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segunda-feira, 11 de junho de 2012

Vagabond


Miyamoto Musashi é uma espécie de Lampião japonês, figura histórica sobre a qual pairam tantas lendas que em certos casos fica difícil saber o que é real e o que é mito. Tal qual o cangaceiro, o espadachim teve vida errante à margem da lei e cheia de enfrentamentos que viraram matéria prima para livros,filmes,séries de Tv e quadrinhos.

Aqui é Takehiko Inoue quem parte da vida do "vagabundo" para contruir uma obra notável na forma de mangá. E que talento ele tem. Nas primeiras edições Musashi é retratado como um "animal selvagem", lutador sem técnica apurada mas muita ferocidade. A imagem acima,onde ele aparece descabelado e com as costas arqueadas, não podia  ser retrato melhor.

Além do notável uso do hachurado para as sombras, salta aos olhos do leitor os rostos dos personagens, sua corporalidade e também detalhes como o modo realista com que os cabelos se desmancham ao vento (bem diferente do desnho padrão, aquele que se aprende em escolas e em que todo cabelo voa do mesmo jeito numa ventania)- acima um adversário de Musashi.

Um dos momentos mais impressionante da saga nos dá mostra justamente do pleno domínio de Inoue sobre os corpos de seu personagens. Um lutador decaptado não morre com uma expressão de horror(que coisa tão banal e comum seria!) mas sim com a expressão que detinha no exato momento em que fora atingido. Seu corpo,ainda que tombando, continua a correr na mesma direção, a cabeça,no entanto, salta no espaço. E a mão, detalhe dramático,continua a agarrar com força um saquinho que havia sido mostrado em close um quadrinho antes.


Publicado pela Conrad Editora em Vagabond 25, dezembro de 2003.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

REVIRANDO O BAÚ DOS GIBIS VELHOS


Que eu não tenho tempo pra escrever é sabido. Então aproveito para, daqui em diante, compartilhar boas descobertas que tenho feito ao desentocar minha coleção de quadrinhos, já que estou de mudança.
Começo com o primeiro exemplar da revista Caçadores, publicad pela Abril Jovem em maio de 1990. Nela, uma história (originalmente de dois anos antes) escrita pelo lendário Dennis O´Neil e desenhada pelo insensado Klaus Janson, então famoso por ter  recentemente  arte finalizado o Cavaleiro das Trevas de Frank Miller.

Apesar das referências, o começo da leitura vai mal. Os desenhos parecm ruins, o traço desleixado de Janson não parece responder a uma proposta expressiva nem a um tipo de linguagem coerente. Não parecem sequer um estilo definido. Ja a história é lotada dos clichês mais batidos possíveis. Tem um sábio japonês com suas frases a la Mestre Yoda e um vilão, o Pinguim, buscando soltar um veneno que "mata só mulheres e criancinhas".

Com tudo isso contra, como poderia "A armadilha do macaco", história que abre este volume, ter algum valor? A sequencia final, de duas páginas, quando Batman vai visitar Talia, filha de seu arquiinimigo e apaxoinada pelo heróis, é primorosa. Não há nada além da moça numa cama de hospital dizendo o que pensa e um Batman impotente e imóvel(a imoblidade é a antítese do superheróis, criatura que é só movimento)  . Parasse por aí essa seria só uma bela versão das várias vezes em que ele teve de negar o amor da moça, por ser filha de quem é, mas ele, apenas dizendo "também não posso esquecer de quem eu sou" explicita que sua obsessão em ser herói é ualgo que o fere, uma dependência que dói até mesmo no leitor. E termina com três quadrinhos arrasadores que desnudam uma fragilidade insuspeita e surpeendente do Homem Morcego. Brilhante.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

100 BALAS, VOL.7

Acaba de chegar às bancas o Vol.8 de 100 Balas. este texto,claro, trata do volume anterior, publicado em outubro do ano passado, mas cujas histórias prosseguem no volume atual.


Escrita. Boa.Pra. Caralho”. É desta maneira, enfática e praticamente impublicável, que o premiado roteirista americano Greg Rucka, autor de Whiteout e Gothan City contra o Crime,define, na introdução do sétimo volume da série 100 Balas, o trabalho da dupla Brian Azzarello e Eduardo Risso.Para Rucka, trata-se de literatura o que Azzarello e Risso fazem, dada a incapacidade dos rótulos e gêneros (pós-noir, policial, ação) darem conta de 100 Balas. É claro que é uma bobagem(são artes diferentes, ora bolas) mas dá pista da empolgação que toma o leitor, mesmo quando ele é um artista experimentado como o americano.

O que Greg Rucka diz de mais interessante é que o desenhista argentino Eduardo Risso é também autor da série, o que é quase inédito numa arte em que o desenhista é muitas vezes mero artesão das idéias do roteirista. E ele está certíssimo em afirmar isso.

O que são aqueles rostos, aqueles corpos e aquelas expressões? Ligue a Tv e você verá que nem dez por centos dos atores hoje em dia são capazes as nuances, da profundidade de alma que o traço de Risso é capaz de trazer à superfície do papel.

Seus cenários são pulsantes como eram os do cinema americano dos anos 1970. Personagens meramente coadjuvantes tem vida (no sentido mais amplo)e personalidade, não estão ali meramente para compor uma cena. Flagramos trivialidades o tempo todo que são insights , relances de vidas que nunca conheceremos .

Risso é , em si, um uma equipe inteira de cinema(direção, figurino, fotografia, direção de atores) tamanha a complexidade de seu trabalho, simples só na aparência. Mas ele é ainda mais.

Em dado momento, em um clube de jazz, a figura (estática,porque desenhada)de um saxofonista serve para separar os quadros,criar uma atmosfera e demonstrar a passagem do tempo. Isso demonstra o calibre de seu talento como quadrinista.

Sobre a arte de Azzarello em construir tramas e personagens é melhor não dizer nada aqui, afinal Rucka fala muito,e bem, em seu texto.

Pouco importa se a esta altura (que corresponde aos números 37 a 42 da série original) se você não sabe nada sobre os tais Minutemen ou o misterioso cartel ou o que fez o agente Graves. 100 Balas é quadrinhos em estado de glória e deve ser visto,lido e experimentado como a grande arte que é.


















quinta-feira, 14 de julho de 2011

TEMPOS DE CRIATIVIDADE E INVENÇÃO NAS HQS DE SUPER HERÓIS


Houve um tempo em que nem tudo era tolice adolescente nas HQs de super-heróis. Depois do cataclisma causado por Alan Moore(Watchmen/ A Piada Mortal) e Frank Miller (O Cavaleiro das Trevas) no final dos anos 1980 , toda trama de ivasores galácticos e vilões verborrágicos a fim de dominar o mundo pareciam insuportavelmente ridículas.

E fez-se a luz, ou melhor,  as trevas. Temas sombrios, abordagens complexas, num cenário fazia lembrar a nova Hollywood, quando a derrocada dos grandes estúdios tradicionais abriu as portas para uma geração de cineastas jovens, ousados e dispostos a fazer trabalhos autorais e absorver as inovações do cinema moderno europeu, como Francis Ford Coppola, Peter Bogdanovich, Martin Socorsese, Willian Friedkin e até mesmo Steven Spielberg e George  Lucas. Entre outros,claro.

Surgiram,então, nos anos 1990, uma profusão de graphic novels, onde os artistas tinham boa dose de liberdade para inovar, tanto na temática quanto no apuro visual. As imagens acima são dois bons exemplos. A primeira é da graphic "Batman-Houdini- Oficina do Diabo", de 1995, publicada pela editora Abril e que imagina o Homem-Morcego no início do século 20 às voltas com o maior escapista de todos os tempos. O argumento é de Howard Chykin e John Francis Moore e a arte de Mark Chiarello. A segunda é de "Gritos na Noite", escrita  por Archie Goodwin e pintada  por  Scott Hampton,  é de 1993 (também trazida pela Abril). Curiosamente ambas tratam de violência contra crianças.  Na primeira o tema é atenuado, porque obra do supervilão Coringa;na segunda o tratamento é mais contundente, porque cometida por criminosos comuns e baseada em fatos tristemente reais.

É interessante notar a maneira como cada uma usa a página expressivamente, branca-sépia, no primeiro caso(que realça os desenhos e dá vida à onomatopéia) e em tom de  chumbo, sufocante e opressivo, no segundo caso .
Como em Hollywood, essa fase de ousadia e  vitalidade critaiva durou pouco. Hoje, para atrair leitores,  vale mais um bom truque de marketing  do que bons artistas. Triste que seja assim. Sorte de quem comprou e guardou o material daquela época.

***

Sobre a postagem anterior, é importante notar também o valor da página em branco. Não em si, mas no espaço que o artista deixa de usar porque a repetiução em close da figura do yakuza camponês é bem maior do que a do outro, de brinco. Isso equivale,maol comparando, a incluir uma música que enfatizasse esse close, se isso fosse cinema.  E nos dá a entender quem é mais importante ali ee,mais ainda, qual deles exerce maior impacto sobre o leitor.
Tente imaginar a cena com os dois quadrinhos em tamanhos iguais e você vai saber do que eu estou falando.


terça-feira, 12 de julho de 2011

TRÊS HOMENS EM CONFLITO, TRÊS PERSONAGENS COM VIDA PRÓPRIA


Tem um ótimo artigo na coluna do Sérgio Codespoti no Universo HQ(que infelizmente não é mais publicada) em que ele fala sobre uso de fotografias por desenhistas de HQ para produzir o tal "efeito realista", muito comum hoje nos quadrinhos  de super heróis- http://www.universohq.com/quadrinhos/2009/chiaroscuro_realismo.cfm.
  Sem condenar o uso, Codespoti mostra no entanto sua limitação por artistas pouco talentosos;a página fica engessada, porque submete a composição toda à fotografia.
Ora,  um personagem deve agir, reagir,  mover-se de acordo com o que pede a história, não porque você tem uma referência fotográfica prévia e quer usá-la. Aí já é o contrário, você submete a história (que tem suas necessidades, "chama" por determinada ação) à fotografia.

 Existe um outro problema, que é  desenhar homens e mulheres de acordo  com modelos fixos. Todos tem  o mesmo tipo de corpo(toda mulher tem cinturinha ,peitos enormes e traseiro alongado como o da Pippa Middleton, pra ficar num exemplo famoso). 

Os rostos não tem individualidade, até porque trazem uma ou outra mínima variação do modelo. Enfim, nada disso é o que vemos numa série fantástica como Sanctuary, mangá que infelizmente teve sua publicação interrompida no Brasil pela Conrad.  Até é  provável que Ryoichi Ikegami, o artistaa,  tenha usado referência fotográfica, mas  ele soube submeter suas imagens à uma ordem maior, a da página, e, mais do que isso, dar individualidade aos rostos.  A maneira como se penteia um, como tem a barba por fazer o outro, dão pistas de seus caráteres que a história não explicita. E reparem que o personagem de brinco tem uma ligeira mudança de expressão entre um quadrinho e outro.

O desenho é o mesmo, com excessão de uma marca de expressão embaixo do olho esquerdo do personagem e de seua sobrancelha direita, que se  eleva um pouco. Ou seja, é o que pede a história, que naquele momento tem uma tensão crescente entre os três yakusas. E,solução inteligentíssima, ao simplesmente reproduzir a figura maior (com chapéu de camponês) ele mostra que, após as reações dos outros dois(espanto de um, leve indignação e dúvida do outro) ele permanece impassível, o que é realçado pelo close em seus olhos.
Parece pouco, mas não  é.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

AS TIRAS MERECEM MAIS RESPEITO




O mercado  literário volta e meia  faz compilações de microcontos. Justo.  São inovadores, diferentes, até radicais em sua forma ultra condensada.
Hoje então, quando se tenta dizer tudo em 140 caracteres, podemos pensar se não é esta a mais contemporânea forma de narrar.

As tiras narram usando um espaço exíguo também. Tem a condensação por força de lei.

Pelo menos parte do prestígio  dos microcontos poderiam ter algumas tiras, não fossem os quadrinhos uma arte cadela, sem respeito de quase ninguém e não fossem as tiras,pelo menos aqui no Brasil, sinônimo de  piada, alívio cômico à parte "séria" do jornal.

Há poesia, beleza, melancolia e inocência nesta tira do argentino Liniers.
É arte também. E da boa.


***

"Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá"
- Augusto Monterroso
Mais famoso microconto do mundo.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Y- O ÚLTIMO HOMEM - nº 3

A sensação que se tem ao ler as primeiras 58 páginas de Y- O Último Homem(que correspondem aos números 11 e 12 da série original) é de que a série já sofre certo desgaste. Além do mistério que cercava a morte de todos os espécimes machos da face da terra, com exceção do artista de fugas Yorick Brown e seu mascote, o macaco Ampersand, o ponto forte era a crítica a uma sociedade na prática ainda machista; vários serviços vitais deixam de funcionar porque eram executados quase que exclusivamente por homens. Mas trezentas páginas já tinham deixado isso suficientemente claro, de modo que é necessário mudar um pouco o foco .

A edição passada já anunciava que Yorick poderia não ser, enfim, o último homem uma vez quel havia três astronautas a bordo de uma estação espacial, dois dos quais homens, rumando de volta para a Terra. Mas como a estrutura desta HQ segue as das séries dramáticas de TV com uma história central que não se resolvem e outras menores que, estas sim tem desfecho rápido,imaginamos logo como as coisas devem terminar- é característico também que as coisas mudem para, no fim, continuarem as mesmas. E, para completar, o protagonista cheio de tiradas engraçadinhas já começa a irritar, bem como as insistentes referências a cultura pop( todas devidamente explicadas pela edição brasileira). Aí fica claro o ponto mais frágil do roteirista Brian K.Vaughan, que é a construção de personagens. Deslumbrado com sua facilidade para bolar diálogos “à Peter Parker”ele faz com que todos falem pela mesma boca, da mesma maneira, como se tivessem a mesma formação cultural. Acontece que Vaughan não é qualquer um, longe disso, e resolve a trama dos astronautas da maneira mais previsível possível e, ainda assim, surpreende o leitor.

No entanto o que salva mesmo a edição é o arco composto por duas histórias sobre um grupo de teatro amador que, ao encontrar Ampersand, decide criar uma peça sobre “o último homem da terra” ( referência declarada ao livro homônimo de Mary Sheley, mas também, claro, à HQ) De quebra as moças querem que seu espetáculo seja revolucionário, capaz de tocar corações e mentes, mudar o mundo e mais um pouco, ainda que nenhuma delas tenha um pingo de talento. Metalinguagem complexa e humor afiado fazem deste um dos melhores momentos de toda a série.

Aí o desânimo já foi embora e nos faz esperar novamente pelo melhor.

Ah, sim, no meio de tantas notas explicativas, podia ter sido esclarecido também que, tanto lá como cá, “merda” é o que dizem os atores uns aos outros antes de entrar no palco, como forma de desejar boa performance.

***

texto produzido para o site HQManiacs

PS. Peço desculpas ao leitor. A absurda falta de tempo desta semana impediu a produção dos textos sobre a Bienal de Artes. Farei o possível para postá-los semana que vem.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Enfim, as imagens prometidas. Incluí também "A Morte de Marat" (últ.imagem), pintada por Jacques-Louis David em 1793 e talvez o caso mais célebre desse tipo de derivação na História da Arte. Derivação intencional, porque traz para a morte do revolucionário francês toda a carga dramática ,o ar de santidade, a significação da vítima inocente morta em sacrifício que estavam  contidas nas obras anteriores. 
Pode -se dizer exatamente o mesmo da opção pelo  desenhista George Perez para retratar a morte da Supergirl, na década de 1980, bem como fez Jim Aparo com a morte do Robin em 1989 que eu reproduzi na postagem anterior.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

ARTE SEM FRONTEIRAS

Obs. o blogger está com problemas e teima em não carregar as imagens selecionadas. Retorno semana que vem com textos sobre a Bienal de Arte de São Paulo.

Não existem fronteiras estanques na arte. Mesmo os absolutamente sem talento, os oportunistas ou as pinturas que são vendidas em shopping centers para um público que não conhece arte dialogam em certa medida com a tradição artística seja por imitação, influência de professores ou outra razão.


Entre ao grandes isso não é raro, pelo contrário. Diz Susan Woodford em “A Arte de ver a Arte”(Circulo do livro) :
“Os artistas não criam num vazio.Eles são constantemente estimulados por outrso artistas e pelas tradições artísticas do passado.Mesmo ao reagirem contra a tradição, os artistas mostram sua dependência dela.é o solo onde brotaram e no qual se desenvolveram, e é dele que extraem seu alimento.Eles sabem disso e admitem-no sem constrangimento;o próprio Lichtenstein(Roy)disse: ´ As coisas que tenho manifestamente parodiado, na verdade, eu as admiro”.

E cita como exemplo a revolucionária Almoço na Relva(1863) de Manet cujas figuras estão dispostas da mesmíssima maneira da gravura de Marcantonio Raimondi, “O julgamento de Páris”(1520), esta por sua vez baseado numa pintura contemporânea, de Rafael. A fiura feminina tem seu modelo em esculturas gregas.

Enfim , nada disso é muito diferente do que ocorre com a chamada “cultura de massas”, as HQs de super-heróis no caso. Aqui nós vemos o tema da Pietá de Michelângelo, “repetido” pela “deposição da cruz” de Caravaggio e volta e meia reproduzido quando querem representar a morte trágica de algum super herói.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

AINDA HÁ LUGAR PARA SUPER HERÓIS NO MUNDO?







O quadrinista e cineasta Frank Miller, autor de O Cavaleiro das Trevas, recentemente anunciou que uma história que tinha planejado para o Batman(e que está produzindo há 5 anos)não terá mais o personagem como protagonista. Para ele, a trama que envolvia combate ao terrorismo, não comportava mais o herói. Ele disse, em entrevista ao Los Angeles Times que “Parece-me que sair atrás do Charada parece bobo comparado ao que está acontecendo lá fora” - http://omelete.com.br/quadrinhos/graphic-novel-de-batman-por-frank-miller-nao-vai-mais-ter-batman/




De fato, desde o 11 de Setembro, quando o horror invadiu os EUA sem pedir licença, a fantasia que envolve o combate a supervilões ficou meio sem cabimento. Um caminho tem sido o de adicionar maior realismo às tramas (e,consequentemente,mais violência). É dentro desse quadro que surge essa nova Mulher Maravilha, de traço realista com um traje que pouco lembra o original e qu provocou a ira dos fãs. “Não se mexe no que é sagrado” foi o comentário repetido em sites e blogs. De fato, apesar do peso excessivo da palavra “sagrado”, seria difícil de imaginar tamanha mudança no visual do Batman ou do Superman (a exceção foi o uniforme negro do Homem Aranha). Dizem que é para adaptar a personagem para um filme, o que não az muito sentido, uma vez que os X-Men foram transpostos para a tela grande com mudança no figurino sem que isso acontecesse antes nos quadrinhos.




A verdade é que os uniformes colantes, as cores puras, o desenho estilizado, tudo aquilo que sempre caracterizou as HQs de super heróis tinham a ver com, a bidimensionalidade explícita, com uma concessão forte à realidade. Hoje, quando a mais tola história pede o apelo ao realismo do 3D, o mundo dos Super Heróis fica algo deslocado. E deslocado também ante o perigo real do terrorismo e a impotência de uma crise econômica que dificulta a vida do norte-americano - e cujo vilão não foi senão, o próprio capitalismo norte-americano.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Y- O ÚLTIMO HOMEM


Já saiu o segundo número de Y- O Último Homem, de Brian K. Vaughan (Panini, R$ 16,90), história de um ilusionista meio bobalhão que, após uma praga devastar todos espécimes do sexo masculino sobre a Terra(os portadores do cromossomo Y), se torna o tal último homem. Se nas mãos de um mestre do erótico como Milo Manara (Gullivera, Clic) isso daria numa orgia em escala planetária, aqui teremos, além do mistério que cerca a morte dos homens e animais machos(sobra apenas o macaco que o ajudava nos truques),mulheres querendo matar o pobre sobrevivente e uma série de cutucões na sociedade norte-americana. Por exemplo, boa parte dos transportes e da geração de energia está comprometida porque os cargos eram ocupados majoritariamente por homens. E surgem também todo tipo de rancor que evidencia a posição ainda secundária da mulher na sociedade. Sobra também, claro, para as feministas que, apesar de dizerem um bocado de verdades, se afundam no próprio radicalismo- mostrar o povo norte-americanos sendo capaz de ações fundamentalistas é um feito e tanto. Normalmente, na ficção, isso é sempre “privilégio” dos outros.
Se não fosse por tudo isso, só uma machadada que pega dispara o coração do leitor já valeria a compra da revista.
Pra quem estiver com medo de não entender porque não leu o primeiro número, não tem problema, há um resumo bem completo antes do início da história.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

GÊNESIS






O crítico da Folha São Paulo Ricardo Calil, ao falar de “Sherlock Holmes”, de Guy Ritchie, disse que “um filme não pode ser julgado por sua proposta, e sim pela maneira com que a desenvolve”. Tomo a frase emprestada para tratar de “Gênesis”, de Robert Crumb, versão em quadrinhos do livro bíblico que parece ter decepcionado muitos dos fãs desta forma de arte. Não sem razão, afinal quando foi anunciado que o papa das HQs undergrounds e ícone da contracultura faria sua própria versão do livro do Gênesis se podia esperar de tudo, menos uma transcrição literal do texto bíblico, capítulo por capítulo, versículo por versículo. Ora, este é o sujeito que nos anos 1960 não se importava em desenhar animais fofinhos estuprando e consumindo drogas, para o horror de Deus e o mundo !
A Conrad, responsável pelo lançamento no Brasil (que aconteceu simultaneamente ao resto do mundo) botou lenha na fogueira colocando em volta do livro uma tarja vermelha com desenho de Adão e Eva fazendo sexo e os dizeres “este livro contém descrições de cenas de nudez e violência conforme o texto original no qual é baseado”.
É por isso que recorro à frase de Calil, porque é a partir do modo como Crumb desenvolve sua proposta que devemos julgar o mérito de seu trabalho, não a partir de como esperávamos que ele fosse (uma esculhambação com o texto sagrado, talvez). Sendo assim, a referência que devemos buscar está menos nos quadrinhos e mais na tradição pictórica ocidental, tanto as iluminuras medievais como as gravuras de Dürer(séc XVI) e Rembrandt (séc XVII).
As iluminuras eram ilustrações de versículos bíblicos que ornavam o livro sagrado primando pelo concisão e clareza, requisitos essenciais para se traduzir o texto numa única imagem. E é disso que se trata esta obra, afinal a cada versículo ou dois corresponde uma imagem num quadrinho. As primeiras sete páginas, que vão da criação do mundo à tentação de Eva, são de uma clareza tão absurda que o texto chega a se tornar dispensável. Daí por diante vemos que Crumb dedicou-se a uma tarefa arriscada, a de ombrear-se com gigantes da pintura na representação de passagens bíblicas. O quadrinista faz bonito, principalmente quando interpreta o texto, criando expressões perfeitamente críveis para os personagens. Do choro de Eva ao ser expulsa do jardim do Éden à cara atordoada de Noé diante da tarefa absurda imposta por Deus ou ainda o olhar insano de um Abraão prestes a matar o próprio filho, tudo é de altíssimo nível. São pouquíssimas as vezes em que o quadrinista cai na tentação de voltar ao seu estilo satírico e exagerado.
Robert Crumb parece ter assimilado Rembrandt , principalmente a gravura de 1656 “Cristo pregando” que mostra Jesus cercado de discípulos onde, apesar da entrada de luz estar atrás deles todos, a claridade emana de Cristo. Vemos esse recurso usado quase sempre que Deus aparece pessoalmente diante de cada personagem. Aliás, a ligação entre as gravuras e seu estilo é grande, afinal ele trabalha em preto-e-branco e com luz e sombra definidas pela quantidade de traços sobrepostos(as hachuras), algo em que Dürer era mestre.
Crumb também empreendeu um cuidadoso trabalho de reconstituição histórica, expresso discretamente como quando vemos Noé usar baldes de betume para impermeabilizar a madeira de sua arca. Ou seja, cada quadrinho deve ser apreciado lentamente, como se estivéssemos diante de uma improvável iluminura a um só tempo gótica, barroca e contemporânea onde, além da ação principal (bastante clara,com convém) temos ações de fundo, pessoas que não sabemos quem são mas que parecem absurdamente vivas. E aí que entra a interpretação de Crumb, sua visão do texto afinal este é um trabalho de dupla interpretação, em primeiro lugar textual (e este Gênesis tem notas que explicam suas opções, inclusive na tradução) e, em seguida, deste texto em imagens. No momento em que Abraão pede que a mulher Sara que faça sexo com os egípcios (para que eles não o matem- passagem polêmica que toma boa parte do espaço reservado às notas da edição), podemos vê-la séria e forte,porém com uma lágrima cortando-lhe a face. Nesta hora, em que as decisões do artista dependem só dele, é que vemos que Crumb está a altura da tarefa que chamou para si.
E, sim, a editora estava certa ao falar de nudez e violência (sem contar incesto, traição, etc), afinal disso a Bíblia está lotada. Só não culpem o criador (de Fritz, the Cat) pelo que está lá.


* Ilustrada de 08 de janeiro de 2010
**Texto produzido originalmente para o site HQ Maniacs

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

HQ- NEGRINHA


É verdade que 2009 está terminando, mas isso não é pretexto para se esquecer de “Negrinha”, excelente álbum de Jean-Cristophe Camus e Olivier Tallec que a Desiderata lançou como parte das comemorações do ano da França no Brasil. Delicado, profundo e emocionante são alguns dos adjetivos que se podem enfileirar para falar desta obra de rara sensibilidade em que cada quadrinho é uma pequena pintura em aquarela. Como é próprio da técnica, a atenção se desloca do desenho para as nuances da cor, que criam dois universos visual e antropologicamente distintos, o da casa e o da rua(parafraseando o livro do antropólogo Roberto DaMatta).
A imagem se abre para a imaginação, tão mais que o desenho imita o traço de uma criança, trazendo o leitor definitivamente para o mundo da pequena Maria, “morena quase branca” órfã de pai e filha de mãe negra e que mora com ela na casa dos patrões na Copacabana dos anos 1950. A menina tem um choque quando visita pela primeira vez o morro do Cantagalo, onde Olinda, sua mãe, cresceu e onde ainda vive sua família, quer ela mal conhece. Não se trata do enredo típico de telenovela, em que “menina rica se apaixona por menino pobre”, mas de mexer na intimidade da sociedade brasileira, naquilo que o sociólogo Gilberto Freire decifrou em sua obra mais famosa, Casa Grande e Senzala; a relação de dominação,porém não explicitamente(ou não necessariamente) conflituosa, com os negros que vivem na casa grande assumindo valores e costumes de seus senhores . Das imagens mais poderosas desta HQ estão uma página só com empregadas negras levando meninas loiras para brincarem na casa de Maria e Olinda rezando para santos católicos e do candomblé. Tal percepção tão aguda de nossa realidade pode ser creditada (pelo menos em parte) ao fato de Camus ser um francês filho de mãe brasileira. Negrinha é um belíssimo olhar estrangeiro sobre o Brasil, mais lúcido que muitos de nossos filmes e HQs.
O prefácio da obra fica é do músico e ex-ministro Gilberto Gil que é sinônimo de palavras compostas para maquiar de complexidade um texto bem simples. Dispensável.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

MAUS


Está chegando às livrarias novo trabalho do quadrinista de "vanguarda" Art Spigelman, autor de MAUS, única HQ até hoje já premiada com o prêmio Pulitzer(2002), o mais importante do mundo do jornalismo. Se Spigelman merece ser chamado de vanguarda (essa palavra requer cuidado, porque é delimitada históricamente) é por sua experimentação e liberdade com as imagens, que tornam muitas de suas HQs obras não-narrativas, exercícios de interação da imagem com as palavras, verdadeiro rompimento na tradição de contar histórias à que as HQs tem se dedicado desde sua origem.

Não é o caso de MAUS. Nesta obra cujo primeiro volume é de 1986, ele se rende à história, mas faz um cruzamento do "new journalism" (corrente jornalística surgida nos anos 1960 e que flertava sem medo com a subjetividade) com as artes visuais. A história se passa parte durante a segunda grande guerra, parte no presente, quando o autor entrevista seu pai (protagonista da história). Interagem a narrativa passada, om os sentimentos do autor e seus problemas familiares. Como se não bastasse, ele reinterpreta a peleja de seu pai nas mãos dos nazistas, retratando os judeus como ratos, os alemães como gatos e os poloneses como porcos, trazendo para MAUS toda a carga simbólica dessas criaturas (os judeus eram comparados a ratos pela propaganda oficial nazista). E, ainda por cima, a arte não está lá só para ilustrar a narrativa. Quem já viu esboços, ou mesmo a primeira versão da história (que é um conto ) sabe que ele pensou em desenhar "bem", mas abriu mão disso. Por que? Para que seu desenho parecesse bruto como uma xilogravura, que não existisse "beleza" como aquela que se vê normalmente nos quadrinhos e que, os quadrinhos amontoados, os detalhes encobertos pelo ontorno grosso das figuras causasse mal -estar, opressão.

Lê-se, MAUS, portanto em três níveis, como jornalismo(e documento de uma época), como uma história pessoal do autor e seu pai e como arte visual.

E uma obra e tanto.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

HQ- O GUARANI


Mais do que cento e cinqüenta anos, é um verdadeiro abismo comportamental o que separa a obra do romancista José de Alencar(1829-1877) de nosso tempo e, mais ainda, do mundo dos jovens a quem se destina esta adaptação de O Guarani para os quadrinhos, levada a cabo pelo roteirista Ivan Jaf e o desenhista Luis Gê.
Ceci, a moça que corre atrás de passarinhos “rindo-se dos volteios que a avezinha lhe fazia dar” , tem tudo para ser, aos olhos do leitor de hoje, apenas uma chata de galochas e não a criatura encantadora descrita no livro. Isso, somado às juras de amor feitas por pessoas ajoelhadas e a construções como “se me fôsseis amigo, me havíeis de perdoar” fazem da leitura deste romance uma das maiores torturas a que um professor pode submeter o aluno secundarista que tem pouco familiaridade com a literatura.
Ao focar na ação Jaf consegue contornar este “problema” e tornar a leitura de O Guarani prazerosa e divertida como certamente foi em sua época, mas por outro lado deixa escorrer pelos dedos o espírito da obra original.
Luis Gê, por sua, vez possui um domínio excepcional sobre disposição dos quadros na página e do ritmo que isso impõe à história. Também é capaz de encontrar soluções brilhantes, como enquadrar apenas aquilo que interessa, seja um pedaço do rosto ou os pés de um personagem, ou mesmo deformar os quadros e os balões fazendo eco à cena. No entanto seu traço se mostra inadequado para transmitir o que neste caso é fundamental: o trasbordar do sentimento. Basta lembrar de duas coisas para vermos como este álbum está em descompasso com o romance; o ideal da arte romântica (seja pintura, escultura ou literatura)é transmitir a emoção do artista para seu público, mas a emotividade que a nós parece exagerada e de certo modo ridícula, não encontra correspondência nem nos desenhos nem no roteiro. Toda a representação visual romântica é, na opinião de Delacroix (1798-1863), maior dos pintores dessa escola, aquela que condensa a emoção e a faz permanecer viva por muito tempo na alma do espectador. Claro que não é o caso aqui.
Também a narrativa composta predominantemente por quadros pequenos , não apenas acelera uma história originalmente de ritmo lento (o que por si só não seria problema),como não dá conta nem da grandiloqüência na descrição dos cenários nem da exaltação da natureza brasileira, o que só seria possível com a utilização de quadros grandes e de um desenho vistoso. E a arte romântica, não custa lembrar, é aquela que, ao opor a natureza (sempre pura , bela e grandiosa) à decadência moral e física das cidades burguesas, a representa com grandiosidade à altura do valor que os artistas lhe dão.
Por outro lado a contratação de Luis Gê (que junto dos gigantes Laerte, Angeli e Glauco fez parte das míticas publicações Circo e Balão) poderia supor uma leitura cínica ou irônica, mas nunca acrítica de O Guarani, como é o caso. Ok, seu Peri não é o índio da pele cor de cobre “que brilhava com reflexos dourados” , na verdade se parece mais um Tarzã, e isso é ótimo, afinal Alencar o retrata não como um legítimo goitacá, mas sim como um homem de costumes europeus. O problema é que fica por aí. Não se estabelece um diálogo entre nosso tempo e o da obra original, o que seria possível , por exemplo, se evidenciando o exagero de sentimento do livro com closes nos rostos dos personagens, como acontece numa telenovela- (que todos sabemos é filha do romance romântico), ou mesmo destacando detalhes como o fato de José de Alencar dizer que Peri “embora ignorante, filho das florestas, era um rei ”, o que, à época, certamente era um elogio sincero. Nem mesmo a idealização dos personagens fica evidenciada, pelo contrário, o roteiro trata de naturalizá-los.
Sem ser crítica, esta HQ também faz o espírito da obra de José de Alencar desaparecer para dar lugar a uma história de ação. Boa, eficiente, empolgante até, mas não mais do que isso.
Fia perdida então a oportunidade de um diálogo rico com o romance, de estimular o leitor a reconhecer todo um período histórico e artístico e de nos possibilitar uma leitura crítica de uma obra tão distante, mas também tão importante quanto O Guarani.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

JORNALISTAS EM QUADRINHOS




O fascínio da ficção pelo jornalismo é grande. Só no caso dos quadrinhos a lista inclui Superman, Homem Aranha, Valentina, Questão e vários outros que fazem suas reportagens entre uma e outra peripécia. O leitor fica com a idéia de que a profissão é sinônimo de aventura,investigação e glamour , quando a realidade é bem diferente.
A jornalista recém-formada Jussara Nunes sabia bem disso quando,em julho deste ano, começou a publicar num blog a tirinha de humor “Quadrinhos Gonzo”,em que satiriza o mundo do jornalismo e os colegas de profissão. O nome,”gonzo”, é uma inteligente referência ao tipo de reportagem surgida nos anos 1960 com o norte-americano Hunter Thompson (1937-2005) e que é feita sem se preocupar com imparcialidade ou objetividade e onde o jornalista acaba por se tornar parte da matéria. As tiras já foram destaque no portal Terra e atualmente são reproduzidas no Oi Quadrinhos, site de HQs online da empresa de telefonia. “Faço por pura e simples diversão, embora não esteja descartada a hipótese de eu vir a publicá-las em algum lugar”, diz a quadrinista que é também autora, em parceria com o desenhista André Vazzios, do álbum recém-lançado “Uiara e os Filhos de Eco”.
Jussara atualmente não exerce a profissão em que se formou; o motivo,segundo ela, é relação cada vez mais desigual entre o número de formados e as vagas disponíveis. “Se antes eram necessários dez jornalistas para se fazer uma revista mensal, hoje só se precisa de quatro”, situação que, acredita, tende a se agravar agora que os ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) lhe atiraram uma kriptonita na forma da queda da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. “Jornalismo para mim nem devia ser mais faculdade mas, na melhor das hipóteses, uma pós-graduação”. E se todo mundo ganhou super-poderes para poder levar essa vida de Clark Kent , ela já não sabe bem para onde ir: “ Penso em investir em ilustração ou redação publicitária ,embora seja outro meio apinhando de gente”. Mas e as HQs? “Quadrinhos para mim nem é uma ´área´ propriamente dita, pelo menos não no Brasil”.
Quadrinhos Gonzo funciona como um tipo de dupla vingança da autora, primeiro por que nasceu no mesmo mês em que o diploma deixou de ser obrigatório, segundo por que usa justamente os quadrinhos para mostrar uma imagem mais desglamourizada possível do jornalismo. As tiras riem desse dia-a-dia monótono e repetitivo, marcado não pela aventura, mas sim pela jornada de trabalho extenuante , gente vaidosa ou por coisas tolas como uma discussão sobre quem vai trocar uma lâmpada. Isso se manifesta até nos desenhos, feitos no computador, sem detalhes ou cores e que refletem com perfeição esse cotidiano “sem graça” que pouca gente associa à profissão. A graça ,então, está em perceber que se Superman realmente existisse e fosse um jornalista de verdade, ele não teria tempo para sair voando e salvar o mundo, simplesmente por que estaria ocupado demais cumprindo os prazos de fechamento das matérias, atendo assessorias de imprensa ou levando broncas de um editor turrão. Para baixo e avante !
!!!
Quadrinhos Gonzo:
Oi Quadrinhos:

terça-feira, 22 de setembro de 2009

AS VÁRIAS FACES DE WILL EISNER


Invisibilidade ( literal ou metaforicamente falando) é o conceito que liga os quatro trabalhos de Will Eisner produzidos entre 1981 e92 e que estão reunidos neste Nova York- A Vida na Grande Cidade, calhamaço de quase 500 páginas lançado pela Companhia das Letras e que reúne duas graphic novels,“O Edifício” e “Pessoas Invisíveis” e material “extra” compilado em dois tomos, “Nova York, a Grande Cidade” e ”Cadernos de tipos Urbanos” . No primeiro caso produzidas é material feito originalmente para a revista norte americana The Spirit Magazine entre 1981 e 83, no segundo, situações que ficaram de fora de outras graphic novels . Ambos são compostos por pequenas histórias, as vezes apenas vinhetas, que esquadrinham situações cotidianas. Quanto a “O Edifício” ,vale dizer que não é inédito no Brasil, pois já fora originalmente publicado pela extinta editora Abril Jovem na década de 1990.
A leitura de “Nova York-A vida na grande cidade” leva a uma conclusão inevitável: o autor norte americano, morto em 2008, era de fato um romântico. Só isso explica sua obsessão em retratar a cidade grande como destruidora de almas e geradora de seres insensíveis e que leva os indivíduos a se tornarem invisíveis uns aos outros. Este é o tema principal não só da literatura européia do século 19(romântica ou realista), como das artes do período (a pintura de Daumier, por exemplo) que viam na industrialização e na urbanização a degradação dos valores humanos e sociais. As grandes cidades já não são tão insalubres quanto eram as metrópoles européias de duzentos anos atrás, mas nem por isso deixaram de dar sua parte na crescente desumanização de seus habitantes- o trânsito é um bom exemplo disso.
Will Eisner,por outro lado, é também claramente parte daquela linhagem de escritores norte-americanos como Charles Bukowski ,John Fante e Raymond Chandler que nunca foram seduzidos pelos mitos do american way ou do self made man e que por isso se esforçavam tanto em retratar os “perdedores” , desiludidos e coadjuvantes da vida nas grandes cidades. É do retrato do cotidiano, do banal e até do violento que surge a poesia e a beleza na obra de todos eles. A diferença é que se em Eisner existe essa tentativa quase constante de a todo custo culpar unicamente a cidade pela desumanização das pessoas, o que o joga lá para trás, em companhia dos escritores românticos e realistas-naturalistas. Essa faceta um pouco incômoda do gênio dos quadrinhos fica mais evidente no “Caderno de tipos Urbanos”, que tinha tudo para ser figurar entre suas melhores obras, se ele abrisse mão do texto e deixasse as imagens falarem por si mesmas. São fragmentos de vidas, pequenas crônicas que tocam fundo a todos nós, pois falam ,por exemplo, do apuro de um desempregado em pegar o metrô sem se atrasar para uma entrevista,que acaba não acontecendo. Tocaria ainda mais fundo não fosse a teimosia do quadrinista de se portar como um cientista num laboratório e usar o texto para explicar as coisas, reduzindo tudo a uma relação simples de causa e efeito ,e as pessoas ,como produtos diretos do meio ambiente em que vivem. Quando ele abdica da obrigação de “explicar” aquilo que mostra, nos entrega pérolas, jóias desenhadas, como uma história em apenas quatro quadrinhos onde em três deles um homem convulsiona numa calçada lotada de pessoas, que o ignoram. No último ele aparece já morto, e centro das atenções. Esse é o espírito da invisibilidade, que em outros grandes momentos desta edição surge como fábula ( em O Edifício e seus fantasmas que correm em socorro de uma garotinha em perigo), ou metáfora, na história de Pincus Pleatnik, uma das quatro que compõem “Pessoas Invisíveis”. Lá Pleatniki tanto evita o contato com outras pessoa que, quando é erroneamente dado como morto por um jornal local, ninguém sente sua falta e ele não consegue sequer provar que está vivo. Através do melodrama propositalmente exagerado, Eisner traduz a máxima psicanalítica que diz que só se existe em função do “Outro”, que nos serve de referência e afirma nossa existência. “Nova York a grande cidade” é poesia pura e,por contraditório que pareça, quase “neo realista”. Eisner observa a cidade e as pessoas se emitir julgamento e nos mostra crianças brincando com um hidrante aberto até serem interrompidas por um policial ou as várias reações possíveis de diferentes pessoas em frente a uma caixa de correios.
Nem tudo é perfeito em Will Eisner mas seus grande momentos são superlativos. E este “Nova York- A vida na Grande Cidade” é precioso porque permite ao leitor tomar contato com as várias faces da sua arte, seja o melodrama, a fábula ou a crônica. E, mesmo quando escorregava, ele o fazia com uma grandeza incomum.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

JUBIABÁ


JUBIABÁ é a adaptação para HQ do romance de mesmo nome escrito por Jorge Amado em 1935 e que conta a história do “negro valente e brigão” Antônio Balduíno, aquele que “ furtou mulata bonita,brigou com muito patrão” , desde sua infância no morro do Capa-Negro, interior da Bahia, até a idade adulta, em Salvador.
Naquilo que diz respeito apenas ao trabalho de Spacca, podemos lembrar da máxima de Flavio de Campos em seu livro Roteiro de cinema e televisão (Jorge Zahar) : “Uma adaptação só estará plenamente realizada se,ao final,ela se sustentar como obra autônoma”. O excesso de zelo e fidelidade à obra original pode custar um preço alto à alma da adaptação. Nesse sentido é quase didático o desencontro entre texto e imagem no filme Um Copo de Cólera, de Aluízio Abranches, que transpôs palavra por palavra o livro de Raduan Nassar. Já Lavoura Arcaica,de Luiz Fernando Carvalho, também uma adaptação de Nassar, se deu melhor pois soube transmitir a essência (e não apenas a superfície)do livro. A fidelidade canina também feriu de morte Watchmen, de Zack Snider, decalque sem alma dos quadrinhos de Alan Moore e Dave Gibbons.
No caso de uma adaptação literária, não para o cinema, mas para os quadrinhos, há um fator complicador : muitas vezes é quase uma obrigação manter algo do texto original, seja nos diálogos, seja na voz do narrador, dado que se lida não com a palavra falada (como no cinema) mas sim com a palavra escrita. Ainda mais quando se lida com um texto que tem ritmo, sonoridade e cadência próprias, como o do autor de Dona Flor e seus dois Maridos.
Spacca ,sempre reverente, cumpriu bem a tarefa de traduzir em imagens toda a riqueza descritiva do escritor baiano. Num único quadro de página inteira, onde nos mostra o jovem Antônio Balduíno caminhando altivo pelo Pelourinho, entendemos a maneira como o garoto briguento vive livre, como um pequeno rei, um Zumbi em seu Palmares. São preciosas as últimas páginas do álbum que trazem, além de estudos de roteiro e comparação com trechos do livro, esboços de Spacca. Lá é possível ver como ele poderia ter desenhado os personagens e cenários de maneira realista. Tivesse optado por isso, no entanto, entregaria um retrato fiel da Bahia da década de 1930, mas não conseguiria transmitir tão bem o espírito da obra. Seus desenhos são cheios de curvas, alegres e coloridos como a Bahia de Jorge Amado.Numa comparação bem livre, pode-se dizer que Spacca trilhou menos o caminho do retratismo de Debret ( pintor oficial do Brasil nos tempos do Império) e mais o da sensualidade e da liberdade no trato com as cores e formas, de Di Cavalcanti. E é por isso que devemos considerar esta HQ como uma obra autônoma, com identidade própria, não mero convite à leitura do romance.
Quanto à história , ela é exatamente a mesma do original , portanto aqui deixamos de falar do quadrinista para nos concentrar unicamente no romancista. Apesar de não ser obra madura(Jubiabá foi escrita mais de vinte anos antes de Gabriela cravo e canela) já se pode notar aqueles elementos que posteriormente serviriam de inspiração para que o antropólogo Roberto DaMatta escrever seu clássico A Casa e a Rua, um dos mais importantes estudos sobre a construção , organização e identidade da sociedade brasileira. Para ficar num único exemplo: a figura do Comendador Pereira, português que diz que cria Balduíno como a um filho, mas o trata como um senhor que permite que seu escravo more na Casa Grande. Esse personagem expressa muito do paternalismo e do racismo cordial que infelizmente ainda hoje imperam, assim como os garotos pedintes e sua lábia, que apenas migraram para os trens metropolitanos.
Agora, se o leitor quiser realmente saber quem é Jubiabá, que compre o álbum ou o romance.