema. Logo a criatividade poderia ser explorada ao máximo, e a verve agressiva de Grouxo Marx poderia e era explorada a exaustão.
Entretanto não era em nenhum momento apelativo. O palavrão e a agressividade podem ser complementos muito bons pro ato de se escrever ou fazer uma piada, entretanto em nenhum momento pode se sobrepor ao texto. O fundamento do humor sempre foi e sempre será a palavra.


p.s: diabo a quatro ( duck soup) na integra no youtube, por favor aproveitem. 


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

uma elegia tardia a um filme muito bom













Se você vive no planeta terra a mais de 20 anos, provavelmente deve ter ouvido falar da Trilogia Poderoso Chefão. A estupenda saga de uma família de Mafiosos , que traça um panorama da América, dos anos 00, ate o fim dos anos 70 do século XX. Filmes mais do que reconhecidos com Oscars e todo o tipo de prêmio cabível a um filme desta magnitude.  Se você não viu a interpretação ainda de Marlon Brando, como o patriarca da família Corleone ; Don Vito, pare tudo o que você esta fazendo e entre no Youtube e veja – o filme está completo e por meios legais para todo infiel que ainda não tenha visto esta verdadeira pedra preciosa.
As primeiras partes são – e merecidamente – classificadas entre os melhores filmes da historia do cinema. Tudo o que é necessário saber sobre o andamento de um bom filme esta la. Suspense, violência, ação, grandes conflitos familiares, atores no melhor de sua forma jogando seu melhor futebol, musica inesquecível, reconstituição de época magnifica , roteiro que é incapaz de ofender a inteligência do espectador. Coisas de uma Hollywood que não mais existe, no qual o dinheiro parece ser a única e exclusiva motivação para se produzir cinema, em detrimento a arte pura e simples, mas este é um assunto que eu tratarei num próximo momento por aqui.
A terceira parte é injustamente mal falada, como uma conclusão aquém do que a saga mereceria. O que é uma tremenda falácia pra começo de conversa. Vale uma pequena reconstituição do estagio que estavam tanto a carreira de Francis Copolla quanto a de Mario Puzo e Al Pacino ( a estrela da trilogia e um dos heróis da casa sem duvida)
Copolla vinha de uma série de fracassos na carreira, tinha se afundado em dívidas para concluir seu Apocalypse Now , e alternando entre filmes grandiosos como Do Fundo do Coração , e coisas menores como Tucker tinha perdido sua verve de diretor influente e garantia de bilheteria. Ou seja, não poderia impor seus projetos aos grandes estúdios , não podia contar mais com os grandes nomes para estrelar suas obras. Tinha se tornado um mero diretor operário padrão.  Mario Puzo vinha de romances problemáticos e fracos em venda, experiências mal sucedidas no cinema , e também não tinha o vigor de outrora.
Al Pacino vinha dum hiato de alguns anos sem filmar, graças a vicio em drogas e álcool. E do grande ator que era tinha se tornado um ator problema, mais conhecido pelas constantes manchetes em tabloides sensacionalistas.
Junte-se esta formula, e se tem um filme niilista ao extremo. Copolla talvez se vendo na persona de Michael Corleone, não tem pudores em entregar o personagem as situações mais extremas de fragilidade emocional. Do leão austero e violento do segundo filme, capaz de mandar matar até mesmo o próprio irmão, vemos um gato acuado, com temores e doenças da idade, com a voz enfraquecida e corroendo-se pela culpa das suas decisões passadas, por mais certas que possam ter soado num primeiro momento
A melhor maneira de se entender a saga , é como uma Opera baseada na ascensão e queda da persona de Michael Corleone. O jovem inseguro que almejava trilhar um caminho pessoal no primeiro filme, mas que por fatos alheios a sua vontade se torna um gangster pior ainda do que o seu pai foi no segundo filme, se torna um velho triste no terceiro. Colhendo os frutos de tudo que errado que fez na vida. As traições a mulher, a culpa pela morte do irmão, a distância dos filhos, a associação com pessoas de moral duvidosa que o tornaram poderoso como era. Enfim esta terceira parte é duma tristeza , que chega a ser dilacerante.
O filme não era sequer para ser chamado de O Poderoso Chefão, e sim “A Morte de Michael Corleone”. O que talvez explicaria um pouco mais do que deveríamos entender da personagem de Al Pacino. O Michael Corleone deste filme não era a mesma coisa, ele tinha morrido da maneira de que era O que tinha sobrado era somente um farrapo. Um filme do tempo que Hollywood era inteligente, sem duvidas



Obs 1: fica mais do que recomendada a edição da série em bluray. Meticulosamente restaurada , com a fotografia no auge da sua beleza conforme deveria ter sido sempre. Realmente é outro filme, se comparado com a edição em dvd.
Obs2; assista com os comentários ligados, garanto que vale cada minuto das 9 hrs que os três filmes tem. 



terça-feira, 8 de novembro de 2011

A PELE QUE HABITO



Algumas postagens atrás  , para tratar da falsa polêmica do #sandyfazanal, escrevi mal e porcamente sobre Jean Baudrillard e sua concepção de hiper-real, de sociedade da imagem e etc.
Baudrillard foi cantado como a inspiração maior para a concepção dos três filmes da série  Matrix pelos próprios diretores, os irmãos Wachowski, bobagem comprada por jornalistas e  professores de filosofia de meia-pataca mundo afora e que o próprio Baudrillard fez questão de desmentir.

Pode não ter a ver diretamente com as teorias do filósofo francês, mas as questões que envolvem identidade e imagem e o conflito contemporâneo entre elas (existe,afinal de contas, a tal identidade?) estão muito mais presentes no novo filme de Pedro Almodóvar, A Pele que Habito, do que na trilogia norte-americana.  Almodóvar trata essa problemática à sua maneira sanguínea, nos apresentando a tranformação do interno (a identidade)  pela tranfiguração do externo(a pele), via transsexualismo.

E,além disso tudo, é um grande e assustador Almodóvar, com um Antonio Banderas pairando acima de tudo.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

OSCARITO+GRANDE OTELO=ARTE


Sexta-feira,21h, descobri, tem Sessão Cinemateca na TV Justiça. E o melhor, domingo, 18h30,reprisa. Assisti Aviso aos Navegantes, de Watson Macedo, com os gênios Oscarito e Grande Otelo.

Que vitalidade, que diferença do humor pré programado,a narrativa mastigada e as piadas telegrafadas das comédias da Globofilmes hoje em dia. Há em Aviso aos Navegantes inteligência nas imagens.

Oscarito é um clandestino no navio em que Otelo é cozinheiro. A cena em que este o descobre é sensacional; a câmera passeia por Otelo checando grandes caixas de alimentos. Na tampa de cada uma, a descrição, “arroz”,feijão”, etc. Na última,Giló”. Otelo pensa um pouco, abre a tampa e vê Oscarito lá escondido. Não precisa explicar nada e se entende tudo. Ali naquela caixa devia haver algo de primeira necessidade que ele jogou fora para poder se esconder e resolver dizer que havia jiló que,claro, ninguém no restaurante iria pedir. Só que,atrapalhado como é, escreveu com “g”.

É puro cinema, a arte de dizer com as imagens.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

X-MEN, ÚLTIMA CLASSE

Que há com certos filmes? Ou melhor, que há com quase todos os filmes feitos em Hollywood?
 Assisti a X-Men-Primeira classe. O nome parece propaganda de companhia aérea, mas é filme de super herói. Eu tenho uma tremenda boa vontade. Sou dos poucos que gostaram até do terceiro filme da série. Mas esse já é demais.



Teve um crítico, acho que foi o Cássio Starling, que escreveu que estes filmes de heróis jogam pros fãs, então não se dão o trabalho de construir personagens, motivações,nada. Aqui então a coisa chegou no limite. Tem uma moça com poderes. Ela é dos mocinhos. Chegam os mutantes do mal, trucidam os soldados que a protegem, trucidam um dos colegas dela e, com duas ou três frases o vilão consegue convencê-la a lutar a seu lado, contra seus amigos. Tudo por que algum humano normal bem do xereta os tinha espiado pela janela um dia antes e dito que não gostava de mutantes. E é assim o filme todo. Incomoda, vc não consgue engolir nada do que está ali. Tudo acontece pra ser como aquilo que os fãs sabem que é nos gibis e pronto.

Meu amigo Mario Cesar insiste em dizer que as melhores cabeças dos EUA foram pra TV. Não só ele, um bocado de gente diz isso. O Inácio Araújo, por exemplo. Eu ja começo a achar que os atores também estão debandando pra lá, porque os papéis, os roteiros, os diretores, tudo está aquém de qualquer pessoa com um pingo de talento. Que fiquem no cinema caras como o James Franco, que não tem nada a oferecer.

E a nós, graças a Deus, resta Breaking Bad, Mad Men, Sons of Anarchy ,Bórgias e tantas outras maravilhas na Tv a cabo. Porque a aberta...

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O QUE O MACACO TEM A NOS DIZER? – PARTE 2


Filmes estrelados por chimpanzés estão certamente entre os mais chatos da história do cinema. Filmes de cadeia,por sua vez, são os mais cheios de clichês. Dizer que este Planeta dos Macacos- A Origem é uma somatória dos dois(afinal a segunda metade é um filme de cadeia) é um tanto de verdade e outro tanto de maldade.


Agora enxergar paralelos entre o Julio Cesar de Sheakspeare e este filme,por causa das citações, já é caso de miopia intelectual. E por falar em citação, à feita ao “Ran” de Akira Kurosawa ,na cena com os gravetos, é na verdade é um caso de apropriação indébita que beira o ridículo.*

Dizer que ele está acima da média Hollywoodiana ,como disseram por aí,não é a priori nenhum elogio dado o abismo em que lançaram a qualidade do cinema americano nos últimos vinte anos. Planeta dos Macacos- A Origem, sejamos sinceros, tem seus momentos, mas não é grande coisa.

O que impressiona,claro, é a perfeição de recriação por computador dos macacos,cortesia da Weta Digital, empresa de Peter Jackson, diretor dos mastodontes digitais Senhor dos Anéis e King Kong . Mas isso,convenhamos, é como que obrigação dos filmes dos grandes estúdios desde os dinossauros de Jurassic Park, de Steven Spielberg . Cada filme que chega é mais realista que o que aquele que o antecede, como Cesar é mais perfeito que o Kong.

De fato, o filme amontoa clichês, sobretudo na segunda metade, quando vira um filme de cadeia. Tudo ali foi preguiçosamente reproduzido de outros filmes na base do Control C-Control V. Isso sem contar o arsenal de frases de efeito como “o que aconteceu com você? Você costumava ser o melhor”. Os personagens humanos então, nem se fale. Destaque negativo para Tom Felton, que reprisa o papel de Draco Malfoy na série Harry Potter no domínio da autocaricatura (o que já eera ruim fica pior).
Macacos me mordam...

Mesmo assim o filme foi um sucesso estrondoso. E não se pode negar suas qualidades. O despertar de Cesar, quando grita “não” a plenos pulmões é poderoso e emocionante. O combate na Golden Gate é bacana ,tirando,claro, o momento “sentimental” estrelado por um gorila e com direito a câmera lenta. E a primeira parte tem lá seu interesse.


Mas o que esse macaco tem a dizer que tanto cativou o público? O que salta aos olhos logo de cara é que ele não é mais uma metáfora do excluído socialmente, como fora em dado momento da série original. E com isso perde-se a oportunidade de criar um diálogo com uma questão importante e fundamental tanto nos EUA quanto na Europa, a do imigrante, aquele ser estranho, diferente, até assustador com quem aqueles que se consideram superiores são obrigados a conviver. Visto assim o filme parece só um desfile de efeitos especiais de primeira (pelo menos até que chegue ás telas o próximo arrasa-quarteirão).

Mas o “não” de Cesar é intrigante. César,aliás, é um nome inapropriado, afinal ele pouco tem em comum com o legislador romano. Tem mais a ver, na verdade, com Moisés, pela maneira com que guia seu povo para uma terra prometida livre da sujeição do opressor que se recusa a recohecer sua superioridade. É essa postura que,penso, remete diretamente ao “Yes,we can” de Obama, mais por negação do que outra  coisa.
O slogan do presidente era tão somente a verbalização das histórias de superação tão comuns no cinema (cujo exemplo mais bem acabado é o do boxeador Rocky Balboa) e que agora parecem tão deslocadas da realidade, quando os EUA se mostram incapazes de curar as próprias feridas e que dirá as do resto do mundo(no que eles sempre acreditaram).E logo o mundo, que lhe atravanca o desenvolvimento.Era melhor que não existisse.

Parece que o “não” dito por Cesar significa um “já basta” de pensar no mundo globalizado, uma necessidade de voltar à terra prometida onde o homem não dependia tanto dos outros e podia fazer sua vida por si só.

Porque hoje o a globalização enterrou o american way de uma maneira que nem a guerra do Vietnã foi capaz. E os americanos, eles próprios (os banqueiros, as seguradoras, Wall-Street)  oprimem seus pares impondo a eles penúria quase sem precedentes.
É melhor os americanos buscar outra terra que emana  leite e mel porque esta já era.


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O QUE O MACACO TEM A NOS DIZER? – PARTE 1


Planeta dos Macacos- A Origem, fez um barulho enorme nos EUA e seu desempenho nas bilheterias surpreendeu até mesmo 20th Century Fox, estúdio que produziu o longa.

Planejado como refilmagem e ao mesmo tempo reboot da série iniciada em 1968, esta versão tem diversas homenagens aos outros filmes espalhadas pelos 105 minutos de duração. O mais contemplado com as referências, é claro, é o quarto filme da série, Conquista do Planeta dos Macacos, de 1972, que também mostrava o macaco Cesar sofrendo o pão que o diabo amassou nas mãos dos humanos e depois organizando a rebelião dos símios. Os testes de inteligência , o laboratório, a prisão para macacos ,o cientista malvado e até a batalha nas ruas de Washington, está tudo lá. E há também referências aos outros filmes, como a versão de Tim Burton, logo na abertura ou o “tire suas patas sujas de cima de mim, seu macaco imundo” dita por Charlton Heston no primeiro filme . 


 
Este A Origem tem algo mais interessante em comum aos outros filmes da série (com exceção, talvez,ao de Burton);como todos eles enfraquece e esvazia o sentido do filme original. A última e chocante cena (se você não conhece, me perdoe, mas vive em outro planeta) mostrava a Estátua da Liberdade destruída e os urros de desespero de  Heston dizendo “vocês finalmente fizeram isso, seus bastardos”. Era um clamor anti-violência em tempos de Guerra Fria , Guerra do Vietnã ,movimento pelos direitos civis nos EUA e estudantes marchando pela Europa e que mostrava qu,e em virtude da auto destruição do homem pelo homem, os macacos tomaram-lhe o lugar como donos do mundo, metáfora irônica para a selvageria do homem dito civilizado.

O que se seguiu foram tentativas de mostrar como os macacos ficaram inteligentes e pelo menos nisso o terceiro filme, Fuga do Planeta dos Macacos, de 1971, se mostra instigante, porque cria um paradoxo temporal. Cornelius e Zira, os macacos bonzinhos do primeiro filme, voltam no tempo e lá (ou aqui) tem um filho, Cesar, que é quem desencadeará os fatos que deram origem ao primeiro filme (que,é bom lembrar, se passa no ano 3 mil lá vai fumaça). Então é uma guerra nuclear (?) entre macacos e homens (???) e não mais entre os humanos, que leva ao fim do nosso mundo.

A continuação desse A Origem é tão certa enchente em São Paulo  no verão.  É provável que ela seja  uma espécie de recriação do obscuro A Conquista do Planeta dos Macacos, de 1973, último filme antes da ótima refilmagem do primeiro episódio por Tim Burton, em 2001, que fracassou nas bilheterias e havia enterrado, até agora, a idéia de ressuscitar uma franquia que já teve até série de TV e desenho animado .

Falei,falei e não disse nada sobre o filme mais recente. Isso fica pra próxima postagem.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

FILMES " BARROCOS " (Atualizado)

Diz-se que o horror italiano é barroco ou que tal e tal cineasta é barroco. Com toda imprecisão que a definição ganha ao ser tirada de seu contexto original(pintura,escultura e arquitetura- e sobre isso já tratamos aqui neste blog ) pode –se dizer que barroco, no cinema, é um

termo que conota o bizarro,a complicação ou a estranheza, é utilizado para designar uma arte muito ornamentada,extravagante,sofisticada,com preciosismos
(AUMONT,MARIE, pg31).

De todo modo é interessante forçar as fronteiras só para ver o alcance e a limitação do termo.

O filósofo Heinrich Wölfflin, no início do século 20, procurou estabelecer uma metodologia que permitisse estabelecer categorias capazes de caracterizar a arte e,assim, definir os estilos artísticos. Para o alemão existiriam pares de conceitos opostos, um caracterizando a pintura renascentista, outro a barroca. Seriam eles:

Linear em oposição a pinturesco, planar em oposição a recessional , forma aberta sendo o oposto de forma fechada e,por fim, multiplicidade diferindo de unidade.

As pinturas Renascentistas,para Wölfflin, seriam lineares (os contornos das figuras são perfeitamente delineados e elas recebem luz de maneira uniforme),planares(os planos de profundidade são paralelos), fechadas(a composição é equilibrada, com figuras secundárias ou cenário “fechando” o quadro em torno da figura principal) e unidas(essa categoria se refere à maneira como cada elemento parece isolado pela luz, tendo sua cor própria, independente da influência de outros elementos).


ESCOLA DE ATENAS(1509-1511) Rafael, afresco na Stanza della Segnatura,Vaticano.

Uma pintura barroca, em oposição, teria os contornos das figuras obscurecidos pelo jogo de luz e sombra(as pinceladas mais ágeis), as figuras não em planos paralelos, mas numa profundidade dada por linhas diagonais, portanto não contidas dentro do próprio quadro por nenhum elemento e cujas cores se misturam, de uma figura para outra, de uma parte a outra da mesma figura.



Seria ingenuidade tentar transferir um a um os conceitos de Wölfflin para o cinema,mas é interessante notar que,pelo menos, uma das características presentes em “Suspiria” e “Máscara do Demônio” é correspondente : o uso da perspectiva em diagonal.

A “sofisticação” a que se refere Aumont é aquela que já discutimos aqui (ver postagens sobre o "Rococó") e que claramente está presente no cinema de Bava e Argento na forma de elementos de cena que muitas vezes são lançados para o primeiro plano, indo além da construção de cena comum, em que os atores estariam em primeiro plano e o restante seria meramente descritivo (para sabermos que aquilo é uma floresta e que as pessoas envolvidas são monges). Aqui o conjunto ganha em expressividade(não vamos falar em “expressionismo” pra não complicar de vez as coisas) e dramaticidade. Dramaticidade, aliás, conseguida também por meio do violento jogo de luz e sombra “caravagesco”. Mas , é bom sempre repetir, não da par ser sistemático quanto a  isso: são apenas aproximações possíveis.

                                          Rembrandt: A ronda noturna(1642)

Apenas para que o leitor não fique alheio: Como maneira de se definir o barroco, ou mesmo de procurar um meio de explicar o que define um estilo artístico, a análise de Wölflin, apesar de criteriosa e instigante, é considerada ultrapassada porque

permite uma análise sistemática do próprio produto artístico que se limita à sua descrição,compreensão e explicação,sem considerar a expressão de juizos de valor:fornece o método para reconhecer o mecanismo e o código de cada poética, excluindo a interpretação valorativa e intuitiva da obra de arte,inclusive o recurso análise extra textuais,como baseadas em documentos históricos

(CALABRESE,1987,24)

BIBLIOGRAFIA UTILIZADA

AUMONT, Jacques/ MARIE,Michel. Dicionário teórico e crítico de cinema. São Paulo: Papirus,2003.

AUMONT, Jaques. O olho interminável (cinema e pintura).São Paulo: Cosac Naify,2004.

CALABRESE, Omar. A linguagem da arte. São Paulo: Globo,1987.

WOODFORD, Suzan. A arte de ver a arte. São Paulo:  Circulo do Livro, 1983

Sobre Dario Argento , Suspiria e Mario Bava (fontes digitais)


Os esqueletos da imagem: o enigma do espaço em Dario Argento, por Jean-Baptiste Thoret ( Tradução: Luiz Soares Júnior). Disponível em:
http://dicionariosdecinema.blogspot.com/2011/02/o-esqueleto-da-imagem-o-enigma-do.html

Dario Argento- by Xavier Mendik. Revista digital "Senses of Cinema". Disponível em:
http://www.sensesofcinema.com/2003/great-directors/argento/

Kinoeye - new perspective on european films - edição especial Dario Argento. Disponível em:
http://www.kinoeye.org/index_02_11.php

Mario Bava’s Black Sunday aka The Mask of Satan By Christopher J. Jarmick. Disponível em:
http://www.sensesofcinema.com/2003/cteq/black_sunday/

























AUMONT, Jaques. O olho interminável (cinema e pintura).São Paulo: Cosac Naify,2004.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

DARIO ARGENTO- 3

Suspiria

Um conto de fadas de horror


Para este filme Argento fez questão de trabalhar com o Technicolor, sistema já ultrapassado que tinha o inconveniente de empobrecer as nuances de cor. Para ele isso não era problema, pelo contrário, por que realçava as cores puras (tornando o vermelho ainda mais gritante) numa tentativa de mimetizar a paleta de cores do desenho animado da Disney, Branca de Neve. Por bom motivo: o sobrenatural, que ganhava espaço sobre o racional filme a filme, aqui toma conta e Suspiria, com a história de uma jovem bailarina que desce num aeroporto rumo à um prédio antigo e assutador no meio da floresta, não é outra coisa que não um conto de fadas, como aliás entrega o narrador em off logo antes dos créditos, como alguém que diz “era uma vez...”.


De fato há ainda a persistência do racional na presença de especialistas que “explicam” a bruxaria, no entanto não é a lógica que sustenta o filme, pelo contrário, desaba diante dele. Coisas acontecem sem explicação alguma ,como um braço que assassina um das jovens do internato. De onde vem? De quem é? Não se sabe.

Ocorre de início em Suspiria a cisão entre espaços, o moderno (civilizado) e o antigo (domínio do sobrenatural). A chuva torrencial com que a bailarina Susan Baynion é recebida no aeroporto é ao mesmo tempo a barreira a ser rompida entre os dois mundos mas também presságio do mal que virá. Sua volta, ao final do filme, induz mais ao mal-estar do que ao alívio,com seria comum. Ela não é um banho na alma, metáfora de purificação ou liberdade. Dado sua primeira aparição sinistra, indica uma permanência do mal , sua mutação, de fogo em água. Nisso Argento parece nos levar de volta à chuva que impede a fogueira de matar Asa, a princesa-bruxa de Máscara do Demônio, monstro ressurreto tal qual a Helena Markus de Suspiria.


De fato há ainda a persistência do racional na presença de especialistas que “explicam” a bruxaria, no entanto não é a lógica que sustenta o filme, pelo contrário, desaba diante dele. Coisas acontecem sem explicação alguma ,como um braço que assassina um das jovens do internato. De onde vem? De quem é? Não se sabe.

Ocorre de início em Suspiria a cisão entre espaços, o moderno (civilizado) e o antigo (domínio do sobrenatural). A chuva torrencial com que a bailarina Susan Baynion é recebida no aeroporto é ao mesmo tempo a barreira a ser rompida entre os dois mundos mas também presságio do mal que virá. Sua volta, ao final do filme, induz mais ao mal-estar do que ao alívio,com seria comum. Ela não é um banho na alma, metáfora de purificação ou liberdade. Dado sua primeira aparição sinistra, indica uma permanência do mal , sua mutação, de fogo em água. Nisso Argento parece nos levar de volta à chuva que impede a fogueira de matar Asa, a princesa-bruxa de Máscara do Demônio, demônio ressurreto tal qual a Helena Markus de Suspiria.

Os sons e o olhar

Se há um sentido profundamente enganoso em Suspiria, este é o olhar. É por meio dele que se comete todos os equívocos, é ele quem induz a julgamentos errados. Não à toa o personagem do pianista cego, antes de todos (e mesmo antes de nós, espectadores guiados pela visão) é que sabe o que realmente ocorre na mansão. “Eu sou cego, não surdo” ele sai dizendo ao ser expulso. A morte chega também para a garota que contempla sua imagem refletida na janela, durante uma noite chuvosa.


De fato, se o olhar é enganoso, a audição é indício constante da presença do mal.A trilha sonora composta pela banda de rock progressivo Goblins incorpora sons diversos, gemidos, sussurros que conferem vida ao inanimado e indicam essa presença fantasma, esse mal que percorre os domínios da mansão mas que em momento aalgum tem forma definida. Pelo contrário, ele(ou ela) é a indefinição completa, expressa somente pelos sons e por “imagens” que nada mostram. Como diz Jean Baptiste-Thoret:

“Quando o personagem penetra no lugar, o espaço subitamente se anima: gemidos e ruídos estridentes surgem na trilha sonora, sombras e manchas luminosas desfilam nas fachadas, até que um movimento de câmera- encarregado de reproduzir o ponto de vista ( ou o espírito?) de uma gárgula- fende o ar até o centro da praça. Tudo concorre aqui a movimentar o espaço, a transmitir a sensação de uma atividade espiritual ou orgânica, como se no coração destas estruturas imóveis palpitassem forças vivas e desconhecidas"

segunda-feira, 23 de maio de 2011

DARIO ARGENTO- 2

OS FILMES GIALLO


Apesar de Suspiria ser um dos melhores filmes de horror já feitos e a obra-prima de Dario Argento, o diretor estreou em 1970 com “O Pássaro das Plumas de Cristal” , filme do gênero giallo que,aliás, o fez célebre. Giallo na Itália é um gênero amplo, que engloba todo tipo histórias de mistério, trillers e suspense, freqentemente com um sujeito qualquer, que investiga crimes ajudando(ou à margem) da polícia. O nome vem de livrinhos baratos de capa amarela com tramas meio ao estilo Agatha Christie,bastante populares por lá.

Argento não era um novato, claro. Já tinha uma carreira como crítico de cinema em Roma quando, junto de Bernardo Bertolucci, escreveu o roteiro de “Era uma vez no Oeste”(1968), para Sergio Leone.

O Pássaro das Plumas de Cristal e seu filme seguinte, “O Gato de Nove Caudas”(1971), valeram a Argento o apelido de “Hitchcock italiano”, mais pelo estilo utilizado em algumas das cenas do que pelas tramas (o diretor inglês não fazia filmes de mistério*). Desde o primeiro longa algumas marcas já se impõem: um personagem cego, animais ocupando parte importante da trama ,a presença de um personagem masculino fraco, dominado por mulheres cruéis e mortes chocantes cujas vítimas freqüentemente são...mulheres.

As cenas ultra-violentas,aliás, se tornam a assinatura do diretor italiano,que faz o possível para se superar a cada filme. Mas também é marcante o fato do herói ser alguém de certa forma(ou amplamente) impotente perante os acontecimentos(em “O gato...” é um cego) e cujos erros na investigação não raramente causam mortes inocentes.

“O Gato...” traz uma guinada em relação às tramas tradicionalmente racionais dos giallo,feitas de deduções lógicas coerentes: a influência do absurdo, inexplicável, do fantástico. O desfecho do filme parece absurdo, incoerente, o que irrita muita gente.
                                                               "O Gato de Nove Caudas"

Seus filmes seguintes, apesar de não abrirem mão de personagens e tramas racionais, pendem cada vez mais para o fantástico. O ápice antes da guinada é “Profondo Rosso”,de 1975, que marca também a aproximação de Argento com o chamado cinema “de arte”, especialmente Michelangelo Antonioni.

A guinada,claro, é Suspiria, quando o fantástico toma a forma do horror e a investigação racional chega a ser quase um corpo estranho no organismo do filme. Quase.
 Cena de "Profondo Rosso"



* Hitchcock usava um exemplo para diferenciar suspense de mistério. No filme de mistério o assassino ou culpado só é revelado ao público e aos demais personagens no final. Trata-se de uma surpresa. No suspense sabe-se de início quem é o culpado(ou algo assim), mas os personagens,no entanto, ignoram.

terça-feira, 3 de maio de 2011

A GUERRA NO CINEMA


De ontem pra hoje só se fala na morte de Bin Laden.Pudera, visto que ele fez o que fez. Também,pelo mesmo motivo, não dá pra recriminar a comemoração do povo americano,assim como não dá quando queimam a bandeira americana dando tiros para o alto. São ações movidas pelo ódio, cada qual com seus motivos e todos sem um pingo de disposição a entender o outro lado. São as guerras e é assim desde que o homem é homem.

Curioso como os urros de “U-S-A, U-S-A” em praça pública ( que mostram o quanto esse país pode ser fundamentalista) nos remetem diretamente Gerard Butler berrando “This is Sparta!” em “300”, filme de Zack Snyder, espécie  de reprodução imagem a imagem da graphic novel de Frank Miller, “Os 300 de Esparta”(publicada no Brasil pela Abril e pela Devir).











Os povos orientais,representados pelos Persas, são obscurantistas, idólatras, feiticeiros e monstruosos . O eixo do mal, para usar uma expressão de George W.Bush. Contra a dominação deles se erguem os guerreiros honrados e destemidos que preferem morrer a ver seu ideal de pureza ser conspurcado. 300(o filme mais do que HQ , porque lida com imagem e não desenho) é francamente nazista em seu ideário de beleza e perfeição. Como não enxergar correspondência
na fascinação pelos corpos masculinos do cinema nazista de Leni Riefenstahl?















Normalmente quando se fala em “ideologia” se pensa imediatamente em algum engravatado num escritório moldando as coisas para fazer o público pensar de tal modo, manipular as pessoas. Não é assim. Ideologia é apenas(pelo menos nesses casos em que eu menciono) as convicções de uma nação. Claro, já funcionou de outra maneira, durante a tal política da boa vizinhança, governo Roosevelt, aquela coisa do Pato Donald dançando com Zé Carioca e os filmes que a Carmem Miranda fez nos EUA. Mas era outro cenário, outra coisa, tratava-se de conquistar corações e mentes durante a guerra fria.

Mas 300 (filme e HQ) é caso extremado como o é a figura ultra-direitista de Miller. Normalmente as coisas se dão mais pela construção oportunista de heróis e vilões e o caso mais evidente para nós,agora, é o de Rambo 3, dirigido por Peter MacDonald em 1988.

Lá vemos Rambo ajudando o pobre povo afegão,  a se armar e enfrentar os cruéis soviéticos que ocupavam seu território. A história se provou mais cruel do que os vilões do filme, uma vez que os tais pobres afegãos(que foram de fato treinados pelo exército dos EUA) se tornaram o Talebã e a Al-Qaeda. Ou seja, lá,entre os colegas de Rambo,enfrentando helicópteros enormes no lombo de um cavalo, estava Osama Bin Laden.