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terça-feira, 22 de setembro de 2009

AS VÁRIAS FACES DE WILL EISNER


Invisibilidade ( literal ou metaforicamente falando) é o conceito que liga os quatro trabalhos de Will Eisner produzidos entre 1981 e92 e que estão reunidos neste Nova York- A Vida na Grande Cidade, calhamaço de quase 500 páginas lançado pela Companhia das Letras e que reúne duas graphic novels,“O Edifício” e “Pessoas Invisíveis” e material “extra” compilado em dois tomos, “Nova York, a Grande Cidade” e ”Cadernos de tipos Urbanos” . No primeiro caso produzidas é material feito originalmente para a revista norte americana The Spirit Magazine entre 1981 e 83, no segundo, situações que ficaram de fora de outras graphic novels . Ambos são compostos por pequenas histórias, as vezes apenas vinhetas, que esquadrinham situações cotidianas. Quanto a “O Edifício” ,vale dizer que não é inédito no Brasil, pois já fora originalmente publicado pela extinta editora Abril Jovem na década de 1990.
A leitura de “Nova York-A vida na grande cidade” leva a uma conclusão inevitável: o autor norte americano, morto em 2008, era de fato um romântico. Só isso explica sua obsessão em retratar a cidade grande como destruidora de almas e geradora de seres insensíveis e que leva os indivíduos a se tornarem invisíveis uns aos outros. Este é o tema principal não só da literatura européia do século 19(romântica ou realista), como das artes do período (a pintura de Daumier, por exemplo) que viam na industrialização e na urbanização a degradação dos valores humanos e sociais. As grandes cidades já não são tão insalubres quanto eram as metrópoles européias de duzentos anos atrás, mas nem por isso deixaram de dar sua parte na crescente desumanização de seus habitantes- o trânsito é um bom exemplo disso.
Will Eisner,por outro lado, é também claramente parte daquela linhagem de escritores norte-americanos como Charles Bukowski ,John Fante e Raymond Chandler que nunca foram seduzidos pelos mitos do american way ou do self made man e que por isso se esforçavam tanto em retratar os “perdedores” , desiludidos e coadjuvantes da vida nas grandes cidades. É do retrato do cotidiano, do banal e até do violento que surge a poesia e a beleza na obra de todos eles. A diferença é que se em Eisner existe essa tentativa quase constante de a todo custo culpar unicamente a cidade pela desumanização das pessoas, o que o joga lá para trás, em companhia dos escritores românticos e realistas-naturalistas. Essa faceta um pouco incômoda do gênio dos quadrinhos fica mais evidente no “Caderno de tipos Urbanos”, que tinha tudo para ser figurar entre suas melhores obras, se ele abrisse mão do texto e deixasse as imagens falarem por si mesmas. São fragmentos de vidas, pequenas crônicas que tocam fundo a todos nós, pois falam ,por exemplo, do apuro de um desempregado em pegar o metrô sem se atrasar para uma entrevista,que acaba não acontecendo. Tocaria ainda mais fundo não fosse a teimosia do quadrinista de se portar como um cientista num laboratório e usar o texto para explicar as coisas, reduzindo tudo a uma relação simples de causa e efeito ,e as pessoas ,como produtos diretos do meio ambiente em que vivem. Quando ele abdica da obrigação de “explicar” aquilo que mostra, nos entrega pérolas, jóias desenhadas, como uma história em apenas quatro quadrinhos onde em três deles um homem convulsiona numa calçada lotada de pessoas, que o ignoram. No último ele aparece já morto, e centro das atenções. Esse é o espírito da invisibilidade, que em outros grandes momentos desta edição surge como fábula ( em O Edifício e seus fantasmas que correm em socorro de uma garotinha em perigo), ou metáfora, na história de Pincus Pleatnik, uma das quatro que compõem “Pessoas Invisíveis”. Lá Pleatniki tanto evita o contato com outras pessoa que, quando é erroneamente dado como morto por um jornal local, ninguém sente sua falta e ele não consegue sequer provar que está vivo. Através do melodrama propositalmente exagerado, Eisner traduz a máxima psicanalítica que diz que só se existe em função do “Outro”, que nos serve de referência e afirma nossa existência. “Nova York a grande cidade” é poesia pura e,por contraditório que pareça, quase “neo realista”. Eisner observa a cidade e as pessoas se emitir julgamento e nos mostra crianças brincando com um hidrante aberto até serem interrompidas por um policial ou as várias reações possíveis de diferentes pessoas em frente a uma caixa de correios.
Nem tudo é perfeito em Will Eisner mas seus grande momentos são superlativos. E este “Nova York- A vida na Grande Cidade” é precioso porque permite ao leitor tomar contato com as várias faces da sua arte, seja o melodrama, a fábula ou a crônica. E, mesmo quando escorregava, ele o fazia com uma grandeza incomum.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

GRAN TORINO


Walt Kowalski é um veterano da Guerra da Coréia cujo temperamento intratável o afasta do convívio com os filhos. Viúvo, tem por companhia apenas uma cadela (também envelhecida), os vizinhos da etnia Hmong, a quem despreza e uma orgulhosa bandeira norte-americana na sacada onde, sentado numa cadeira de balanço, olha desgostoso para a rua.
Na garagem, um Gran Torino 1972, fabricação Ford, grande, elegante e de motor poderoso. É retrato de um tempo diferente, não só para a indústria automobilística quanto para a sociedade como um todo. De lá para cá a globalização reorganizou as forças no cenário internacional (a ponto da China cobrar as dívidas estadunidenses!) e as montadoras norte-americanas e européias não só perderam espaço como se mostraram obsoletas perante as asiáticas. A atual crise econômica só escancarou o que já era óbvio há bastante tempo. Os Hmongs, significativamente, são oriundos de uma região entre a China e a Tailândia,uma etnia sem pátria definida, portanto.
A xenofobia está diretamente relacionada, não só ao contato crescente e incontornável com o estrangeiro(o G8 cede cada vez mais espaço ao G20) mas também – e até por isso- à noção de identidade, que cada vez mais torna-se uma abstração
Não é de se espantar que cada um na vizinhança de Kowalski ,sejam eles latinos, asiáticos, negros ou brancos (caso dele próprio) defenda sua identidade da maneira mais radical possível, ou seja, com armas. Frente à inevitável descaraterização, radicalismo e violência como forma de defesa.
Durante esse embate velho contra-jovens, veterano contra gangues, moinho contra bandido somos em determinado momento levados a embarcar naquele cinema policial dos anos 70,das séries “Desejo de Matar” (com Charles Bronson) e “Dirty Harry” (com o próprio Clint) , em que o espectador compartilha a sede de vingança do policial e triunfa com ele. Mas Gran Torino não compactua com as certezas ingênuas e violentas daquele tempo em que o inimigo era facilmente identificado e merecia punição. Se então tudo se resolvia com socos, pontapés e o aperto de um gatilho, hoje ,após o fiasco de oito anos de uma política externa beligerante, Clint deixa claro que isso só traz mais problemas e mais violência.
Não há mais volta, os vizinhos são Hmongs, os médicos são indianos, os atendentes muçulmanos e por aí vai. A moral do enfrentamento torna-se tão absurda quanto as piadas xenófobas de Walt, que acabam provocando risos.
O filme significativamente começa com um enterro e um batizado. Que as armas fiquem no passado, nos diz Clint Eastwood.



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Na próxima sexta tratarei da situação dos EUA nos anos 1970 e como isso se traduziu na violência justiceira do cinema(Dirty Harry incluso) e seu reflexo na graphic novel O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, um autor, a propósito, que não cansa de afirmar sua fé na violência como forma de resolução de conflitos.

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Ao contrário do que se falou por aí, Walt Kowalski não é um Dirty Harry. Ele está muito mais próximo de Willian Muny,o pistoleiro “assassino de mulheres e crianças” de Os Imperdoáveis (1992), que ele mesmo dirigiu. Lá ele invertia os códigos do western(o bandido era o xerife) e mostrava, o quanto o herói deste gênero não tem nada de heróico. E sendo o western a mitologia de formação dos EUA como nação, ele varre para fora do tapete toda a violenta de seu heroísmo, exatamente como Walt Kowalski, que se envergonha da medalha ganha na Coréia. A construção da imagem do heroísmo com outros fins está também expressa em A Conquista da Honra(2006), que conta o destino dos soldados que posaram para a emblemática foto que se tornaria propaganda da entrada triunfante dos EUA na segunda Guerra Mundial. Já a tentativa -que perpassa todo Gran Torino- de compreender o Outro, tradicionalmente entendido como “inimigo”, está em Cartas de Iwo Jima(2006), que mostra o outro lado desta história, o dos japoneses que defendiam sua ilha da invasão norte-americana.


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É curioso notar o quanto o trailer do filme nos fazia acreditar numa típica história “velho durão enfrenta jovens petulantes e sai vitorioso”. Quem acreditou nisso comprou lebre por gato. Ainda bem.


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Num outro cenário, em 1992, Will Eisner escreveu e desenhou a graphic novel Avenida Dropsie para entender a gênese daquilo que Gran Torino nos mostra: difícil (e inevitável) coexistência de culturas diferentes num mesmo local. À vizinhança primeiro chegam os irlandeses e judeus, depois os italianos, os negros e por fim os latinos. Cada um que chega é hostilizado pelos predecessores, que vêm nos seus hábitos e cultura uma afronta ao costumes dos moradores do bairro.

sexta-feira, 6 de março de 2009

WILL EISNER E A REVOLUÇÃO NOS QUADRINHOS 1- O BALZAC DAS HQS


Em 1978, Will Eisner vira de cabeça para baixo o mundo dos quadrinhos com o lançamento do primeiro romance gráfico (graphic novel) “Um Contrato com Deus- e outras histórias de cortiço” (Devir), que formaria uma trilogia com “Força da Vida”, de 1988 e “Avenida Dropsie em 1995”. Nunca antes havia ocorrido aos quadrinhos se aproximarem tanto do mundo real, dos pobres, dos vitimados pela Grande Depressão, dos moradores de cortiço, enfim.
A nova empreitada de Eisner, que já havia alcançado a consagração com as aventuras do detetive Spirit, era marcada pela ousadia.
Contrato com Deus era um livro composto por quatro contos, só que desenhados, o que embaralhava de vez as fronteiras entre literatura e quadrinhos, até então restritos ou às tiras para jornais ou às revistas. Os contos, aliás, eram histórias passadas numa vizinhança pobre do Bronx, mas especificamente na Avenida Dropsie. Até então os quadrinhos eram, de modo geral, histórias aventurescas, fantasiosas ou cômicas (daí seu nome em inglês, comics). Havia também algum tipo de crônica de costumes, mas nada que se aproximasse da abordagem direta, sem desvios ou fabulações de nenhum tipo feita por Eisner.
A reviravolta de Contrato com Deus é uma chegada tardia dos quadrinhos à maturidade na única forma possível, o rompimento com a tradição e busca de alguma forma de “realismo”, numa guinada bastante semelhante à que representou Balzac (e de certa forma Stendhal) para a literatura.
Em História Social da Arte e da Literatura (Martins Fontes), Arnold Hauser nota que
O naturalismo não tem por alvo a realidade como um todo, não a ‘natureza’ou a ‘vida’ em geral, mas aquela província de realidade que se tornou especificamente importante para essa geração. Stendhal e Balzac assumiram a tarefa de retratar a nova sociedade em mudança”.
Balzac, nos 80 romances que compõem a sua Comédia Humana ousa tratar do dinheiro, da ascensão social e das tórridas paixões, da realidade caótica da moderna Paris descrevendo, sem piedade ou maquiagem, ricos e pobres, exploradores e explorados.
Somente o operário morre no hospital no fim do seu esgotamento físico, enquanto o pequeno-burguês persiste em viver e vive, nem que seja aparvalhado; o rosto cheio de rugas, aplastado, velho, sem brilho nos olhos nem firmeza nas pernas, arrastando-se com expressão idiota pelos bulevares” diz em Fisionomias Parisienses.
É exatamente esse espírito que percebemos em Contrato com Deus quando lemos histórias como a do Cantor de Rua, onde o belo rosto e a bela voz que lhe rendem algumas moedas pelas ruas dos cortiços escondem um alcoólatra violento e explorador de mulheres. Ou na d’O Zelador, alemão solitário que bota medo nos inquilinos, a quem vê com desprezo, mas que também deseja ardentemente uma pré-adolescente moradora do prédio de que cuida. Ela, por sua vez, oferece sua nudez em troca de algumas moedas. Os desdobramentos levam ao suicídio do zelador encarado com indiferença pela garotinha.
Não é drama, não há superseres, nem mesmo pode ser chamado de comics. É uma coisa nova, o romance gráfico e daí para diante os quadrinhos conhecem um novo rumo.

WILL EISNER E A REVOLUÇÃO NOS QUADRINHOS -2 AS MODERNIDADES NAS ARTES







A primeira fase da modernidade, em qualquer forma de arte, é uma revolução caracterizada por algum tipo de rompimento com a tradição em direção a uma aproximação da realidade, em detrimento de qualquer tipo de convenção ou idealização. Essa Realidade natural (por isso chamada de naturalismo) e quase sempre oposta à Verdade, expressão de uma verdade superior e inquestionável. Seria assim tanto na pintura como no cinema quando há rompimento com os temas e os gêneros e com as convenções próprias de cada arte. No entanto o que se quer fazer aqui é encontrar paralelismos, coincidências, precedentes, não uma relação direta do tipo a pintura que influenciou o cinema que influenciou os quadrinhos o que seria algo extremamente ingênuo.

Na Pintura
Na pintura há um rompimento com os Grandes Temas (Histórico, Alegoria, Sacro, Retrato, Paisagem , Natureza Morta) que eram hierarquizados (Histórico e Sacro tinham mais valor do que uma natureza morta, por exemplo) desde Aristóteles para seguir rumo a uma arte visual, sem embasamento filosófico.
Segue-se uma busca por retratar, com todo suor e rugas, as pessoas do povo, como fariam, por exemplo, Honoré de Daumier (1808-1879) e Goustave Courbet (1818-1877) que para Gombrich “não queria formosura, queria verdade”(A História da Arte- LTC)- verdade aqui no sentido de realismo. Giulio Carlo Argan diz que “Courbet quer viver realidade como ela é, nem bela nem feia”(Arte Moderna- Companhia das Letras).
Não há mais lugar, para estes artistas, para pose, linhas fluentes ou cores impressionantes. Tampouco para a grandiloqüência de herdeiros de Rafael, como Jean Domimique Ingres (1780-1867).
Baudelaire dizia, ao defender a pintura do aquarelista Constantine Guys (1805-1892 ) que “os planejamentos de Rubens ou Véronèse não nos ensinarão a fazer chamalote, cetim à rainha ou qualquer outro tecido de nossas fábricas(...)o tecido e a textura não são os mesmos que os da antiga Veneza”(Sobre a Modernidade - Paz e Terra), exaltando que os modelos acadêmicos era apenas convenções que, apesar da beleza do trabalho em que resultariam, eram incapazes de dar conta do mundo moderno,só acessível a esta nova geração de artistas que rompiam com a tradição.

No Cinema
No cinema dos anos 1950 foi o neo-realismo que co filmes como “Roma Cidade Aberta” (1945) ou “Alemanha Ano Zero”(1948), ambos de Roberto Rosselini, buscava através do uso do plano-sequência (cena sem cortes ou edição) restaurar a ambigüidade da imagem, uma vez que no cinema clássico o que era mostrado correspondia ao que era de fato, sem margem para dúvidas (por exemplo quanto ao caráter de um personagem, que era ou bom, ou mau). Nessa busca pelo Real, recusava-se a filmagem em estúdio, a iluminação artificial e as grandes narrativas (feitos grandiosos, por exemplo). Mais próximo do trabalho de Eisner, no entanto, está o moderno cinema norte-americano, de "Uma Rua Chamada Pecado" (1951) versão da peça Um Bonde Chamado Desejo, de Tenessee Willians dirigido por Elia Kazan ou "Juventude Transviada"(1955), de Nicholas Ray . Um Bonde... mostra também este universo de cortiços, de imigrantes, de paixões incontroláveis, violência e personagens humanos, demasiado humanos bem distante da classe-média harmoniosa até então reinante nas telas. Em Juventude... a imagem da família tal como retratada normalmente no cinema (como refúgio de paz e moralidade e espelho do Sonho Americano) é demolida e o abismo violento entre pais e filhos é escancarado.
Nestes filmes a tradicional oposição entre bem e mal desaparece junto da idéia de que existe um caminho desejável para todos (que era sempre apresentado sem questionamentos pelo cinema) para dar lugar à pluralidade de tipos humanos, de aspirações, de necessidades. Não há mais lugar para uma única Verdade aqui.
Aqui os personagens não são mais os do repertório cinematográfico clássico, não são mais “tipos” e sim pessoas.

Nos Quadrinhos
Will Eisner se tornou parte desta revolução ao romper com as convenções de gênero dos quadrinhos, ao adicionar complexidade e humanidade aos seus personagens e a despejá-los no mundo real, com problemas e dilemas reais ao mesmo tempo que abandona as grandes aventuras fantasiosas ou as histórias cômicas para se interessar pequenas histórias de pessoas anônimas, às quais alça ao patamar dos grandes dramas humanos.
Apesar de trazer para as HQs a pobreza, solidão e finais muitas vezes infelizes, Eisner guarda também alguma (contraditória?) semelhança com o cineasta Frank Capra (de "A Felicidade não se Compra" e "Aconteceu Naquela Noite" -1934) na medida em que tem uma fé inabalável na bondade humana, na possibilidade da redenção e vê o mundo com olhar não cruel, mas piedoso.

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Imagens :
Marlon Brando e Vivian Leight em "Uma Rua Chamada Pecado"; "Vagão de terceira classe", de Daumier; "O quebra-pedras", de Courbet.
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Usei o termo “modernidades”por que o conceito de modernidade é originalmente referido às artes plásticas e só pode ser tansposto para as outras artes(principalmente o cinema) de maneira problemática. Voltarei a este tema quando falar de Pós-modernidade e o cinema de Quentin Tarantino e Robert Rodrigues.

WILL EISNER 3- ATORES DE PAPEL




Will Eisner já foi elogiado por vários escritores, entre eles John Updike que disse que ele “não estava apenas a frente de seu tempo; os dias de hoje ainda estão tentando alcançá-lo”. Também o nome dado à sua obra a partir de 1978, romance gráfico (graphic novel) pode levar a crer que ele buscou uma associação com a literatura, que haveria de lhe emprestar alguma credibilidade inexistente nos quadrinhos.
A arte de Eisner é tão particular que fica difícil crer numa associação com qualquer outra forma de arte.

Em seu livro teórico “Narrativas Gráficas” (Devir) ele conta que usava uma associação com animais para desenhar seus personagens. Uma pessoa com feições leoninas seria entendida como perigosa, um com “cara de rato”(rosto miúdo, nariz fino, dentes proeminentes) como covarde , etc. Para ele, as pessoas associariam rapidamente (e inconscientemente) as características animais e as integrariam ao caráter do personagem, numa técnica que visava suprir uma deficiência inerente aos quadrinhos, a escassez de tempo e espaço (abundantes no cinema e na literatura).
No entanto ele mesmo ressalta que quando a ambientação sustenta o personagem, essa técnica pode ser até mesmo abolida.
Fazendo uso dessa técnica ou não Eisner teve uma capacidade única de criar personagens pois pensava com a mente de um ator, não de um desenhista. O desenhista de quadrinhos busca colocar o personagem numa posição que seja interessante visualmente e que exprima perfeitamente a ação; por isso nas histórias de super-heróis existem tantas cenas de luta idênticas, elas até fazem parte de um a espécie de ‘manual” de como se desenhar. Se Eisner, por outro lado, faz seus personagens se expressarem por gestos um tanto exagerados é por que eles “agem” como um ator de cinema mudo (que buscava que seus gestos fossem claros o suficiente na ausência de som) ou de teatro (que com técnica semelhante pode superar a distância entre o palco e o espectador). Os gestos são facilmente reconhecíveis, mas nunca uma mera reprodução de convenções. Ele conhece bem as particularidades dos corpos e mentes de seus personagens e usa isso na hora de coloca-los em movimento. Dois de seus personagens frente a uma mesma situação (perigo, por exemplo) nunca reagirão da mesma maneira, ainda que ambos estejam com medo.
E a caracterização dos rostos aliada à movimentação particular de cada um nos conta muito sobre a vida de cada personagem, coisas que nem são ditas nas histórias.
A primeira cena, de Pequenos Milagres (Devir) mostra A Sra Grepps, uma mulher sofrida, mas que luta para sustentar o casamento de Reba, a filha surda-muda. Já a segunda traz a Sra Fegel, mãe do rapaz sem uma perna casado com Reba. Duas mães de filhos deficientes, duas histórias de vida diferentes, duas pessoas completamente diversas.

WILL EISNER 4- A POESIA DAS ÁGUAS


Will Eisner é famoso por desenhar cenas de chuva como ninguém. Como já ressaltei ao tratar da peça Avenida Dropsie, este é o grande momento de suas HQs e está muito além da banalidade corrente na Tv ou no cinema, quando a chuva vem quase sempre endossar a tristeza de um personagem ou ainda adicionar alguma dificuldade à provação por que passa.
Eisner é um poeta nestes momentos.
Em O Edifício (Abril Jovem) Monroe Mensh fracassa ao se esquivar de uma bala num assalto vê uma criança ser atingida e morta. Desprezando a si mesmo, abandona o emprego e vai trabalhar de graça num orfanato. A caminhada para fora da loja onde era o principal vendedor rumo ao futuro incerto é feita debaixo de um temporal. Em Pequenos Milagres, Melba encontra nas ruas do cortiço um adolescente que age de maneira estranha e não sabe falar. É abraçada a ele que ela corre debaixo de chuva para casa, onde irá esconder o garoto e ensinar-lhe a ler, escrever e falar . Há exultação, ao contrário da resignação de Mensh, pois ficará nas entrelinhas uma atração sexual desta mulher madura e solteira que ao final da história, ‘fica para tia”trabalhando numa livraria. Em Contrato com Deus (imagem acima), a chuva cai pesadamente no dia em que o judeu praticante Frimme Hersh enterra sua pequena filha. Mais do que tristeza, a chuva é o cenário de uma batalha deflagrada assim que Hersh entra em casa e grita furioso contra Deus.
Seria tolo buscar um significado único que pudesse explicar todas essas cenas. É o grande Mistério da Vida, só acessível pela linguagem poética.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

TEATRO- AVENIDA DROPSIE


Ninguém está preparado para o que irá ver quando as luzes do palco do teatro do SESI se acenderem e for revelada a cenografia de Daniela Thomas, com seu gigantesco edifício em cujas janelas e calçada se desenrolarão dramas urbanos tocantes, tristes, engraçados, melancólicos. Muito menos quando balões de pensamento aparecerem sobre os atores, exatamente como numa história em quadrinhos ou ainda quando um verdadeiro temporal tomar conta do palco.
Mas se tanta atenção é dispensada à chuva e ao edifício é por que há bons motivos para isso.
A chuva é o grande momento das histórias de Will Eisner. Diferente da banalidade corrente, em que um temporal é mostrado como uma espécie de “lágrimas do céu” fazendo coro à tristeza dos personagens, em Eisner o tratamento é bem outro; é poesia, e uma imagem poética não se traduz num único significado. Não é só um elemento libertador, nem triste, nem alegre. É tudo isso. Os personagens estão alheios à chuva ou porque pouco se importam com ela ou porque nada mais lhes importa na vida. É exatamente isso que vemos no palco, um desfile dos tipos de Eisner, uns sorrindo, outros chorando, uns comemorando, outros lamentando. Um só elemento, a chuva, na peça adquire todos os sentidos(até contraditórios ) ao mesmo tempo.
Já no edifício é que está o tema mais caro ao universo do quadrinista : a convivência humana, os conflitos da vida nas grandes cidades. Judeus praticantes vizinhos de negros e seu Hip Hop barulhento, homossexuais ,mulheres reprimidas, crimes passionais,solidão.
É esse microcosmo urbano que a Sutil Companhia de Teatro extrai das várias obras que compõem a fase madura de Will Eisner, uma das quais dá nome à peça e que dá vida pulsante à pirotecnia e ao cenário grandioso.
Afinal, como diz a Sra Rowena, personagem que está na graphic novel Avenida Dropsie, mas não na peça, “Prédios são apenas prédios. São as pessoas que fazem uma vizinhança”.

As próximas apresentações de Avenida Dropsie ocorrem nos dias 22, 25, 26 de fevereiro, 1, 11,15, 20 de março a 05 de abril, sempre às 20h. Às quartas-feiras, as sessões são gratuitas e nos demais dias os ingressos custam R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). O Teatro Popular do SESI fica no prédio da Fiesp, na Avenida Paulista, 1313, próximo ao Metrô Trianon- Masp.
A peça não é recomendada para menores de 14 anos. Informações: tels. (11) 3146-7405 / 7406 ou pelo site www.sesisp.org.br

segunda-feira, 28 de julho de 2008

RELANCE DO BRILHANTISMO DE WILL EISNER


Nesta cena da graphic novel O Edifício (Editora Abril) vemos somente o necessário para compreender o que se passa. Nestor García Canclini em “Culturas Híbridas” (Edusp) diz que as histórias em quadrinhos nos revelam a “potencialidade visual da escrita e o dramatismo que pode ser condensado em imagens estáticas”. Temos aí um exemplo claro. Tivesse Eisner “completado” a cena, compondo-a com todos os detalhes possíveis (pessoas, automóveis,etc), não direcionaríamos nosso olhar (nem nosso sentimento) unicamente para a existência solitária do poeta em primeiro plano. Nas HQs (como na pintura) o olhar é livre para buscar a porção da imagem que mais lhe interesse, durante o tempo que considere necessário, recurso impensável ao cinema, por exemplo. Neste, mesmo lançando mão da profundidade de campo ou do plano seqüência, o olhar ainda é tolhido pelo tempo disponível.
Eisner abriu mão de uma boa porção de realismo da cena e se fez valer de toda capacidade expressiva que os quadrinhos permitem.