sexta-feira, 29 de abril de 2011

PEDE PRA SAIR !

Foi uma coincidência interessante. Pouco tempo depois da minha postagem dizendo que precisávamos de um seriado de Tropa de Elite, pra esfregar na cara de todos toda a hipocrisia e corrpção que movimentam a industria da violência no Brasil, reportagem de Graciliano Rocha para a Folha de São   Paulo de ontem(28/04)  veio para provar justamente  o que eu havia dito. O título era "Arma Ilegal cruza fronteira via serviço de motoboys". Pra não  ficar  me repetindo, reproduzo alguns trechos(grifos e parentesis são meus):

"Quase metade das 16  milhões de armas que circulam no país hoje são ilegais-7,6 milhões, segundo daados do Sistema Nacional de Armas da Polícia Federal. Muitas delas, mesmo fabricadas no Brasil,acabam enviadas ao extereior e  retornam,de maneira ilegal, via fronteira(Paraguai)"

"Segundo Melina (Risso, diretora do Instituto Sou da Paz), vários estudos demonstram que grande parte dod homicídios ocorrem com uma arma de fabricação nacional,mas comprada de forma ilegal via fronteira".

quarta-feira, 20 de abril de 2011

PRECISAMOS DE UM "TROPA DE ELITE" POR SEMANA


No Brasil o que não falta é lei. Existe pra tudo. Até jogar papel pela janela do carro é infração de trânsito. Só que aqui é possivelmente o único país do mundo em que existe a leei que pega e a que não pega. Ou seja, a lei,em si, não vale grande coisa, o que vale é se é aceita pela sociedade ou não.

Agora é a vez  do bullying, querem transformar em crime. Só mesmo num país onde a força da palavra, da retórica(vazia) tem tanta pompa (o tal do "tenho dito!") se pode pensar nisso, colocar tudo como caso de polícia.  Mandar preder e pronto. "Cadeia neles!  Pau neles!". Eles quem? Ora, os de sempre, os sem um tostão no bolso, porque para os endinheirados a lei não  pega. É provado que ,quando a aaplicação da lei é subjetiva, como no caso da quantidade de droga que configura tráfico, os juízes decidem de maneira diferente se o preso  for  um garoto de classe média ou um favelado. Essa conversa de cadeia e porrrada só serve pra demagogia dos Datenas da vida aumentarem mais o ibope a cada tragédia,como foi o caso do atirador do Realengo. E os demagogos três escalões acima, lá no senado, já propõem outra lei, ou melhor, a volta do plebiscito pela  proibição da venda das armas de fogo.
Ninguém em sã consciencia pode ser contra a idéia, mas o faato é que o buraco é bem mais embaixo. Vende-se isso como a solução contra a violência. "e tenho dito!"  E pronto, amanhã não morre mais ninguém.

Me lembra bastante outro caso bastante triste, o do  ônibus 174.  Na ocasião  o ex- presidente FHC, pressionado pela midia assombrada com "a escalada da violência em nosso país" tirou da cartola uma idéia mirabolante e milagrosa, transferir verbas destinadas  à  iluminação pública para o combate à  violência. O que  quer que significasse "combate à violência", não deu em nada, nem sei se de fato usarama  tal verba, se ela saiu e chegou a algum lugar.

Voltando ao plebiscito, sabemos  bem que as armas e a munição que matam esse tanto de gente não são compradas em lojas por pessoas  que fazem curso de tiro e registram a compra com seu CPF. Sabemos bem que vem de quartéis, pelas mãos de policiais corruptos, por vigilantes de empresas de segurança, por esquemas torpes dos próprios fabricantes de  enviarem os produtos para fora do país ilegalmente  e que retorna como "contrabando". Ora, uma gigante  dos cigarros fazia isso, e, pimba, seus produtos apareciam nos camelôs  "ninguém sabe como".

Os esquemas são complexos, tem gente graúda envolvida e fortunas  na jogada e não é baixando uma lei que vai se resolver alguma coisa  (com  Tropa2 deixa claro) . Ora, se não se impede nem o pessoal de jogar papel pela janela, vai impedir comércio ilegal de armas? O pior é que essa cultura (porque é de uma cultura nacional que se trata) de baixar lei para tudo e depois não dar conta de colocá-la em prática, cria outra cultura, a da subversão da lei frouxa,  o tal do jeitinho. E então a lei, por si, perde crédito junto ao povo.

É por isso o tútulo dessa postagem, porque Capitão Nascimento, o herói vencido que não desiste nunca, poderia muito bem estrelar uma série  de TV, tantas são as falcatruas,  as entranhas podres, as demagogias deste páis. Teríamos um Tropa de Elite por semana e ,pelo menos por uma horaco, a alma lavada.


sexta-feira, 15 de abril de 2011

VIRADA CULTURAL 2011

Dicas rápidas e rasteiras para a Virada Cultural:

MÚSICA
Meia Noite de sábado, no palco  República tem Toni Tornado acompanhando Don Salvador e Abolição revivendo a black music brasileiira dos anos 1970.
Tornado tem ,na verdade, muito mais estrada como  ator do que como cantor, mas sua imagem continua evocando o black power brasuca  da era dos festivais e vira e mexe aparece como convidado de alguém que recvive o  estilo(foi assim quando o  Jota Quest começou, ainda com o nome de J.Quest) 
. Não era de longe o melhor  da nossa soul music(tinha Cassiano, Hyldon e oTim,claro)  nem o mais "James Brown" da galera (posto que, sem dúvida, cabia a Gerson "King" Combo) mas cravou pelo menos uma música imoprtla no nosso cancioneiro, BR-3. O cabelão e os passo de dança  frenéticos à James Brown podem ter ficado no passado, mas Tornado ainda tem algo do vozeirão pra sacodir o público com pancadas suingadas como "Podescrer amizade" e "Mané beleza".
Don Salvador é pianista  brilhante, egresso do sambajazz e da bossa nova e acompanhou Elis Reegina em várias ocasiões.  Foi morando nos EUA (onde também "estagiaram" Toni Tornado e Tim Maia) que Don  Slavador conheceu a black, os hippies e voltou pra fazer em 1971 um cometa que foi a banda "Don salvador e Abolição" e o disco "Sangue,Suingue e Raça". É esperar e torcer pra que Don nos entregue  a poderosa "Uma vida", que começa com um arrebatador solo de piano.


PS. Quem quiser um "acompanhamento" bastante interessante ao show é só corre nua banca e comprar a Revista de História da Biblioteca Nacional deste mês (n 67), que traz uma matéria sobre o "black power" brasileiro, e a apresentação de Tornado ao lado do Trio Ternura no festival da Canção de 1970 sem esquecer,claro, da implicância dos malas da ditadura
CINEMA

O maltratado Cine Windsor(Av Ipiranga, 974), há anos relegado ao destino que agora recebe o Bleas Artes, retoma a vida para qual nasceu nesta Virada trazendo 24 horas de filmes de José Mojica Marins.


Destaque para o raríssimo A Estranha Hospedaria dos Prazeres (16h de domingo), de 1976, que não é exatamente um filme do Zé do Caixão(é do período que a censura estava no pé do personagem)e tem clima de HQ de terror .Não é o melhor Mojica, mas essa é oportunidade única de ver uma cópia decente do filme que não foi lançado em DVD.

Também inédito em DVD é o longa Inferno Carnal, que é do mesmo ano e também só existe em película e conta a história de um cientista defirgurado pela mulher infiel e que parte em bsca de vingança. Passa às 14h do domingo.Agora o melho mesdmo fica por conta dos classicos acomo À Meia Noite Levarei sua Alma, exibido, claro, at the midnight hour.

Bons pesadelos !



quinta-feira, 7 de abril de 2011

OUTRA FACE DO CONCRETISMO


Encerraram-se dia 3 deste mês duas excelentes mostras dedicadas à arte  concreta e seus desdobramentos. Uma  era retrospectiva de Judith Lawland,  outra, mais  ampla, composta por diversos artistas desde os anos 50. Mas o concretismo, de influência poderosa na cena artística nacional, pode ser visto novamente,  agora na  Caixa Cultural, pelas mãos de outro artista fantástico, Dionísio DelSanto.

Dionísio é gravador(faz xilo, serigrafia) e coloca em contato com o racionalismo e a lógica da arte concreta a xilo, com toda suas linhas errantes além de um misticismo todo particular.


Caixa Cultural - Conjunto nacional , Av Paulista, 2083.
Visitação até 24 de abril
de terça a sábado das 9 às 21 horas
Domingos e feriados das 10 às 21 horas

quinta-feira, 31 de março de 2011

CINECLUBE GAMBALAIA -07/04

Dia 07 de abril ,  às 20h, o CINECLUBE GAMBALAIA exibe

 
“Jejum de Amor” (His Girl Friday,1940 – 92 min.)de  Howard Hawks



Uma homem condenado à forca. Políticos querendo lucrar com sua morte. Jornais idem. A verdade por detrás de tudo,no entanto, rende uma matéria ainda mais escabrosa mas que pode nunca ganhar vida porque Hildy Johnson (Rosalind Russell) a melhor de todas as repórteres decidiu abandonar o jornalismo e trocar o ex-marido (e ex-editor) pela vida pacata ao lado de um corretor de seguros.

Walter Burns (Cary Grant)tem só até sexta feira para salvar um condenado, trazer de volta sua repórter e , de quebra,conquistar seu coração. Nem que para isso infernize a vida de sua amada de todas as maneiras possíveis!



ENTRADA GRATUITA !

***
Meia hora antes da sessão rola boa música no nosso “tocacedês”; desta vez será o jazz dos anos 1940, com o melhor da incomparável big band de Duke Ellington e do inspirado clarinetista Sidney Bechet.



Na meia-hora seguinte ao filme, uma mini-palestra esmiuçando a obra de Howard Hawks e exibindo trechos de outros filmes do diretor que inspirou a geração da nouvelle vage a construir o conceito de “cinema de autor” e imprimiu sua marca em comédias, westerns, film noir e outros gêneros.




Espaço Cultural Gambalaia – R. das Monções, 1018


Santo André - SP - f. (11) 4316-1726

 http://www.gambalaia.com.br/

terça-feira, 29 de março de 2011

ROCOCÓ-3

Para terminar nossas postagens sobre o rococó incluo aqui um dado complementar:
a construção do palácio de Versalhes (imagens ao lado e abaixo) custou 2 milhões de liras (algo como 1 bilhão de euros hoje, dados do historiador Michel Vergé-Franceschi) e foi, junto de sucessivas guerras , do auxílio à independência dos EUA ,do atraso crônico da indústria têxtil francesa e das más colheitas de grãos,  um dos componentes que faziam o mundo da nobreza marchar para um fim que eles não percebiam e que decretaria a morte definitiva da arte rococó.


Diz Eric Hobsbawn(a tradução é de Maria Tereza L.Teixeira):

As 400 mil pessoas aproximadamente que,entre os 23 milhões de franceses,formavam a nobreza(...)gozavam de consideráveis privilégios, inclusive a isenção de vários impostos(mas não de tantos quanto o clero,mais bem organizado),e o direito de receber tributos feudais”.

Para se ter uma idéia melhor do violentíssimo contraste desse fausto que era a vida da nobreza com a do povo, uma descrição precisa do historiador Alain Frerejean (tradução de Marly N.Peres):
O trabalhador agrícola na França,no século XVII,geralmente morava numa casa de um único cômodo,algumas vezes,aklgumas vezes compartilhada com outra família.No interior,colchões de palha jogados no chão de terra batida(..)De maio a outubro,iam até os domínios dos nobres,do clero (...)para ajudar na colheita(...)Jornadas estafantes,nas quais homens,mulheres e crianças,dobrados sobre si mesmos durante horas e horasse esfalfavam a serrar,cortar,atar e empilhar.

A refeição dos camponeses restringia-se,quase exclusivamente,ao pão,uma mistura de centeio e de trigo,em porções diárias de cerca de 700 gramas,molhada numa sopa de legumes(...)Quase nunca havia carne ou derivados do leite(...)A caça e a pesca eram privilégio do senhor,mas alguns componentes,furtivamente,se arriscavam a abater um coelho ou conseguir um pouco de peixe”.




Obras consultadas

A Era das Revoluções (ed.Paz e Terra), Eric J. Hobsbawn

Revista História Viva ano III- nº25

Revista História Viva Especial temática nº2

sexta-feira, 25 de março de 2011

ROCOCÓ-2


Luis XIV (1701) , Hyacinthe Rigaud


A escolha entre o desenho e a cor foi mas do que uma questão técnica;a decisão em favor da cor subentendia uma posição contrária ao espírito do absolutismo, à autoridade rígida e à arregimentação racional da vida-era também o sinal para um novo sensualismo e culminou em fenômenos como Watteau e Chardin(...)A tendência para o monumental,o cerimonioso e o solene já desaparece nos primeiros tempo do rococó e dá lugar a uma qualidade mais delicada e mais íntima.Na nova arte, a preferência recai sobre a cor e as nuances de expressão em lugar do grande e firme traço objetivo,e a nota da sensualidade e sentimento será ouvida em todas as suas manifestações
                  - Arnold Hauser, "História Social da Arte e da Literatura"  ,ed.Martins Fontes.

A sugestão do autor acima, quem acmpanha os comentários do blog viu que foi do grande amigo e historiador Mario Cesar (o Marioc). A imagem acima eu incluí  a fim de que o leitor possa contrastar aquilo que Hauser identifica como "monumental,cerimonioso"  e "firme traço objetivo" com a arte rococó, da penúltima postagem . Claro que  arte como essa (retrato dos reis) continua a existir com algumas das mesmas características  ao mesmo tempo  em que Watteau e Fragonard produzem suas pinturas delicadas. O interessante é a mudança de sensibilidade, de modo de pintar, de motivos que surgem com o enfraquecimento dessa figura absoluta  que é o Rei- e essa grandiosidade percebemos perfeitammente na pintura de Rigaud. Aliás, justamente essa pintura já esteve aqui no Brasil, em exibição na  Pinacoteca,com outras obras produzidas para os Luises (14,15 e 16) no qual podia-se notar sutis mudanças no modo de se retratar cada  rei para outro, sintoma das mudaças porque passava a monarquia e a arte no período.

PS. A divulgação do cineclube fica para o início da semana que  vem, logo após uma  última postagem sobre a França de Luis XIV. Já adianto que o filme é "Jejum de Amor", de Howard Hawks e a sessão será dia 07 de abril, às 20h.

quarta-feira, 23 de março de 2011

NOVELA NÃO PRECISA SER BURRA


Quem acompanha este blog sabe que eu vivo resmungando contra as novelas. Pois bem, ontem paguei a  lingua ao assistir a algumas cenas do primeiro capítulo de Morde e Assopra.

Tem um núcleo de paleontologistas, do qual fazem parte Adriana Esteves(com visual meio Indiana Jones) e Bárbara Paz.
Adriana encontra um dinossauro numa fazenda ou sítio cujo dono é interpretado por Marcos  Pasquim o qual, já sabemos de antemão, formará par româtico com ela assim que superarem os tradicionais obstáculos que as  novelas impoem ao amor perfeito. Enfim, isso é o que menos importa. 
As  cenas que assiti  eram extremamente bem filmadas. O núcleo dos cientistas é  algo cômico (nesse sentido Bárbara Paz não estava ruim,  mas pareceu passar do ponto, fez um tipo com trejeitos demais, que destoava dos outros e mesmo dela própria outras cenas dela). Adriana Estevez foi perseguida por duas crianças que  a assustavam com um boi, na tentativa de botáa-la pra correr da fazenda. Ela tropeça e cai de cara num monte de esterco. Em primeiro plano vemos a cara dela toda suja e, bem ao fundo, desfocadas , as crianças com as mãos na cabeça certamente arrependidas. Cena visualmente bem construído e também muito engraçada.

Depois  vemos o grupo entrer num hotel de  luxo. Eles param na  porta, conversam um pouco e a câmmera faz um traveling acompanhando-os da escadaria até a  porrta. Lá, ela para e  nós vammos  aquele  salão ennorme, luxuoso e já antevemos a comédia que virá: aquela  gente emporcalhada tentando encontrar um quarto e recebendo olhares enviesados.
Há um outro núcleo, se bem entendi, ligado a inteligência artificial,robõs que parecem humanos (explico: assisti a novela sem som o que ressalta ainda mais a qualidade das imagens que falavam por si).

A novela em si traz um antogonismo interessante, que começa no título e se extende aos núcleos e opõe o mais ancestral (o dinossauro) ao mais adiante(os robôs), aquilo que é morto mas já teve vida(dinossauro) àquilo que está "morto" mas parece vivo(robô).

Enfim, esse texto bagunçado é só pra mostar que quando se dirige elogios a um filme e se ressalta esta ou aquela  qualidade ,muita gente torce o nariz, dizendo que é chatisse, que se deve levar como entretenimento e  pronto, mas não  é bem assim. Ser divertido não exclui um pensamento por detrás daquilo que se faz.
Morde e Assopra, pelo menos no primeiro capítulo, mostrou que não é  um amontoado de imagens vazias com muitos filmes que vemos por aí.

PS. Retorno ainda esta  semana com um breve complemento  ao texto sobre Rococó .Semana que vem, o  anúncio da próxima sessão do Cineclube Gambalaia.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O ROCOCÓ

Teatralidade e persuasão são as palavras chaves para se entender o período artístico imediatamente anterior a rococó, o barroco e com o qual há mais semelhanças do que diferenças. Era como se as figuras retratadas em suas pinturas (caravaggio, oos  irmãos  Carracci) e esculturas (Bernini)  fossem flagradas no momento mais impactante e comovente de uma cena de teatro . Vale ressaltar que não é o caso aqui de traçar a diferença entre barroco nórdico(protestante) e católico, vamos ficar mais com o último caso.



O Milagre de Sant´Anna,  Bernini


 Giulio Carlo Argan nota que
 “Em ambos os casos(católico e protestante) a religião preocupa-se mais em dirigir as escolhas e os comportamentos humanos do que em contemplar e descrever a lógica providencial do universo

Essa "lógica do universo" era a "alma" da arte dos dois séculos anteriores, o período  do renascimento.

As igrejas católicas barrocas (até por oposição à austeridade protestante) flertavam com o exagero e buscavam mostrar-se como uma antessala do paraíso que permitisse ao devoto um breve contemplar da glória divina. Para isso, o excesso pinturas, imagens, esculturas, colunas e,sobretudo,muito ouro.

                 Biblioteca do mosteiro de Melk

Dos arquitetos desse período, E.H Gombrich diz que
abandonavam todas as limitações(...)Há nuvens por toda a parte com anjos tocando música e gesticulando na bem-aventurança do Paraíso. Alguns pousam no púlpito, tudo parece mover-se e dançar,e a arquitetura que cerca o suntuoso altar parece oscilar ao ritmo dos cânticos jubilosos. Nada era normal ou natural em semelhante igreja,nem pretendia ser” .

A vida das cortes era também marcada pela teatralidade, por um excesso de regras de etiquetas e de conduta próprias de uma classe que não tem grandes obrigações e cujo maior orgulho era o ócio. As pequenas intrigas, os flertes amorosos são seu grande passatempo (a noção de família, amor e ciúmes eram bastante diferentes então a ponto da figura do/a amante ser quase uma instituição).

Quando chegamos à França do Rei Sol, Luís XIV(1638-1715), assistimos à transferência dessa lógica da teatralidade da arquitetura sacra para a das cortes. Ou, o que se chama de arquitetura rococó. Como nota John Summerson há mais semelhanças do que diferenças:

Tenho certeza de que ´retórica´ é a palavra chave. Nesses edifícios, a linguagem clássica é empregada com força e drama para vencer nossa resistência e nos persuadir da da verdade que elas têm a comnicar-seja a glória dos invencíveis exércitos britânicos,seja a magnificência suprema de Luís XIV,ou ainda a abrangência universal da Igreja Romana.”

O palácio de Versalhes, construído entre 1655 e1682 não busca outra coisa senão a ostentação, a criação de um mundo fantástico e artificial habitado pela nobreza. E a moda pega no sul da Alemanha(o norte é protestante) , Áustria e outros países católicos onde casas de campo de nobres ganham  pequenas cascatas,jardins labirínticos trasnformando-se em verdadeiros cenários teatrais, no qual seria vivida com mais  desenvoltura o jogo de aparências dos nobres,  regado a saraus e festas intermináveis. Era o perfeito contraste com as ruas escuras, imundas e violentas das cidades 

No entanto Luís XIV era um rei de tamanha onipresença que basicamente toda pintura de seu período produzida na França era um classicismo grandiloquente voltada quase que unicamente à sua glorificação(ou à de fatso históricos dão reino). A arte,tal como seu governo, era centralizada em sua figura.





                                                                                            Palácio de Versailles
É com sua morte e a  ascensão de Luis XV que as coisas mudam substancialmente tanto para o governo quanto para a pintura. O novo rei comporta-se como um mero mortal, despreza toda  a liturgia do trono que marcava seu antecessor. Jean-Chrsitian Petitfils, diz que
 “o belo relógio da etiqueta-com seus horário imutáveis-acaba desregulado:o cerimonial do despertar e do deitar varia em função das noites passadas com as amantes e do sono ser recuperado. Luis XV prefere refugiar em seus gabinetes,proteger sua vida privada do olhar alheio”.

É exatamente esse desprezo pela teatralidade que o tornará um monarca desprezado, não-sagrado e, de “protetor do rebanho”, a um mero tirano.

Sem o vórtice que era Luis XIV os pintores agora podiam atender aos nobres que queriam,sobretudo, ver seu ideal de vida nas telas. É o que chama-se de pintura rococó.E aqui a cisão é drástica com o barroco. Para José Manuel Pita Andrade era uma arte marcada pela “intimidade, ligeireza,às vezes voluptuosidade”.
São cenas de vida campestre, onde músicos fazem serestas para donzelas enamoradas em cenários irreais. Um elogio ao ócio, à alegria de viver, à beleza dos pequenos prazeres.

Há certamente diferenças marcantes entre nomes como Antoine Watteau(1684-1721) , François Boucher(1703-1770) ou Jean-Honoré Fragonard (1732-1806) e uma breve descrição com a feita aqui pode levar o leitor a pensar que se tratava de uma arte vulgar, menor, o que não é o caso. Para não nos extendermos, o que separa a pintura rococó da arte de um  Renoir  (pra ficar no exemplo da postagem anterior) é mais a técnica da pincelada do que a temática.

     Os felizes azares do balanço (1717)- Jean-Honoré Fragonard

 

De qualqer modo era a arte feita para uma classe que ingenuamente não se apercebia do rufar dos tambores que lhes alcançariam em 1789, com a Revolução Francesa. Que não via que os privilégios conseguidos mil  anos antes, como a isenção de impostos, eram profundamente  atrasados e que, atrasada também era a França, que ignorava a Revolução Industrial ocorroida na Inglaterra e que mudava o ritmo da vida das pessoas(da badalada  dos relógios da igreja para a contagem do ritmo das máquinas a vapor) e também dava nova feição à arte.
A revolução Francesa traria o fim desse modo de vida e também da arte e arquitetura rococó.

 














Peregrinação à ilha de Citera(1717) Antoine Watteau



Diana saindo do banho, François Boucher  


Fontes consultadas

Imagem e Persuasão (Companhia das letras)  - Giulio Carlo Argan

A História da Arte (LTC) - E.H.Gombrich

A linguagem clássica da arquitetura
(Martin Fontes) -  John Summerson

História Geral da Arte Pintura - vol2 (Altaya) -  Vários autores

Revista História Viva Especial Grandes Temas nº.2- A Revolução Francesa

FILMES
O historiador  Marc Ferro recomenda todo o cuidado do  mundo com o cinema para exemplificação de momentos históricos. Para ele,  por melhor que seja a reconstituição, ainda é a visão de  um diretor e não deve sob hipótese alguma ser tomado como documento histórico. Com esse cuidado em mente  e mais  outro(um fiolme é uma obra de arte, não deve ser reduzido apenas á fidelidade histórica ou servir apenas de muleta para professores) , recomendo os três filmes abaixo:

Maria Antonieta (2006), Dir. Sofia Copolla - – A era essa vida de frivolidades de uma nobreza imersa em seu mundo de fantasia e  que sequer  se apercebe da grande tragédia que está por fim, a Revolução Francesa e a decapitação do casal real. A saída de Maria Antonieta (Kisrsten Dunst) do palácio de braço dado com as filhas é de  uma tristeza imensa.
 
Casanova e a Revolução (1982) Dir. Ettore Scola - Reconstituição cuidadosa para mostrar o  símbolo e perfeita metáfora da nobreza, o conquistador Casanova  (Marcello Mastroianni), envelhecido  (como sua instituição) e contemplando um mundo que já não existe mais de dentro de uma carruagem, último refúgio de sua antiga condição. 
 
Ligações Perigosas (1988) Dir.Stephen Frears - Para driblar o tédio, nobres franceses do séc 17 divertem-se armando jogos de conquista amorosa e intrigas sexuais. 
 






segunda-feira, 14 de março de 2011

RENOIR PAI, RENOIR FILHO


  Alguns dizem que Jean Renoir (1894-1979) foi parte do chamado “realismo poético” francês, rótulo paradoxal que pode servir para uni-lo a um cineasta bastante diferente dele, como Jean Vigo ,de “O Atalante”, mas também a toda uma geração do cinema falado de seu país o que é bem impreciso.

É provável que o “poético” que lhe atribuem se deva à leveza de sua obra, que lhe coloca em oposição a um cinema extremamente cerebral e ligado à literatura, que existia na França no anos 1930, justamente a primeira geração do cinema sonoro e que havia buscado justamente na literatura uma espécie de “legitimação” ou “status de arte” agora que os personagens podiam de fato falar e o uso das palavras,antes restritas às plaquinhas de texto, encontrava sua plenitude.

Nisso podemos ligá-lo à obra de seu pai, o pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), parte da geração que libertara definitivamente a pintura da literatura. Até então a importância do tema, da mensagem que a obra passava, era mais levada em conta do que a plástica em si. É neste momento que “tema” perde importância para o “motivo”.


           O almoço dos remadores, Pierre-Auguste Renoir

Jean Renoir se destaca na geração que produz filmes após a vitória dos socialistas e que começa a colocar a classe operária em cena. Como um Émile Zòla ou um Baudelaire, dá ao proletário o caráter de herói romântico, trágico até, influência de suas convicções socialistas.

Quando lhe chamam “realista”(palavrinha traiçoeira, que pode mudar de significado de arte para arte e até de acordo com a circunstância) podemos concordar ao notar o modo como ele escala seus atores menos pelas convenções (os estereótipos) e mais por sua adequação ao papel. Quem poderia dizer que Anna Magnani é tão linda ao ponto de deixar um vice-rei, um toreador e um soldado em conflito por seu coração, no filme “A Carruagem de Ouro”. No entanto qualquer um que assista ao longa sente que ela é perfeita para o papel da impetuosa atriz Camilla.

Há uma convicção muito forte aí, afinal o cinema lida não com o real e sim com a verossimilhança e o verossimilhante é aquilo que nos convence como real. Não há melhor exemplo do que a cena de “Cantando na Chuva”(1952) em que numa cena de briga de bar(estão filmando um western) o ator leva um soco e desmaia. O diretor esbraveja e chama outro ator(Gene Kelly) que refaz a cena, saltando ao levar o soco e rolando por cima do balcão, para alegria do diretor. Ou seja, aquilo que convém ao gênero do filme não é o soco real, mas o verossimilhante.

Outro dado que liga Jean Renoir à obra de seu pai : há um gosto pelos pormenores, pelas trivialidades, pela gestualidade dos personagens que se parece muito com a “captura do instante” , a retenção do momento fugaz que vemos nas pinturas impressionistas em que não há gestos ou ações grandiosas, não há heróis, santos ou reis, mas gente comum como em O Almoço dos remadores (1880) ou Le Moulin de la Galette
(1876).

 
                   Le Moulin de la Gallete


 
Na verdade a representação de “gente de verdade” é uma conquista de uma geração imediatamente anterior justamente a chamada “realista’, cujo maior representante é Gustave Courbet (1819-1877) . E é este pintor que (como os  escritores citados) transforma em imagens  essa idéia  do trabalhador,do homem do povo,como herói romântico e trágico, ante as agruras da vida. 

                                                                                            Os  Quebra-pedras , Gustave Courbet
No entanto a maneira com que nos prostramos diante de um Courbet é bem diferente da que temos diante de um Renoir e tudo tem a ver com a mesma “leveza” que encontramos no cinema de seu filho. Renoir dizia: “nos meus quadros não se pensa” ,evidenciando que eram obras para se sentir ao invés de traduzir em conceitos.

Para encerrar ficamos com uma frase do crítico Inácio Araújo sobre a obra de Jean Renoir:

Ele pode falar mil vezes sobre a simplicidade da vida.Cada vez,o espectador sentirá com se estivesse pisando na lua pela primeira vez”.




                           A Regra do Jogo


Indicação de filmes:


A Regra do Jogo (1939) – Um dos melhores filmes de todos os tempos. A aristocracia francesa vista pelo olhar de Renoir em tom farsesco que evidencia todo o conflito de classes que se faz de tudo para esconder.

A Grande Ilusão (1937) -  Libelo anti-bélico, mostra prisioneiros de guerra e sua relação com seus captores, cada qual afetados de maneira diferente pelo conflito e até onde a pressão da guerra pode levar as pessoas.

A Marselhesa(1937) -   A Revolução Francesa vista pelo olhar dos camponeses que,  engajados na luta contra a monarquia, permanecem meio alheios ao outro conflito que ocorre em esferas sociais mais altas. Outra vez Renoir evidencia um cenário de aparente igualdade para, nas situações mais triviais, explicitar o conflito de classes.



PS. A quem esteve presente no Cineclube:  a próxima  postagem deste blog será sobre arte rococó e a sociedade retratada em A Carruagem de Ouro.

quinta-feira, 10 de março de 2011

CINECLUBE GAMBALAIA - Material complementar

Como material complementar à nossa sessão do Cineclube Gambalaia de hoje, incluo aqui algumas opiniões  colhidas sobre o filme e seu diretor, Jean Renoir ,que certamente vão enriquecer a experiência de quem o assistiu (ou pretende assiti-lo). Até a próxima terça, dia 15, incluo em aqui os temas tratados na palestra após o filme, bem como algumas informações adicionais.


O impacto desses filmes foi absolutamente emocional,foi como estar na presença de um grande afresco (...) A carruagem de Ouro é como uma peça de teatro com personagens de commedia dell´arte. O filme é leve e belo. A ênfase está na composição da cor(...).Em muitas das cenas,os enquadramentos recordam-me os quadros de seu pai
                             Martin Scorsese em depoimento incluído nos extras do DVD da Versátil Video.


Poucos cineastas foram, ao longo do século,tão agradáveis quanto Jean Renoir(1894-1979). Essa sensação não decorre necessariamente da qualidade ou vigor de seus filmes,mas de uma atitude que,de algum modo,Renoir conseguia transpor para a tela até mesmo quando filmava uma história trágica(...) No cinema-como na pintura,não existem ideias,ou antes elas se covertem em gestos,movimentos,objetos,luz.Em Renoir,o cinema reencontra a experiência dos impressionistas,preocupados em libertar a pintura dos vestígios literários
         Inácio Araújo, no livro Cinema de boca em boca- Críticas de Inácio Araújo (Imprensa Oficial)


É provavelmente o melhor filme a contar com Anna Magnani, e poderia encerrar qualquer discussão sobre as diferenças entre teatro e cinema. Porque em A Carruagem de Ouro, o cinema nasce do teatro, claramente, por trás das cortinas vermelhas. Melhor seria dizer que o cinema penetra onde o teatro não pode. O cinema revela a reação daquele que escuta, que recebe o olhar. Revela também os caminhos por onde se fazem as intrigas, e por onde elas são combatidas. Os flertes, os amantes escondidos, os pretendentes revoltados, os duelistas, o serviçal do rei... E a pergunta da personagem de Magnani, uma comediante dell'arte, ressoa até muito além do final do filme: ´onde acaba o teatro e começa a vida?´ Talvez seja a pergunta que nós, cinéfilos, tenhamos que fazer sempre, obviamente com a substituição de uma arte pela outra" .


                      Sérgio Alpendre, no blog de crítica de cinema Chip Hazard http://chiphazard.zip.net/

quarta-feira, 2 de março de 2011

CINECLUBE GAMBALAIA (atualizado)


Dia 10 de março ,  às 20h, estreia o CINECLUBE GAMBALAIA


exibindo “A Carruagem de Ouro” (1952 – 100 min), de  Jean Renoir

Uma trupe italiana de comedia dell´arte  é convidada a se apresentar para a nobreza de uma colônia sul-americana...
O choque entre dois mundos e uma pergunta que não cala (onde acaba o teatro e onde começa a vida? ) são só alguns dos atrativos deste filme leve  e engraçado ,porém nada superficial, do mestre francês Jean Renoir.
ENTRADA GRATUITA !
***





 Nada  mais apropriado para iniciar o Cineclube  Gambalaia do que um filme  sobre teatro. O Gambalaia começou voltado  exatamente para o teatro, depois expandiu-se.  Aqui, uma reflexão dos limites, diferenças e semelhanças entre o teatro e o cinema.
Imperdível.
***
O que é o CINECLUBE GAMBALAIA ?



É um jeito diferente de fazer cineclube. Queremos trazer de volta aquele sentimento de que ver um filme é uma experiência coletiva e mostrart que um filme não acaba ao final da exibição (nem começa antes dela).


Para isso, meia hora antes de cada sessão, rola boa música no nosso “tocacedês”; desta vez será o concerto “As Quatro Estações”, de Antonio Vivaldi, obra-prima da música barroca  que serviu de inspiração para Jean Renoir escrever o filme.


Na meia-hora seguinte, uma mini-palestra relacionando a obra com seu contexto histórico e artístico e destacando suas qualidades.

Espaço Cultural Gambaia – R. das Monções, 1018 
Santo André - SP - f. (11) 4316-1726    http://www.gambalaia.com.br/

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

.CINEMA É A MAIOR DIVERSÃO? - e vem aí Cineclube !

Entre tweets e retweets, um seguidor (antigamente isso era coisa só de religioso...) responde à apresentadora do SPTV 1ª edição, Carla Vilhena, que dava suas impressões sobre o filme Cisne Negro, de Darren Aronofsky. É pra ler de baixo pra cima, claro.




@carlavilhenaa concordo! Fui ver o filme com minha esposa, pra relaxar, e saímos muito mais tensos que entramos! Mas é excelente o filme


carlavilhenaa


Não vou contar o fim, mas o desenrolar é quase insuportável. A tensão da protagonista nos invade e quase não dá pra encostar na poltrona.


carlavilhenaa


Em suma: filme bem realizado, Portman excelente (inclusive nas cenas de balé) mas o filme não condiz com a frase "Cinema é a maior diversão”.



Ora,com mil diabos,quem foi que disse que “cinema é a maior diversão”? O dono do Cinemark? Algum paspalho em Holywood? Pode ser, porque Hollywood, que já nos deu obras-primas, hoje entrega lixo atrás de lixo que o Cinemark trata de distribuir junto de sua pipoca hipercalórica. E é extremamente interessante notar que o casal foi ao cinema “pra relaxar”. È por essas e por outras que o espectador que eu citei na postagem anterior saiu bufando da sessão de “Tio Boonmee”.

A industria tomou conta de tal maneira do cinema, disseminou essa visão curta de tal maneira que hoje, quando alguém diz que cinema é arte, é tachado de chato,mal-humorado, ranheta,estraga-prazeres. Não consigo imaginar alguém indo ao MASP ver um Degas “pra relaxar” ou dizer que escultura é “a maior diversão”. Simplesmente porque não houve essa devastação da arte a ponto desse termo, “arte” ser quase um palavrão em cinema – ( não vou aqui discutir o termo “filme de arte” que normalmente cabe em produções pretenciosas e vazias). Nada contra se divertir com filmes como Predadores ou Mercenários, mas não dá pra pensar como esse pessoal, que cinema é só isso e,se não for,é uma porcaria – (o espectador acima se surpreendeu por não ter relaxado, mas gostou do filme).

Nas postagens seguintes vou trazer as idéias de Adorno e Horkheimer, que estabelecem uma divisão bastante rígida entre arte e a tal da “diversão” ainda que eu não concorde de todo com esse radicalismo deles.
Por enquanto,incluo  aqui um trecho de um texto publicado esta semana pelo Inácio araújo em sua coluna diária na Folha de São Paulo.

“Uma boa questão:por que os filmes que a crítica endossa são quase sempre ignorados pelo grande público?

Talvez não haja motivo para se surpreender. A crítica se interessa pelo filme com arte e tem a ilusão(às vezes nem tão ilusória) de definir o que é cinema.

Já a primeira obrigação de um grande filme, um filme de público,consiste em ir ao encontro desse público.

(...)Talvez o cinema hoje seja como a literatura.Ou alguém acha que Joyce e Proust figuram e alguma lista de Best-sellers?”

!!!



PS. Um bom tempo  planejando e organizando e finalmente vai estrear  o cineclube idealizado por este que vos  escreve e pelo Alex Lima, do espaço Cultural Gambalaia. Explico melhor o projeto, que será mensal e envolverá também música e  mini-palestra, em postagem semana  que vem. Mas desde já estão todos convidados !













sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

TIO BOONMEE PODE ENCANTAR VOCÊ

Bom, antes de tudo, desculpas  ao leitor pelo sumiço. Mas teve texto pro HQM (faltam dois ainda), logotipo de bloco de carnaval, criação e divulgação de cineclube...ufa!
Mas vamos lá, ainda que aos trancos e barrancos(não está descartado outro sumiço semana que vem).


A vidraça da vez nas seçoes de cartas de jornais e revistas de  cultura é o  filme "Tio Boonmee que pode recordar suas vidas passadas". Sempre tem alguém revoltado  com os elogios dos  críticos (eu mesmo presenciei reclamações). É aquela coisa, o sujeiro vê o crítico elogiando, vai ao cinema, detesta o filme e se sente tapeado.Acha que o crítico é um idiota que elogia coisas  que os outros odeiam só pra ser do contra.
é parte de tudo o que temos discutido aqui, mas não só. Tio Boonme nãao é nem um pouco fácil. Dá pra entender a bronca do público.  É daqueles filmes em que não  acontece "nada". Na verdade acontece muita, mas muita coiisa, só que não está no esquema de narração tradicional.  Não há uma evolução da trama  (apresentação-problema-desenvolvimento-climax-desfecho). Quando não há uma estrutura asssim, parace mesmo que não há nada.

Um leitor do Guia da Folha,munido de seu "diploma-autoridade" de sociólogo empreedeu uma "análise":

Trata-se de um loga sem profundidade alguma:não tem trama,seus diálogos são improváveis,suas imagens são incrivelmente vazias e entediantes e a duração estende-se por muito mais  ttempo do que o bom senso autorizaria

Agora: o que é um diálogo provável?- deixa pra lá.  Imagens vazias? Ok, vamos lá.

Cinco pessoas sentam à mesa e começa a conversar sobre a vida. Mas um deles  é um fantasma. Outro é um fantasma também,só que de outro tipo, um macaco, um espírito da floresta. Há uma dose de magia aí muito maior doo que em todos os HaryPotter e Senhor dos Anéis juntos.   A natureza está impregnada de magia, não é algo isolado, fantástico que se manifesta, não eestá na esfera do extra-ordinário, está na do ordinário mesmo,  ela é assim para o diretor e para  toda uma cultura oriental.  é um modo de encarar o mundo. Por isso o filme pede uma postura diferente, de contemplação  e nãao de esperar o que está  por acontecer. Não é o depois, é  o agora. é viver aquela cena, é respirar aquele ar. Porque os manuais de roteiro ensinam que um filme deve deixar sempre o espectador pensando: o "que vai contecer em seguida?". Se é uma comédia romãnticaa pergunta-se  "e agora?complicou tudo" ou "será que vão ficar juntos? ou ela vai encontrar vai preferir aquele outro cara?".

Em Tio Boonme isso pouco importa, sabemos desde o início  que ele está para morrer. E depois? Depois nada, sabemos dos espíritos mas que,como diz um deles, "os espíritos só existem ligados a uma pessoa viva"."O céu é superestimado.  Não existe nada lá".  Ou seja, nós damos sentido e vida a esse mundo. E a alguém que está morrendo, como Tio Boonmee e descobre tudo isso, só o que resta é a beleza da vida.

No mais, a cena da morte do tio é  encantadora.  Eles entram numa caverna uterina, cheia de pedras preciosas brilhando como um céu estrelado. é da mitologia oriental, como me lembro de Joseph Campbell explicando, nessa ccaverna de cristais cada pedra reflete o brilho de todas as outras, não se sabendo de qual veio a luz primeiro. Tudo está ligado, ninguém está isolado, nem das outras pessoas nem da natureza.
é uma abordagem do mundo e da vida muito mais profunda do que a de Avatar, por exemplo, que já é um ótimo filme.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

POR UMA ARTE DESCONFORTÁVEL


Reproduzo aqui,com prometido, trechos da entrevista do dramaturgo Edward Albeee, ao repórter Lucas Neves e publicada pela Folha de São Paulo em 30/12/10.
Albee, que é autor de “Quem tem medo de Virginia Woolf” e cuja nova peça, “A Senhora de Dubuque”, com Alessandra Negrini, está em cartaz no SESC Pinheiros, em São Paulo, bate forte contra a cena teatral norte-americana (notadamente a Broadway) ,que,aliás, é muito semelhante à cinematográfica. A ausência da ligação entre arte e educação, tanto lá como cá,geram esse público preguiçoso e desejoso de fórmulas fáceis .
À entrevista:


A maioria das pessoas quer um entretenimento seguro e amigável.não desejam um ato de agressão.E quase toda arte,em seu melhor,é um ato de agressão contra o status quo. Ou seja, está ali para levantar questões não para fornecer respostas fáceis,simples. Mas se você faz perguntas difíceis, irrita muita gente.Essa é a função da arte,entretanto.Se ela não lhe saca do conforto,não é arte.O problema é que boa parte das pessoas tem preguiça intelectual”


“Atraente é uma palavra perigosa, significa que as pessoas vão gostar.O que a arte precisa é ser mobilizadora de nossa mente e de nossas emoções.Ela não tem de nos deixar felizes,ma sim mais conscientes de nossos valores. E deve nos levar a interrogar se estamos dando conta ou não de nossas responsabilidades. Não entendo côo alguém pode querer ir ao teatro só para ver atores voando suspensos por fios (referência a ´Homem Aranha´ ).Vá ao circo,então. O teatro deve mobilizar o intelecto e o olhar”

“ (...)as pessoas não querem ser incomodadas quando vão ao teatro.Anseiam ter seus valores reafirmados-se é que se chega a discutir valores em cena.Não esperam vê-los questionados. Não estão ali para ser perturbadas. Querem perder tempo e estão dispostas a gastar muito dinheiro para isso”

“(o indivíduo) tem de ser instruído para fazer a democracia funcionar e para querer um teatro que faça algo útil.Quando eu ia a escola, tinha uma classe de formação cívica,em que aprendia como o governo trabalhava e o que significava um ato político.Não se ensina mais isso na América.Também tive aulas de música, literatura e artes visuais.Hoje elas não são consideradas importantes.As preferências das platéias são ditadas pelo pouco que aprendem.Se o cardápio ensinado fosse mais amplo, a gama de interesses seria mais diversificada”





SESC Pinheiros - Teatro Paulo Autran.


Tel.: (11) 3095-9400


Sexta e sábado, às 21h. Domingo, às 18h.