Mostrando postagens com marcador Mojica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mojica. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de agosto de 2008

DUAS ÓTIMAS CRÍTICAS DE "ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO"

Este não é um blog de crítica, mas sim de reflexão a partir de filmes, HQs, peças, etc. Quem quiser ler textos excelentes sobre Encarnação do Demônio deve visitar as revistas eletrônicas Paisá e Cinética. Abaixo, alguns trechos. Primeiro, do amigo Francis Vogner dos Reis, na Cinética, depois de Filipe Furtado, na Paisá. Ambos, vale lembrar, são professores do curso "Panorama do Cinema Japonês" citado no post anterior:

"Se as cenas de torturas e sangue, por exemplo, escapam ao fetichismo (que é a sensação da série Jogos Mortais), é porque elas não são concebidas como uma câmara de tortura para um espectador voyeur e sádico, mas como um delírio, um pesadelo. O próprio personagem/diretor seria um maestro de cenas extremas, que impressionam mais pela plasticidade e agressão, do que pela mera e simples crueldade. Cenas como a mulher saindo da barriga do porco e a cena de sexo inundada por sangue, ou mesmo o purgatório com Zé Celso Martinez, aproximam mais o diretor da parceria Luis Buñuel e Salvador Dali do que desses recentes filmes de horror de tortura, porque o horror vem pela via das imagens absurdas (e até do sarcástico), não da mera representação da dor e da psicose" disponível em : http://www.revistacinetica.com.br/encarnacaododemonio.htm

"Tudo no filme gira em torno do ícone. A começar por um Zé do Caixão muito mais sedutor, capaz de trazer consigo um séqüito de admiradores e de encontrar belas mulheres mais do que dispostas a carregar seu filho. Não deixa de ser uma bela metáfora para a carreira do próprio Mojica: o Zé do Caixão de Encarnação é pop, mas é ainda mais marginal". Disponível em:
http://www.revistapaisa.com.br/agosto08/encarnacao.htm

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO: MOJICA TRANSGRIDE TODAS AS CONVENÇÕES EM SEU NOVO FILME


O Brasil mudou muito desde que Zé do Caixão fez suas últimas vítimas em Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967). Enquanto o coveiro tinhoso penou 3 décadas trancado na Casa de Detenção (e mais uma num manicômio), o diretor José Mojica Marins viu tudo aquilo que sustentava seu personagem praticamente desaparecer.
Viu as antes abundantes salas de cinema de rua, que fizeram a glória de artistas populares como ele e Mazaroppi, desaparecerem para ressurgirem na forma de multiplexes, cobrando ingressos caros e trancadas em shoppings centers que cobram até pelo estacionamento. Se o cinema virou uma diversão elitista, o terror deixou de ser uma abstração, de ser uma idéia metaforizada na forma de monstros de cinema e chegou à porta de todos, ricos ou pobres, na forma da violência urbana. Aliás, o próprio país passou a ser predominantemente urbano, tornando os matutos que ele assombrava nos filmes anteriores, mera recordação.
Mudou também a religiosidade; a carolice católica das cidades pequenas, contra a qual Zé se batiacomendo carne de cordeiro na sexta feira santa, deu lugar ao tele-evangelismo e a um tipo de culto produto da sociedade do espetáculo, que se manifesta seja na forma dos “Shows da Fé” protestantes ou na das Showmissas carismáticas, onde se enfatiza a busca pelo felicidade, o sucesso e a realização pessoal.
Para piorar, aparentemente não havia mais nada que transgredir, afinal a transgressão virou norma; sexo , violência e bizarrices são trivialidades, atrações de todo dia nos Superpops da vida. Algo que seria impensável nos anos sessenta: a ausência de polêmica em torno da foto da revista Playboy na qual a atriz global Carol Castro aparece nua, usando como adereço apenas um crucifixo.
No âmbito econômico o Brasil deixou para trás o papel secundário de nação “terceiromundista” para adentrar o mundo globalizado como destaque entre os emergentes e assumir papel de destaque no mercado internacional. Até a dívida externa, que a crença popular dizia vir “desde os tempos de Don Pedro”, desapareceu e o Brasil passou de devedor a credor.
O país mudou mas Zé Mojica/Zé do Caixão não ficou indiferente a essas mudanças.
No filme, Zé do Caixão sai da prisão e vai para uma favela onde se depara com o terror nosso de cada dia (aquele que recheia os telejornais) e fica assustado.Vê policiais assassinando crianças e apavorando a população. Vê essa mesma população acomodada com a bandidagem. Vê a miséria que, ao contrário da dívida externa, não só não desapareceu como persiste sendo nossa maior vergonha.
Já Zé Mojica enfrentou outro desafio: conseguir filmar. Cinema é feito hoje basicamente com dinheiro oriundo de empresas que abatem este valor de impostos devidos ao governo. Quem decide qual filme vai receber a verba é normalmente um executivo da área de marketing, alguém que não necessariamente (na verdade quase nunca) entende de cinema. Sendo assim, têm muito mais possibilidade de viabilização os filmes mais alinhados ao que este pessoal entende por “bom gosto” ou que agreguem “prestígio” a suas empresas. Na hora de escolher entre um filme da Xuxa (ou qualquer um da GloboFilmes) e um terror de Zé do Caixão, por exemplo, a escolha (para eles) parecia óbvia e Mojica seguia sem filmar.
No entanto, contra todas os prognósticos, tudo o que parecia impossível aconteceu. O filme não só saiu como é transgressor até o osso. Mojica desrespeita todas as convenções (há personagens incoerentes, que são violentos mas também paspalhos e engraçados, colagens de clichês) e despeja violência na medida certa para afrontar o último bastião, o do bom gosto (do público, dos exibidores, dos financiadores). E por fim, tem a loucura visual: que poderia ser mais transgressor do que o embate Zé Celso- Zé do Caixão, sob um céu cor-de-laranja, entre pessoas que comem vísceras e o olhar impávido de uma morte pálida, anoréxica e fashion? Ainda somos violentos, egoístas e desiguais é o que nos diz as loucuras deste novo filme de Zé do Caixão. Apesar de todas as mudanças, o Brasil ainda é um horror!

Xxxxxxxxxx

O destaque do Brasil no mercado internacional tende a aumentar, principalmente com a crescente demanda por biocombustíveis e alimentos. No entanto, a despeito do destaque no cenário internacional, continuamos relegando a segundo plano os investimentos em educação (quase todos tem acesso a escolas, mas de péssima qualidade), artes (ainda privilégio de uma elite) e esporte (basta ver o pífio desempenho de nossos atletas em Pequim). Isso para não falar no vergonhoso sistema carcerário.
O Brasil entrou de fato na nova ordem mundial, só sua população é que ainda não. A este respeito, vale assistir o documentário “Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá”, dirigido por Sílvio Tendler (2007).

domingo, 27 de julho de 2008

MORTOS QUE VOLTAM À VIDA, LÁ E CÁ - PARTE 1

Mortos que levantam do túmulo numa espécie de semi-vida, os zumbis, são parte do folclore caribenho que tornaram-se tema muito caro ao cinema de horror norte-americano (e mundial) desde que, no turbulento ano de 1968, George Romero filmou o contracultural “A Noite dos Mortos-Vivos”. Este subgênero do terror foi à Itália, com Lucio Fulci (Holocausto Canibal) e tem até um exemplar sendo produzido neste momento aqui no Brasil, “Mangue Negro”, de Rodrigo Aragão.
George Romero retrabalhou a idéia original do morto ressuscitado pela magia vodu e lhe acrescentou algumas características que são repetidas até hoje, como a fome por cérebro e a o fato de que quem é mordido por um zumbi se torna um deles. A idéia do mal contagioso não é original (basta lembrar das lendas de lobisomens e vampiros) e expressa uma convicção que nasce com o crença mos rituais de bruxaria e nas lendas de íncubus e súcubus, que se deflagraram desde entre os sécs.14 e 15e tiveram vida mais longa nos países protestantes do que no resto da Europa, como nota Robert Muchembled em Uma História do Diabo (BomTexto, 2001).
Outra característica marcante dos filmes de zumbis é a perda da personalidade individual que se verifica quando alguém se torna um morto-vivo. Nisso, ela é inerentemente norte-americana, cujo maior pesadelo é a perda dos direitos individuais (“bandeira”dos pioneiros das treze colônias que deram origem ao país)daí seu horror a regimes totalitários e/ ou socializantes.A submissão completa do indivíduo a uma esfera maior e mais importante é para eles algo impensável.
Outro ponto de vista interessante quem nos trás é Roberto DaMatta em A Casa e a Rua (Rocco, 1997) DaMatta separa as sociedades em dois tipos básicos (com graus de variações, claro): as relacionais e as individualistas. A maneira como cada uma delas encara a morte é bastante diversa.
As chamadas sociedades individualistas (os EUA, por exemplo) tendem a pensar, discutir, filosofar a morte. Nas palavras do antropólogo, para eles “esquecer o morto é positivo, lembrar o morto é assumir uma espécie de sociabilidade patológica”. Já nas sociedades relacionais, que privilegiam as relações sociais em detrimento do indivíduo (Brasil incluso), temos o morto como alguém que deve ser lembrado, cultuado até. Mesmo após a morte, ele continua tendo um papel social. Muito significativa é a tradição (hoje em vias de desaparecimento) dos quartos cheios de retratos dos antepassados mortos. O morto, então, não é visto por nós como maligno,mas sim como alguém a quem se pede conselhos e que, por vezes, pode até vir “assombrar”, desde que tenha um motivo justo. Ao contrário, numa sociedade como a norte-americana (que leva ao extremo as características da sociedade individualista) o morto só pode ser visto como uma entidade maligna. E não são poucos os exemplos, os vampiros são mortos-vivos como tambémo são a múmia ou Fredy Krueger e Jason Voorhees.
Aqui no Brasil, o melhor exemplo está, claro, com o excepcional cineasta José Mojica Marins e seu personagem Zé do Caixão. Em À Meia Noite Levarei sua Alma, de 1964, vemos mortos que retornam à vida assombrando um pequena cidade. A procissão dos mortos (vista também em Pequenas Histórias, de Helvécio Ratton, ainda em cartaz)cumpre o dever de vingar as atrocidades cometidas por Zé do Caixão. Assustadores, perigosos, porém justos, os mortos-vivos brasileiros espelham perfeitamente a teoria de DaMatta e marcam a diferença de concepções entre nós e os norte-americanos.
Voltaremos ao tema.