quarta-feira, 23 de março de 2011

NOVELA NÃO PRECISA SER BURRA


Quem acompanha este blog sabe que eu vivo resmungando contra as novelas. Pois bem, ontem paguei a  lingua ao assistir a algumas cenas do primeiro capítulo de Morde e Assopra.

Tem um núcleo de paleontologistas, do qual fazem parte Adriana Esteves(com visual meio Indiana Jones) e Bárbara Paz.
Adriana encontra um dinossauro numa fazenda ou sítio cujo dono é interpretado por Marcos  Pasquim o qual, já sabemos de antemão, formará par româtico com ela assim que superarem os tradicionais obstáculos que as  novelas impoem ao amor perfeito. Enfim, isso é o que menos importa. 
As  cenas que assiti  eram extremamente bem filmadas. O núcleo dos cientistas é  algo cômico (nesse sentido Bárbara Paz não estava ruim,  mas pareceu passar do ponto, fez um tipo com trejeitos demais, que destoava dos outros e mesmo dela própria outras cenas dela). Adriana Estevez foi perseguida por duas crianças que  a assustavam com um boi, na tentativa de botáa-la pra correr da fazenda. Ela tropeça e cai de cara num monte de esterco. Em primeiro plano vemos a cara dela toda suja e, bem ao fundo, desfocadas , as crianças com as mãos na cabeça certamente arrependidas. Cena visualmente bem construído e também muito engraçada.

Depois  vemos o grupo entrer num hotel de  luxo. Eles param na  porta, conversam um pouco e a câmmera faz um traveling acompanhando-os da escadaria até a  porrta. Lá, ela para e  nós vammos  aquele  salão ennorme, luxuoso e já antevemos a comédia que virá: aquela  gente emporcalhada tentando encontrar um quarto e recebendo olhares enviesados.
Há um outro núcleo, se bem entendi, ligado a inteligência artificial,robõs que parecem humanos (explico: assisti a novela sem som o que ressalta ainda mais a qualidade das imagens que falavam por si).

A novela em si traz um antogonismo interessante, que começa no título e se extende aos núcleos e opõe o mais ancestral (o dinossauro) ao mais adiante(os robôs), aquilo que é morto mas já teve vida(dinossauro) àquilo que está "morto" mas parece vivo(robô).

Enfim, esse texto bagunçado é só pra mostar que quando se dirige elogios a um filme e se ressalta esta ou aquela  qualidade ,muita gente torce o nariz, dizendo que é chatisse, que se deve levar como entretenimento e  pronto, mas não  é bem assim. Ser divertido não exclui um pensamento por detrás daquilo que se faz.
Morde e Assopra, pelo menos no primeiro capítulo, mostrou que não é  um amontoado de imagens vazias com muitos filmes que vemos por aí.

PS. Retorno ainda esta  semana com um breve complemento  ao texto sobre Rococó .Semana que vem, o  anúncio da próxima sessão do Cineclube Gambalaia.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O ROCOCÓ

Teatralidade e persuasão são as palavras chaves para se entender o período artístico imediatamente anterior a rococó, o barroco e com o qual há mais semelhanças do que diferenças. Era como se as figuras retratadas em suas pinturas (caravaggio, oos  irmãos  Carracci) e esculturas (Bernini)  fossem flagradas no momento mais impactante e comovente de uma cena de teatro . Vale ressaltar que não é o caso aqui de traçar a diferença entre barroco nórdico(protestante) e católico, vamos ficar mais com o último caso.



O Milagre de Sant´Anna,  Bernini


 Giulio Carlo Argan nota que
 “Em ambos os casos(católico e protestante) a religião preocupa-se mais em dirigir as escolhas e os comportamentos humanos do que em contemplar e descrever a lógica providencial do universo

Essa "lógica do universo" era a "alma" da arte dos dois séculos anteriores, o período  do renascimento.

As igrejas católicas barrocas (até por oposição à austeridade protestante) flertavam com o exagero e buscavam mostrar-se como uma antessala do paraíso que permitisse ao devoto um breve contemplar da glória divina. Para isso, o excesso pinturas, imagens, esculturas, colunas e,sobretudo,muito ouro.

                 Biblioteca do mosteiro de Melk

Dos arquitetos desse período, E.H Gombrich diz que
abandonavam todas as limitações(...)Há nuvens por toda a parte com anjos tocando música e gesticulando na bem-aventurança do Paraíso. Alguns pousam no púlpito, tudo parece mover-se e dançar,e a arquitetura que cerca o suntuoso altar parece oscilar ao ritmo dos cânticos jubilosos. Nada era normal ou natural em semelhante igreja,nem pretendia ser” .

A vida das cortes era também marcada pela teatralidade, por um excesso de regras de etiquetas e de conduta próprias de uma classe que não tem grandes obrigações e cujo maior orgulho era o ócio. As pequenas intrigas, os flertes amorosos são seu grande passatempo (a noção de família, amor e ciúmes eram bastante diferentes então a ponto da figura do/a amante ser quase uma instituição).

Quando chegamos à França do Rei Sol, Luís XIV(1638-1715), assistimos à transferência dessa lógica da teatralidade da arquitetura sacra para a das cortes. Ou, o que se chama de arquitetura rococó. Como nota John Summerson há mais semelhanças do que diferenças:

Tenho certeza de que ´retórica´ é a palavra chave. Nesses edifícios, a linguagem clássica é empregada com força e drama para vencer nossa resistência e nos persuadir da da verdade que elas têm a comnicar-seja a glória dos invencíveis exércitos britânicos,seja a magnificência suprema de Luís XIV,ou ainda a abrangência universal da Igreja Romana.”

O palácio de Versalhes, construído entre 1655 e1682 não busca outra coisa senão a ostentação, a criação de um mundo fantástico e artificial habitado pela nobreza. E a moda pega no sul da Alemanha(o norte é protestante) , Áustria e outros países católicos onde casas de campo de nobres ganham  pequenas cascatas,jardins labirínticos trasnformando-se em verdadeiros cenários teatrais, no qual seria vivida com mais  desenvoltura o jogo de aparências dos nobres,  regado a saraus e festas intermináveis. Era o perfeito contraste com as ruas escuras, imundas e violentas das cidades 

No entanto Luís XIV era um rei de tamanha onipresença que basicamente toda pintura de seu período produzida na França era um classicismo grandiloquente voltada quase que unicamente à sua glorificação(ou à de fatso históricos dão reino). A arte,tal como seu governo, era centralizada em sua figura.





                                                                                            Palácio de Versailles
É com sua morte e a  ascensão de Luis XV que as coisas mudam substancialmente tanto para o governo quanto para a pintura. O novo rei comporta-se como um mero mortal, despreza toda  a liturgia do trono que marcava seu antecessor. Jean-Chrsitian Petitfils, diz que
 “o belo relógio da etiqueta-com seus horário imutáveis-acaba desregulado:o cerimonial do despertar e do deitar varia em função das noites passadas com as amantes e do sono ser recuperado. Luis XV prefere refugiar em seus gabinetes,proteger sua vida privada do olhar alheio”.

É exatamente esse desprezo pela teatralidade que o tornará um monarca desprezado, não-sagrado e, de “protetor do rebanho”, a um mero tirano.

Sem o vórtice que era Luis XIV os pintores agora podiam atender aos nobres que queriam,sobretudo, ver seu ideal de vida nas telas. É o que chama-se de pintura rococó.E aqui a cisão é drástica com o barroco. Para José Manuel Pita Andrade era uma arte marcada pela “intimidade, ligeireza,às vezes voluptuosidade”.
São cenas de vida campestre, onde músicos fazem serestas para donzelas enamoradas em cenários irreais. Um elogio ao ócio, à alegria de viver, à beleza dos pequenos prazeres.

Há certamente diferenças marcantes entre nomes como Antoine Watteau(1684-1721) , François Boucher(1703-1770) ou Jean-Honoré Fragonard (1732-1806) e uma breve descrição com a feita aqui pode levar o leitor a pensar que se tratava de uma arte vulgar, menor, o que não é o caso. Para não nos extendermos, o que separa a pintura rococó da arte de um  Renoir  (pra ficar no exemplo da postagem anterior) é mais a técnica da pincelada do que a temática.

     Os felizes azares do balanço (1717)- Jean-Honoré Fragonard

 

De qualqer modo era a arte feita para uma classe que ingenuamente não se apercebia do rufar dos tambores que lhes alcançariam em 1789, com a Revolução Francesa. Que não via que os privilégios conseguidos mil  anos antes, como a isenção de impostos, eram profundamente  atrasados e que, atrasada também era a França, que ignorava a Revolução Industrial ocorroida na Inglaterra e que mudava o ritmo da vida das pessoas(da badalada  dos relógios da igreja para a contagem do ritmo das máquinas a vapor) e também dava nova feição à arte.
A revolução Francesa traria o fim desse modo de vida e também da arte e arquitetura rococó.

 














Peregrinação à ilha de Citera(1717) Antoine Watteau



Diana saindo do banho, François Boucher  


Fontes consultadas

Imagem e Persuasão (Companhia das letras)  - Giulio Carlo Argan

A História da Arte (LTC) - E.H.Gombrich

A linguagem clássica da arquitetura
(Martin Fontes) -  John Summerson

História Geral da Arte Pintura - vol2 (Altaya) -  Vários autores

Revista História Viva Especial Grandes Temas nº.2- A Revolução Francesa

FILMES
O historiador  Marc Ferro recomenda todo o cuidado do  mundo com o cinema para exemplificação de momentos históricos. Para ele,  por melhor que seja a reconstituição, ainda é a visão de  um diretor e não deve sob hipótese alguma ser tomado como documento histórico. Com esse cuidado em mente  e mais  outro(um fiolme é uma obra de arte, não deve ser reduzido apenas á fidelidade histórica ou servir apenas de muleta para professores) , recomendo os três filmes abaixo:

Maria Antonieta (2006), Dir. Sofia Copolla - – A era essa vida de frivolidades de uma nobreza imersa em seu mundo de fantasia e  que sequer  se apercebe da grande tragédia que está por fim, a Revolução Francesa e a decapitação do casal real. A saída de Maria Antonieta (Kisrsten Dunst) do palácio de braço dado com as filhas é de  uma tristeza imensa.
 
Casanova e a Revolução (1982) Dir. Ettore Scola - Reconstituição cuidadosa para mostrar o  símbolo e perfeita metáfora da nobreza, o conquistador Casanova  (Marcello Mastroianni), envelhecido  (como sua instituição) e contemplando um mundo que já não existe mais de dentro de uma carruagem, último refúgio de sua antiga condição. 
 
Ligações Perigosas (1988) Dir.Stephen Frears - Para driblar o tédio, nobres franceses do séc 17 divertem-se armando jogos de conquista amorosa e intrigas sexuais. 
 






segunda-feira, 14 de março de 2011

RENOIR PAI, RENOIR FILHO


  Alguns dizem que Jean Renoir (1894-1979) foi parte do chamado “realismo poético” francês, rótulo paradoxal que pode servir para uni-lo a um cineasta bastante diferente dele, como Jean Vigo ,de “O Atalante”, mas também a toda uma geração do cinema falado de seu país o que é bem impreciso.

É provável que o “poético” que lhe atribuem se deva à leveza de sua obra, que lhe coloca em oposição a um cinema extremamente cerebral e ligado à literatura, que existia na França no anos 1930, justamente a primeira geração do cinema sonoro e que havia buscado justamente na literatura uma espécie de “legitimação” ou “status de arte” agora que os personagens podiam de fato falar e o uso das palavras,antes restritas às plaquinhas de texto, encontrava sua plenitude.

Nisso podemos ligá-lo à obra de seu pai, o pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), parte da geração que libertara definitivamente a pintura da literatura. Até então a importância do tema, da mensagem que a obra passava, era mais levada em conta do que a plástica em si. É neste momento que “tema” perde importância para o “motivo”.


           O almoço dos remadores, Pierre-Auguste Renoir

Jean Renoir se destaca na geração que produz filmes após a vitória dos socialistas e que começa a colocar a classe operária em cena. Como um Émile Zòla ou um Baudelaire, dá ao proletário o caráter de herói romântico, trágico até, influência de suas convicções socialistas.

Quando lhe chamam “realista”(palavrinha traiçoeira, que pode mudar de significado de arte para arte e até de acordo com a circunstância) podemos concordar ao notar o modo como ele escala seus atores menos pelas convenções (os estereótipos) e mais por sua adequação ao papel. Quem poderia dizer que Anna Magnani é tão linda ao ponto de deixar um vice-rei, um toreador e um soldado em conflito por seu coração, no filme “A Carruagem de Ouro”. No entanto qualquer um que assista ao longa sente que ela é perfeita para o papel da impetuosa atriz Camilla.

Há uma convicção muito forte aí, afinal o cinema lida não com o real e sim com a verossimilhança e o verossimilhante é aquilo que nos convence como real. Não há melhor exemplo do que a cena de “Cantando na Chuva”(1952) em que numa cena de briga de bar(estão filmando um western) o ator leva um soco e desmaia. O diretor esbraveja e chama outro ator(Gene Kelly) que refaz a cena, saltando ao levar o soco e rolando por cima do balcão, para alegria do diretor. Ou seja, aquilo que convém ao gênero do filme não é o soco real, mas o verossimilhante.

Outro dado que liga Jean Renoir à obra de seu pai : há um gosto pelos pormenores, pelas trivialidades, pela gestualidade dos personagens que se parece muito com a “captura do instante” , a retenção do momento fugaz que vemos nas pinturas impressionistas em que não há gestos ou ações grandiosas, não há heróis, santos ou reis, mas gente comum como em O Almoço dos remadores (1880) ou Le Moulin de la Galette
(1876).

 
                   Le Moulin de la Gallete


 
Na verdade a representação de “gente de verdade” é uma conquista de uma geração imediatamente anterior justamente a chamada “realista’, cujo maior representante é Gustave Courbet (1819-1877) . E é este pintor que (como os  escritores citados) transforma em imagens  essa idéia  do trabalhador,do homem do povo,como herói romântico e trágico, ante as agruras da vida. 

                                                                                            Os  Quebra-pedras , Gustave Courbet
No entanto a maneira com que nos prostramos diante de um Courbet é bem diferente da que temos diante de um Renoir e tudo tem a ver com a mesma “leveza” que encontramos no cinema de seu filho. Renoir dizia: “nos meus quadros não se pensa” ,evidenciando que eram obras para se sentir ao invés de traduzir em conceitos.

Para encerrar ficamos com uma frase do crítico Inácio Araújo sobre a obra de Jean Renoir:

Ele pode falar mil vezes sobre a simplicidade da vida.Cada vez,o espectador sentirá com se estivesse pisando na lua pela primeira vez”.




                           A Regra do Jogo


Indicação de filmes:


A Regra do Jogo (1939) – Um dos melhores filmes de todos os tempos. A aristocracia francesa vista pelo olhar de Renoir em tom farsesco que evidencia todo o conflito de classes que se faz de tudo para esconder.

A Grande Ilusão (1937) -  Libelo anti-bélico, mostra prisioneiros de guerra e sua relação com seus captores, cada qual afetados de maneira diferente pelo conflito e até onde a pressão da guerra pode levar as pessoas.

A Marselhesa(1937) -   A Revolução Francesa vista pelo olhar dos camponeses que,  engajados na luta contra a monarquia, permanecem meio alheios ao outro conflito que ocorre em esferas sociais mais altas. Outra vez Renoir evidencia um cenário de aparente igualdade para, nas situações mais triviais, explicitar o conflito de classes.



PS. A quem esteve presente no Cineclube:  a próxima  postagem deste blog será sobre arte rococó e a sociedade retratada em A Carruagem de Ouro.

quinta-feira, 10 de março de 2011

CINECLUBE GAMBALAIA - Material complementar

Como material complementar à nossa sessão do Cineclube Gambalaia de hoje, incluo aqui algumas opiniões  colhidas sobre o filme e seu diretor, Jean Renoir ,que certamente vão enriquecer a experiência de quem o assistiu (ou pretende assiti-lo). Até a próxima terça, dia 15, incluo em aqui os temas tratados na palestra após o filme, bem como algumas informações adicionais.


O impacto desses filmes foi absolutamente emocional,foi como estar na presença de um grande afresco (...) A carruagem de Ouro é como uma peça de teatro com personagens de commedia dell´arte. O filme é leve e belo. A ênfase está na composição da cor(...).Em muitas das cenas,os enquadramentos recordam-me os quadros de seu pai
                             Martin Scorsese em depoimento incluído nos extras do DVD da Versátil Video.


Poucos cineastas foram, ao longo do século,tão agradáveis quanto Jean Renoir(1894-1979). Essa sensação não decorre necessariamente da qualidade ou vigor de seus filmes,mas de uma atitude que,de algum modo,Renoir conseguia transpor para a tela até mesmo quando filmava uma história trágica(...) No cinema-como na pintura,não existem ideias,ou antes elas se covertem em gestos,movimentos,objetos,luz.Em Renoir,o cinema reencontra a experiência dos impressionistas,preocupados em libertar a pintura dos vestígios literários
         Inácio Araújo, no livro Cinema de boca em boca- Críticas de Inácio Araújo (Imprensa Oficial)


É provavelmente o melhor filme a contar com Anna Magnani, e poderia encerrar qualquer discussão sobre as diferenças entre teatro e cinema. Porque em A Carruagem de Ouro, o cinema nasce do teatro, claramente, por trás das cortinas vermelhas. Melhor seria dizer que o cinema penetra onde o teatro não pode. O cinema revela a reação daquele que escuta, que recebe o olhar. Revela também os caminhos por onde se fazem as intrigas, e por onde elas são combatidas. Os flertes, os amantes escondidos, os pretendentes revoltados, os duelistas, o serviçal do rei... E a pergunta da personagem de Magnani, uma comediante dell'arte, ressoa até muito além do final do filme: ´onde acaba o teatro e começa a vida?´ Talvez seja a pergunta que nós, cinéfilos, tenhamos que fazer sempre, obviamente com a substituição de uma arte pela outra" .


                      Sérgio Alpendre, no blog de crítica de cinema Chip Hazard http://chiphazard.zip.net/

quarta-feira, 2 de março de 2011

CINECLUBE GAMBALAIA (atualizado)


Dia 10 de março ,  às 20h, estreia o CINECLUBE GAMBALAIA


exibindo “A Carruagem de Ouro” (1952 – 100 min), de  Jean Renoir

Uma trupe italiana de comedia dell´arte  é convidada a se apresentar para a nobreza de uma colônia sul-americana...
O choque entre dois mundos e uma pergunta que não cala (onde acaba o teatro e onde começa a vida? ) são só alguns dos atrativos deste filme leve  e engraçado ,porém nada superficial, do mestre francês Jean Renoir.
ENTRADA GRATUITA !
***





 Nada  mais apropriado para iniciar o Cineclube  Gambalaia do que um filme  sobre teatro. O Gambalaia começou voltado  exatamente para o teatro, depois expandiu-se.  Aqui, uma reflexão dos limites, diferenças e semelhanças entre o teatro e o cinema.
Imperdível.
***
O que é o CINECLUBE GAMBALAIA ?



É um jeito diferente de fazer cineclube. Queremos trazer de volta aquele sentimento de que ver um filme é uma experiência coletiva e mostrart que um filme não acaba ao final da exibição (nem começa antes dela).


Para isso, meia hora antes de cada sessão, rola boa música no nosso “tocacedês”; desta vez será o concerto “As Quatro Estações”, de Antonio Vivaldi, obra-prima da música barroca  que serviu de inspiração para Jean Renoir escrever o filme.


Na meia-hora seguinte, uma mini-palestra relacionando a obra com seu contexto histórico e artístico e destacando suas qualidades.

Espaço Cultural Gambaia – R. das Monções, 1018 
Santo André - SP - f. (11) 4316-1726    http://www.gambalaia.com.br/

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

.CINEMA É A MAIOR DIVERSÃO? - e vem aí Cineclube !

Entre tweets e retweets, um seguidor (antigamente isso era coisa só de religioso...) responde à apresentadora do SPTV 1ª edição, Carla Vilhena, que dava suas impressões sobre o filme Cisne Negro, de Darren Aronofsky. É pra ler de baixo pra cima, claro.




@carlavilhenaa concordo! Fui ver o filme com minha esposa, pra relaxar, e saímos muito mais tensos que entramos! Mas é excelente o filme


carlavilhenaa


Não vou contar o fim, mas o desenrolar é quase insuportável. A tensão da protagonista nos invade e quase não dá pra encostar na poltrona.


carlavilhenaa


Em suma: filme bem realizado, Portman excelente (inclusive nas cenas de balé) mas o filme não condiz com a frase "Cinema é a maior diversão”.



Ora,com mil diabos,quem foi que disse que “cinema é a maior diversão”? O dono do Cinemark? Algum paspalho em Holywood? Pode ser, porque Hollywood, que já nos deu obras-primas, hoje entrega lixo atrás de lixo que o Cinemark trata de distribuir junto de sua pipoca hipercalórica. E é extremamente interessante notar que o casal foi ao cinema “pra relaxar”. È por essas e por outras que o espectador que eu citei na postagem anterior saiu bufando da sessão de “Tio Boonmee”.

A industria tomou conta de tal maneira do cinema, disseminou essa visão curta de tal maneira que hoje, quando alguém diz que cinema é arte, é tachado de chato,mal-humorado, ranheta,estraga-prazeres. Não consigo imaginar alguém indo ao MASP ver um Degas “pra relaxar” ou dizer que escultura é “a maior diversão”. Simplesmente porque não houve essa devastação da arte a ponto desse termo, “arte” ser quase um palavrão em cinema – ( não vou aqui discutir o termo “filme de arte” que normalmente cabe em produções pretenciosas e vazias). Nada contra se divertir com filmes como Predadores ou Mercenários, mas não dá pra pensar como esse pessoal, que cinema é só isso e,se não for,é uma porcaria – (o espectador acima se surpreendeu por não ter relaxado, mas gostou do filme).

Nas postagens seguintes vou trazer as idéias de Adorno e Horkheimer, que estabelecem uma divisão bastante rígida entre arte e a tal da “diversão” ainda que eu não concorde de todo com esse radicalismo deles.
Por enquanto,incluo  aqui um trecho de um texto publicado esta semana pelo Inácio araújo em sua coluna diária na Folha de São Paulo.

“Uma boa questão:por que os filmes que a crítica endossa são quase sempre ignorados pelo grande público?

Talvez não haja motivo para se surpreender. A crítica se interessa pelo filme com arte e tem a ilusão(às vezes nem tão ilusória) de definir o que é cinema.

Já a primeira obrigação de um grande filme, um filme de público,consiste em ir ao encontro desse público.

(...)Talvez o cinema hoje seja como a literatura.Ou alguém acha que Joyce e Proust figuram e alguma lista de Best-sellers?”

!!!



PS. Um bom tempo  planejando e organizando e finalmente vai estrear  o cineclube idealizado por este que vos  escreve e pelo Alex Lima, do espaço Cultural Gambalaia. Explico melhor o projeto, que será mensal e envolverá também música e  mini-palestra, em postagem semana  que vem. Mas desde já estão todos convidados !













sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

TIO BOONMEE PODE ENCANTAR VOCÊ

Bom, antes de tudo, desculpas  ao leitor pelo sumiço. Mas teve texto pro HQM (faltam dois ainda), logotipo de bloco de carnaval, criação e divulgação de cineclube...ufa!
Mas vamos lá, ainda que aos trancos e barrancos(não está descartado outro sumiço semana que vem).


A vidraça da vez nas seçoes de cartas de jornais e revistas de  cultura é o  filme "Tio Boonmee que pode recordar suas vidas passadas". Sempre tem alguém revoltado  com os elogios dos  críticos (eu mesmo presenciei reclamações). É aquela coisa, o sujeiro vê o crítico elogiando, vai ao cinema, detesta o filme e se sente tapeado.Acha que o crítico é um idiota que elogia coisas  que os outros odeiam só pra ser do contra.
é parte de tudo o que temos discutido aqui, mas não só. Tio Boonme nãao é nem um pouco fácil. Dá pra entender a bronca do público.  É daqueles filmes em que não  acontece "nada". Na verdade acontece muita, mas muita coiisa, só que não está no esquema de narração tradicional.  Não há uma evolução da trama  (apresentação-problema-desenvolvimento-climax-desfecho). Quando não há uma estrutura asssim, parace mesmo que não há nada.

Um leitor do Guia da Folha,munido de seu "diploma-autoridade" de sociólogo empreedeu uma "análise":

Trata-se de um loga sem profundidade alguma:não tem trama,seus diálogos são improváveis,suas imagens são incrivelmente vazias e entediantes e a duração estende-se por muito mais  ttempo do que o bom senso autorizaria

Agora: o que é um diálogo provável?- deixa pra lá.  Imagens vazias? Ok, vamos lá.

Cinco pessoas sentam à mesa e começa a conversar sobre a vida. Mas um deles  é um fantasma. Outro é um fantasma também,só que de outro tipo, um macaco, um espírito da floresta. Há uma dose de magia aí muito maior doo que em todos os HaryPotter e Senhor dos Anéis juntos.   A natureza está impregnada de magia, não é algo isolado, fantástico que se manifesta, não eestá na esfera do extra-ordinário, está na do ordinário mesmo,  ela é assim para o diretor e para  toda uma cultura oriental.  é um modo de encarar o mundo. Por isso o filme pede uma postura diferente, de contemplação  e nãao de esperar o que está  por acontecer. Não é o depois, é  o agora. é viver aquela cena, é respirar aquele ar. Porque os manuais de roteiro ensinam que um filme deve deixar sempre o espectador pensando: o "que vai contecer em seguida?". Se é uma comédia romãnticaa pergunta-se  "e agora?complicou tudo" ou "será que vão ficar juntos? ou ela vai encontrar vai preferir aquele outro cara?".

Em Tio Boonme isso pouco importa, sabemos desde o início  que ele está para morrer. E depois? Depois nada, sabemos dos espíritos mas que,como diz um deles, "os espíritos só existem ligados a uma pessoa viva"."O céu é superestimado.  Não existe nada lá".  Ou seja, nós damos sentido e vida a esse mundo. E a alguém que está morrendo, como Tio Boonmee e descobre tudo isso, só o que resta é a beleza da vida.

No mais, a cena da morte do tio é  encantadora.  Eles entram numa caverna uterina, cheia de pedras preciosas brilhando como um céu estrelado. é da mitologia oriental, como me lembro de Joseph Campbell explicando, nessa ccaverna de cristais cada pedra reflete o brilho de todas as outras, não se sabendo de qual veio a luz primeiro. Tudo está ligado, ninguém está isolado, nem das outras pessoas nem da natureza.
é uma abordagem do mundo e da vida muito mais profunda do que a de Avatar, por exemplo, que já é um ótimo filme.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

POR UMA ARTE DESCONFORTÁVEL


Reproduzo aqui,com prometido, trechos da entrevista do dramaturgo Edward Albeee, ao repórter Lucas Neves e publicada pela Folha de São Paulo em 30/12/10.
Albee, que é autor de “Quem tem medo de Virginia Woolf” e cuja nova peça, “A Senhora de Dubuque”, com Alessandra Negrini, está em cartaz no SESC Pinheiros, em São Paulo, bate forte contra a cena teatral norte-americana (notadamente a Broadway) ,que,aliás, é muito semelhante à cinematográfica. A ausência da ligação entre arte e educação, tanto lá como cá,geram esse público preguiçoso e desejoso de fórmulas fáceis .
À entrevista:


A maioria das pessoas quer um entretenimento seguro e amigável.não desejam um ato de agressão.E quase toda arte,em seu melhor,é um ato de agressão contra o status quo. Ou seja, está ali para levantar questões não para fornecer respostas fáceis,simples. Mas se você faz perguntas difíceis, irrita muita gente.Essa é a função da arte,entretanto.Se ela não lhe saca do conforto,não é arte.O problema é que boa parte das pessoas tem preguiça intelectual”


“Atraente é uma palavra perigosa, significa que as pessoas vão gostar.O que a arte precisa é ser mobilizadora de nossa mente e de nossas emoções.Ela não tem de nos deixar felizes,ma sim mais conscientes de nossos valores. E deve nos levar a interrogar se estamos dando conta ou não de nossas responsabilidades. Não entendo côo alguém pode querer ir ao teatro só para ver atores voando suspensos por fios (referência a ´Homem Aranha´ ).Vá ao circo,então. O teatro deve mobilizar o intelecto e o olhar”

“ (...)as pessoas não querem ser incomodadas quando vão ao teatro.Anseiam ter seus valores reafirmados-se é que se chega a discutir valores em cena.Não esperam vê-los questionados. Não estão ali para ser perturbadas. Querem perder tempo e estão dispostas a gastar muito dinheiro para isso”

“(o indivíduo) tem de ser instruído para fazer a democracia funcionar e para querer um teatro que faça algo útil.Quando eu ia a escola, tinha uma classe de formação cívica,em que aprendia como o governo trabalhava e o que significava um ato político.Não se ensina mais isso na América.Também tive aulas de música, literatura e artes visuais.Hoje elas não são consideradas importantes.As preferências das platéias são ditadas pelo pouco que aprendem.Se o cardápio ensinado fosse mais amplo, a gama de interesses seria mais diversificada”





SESC Pinheiros - Teatro Paulo Autran.


Tel.: (11) 3095-9400


Sexta e sábado, às 21h. Domingo, às 18h.

 




sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

TALENTO, ARTE E A VIDA, VINTE ANOS DEPOIS...

É próprio de quem chega nos 30 começar a sentir saudade  "dos velhos tempos". Que dirá aos 40  ! Os amigos que não se vê mais, as loucuras dos tempos de faculdade, os  porres, os amores  (que com o teempo se confundem na memória), tudo ganha uma  certo verniz romântico quando comparado ao presente, principalmente se ele não honrou  às expectativas do passado.

  Tanto pior se você era uma jovam promessa do teatro que acabou fazendo stand up em barzinhos e se seu melhor amigo  era um  dramaturgo de talento que  bebeu e cheirou tudo,inclusive o talento.

O que sobra senão o orgulho (com uma ponta de rancor) e a saudade? O orgulho de ter tentado, de saber que se tem talento, de ter passado o pão que o diabo amassou pra provar seu valor, ainda que poucos tenham reconhecido. E a saudade das madrugadas lendo John  Fante e Bukowski, enchedo a cara e azarando as garotas. Bons e velhos tempos, melhores ainda se comparado aos de hoje, com essa garotada que só conhece aquilo que está  ao alcance dos primeiros resultados do Google.

Explico-me,agora: este não é um texto confessional, mas o coração da excelente, engraçadíssima ,terrivelmente melancólica (e ainda assim otimista) peça Corações Under Rocks que está  em cartaz no CCSP Sala Paulo Emilio Salles Gomes (100 lugares) até  06 de março às sextas e sábados, às 21h  e aos domingos, às 20h - Ingressos: R$10,00 (retirada de ingressos: duas horas antes de cada sessão) 
Amanhã, dia  5/2  o preço é promocional, (R$2,55)- não sei pra que esse 5 centavos, mas ok, ta valendo.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

FILMECOS "CHATÍSSIMOS"

 


Parece até um texto produzido especialmente para o Bar1211 a postagem do Blog do Inácio desta semana
(http://inacio-a.blogosfera.uol.com.br/2011/01/31/filmes-que-ninguem-compreende-6/) afinal complementa com exatidão nossa discussão aqui nas últimas semanas, que é a da relação com os filmes ditos "complicados" e  da repulsa do público, que prefere o que de mais confortável estéticamente que a indústria lhe oferece. A distinção imediata acaba sendo entre arte  e indústria ainda que no cinema tal distinção seja virtualmente  impossível(a discussão, trataremos disso um dia, já chegou ao mundo das Artes Visuais- que é como se chamam hoje as artes plásticas).

Inácio na verdade construiu um texto para responder a um leitor que chamava o filme do de Apichtapong "Tio Boonmee que pode recordar suas vidas passadas"(vencedor da última palma de ouro de Cannes) de "filmeco" e "chatíssimo" deixando entender que ninguém na verdade poderia gostar desse filme a menos que fosse para fazer pose  de intelectual. E reclama  : por que esses filmes não dizem "o óbvio"?

Em resposta o crítico fala dos "filmes que vêm com bula" como “A Origem”, de Cristopher Nolan,  movidos a " explicações prévias que os estúdios destilam pela mídia" e destaca a palavra "chatíssimo" usada pelo leitor, para o crítico, uma "espécie de condenação à morte simbólica", argumento indiscutível de quem não entendeu um filme e pretende desqualificá-lo. Para Inácio "há duas maneiras de um filme ser chato: ou porque nós não o compreendemos ou porque o compreendemos demais".

Destaco um trecho   e convido o leitor a ler e indicar aos amigos  o texto original. E também a  comparar com a entrevista do dramaturgo Edward Albee que eu trarei ainda esta semana:

 
E para esses leitores o único conhecimento aceitável é o das bulas de remédio. E, como se trata de fenômenos de conhecimento, é bem mais fácil imaginar que não existe desconhecido, que não existem campos a desbravar. Apenas o óbvio. O mundo já está decifrado. Quem não professa o óbvio é, obviamente, um impostor. O quê? Freud com o inconsciente? Um impostor. Picasso? Não sabia pintar, era um idiota, por isso pintava tudo torto. Godard? Nem se fala. Esse é tão óbvio que é melhor nem falar. Beckett? Como não sabia desenvolver histórias, inventava essas coisas que não vão nem pra frente nem pra trás. E todos esses, claro, contam com o beneplácito dos intelectuais, dos críticos, esses parasitas infatigáveis, sempre dispostos a dizer que se deleitaram com essas monstruosidades, mas que elevam aos céus esses impostores tipo Manoel de Oliveira, Antonioni, David Lynch… Que não compreendem que só queremos ver “uma boa história”.





sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

MARCHA PARA ZENTURO NO CCSP



Não é incomum  hoje  amigos que pouco se vêem, mas que mantém contato virtual intenso. É uma espécie de  não existência, uma existência fantasma(sem julgamento de valor), parte do modo de vida contemporâneo . 
É disso, basicamente, de que trata Marcha para Zenturo, peça  em cartaz no Centro Cultural São Paulo. Ou melhor, é esse o cerne da questão,  em torno do qual gravitam muitas outras questões .
Não é um tema estranho nem mesmo ao cinema. A animação da Pixar, Wall-E tocou nele e o filme Pulse (inédito no Brasil), de Kyioshi Kurosawa foi fundo.

O que torna essa peça  especial é a maneira como o faz.  Estamos no futuro(só se dirá  que ano lá pela metade da peça).  Um grupo de amigos se reencontram para celebrar o reveillon no apartamento de um deles. Lá fora a tal marcha para Zenturo, pessoas marchando e prometendo ficarem em sil~encio na virada do ano, a subversão máxima, a negação máxima..  Ninguém consegue sair do apartamento, apenas observam lá  de cima. Um deles  é  problemático, dado a andar a  pé, aos afetos  e à convivência humana. Está ,pois, fora de seu tempo (a maneira como isso fica demonstrada cenicamente é fantástica, mas não voui contar aqui). Como é o futuro em que eles vivem, que aconteceu com o cristanismo  são  coisas mostradas aos poucos, sem discurso ou descrição. Mas há mais:

um deles, o mais excêntrico, resolve dar de presente aos demais uma peça de teatro. Chegam os atores e começam a encenar Tchecov.  muda o tom, há aquele mergulho em outro tempo, mas os atores da "outra peça ainda estão no palco, assitindo essa encenação. Os significados se sobrepõem. Termina a peça. Eles inteeragem e encaram a tal "marcha para Zenturo. Que é o que? Um outro significado, no qual a platéia está diretamentre implicada (uma projeção em cena deixa isso claro) é que emerge. 
Uma coisa é clara: o futuro fictício é a caricatura do hoje. Mas: Fazemos parte da marcha? Ou do apartamento? Dos que querem afeto, toque, ou dos que buscam a impessoalidade,a  virtualidade. 
Há muito o que pensar depois da peça.


Centro Cultural São Paulo -  R.Vergueiro, n 1000. Centro.
Tel. (11) 3397-4002
Sex.Sáb. 21h.Domingo 20 h.
Até 13/02.
Ingressos: deR$10 a R$20.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O CINEMA-GULOSEIMA

Leio no blog do Sérgio Alpendre (http://chiphazard.zip.net/ ) que no Festival de cinema de Tiradentes o diretor Zelito Viana disse ,a respeito do cinema jovem, que   "raramente vê algo que presta, porque os jovens de hoje recebem informações de forma fragmentada e superficial demais, graças a muita internet e muita televisão” . Zelito,vale  lembrar, foi entrevistado da semana passada do programa Sala de Cinema, da TV Sesc.

Já o professor da Pós-Graduação em História Social da USP e doutor em arqueologia clássica pela Sorbonne, Ulpiano Bezerra, em entrevista à Revista E. deste mês diz algo bastante semelhante. E tem a ver também com a coisa da velocidade de que falei e que o Inácio Araújo também cita em seu livro(que eu transcrevi na postagem anteror). Os grifos,novamente,são meus.

A reflexão não se dá bem com o instantâneo.Como na estética do videoclipe,valoriza-se exclusivamente a imersão.E a imersão redutora,sem posterior emersão,pode onduzir ao afogamento. No campo do conhecimento e da formação crítica,que exigem distância e tempo não é o que tem acontecido. A percepção se dilui na sensação, o que é sem dúvida prazeroso e positivo,mas compromete a consciência da mediação sensorial da vida-raiz da inteligibilidade.
Além do mais,quando a bateria de sensações é excludente de alternativas, até a interatividade pode ser enganosa e corre o risco de mascarar passividade intelectual sob aparência de hiperatividade gestual.Mais uma vez,parece-me que os desajustes não são da tecnologia,mas de quem os opera”.

Entrevista completa disponível em: http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=393&Artigo_ID=5996&IDCategoria=6908&reftype=2 ou na versão impressa, distribuída gratuitamente nas unidades do SESC.

***
 Leio no blog da Ilustrada ( http://ilustradanocinema.folha.blog.uol.com.br/ ) Bruno Yutaka escrever (também sobre Tiradentes):
 
O que é usufruir um filme hoje? Para Bressane, temos filmes guloseima, consumidos depois do prato principal, algo supérfluo, ingerido sem necessidade, mais por reflexo do que por uma busca, que não alimenta, engolido após já estarmos saciados.


“É uma exigência medieval, hoje não há mais tempo para a observação sensível”, disse Bressane. O que sobra, diz, é a escória da usura –que justifica o salário. Consumimos por desespero.



sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

CINEMA É MOVIMENTO,NÃO AGITAÇÃO

Transcrevo aqui um trecho do livro "Cinema de boca em boca-Críticas de Inácio Araújo" (Imprensa Oficial) de já falei aqui e tem bastante a ver com o que estamos discutindo nas últimas postagens. Os  grifos são meus:


“(...)numa entrevista à Veja, Décio de Almeida Prado falava da diferença entre o público de teatro dos anos 1950/1960 e o de agora.Ee diz que,naquele tempo,as pessoas viam uma peça de teatro e depois aquilo era motivo para conversa reflexão,durante dias.

Com o cinema não é tão diferente. O que se vê mais recentemente é a substituição de uma arte que nasceu popular por uma atividade de massa. É o que se pode chamar de cultura do blockbuster:a pessoa quer um filme agitado,com explosões,correria.Até aí,tudo bem.Não é por ter isso que um filme deixa de ter iportância.

Mas o que se está sedimentando,que me parece muito perigoso,é a idéia de que cinema é movimento. Muito bem.Estou até de acordo.Mas o que é movimento?Não é agitação. De algum modo ainda espero escrever pra quem se dispõe a fazer uma distinção entre essas coisas”.



segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

"A CÂMERA É UM OLHO MÓVEL..."

Aproveitando o gancho da última postagem, sobre edição e iluminação nas telenovelas, transcrevo aqui algumas palavras do mestre  Douglas Sirk tiradas do precioso documentário “Alguns dias com Douglas Sirk”, de Pascal Thomas e Dominique Rabourdin ,que acompanha o filme "Tudo que o Céu Permite" lançado pela Versátil Video.


“A câmera é um olho móvel que segue o ator. Sempre costumei,em planos móveisfazer as vezes de assistente de fotografia.para er de perto o foco e a qualidade da tomada. Trata-se de não perder os atores nem sua composição.Ela não pode ser mudada nessa hora. Filmes,para mim, são uma coisa ótica. A câmera é um olho em si. Você tem de gostar de quê? Da luz. Mas há certas regras. A primeira regra, penso, é estudar os rostos, a aparência geral da pessoa,do ator ou atriz(...)

Não basta iluminar a pessoa ou o rosto inundando o rosto de luz.Pode ser péssimo. Iluminar o rosto de frente achata o rosto,que perde suas melhores e mais interessantes características. Precisamos de sombras. Minha filosofia,em cinema, é a luz. Principalmente seu estilo, sua letra, seu toque é o que conta em um filme. Não é tanto a história em si mas seu estilo pessoal. Cinema, o lugar da linguagem assumido pela câmera,pela luz e pela montagem".

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

TELENOVELA 2

Me pergunto: que diabo de formação têm o diretores de novelas? Ou quem decide com as coisas são filmadas? Por que tudo tem que ser tão igual, tão sem personalidade, tão medíocre? Que a estrutura seja sempre a mesma, entende-se. Há de ter um amor impossível que se mostrará possível, algum invejoso querendo impedir o amor dos pombinhos e que se dará mal no final. E etc. Mas, no trato com a imagem? Caramba!

Numa cena intensa ,com diálogos entre dos personagens (no caso Ximenes e Daniel Boaventura) a cena foi filmada numa seqüência histérica de campo e contracampo, ou seja, ela diz algo, close nela, ele diz algo, close nele. Como se não bastasse o recurso primário, cada plano dura de 3 a 5 segundos! Um plano longo (aqueles de silêncio) dura,no máximo, 10 segundos !!! Não é de surpreender que as pessoas fiquem de estômago virado quando topem com um filme do Resnais ou do Antonioni. E o cinema nacional cada vez mais reproduz,tim tim por tim tim, todos os vícios da TV. As comédias, então, nem se fale, repetem o ritmo das gags, o tipo de humor, os enquadramentos,essa mediocridade toda.
Aí a pessoa vai ao cinema pra ver o mesmo que vê na televisão e acaba achando que cinema é isso aí e aquilo que não é,não presta.

Algum leitor pode até estar  me chamando de rabugento, de defender filmes “chatos”(não são nem um pouco chatos, só não entregam tudo mastigado), mas é bom lembrar que essa edição histérica da TV (que é também do cinema americano de hoje) destrói o trabalho do ator, câmera não tem tempo de se fixar nele. E o close, já se disse, é o investigar da alma humana. Numa novela na investiga nada, não se busca o que está por detrás do olhar do personagem. Aliás, nem se detém sobre este olhar.


***

A diretora da novela, uma das, tem sobrenome Saraceni. Será que  é parente do Paulo Cesar, do cinema novo ? Não tem um pingo do talenrto dele? Recebe instruções de filmar dessa maneira? Sei lá.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A PAUTA ESQUECIDA

Alguns anos atrás (bem uns 5 ou 6) havia um daqueles programas excelentes que a TV Cultura costumava exibir em horários meio chatos(por volta da meia noite). Não me lembro o nome, mas nele um professor discorria sobre um assunto ao longo de uma semana, ou seja tinha a oportunidade de se aprofundar sobre o tema de uma maneira que não se vê mais no jornalismo de hoje em dia(nem mesmo no escrito,que deveria ser o saudável contraponto à TV). Lembro do Ismail Xavier falando do cinema de Hitchcock,por exemplo.

Enfim, o tema deste programa era “A Pauta Esquecida” e o professor(adivinhem, não lembro quem era!) discorria sobre a mania da imprensa se deter somente nas pautas quentes, os assuntos do dia, aqueles que chamam a atenção na sociedade no momento. Ele destacava também inúmeras pautas esquecidas, temas que poderiam e deveriam ser abordadas,mas,por não terem nenhum fato lhes servindo de gancho, ficam assim mesmo, esquecidas. È mais ou menos assim: se alunos depredam uma escola, o jornalista vai lá e faz uma matéria de um minuto e meio sobre os problemas na educação, o baixo salário dos professores e a situação precária das escolas. O professor também listava algus programas na época que eram exceção a essa regra. Me lembro dele falar do Diálogos Impertinentes queacho que não existe mais. Na época era apresentado pelo Mario Sergio Cortella na TV PUC e retransmitido pela então TV SESCSENAC.

Hoje  no Bom Dia Brasil teve uma entrevista de um geólogo dizendo,entre outras coisas, que as bananeiras favorecem os desabamentos em encostas na época de chuvas. Algo a ver com o formato em funil da planta, que injeta água de uma forma meio brutal no solo o que é literalmente mortal nessa época. Ok, ótimo saber disso. Mas os jornalistas teriam cumprido melhor seu dever se tivessem lembrado, uns meses atrás, que em dezembro em diante começa a chover, torrencialmente como dizem os maus escritores. E tivessem entrevistado o geólogo. Assim o pessoal teria arrancado as bananeiras antes que elas mesmas tivessem sido arrasatadas pelos desabamentos que levam também casas e vidas.

Enfim, uma pauta que não deveria ser esquecida durante o inverno.

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Esse comportamento é bbem parecido com o do Governo do Estado que agora vem anunciar o desassoreamento dos Rios Tietê e Pinheiros. Agora?