terça-feira, 31 de maio de 2011

DARIO ARGENTO- 4

A importância da cor Vermelha em suspiria  

Em Suspiria uma cor domina todo o filme: o vermelho. Ou melhor, domina a parte fantástica do filme, aquela partir do momento em que Susan deixa o aeroporto(a civilização) onde tudo é meio cinza, meio apagado. Uma figura,ainda lá, parece um prenúncio(como a chuva- ver post anterior) do mal: a mulher de vestido vermelho que passa apressada e é um corpo estranho, um fogo-fátuo em meio à calmaria. Por um rápido instante, o vermelho envolve Susan como vemos na imagem abaixo.


Antonioni, cineasta-pintor por excelência,como nos lembra Jacques Aumont, é um desses que utiliza as cores de maneira extremamente bem pensada:

“seu gosto pelas dominantes cinza (todo filme de Antonioni mostra a névoa), para fazer ressaltar melhor aí,como manchas fantásticas, a chama amarelo-limão das tochas de O deserto vermelho, as cores bem berrantes de Blow-up”.

Como já foi dito aqui, as cenas de Argento são construídas como pinturas e em Suspiria isso é ainda mais radical porque a imagem muitas vezes fica praticamente estática, convidando à contemplação. Nesses momentos Argento parece brincar com a arte abstrata, usando linhas, cores e os corpos das vítimas para criar uma imagem espantosamente bela. Não é por outro motivo que o sangue é de um vermelho vivo, que nos remete mais ao pigmento, à tinta, do que propriamente ao sangue real. A cena da garota pendurada no teto da escola é exemplar. Vemos ela morta, depois o chão, preto e branco. Em seguida goteja o sangue vermelho que começa a se espalhar, como se um artista o estivesse tivesse respingando com um pincel. E ela despenca junto dos cacos do vitral também vermelho.












O vermelho puro foi tradicionalmente usado na pintura figurativa para representar o fogo do Inferno, afinal é uma cor que,em demasia, gera  irritação, incômodo.

 Basta olharmos para a tela “A Morte da Virgem” (1605-06) de Caravaggio e sentir todo o incômodo do vermelho que torna a atmosfera asfixiante e nos passa sensação de temor, sofrimento e pesar.


Argento sabia bem disso quando fez a escola (fachada e interior) ser vermelha. Quanto mais Susan mergulha nos  domínios do mal, mais essa cor parece a envolver(e a nós também).


PS . Na última postagem da série, o cinema  "barroco" .

segunda-feira, 30 de maio de 2011

DARIO ARGENTO- 3

Suspiria

Um conto de fadas de horror


Para este filme Argento fez questão de trabalhar com o Technicolor, sistema já ultrapassado que tinha o inconveniente de empobrecer as nuances de cor. Para ele isso não era problema, pelo contrário, por que realçava as cores puras (tornando o vermelho ainda mais gritante) numa tentativa de mimetizar a paleta de cores do desenho animado da Disney, Branca de Neve. Por bom motivo: o sobrenatural, que ganhava espaço sobre o racional filme a filme, aqui toma conta e Suspiria, com a história de uma jovem bailarina que desce num aeroporto rumo à um prédio antigo e assutador no meio da floresta, não é outra coisa que não um conto de fadas, como aliás entrega o narrador em off logo antes dos créditos, como alguém que diz “era uma vez...”.


De fato há ainda a persistência do racional na presença de especialistas que “explicam” a bruxaria, no entanto não é a lógica que sustenta o filme, pelo contrário, desaba diante dele. Coisas acontecem sem explicação alguma ,como um braço que assassina um das jovens do internato. De onde vem? De quem é? Não se sabe.

Ocorre de início em Suspiria a cisão entre espaços, o moderno (civilizado) e o antigo (domínio do sobrenatural). A chuva torrencial com que a bailarina Susan Baynion é recebida no aeroporto é ao mesmo tempo a barreira a ser rompida entre os dois mundos mas também presságio do mal que virá. Sua volta, ao final do filme, induz mais ao mal-estar do que ao alívio,com seria comum. Ela não é um banho na alma, metáfora de purificação ou liberdade. Dado sua primeira aparição sinistra, indica uma permanência do mal , sua mutação, de fogo em água. Nisso Argento parece nos levar de volta à chuva que impede a fogueira de matar Asa, a princesa-bruxa de Máscara do Demônio, monstro ressurreto tal qual a Helena Markus de Suspiria.


De fato há ainda a persistência do racional na presença de especialistas que “explicam” a bruxaria, no entanto não é a lógica que sustenta o filme, pelo contrário, desaba diante dele. Coisas acontecem sem explicação alguma ,como um braço que assassina um das jovens do internato. De onde vem? De quem é? Não se sabe.

Ocorre de início em Suspiria a cisão entre espaços, o moderno (civilizado) e o antigo (domínio do sobrenatural). A chuva torrencial com que a bailarina Susan Baynion é recebida no aeroporto é ao mesmo tempo a barreira a ser rompida entre os dois mundos mas também presságio do mal que virá. Sua volta, ao final do filme, induz mais ao mal-estar do que ao alívio,com seria comum. Ela não é um banho na alma, metáfora de purificação ou liberdade. Dado sua primeira aparição sinistra, indica uma permanência do mal , sua mutação, de fogo em água. Nisso Argento parece nos levar de volta à chuva que impede a fogueira de matar Asa, a princesa-bruxa de Máscara do Demônio, demônio ressurreto tal qual a Helena Markus de Suspiria.

Os sons e o olhar

Se há um sentido profundamente enganoso em Suspiria, este é o olhar. É por meio dele que se comete todos os equívocos, é ele quem induz a julgamentos errados. Não à toa o personagem do pianista cego, antes de todos (e mesmo antes de nós, espectadores guiados pela visão) é que sabe o que realmente ocorre na mansão. “Eu sou cego, não surdo” ele sai dizendo ao ser expulso. A morte chega também para a garota que contempla sua imagem refletida na janela, durante uma noite chuvosa.


De fato, se o olhar é enganoso, a audição é indício constante da presença do mal.A trilha sonora composta pela banda de rock progressivo Goblins incorpora sons diversos, gemidos, sussurros que conferem vida ao inanimado e indicam essa presença fantasma, esse mal que percorre os domínios da mansão mas que em momento aalgum tem forma definida. Pelo contrário, ele(ou ela) é a indefinição completa, expressa somente pelos sons e por “imagens” que nada mostram. Como diz Jean Baptiste-Thoret:

“Quando o personagem penetra no lugar, o espaço subitamente se anima: gemidos e ruídos estridentes surgem na trilha sonora, sombras e manchas luminosas desfilam nas fachadas, até que um movimento de câmera- encarregado de reproduzir o ponto de vista ( ou o espírito?) de uma gárgula- fende o ar até o centro da praça. Tudo concorre aqui a movimentar o espaço, a transmitir a sensação de uma atividade espiritual ou orgânica, como se no coração destas estruturas imóveis palpitassem forças vivas e desconhecidas"

segunda-feira, 23 de maio de 2011

DARIO ARGENTO- 2

OS FILMES GIALLO


Apesar de Suspiria ser um dos melhores filmes de horror já feitos e a obra-prima de Dario Argento, o diretor estreou em 1970 com “O Pássaro das Plumas de Cristal” , filme do gênero giallo que,aliás, o fez célebre. Giallo na Itália é um gênero amplo, que engloba todo tipo histórias de mistério, trillers e suspense, freqentemente com um sujeito qualquer, que investiga crimes ajudando(ou à margem) da polícia. O nome vem de livrinhos baratos de capa amarela com tramas meio ao estilo Agatha Christie,bastante populares por lá.

Argento não era um novato, claro. Já tinha uma carreira como crítico de cinema em Roma quando, junto de Bernardo Bertolucci, escreveu o roteiro de “Era uma vez no Oeste”(1968), para Sergio Leone.

O Pássaro das Plumas de Cristal e seu filme seguinte, “O Gato de Nove Caudas”(1971), valeram a Argento o apelido de “Hitchcock italiano”, mais pelo estilo utilizado em algumas das cenas do que pelas tramas (o diretor inglês não fazia filmes de mistério*). Desde o primeiro longa algumas marcas já se impõem: um personagem cego, animais ocupando parte importante da trama ,a presença de um personagem masculino fraco, dominado por mulheres cruéis e mortes chocantes cujas vítimas freqüentemente são...mulheres.

As cenas ultra-violentas,aliás, se tornam a assinatura do diretor italiano,que faz o possível para se superar a cada filme. Mas também é marcante o fato do herói ser alguém de certa forma(ou amplamente) impotente perante os acontecimentos(em “O gato...” é um cego) e cujos erros na investigação não raramente causam mortes inocentes.

“O Gato...” traz uma guinada em relação às tramas tradicionalmente racionais dos giallo,feitas de deduções lógicas coerentes: a influência do absurdo, inexplicável, do fantástico. O desfecho do filme parece absurdo, incoerente, o que irrita muita gente.
                                                               "O Gato de Nove Caudas"

Seus filmes seguintes, apesar de não abrirem mão de personagens e tramas racionais, pendem cada vez mais para o fantástico. O ápice antes da guinada é “Profondo Rosso”,de 1975, que marca também a aproximação de Argento com o chamado cinema “de arte”, especialmente Michelangelo Antonioni.

A guinada,claro, é Suspiria, quando o fantástico toma a forma do horror e a investigação racional chega a ser quase um corpo estranho no organismo do filme. Quase.
 Cena de "Profondo Rosso"



* Hitchcock usava um exemplo para diferenciar suspense de mistério. No filme de mistério o assassino ou culpado só é revelado ao público e aos demais personagens no final. Trata-se de uma surpresa. No suspense sabe-se de início quem é o culpado(ou algo assim), mas os personagens,no entanto, ignoram.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

DARIO ARGENTO-1


Mario Bava

Não da para falar em Dario Argento, diretor de Suspiria, sem recorrer ao nome de Mario Bava, cineasta italiano que estreou tarde na direção(aos 46 anos)mas com uma dessas obras de impacto profundo, La Maschera del demônio.O filme, de 1959, é também chamado de “Mask of Satan” ou “Black Sunday”, dependendo do país e da versão, por causa da implicância dos censores da época com a violência inédita do filme.

A Máscara do Demônio(vamos chamar assim) reciclava o visual dos filmes da Universal Pictures dos anos 1930 e 40 para contar a história (baseada no conto “Viy”do russo Nikolai Gogol) de uma princesa do séc 17, Asa (interpretada por Barbara Steele, de “8 e ½”), condenada por seu próprio irmão, um inquisidor, por bruxaria e vampirismo.Sua pena é ter cravada no rosto uma máscara de ferro cheia de espinhos metálicos antes de ir para a fogueira. Asa promete retornar à vida e vingar-se de sua descendência.

A sequência de abertura , principalmente o golpe de marreta do carrasco no rosto de Asa, chocou a audiência e continua poderosa ainda hoje. Estaria fincada (com perdão do trocadilho) uma da bases do horror italiano, as cenas ultraviolentas.Visto então, o Drácula de Bela Lugosi parecia desconcertantemente ingênuo.



Mas fosse só por isso, A Máscara do Demônio não teria tido uma sobrevida mais longa do que a princesa Asa. Mario Bava demonstrou domínio pleno do preto-e-branco e um uso espantoso do jogo de luz e sombras(impressionante mesmo se comparado às obras da Universal Pictures) e da composição de cena que fazem o espectador esquecer algumas seqüências canhestras(até para a época) como um desajeitado morcego que ataca os invasores da cripta onde está a vampira. Bava compunha as cenas como um pintor “barroco”(vamos tratar disso adiante).

Com frequênca a câmera está em posição desconcertante e os objetos de cena ainda mais, quase colados nela, deixando os atores lá no fundo, numa perspectiva em diagonal.
Ou a ação principal é deslocada do centro para as lateriais da tela, deixando grandes áreas "livres" criando uma beleza literalmente assustadora. As cenas são para ser admiradas como belas pinturas, isoladas mesmo de seu contexto.
Tudo isso gera uma estranheza, um mal-estar que não passa desapercebido pelo espectador. 


Mario Bava não ficou restrito aos filmes de horror, até porque eles não eram populares na Itália,na época. Aventurou-se por um outro gênero, o giallo, que faria famoso Dario Argento, que soube absorver todas as lições do mestre, desde a violência chocante ao domínio da luz e da composição de cena.
A isso voltamos na próxima postagem.


terça-feira, 10 de maio de 2011

CINECLUBE GAMBALAIA -13/05 meia-noite

CINECLUBE GAMBALAIA especial
Sexta Feira 13 ! apresenta, à meia-noite:
 “Suspiria” (Itália, 1977 – 98 min.)  , de Dario Argento 
Uma jovem bailarina desembarca num aeroporto rumo à mais prestigiosa escola de dança da Alemanha.No entanto o estranho comportamento das professoras e acidentes bizarros a levam a crer que o local é tomado por forças sobrenaturais e à certeza de que não deve confiar em ninguém.


“Assitir a Suspiria é como estar preso num pesadelo” 
- John Carpenter

Um conto de fadas macabro, barroco e psicodélico, com impressionante trilha sonora da banda de rock progressivo The Goblins, "Suspiria" é a obra-prima de Dario Argento e um dos melhores fiLMes de horror de todos os tempos.
 Não perca...é   GRÁTIS !
Espaço Cultural Gambalaia – R. das Monções 1018  - Santo André- f. 4316-1726   
 





terça-feira, 3 de maio de 2011

A GUERRA NO CINEMA


De ontem pra hoje só se fala na morte de Bin Laden.Pudera, visto que ele fez o que fez. Também,pelo mesmo motivo, não dá pra recriminar a comemoração do povo americano,assim como não dá quando queimam a bandeira americana dando tiros para o alto. São ações movidas pelo ódio, cada qual com seus motivos e todos sem um pingo de disposição a entender o outro lado. São as guerras e é assim desde que o homem é homem.

Curioso como os urros de “U-S-A, U-S-A” em praça pública ( que mostram o quanto esse país pode ser fundamentalista) nos remetem diretamente Gerard Butler berrando “This is Sparta!” em “300”, filme de Zack Snyder, espécie  de reprodução imagem a imagem da graphic novel de Frank Miller, “Os 300 de Esparta”(publicada no Brasil pela Abril e pela Devir).











Os povos orientais,representados pelos Persas, são obscurantistas, idólatras, feiticeiros e monstruosos . O eixo do mal, para usar uma expressão de George W.Bush. Contra a dominação deles se erguem os guerreiros honrados e destemidos que preferem morrer a ver seu ideal de pureza ser conspurcado. 300(o filme mais do que HQ , porque lida com imagem e não desenho) é francamente nazista em seu ideário de beleza e perfeição. Como não enxergar correspondência
na fascinação pelos corpos masculinos do cinema nazista de Leni Riefenstahl?















Normalmente quando se fala em “ideologia” se pensa imediatamente em algum engravatado num escritório moldando as coisas para fazer o público pensar de tal modo, manipular as pessoas. Não é assim. Ideologia é apenas(pelo menos nesses casos em que eu menciono) as convicções de uma nação. Claro, já funcionou de outra maneira, durante a tal política da boa vizinhança, governo Roosevelt, aquela coisa do Pato Donald dançando com Zé Carioca e os filmes que a Carmem Miranda fez nos EUA. Mas era outro cenário, outra coisa, tratava-se de conquistar corações e mentes durante a guerra fria.

Mas 300 (filme e HQ) é caso extremado como o é a figura ultra-direitista de Miller. Normalmente as coisas se dão mais pela construção oportunista de heróis e vilões e o caso mais evidente para nós,agora, é o de Rambo 3, dirigido por Peter MacDonald em 1988.

Lá vemos Rambo ajudando o pobre povo afegão,  a se armar e enfrentar os cruéis soviéticos que ocupavam seu território. A história se provou mais cruel do que os vilões do filme, uma vez que os tais pobres afegãos(que foram de fato treinados pelo exército dos EUA) se tornaram o Talebã e a Al-Qaeda. Ou seja, lá,entre os colegas de Rambo,enfrentando helicópteros enormes no lombo de um cavalo, estava Osama Bin Laden.



sexta-feira, 29 de abril de 2011

PEDE PRA SAIR !

Foi uma coincidência interessante. Pouco tempo depois da minha postagem dizendo que precisávamos de um seriado de Tropa de Elite, pra esfregar na cara de todos toda a hipocrisia e corrpção que movimentam a industria da violência no Brasil, reportagem de Graciliano Rocha para a Folha de São   Paulo de ontem(28/04)  veio para provar justamente  o que eu havia dito. O título era "Arma Ilegal cruza fronteira via serviço de motoboys". Pra não  ficar  me repetindo, reproduzo alguns trechos(grifos e parentesis são meus):

"Quase metade das 16  milhões de armas que circulam no país hoje são ilegais-7,6 milhões, segundo daados do Sistema Nacional de Armas da Polícia Federal. Muitas delas, mesmo fabricadas no Brasil,acabam enviadas ao extereior e  retornam,de maneira ilegal, via fronteira(Paraguai)"

"Segundo Melina (Risso, diretora do Instituto Sou da Paz), vários estudos demonstram que grande parte dod homicídios ocorrem com uma arma de fabricação nacional,mas comprada de forma ilegal via fronteira".

quarta-feira, 20 de abril de 2011

PRECISAMOS DE UM "TROPA DE ELITE" POR SEMANA


No Brasil o que não falta é lei. Existe pra tudo. Até jogar papel pela janela do carro é infração de trânsito. Só que aqui é possivelmente o único país do mundo em que existe a leei que pega e a que não pega. Ou seja, a lei,em si, não vale grande coisa, o que vale é se é aceita pela sociedade ou não.

Agora é a vez  do bullying, querem transformar em crime. Só mesmo num país onde a força da palavra, da retórica(vazia) tem tanta pompa (o tal do "tenho dito!") se pode pensar nisso, colocar tudo como caso de polícia.  Mandar preder e pronto. "Cadeia neles!  Pau neles!". Eles quem? Ora, os de sempre, os sem um tostão no bolso, porque para os endinheirados a lei não  pega. É provado que ,quando a aaplicação da lei é subjetiva, como no caso da quantidade de droga que configura tráfico, os juízes decidem de maneira diferente se o preso  for  um garoto de classe média ou um favelado. Essa conversa de cadeia e porrrada só serve pra demagogia dos Datenas da vida aumentarem mais o ibope a cada tragédia,como foi o caso do atirador do Realengo. E os demagogos três escalões acima, lá no senado, já propõem outra lei, ou melhor, a volta do plebiscito pela  proibição da venda das armas de fogo.
Ninguém em sã consciencia pode ser contra a idéia, mas o faato é que o buraco é bem mais embaixo. Vende-se isso como a solução contra a violência. "e tenho dito!"  E pronto, amanhã não morre mais ninguém.

Me lembra bastante outro caso bastante triste, o do  ônibus 174.  Na ocasião  o ex- presidente FHC, pressionado pela midia assombrada com "a escalada da violência em nosso país" tirou da cartola uma idéia mirabolante e milagrosa, transferir verbas destinadas  à  iluminação pública para o combate à  violência. O que  quer que significasse "combate à violência", não deu em nada, nem sei se de fato usarama  tal verba, se ela saiu e chegou a algum lugar.

Voltando ao plebiscito, sabemos  bem que as armas e a munição que matam esse tanto de gente não são compradas em lojas por pessoas  que fazem curso de tiro e registram a compra com seu CPF. Sabemos bem que vem de quartéis, pelas mãos de policiais corruptos, por vigilantes de empresas de segurança, por esquemas torpes dos próprios fabricantes de  enviarem os produtos para fora do país ilegalmente  e que retorna como "contrabando". Ora, uma gigante  dos cigarros fazia isso, e, pimba, seus produtos apareciam nos camelôs  "ninguém sabe como".

Os esquemas são complexos, tem gente graúda envolvida e fortunas  na jogada e não é baixando uma lei que vai se resolver alguma coisa  (com  Tropa2 deixa claro) . Ora, se não se impede nem o pessoal de jogar papel pela janela, vai impedir comércio ilegal de armas? O pior é que essa cultura (porque é de uma cultura nacional que se trata) de baixar lei para tudo e depois não dar conta de colocá-la em prática, cria outra cultura, a da subversão da lei frouxa,  o tal do jeitinho. E então a lei, por si, perde crédito junto ao povo.

É por isso o tútulo dessa postagem, porque Capitão Nascimento, o herói vencido que não desiste nunca, poderia muito bem estrelar uma série  de TV, tantas são as falcatruas,  as entranhas podres, as demagogias deste páis. Teríamos um Tropa de Elite por semana e ,pelo menos por uma horaco, a alma lavada.


sexta-feira, 15 de abril de 2011

VIRADA CULTURAL 2011

Dicas rápidas e rasteiras para a Virada Cultural:

MÚSICA
Meia Noite de sábado, no palco  República tem Toni Tornado acompanhando Don Salvador e Abolição revivendo a black music brasileiira dos anos 1970.
Tornado tem ,na verdade, muito mais estrada como  ator do que como cantor, mas sua imagem continua evocando o black power brasuca  da era dos festivais e vira e mexe aparece como convidado de alguém que recvive o  estilo(foi assim quando o  Jota Quest começou, ainda com o nome de J.Quest) 
. Não era de longe o melhor  da nossa soul music(tinha Cassiano, Hyldon e oTim,claro)  nem o mais "James Brown" da galera (posto que, sem dúvida, cabia a Gerson "King" Combo) mas cravou pelo menos uma música imoprtla no nosso cancioneiro, BR-3. O cabelão e os passo de dança  frenéticos à James Brown podem ter ficado no passado, mas Tornado ainda tem algo do vozeirão pra sacodir o público com pancadas suingadas como "Podescrer amizade" e "Mané beleza".
Don Salvador é pianista  brilhante, egresso do sambajazz e da bossa nova e acompanhou Elis Reegina em várias ocasiões.  Foi morando nos EUA (onde também "estagiaram" Toni Tornado e Tim Maia) que Don  Slavador conheceu a black, os hippies e voltou pra fazer em 1971 um cometa que foi a banda "Don salvador e Abolição" e o disco "Sangue,Suingue e Raça". É esperar e torcer pra que Don nos entregue  a poderosa "Uma vida", que começa com um arrebatador solo de piano.


PS. Quem quiser um "acompanhamento" bastante interessante ao show é só corre nua banca e comprar a Revista de História da Biblioteca Nacional deste mês (n 67), que traz uma matéria sobre o "black power" brasileiro, e a apresentação de Tornado ao lado do Trio Ternura no festival da Canção de 1970 sem esquecer,claro, da implicância dos malas da ditadura
CINEMA

O maltratado Cine Windsor(Av Ipiranga, 974), há anos relegado ao destino que agora recebe o Bleas Artes, retoma a vida para qual nasceu nesta Virada trazendo 24 horas de filmes de José Mojica Marins.


Destaque para o raríssimo A Estranha Hospedaria dos Prazeres (16h de domingo), de 1976, que não é exatamente um filme do Zé do Caixão(é do período que a censura estava no pé do personagem)e tem clima de HQ de terror .Não é o melhor Mojica, mas essa é oportunidade única de ver uma cópia decente do filme que não foi lançado em DVD.

Também inédito em DVD é o longa Inferno Carnal, que é do mesmo ano e também só existe em película e conta a história de um cientista defirgurado pela mulher infiel e que parte em bsca de vingança. Passa às 14h do domingo.Agora o melho mesdmo fica por conta dos classicos acomo À Meia Noite Levarei sua Alma, exibido, claro, at the midnight hour.

Bons pesadelos !



quinta-feira, 7 de abril de 2011

OUTRA FACE DO CONCRETISMO


Encerraram-se dia 3 deste mês duas excelentes mostras dedicadas à arte  concreta e seus desdobramentos. Uma  era retrospectiva de Judith Lawland,  outra, mais  ampla, composta por diversos artistas desde os anos 50. Mas o concretismo, de influência poderosa na cena artística nacional, pode ser visto novamente,  agora na  Caixa Cultural, pelas mãos de outro artista fantástico, Dionísio DelSanto.

Dionísio é gravador(faz xilo, serigrafia) e coloca em contato com o racionalismo e a lógica da arte concreta a xilo, com toda suas linhas errantes além de um misticismo todo particular.


Caixa Cultural - Conjunto nacional , Av Paulista, 2083.
Visitação até 24 de abril
de terça a sábado das 9 às 21 horas
Domingos e feriados das 10 às 21 horas

quinta-feira, 31 de março de 2011

CINECLUBE GAMBALAIA -07/04

Dia 07 de abril ,  às 20h, o CINECLUBE GAMBALAIA exibe

 
“Jejum de Amor” (His Girl Friday,1940 – 92 min.)de  Howard Hawks



Uma homem condenado à forca. Políticos querendo lucrar com sua morte. Jornais idem. A verdade por detrás de tudo,no entanto, rende uma matéria ainda mais escabrosa mas que pode nunca ganhar vida porque Hildy Johnson (Rosalind Russell) a melhor de todas as repórteres decidiu abandonar o jornalismo e trocar o ex-marido (e ex-editor) pela vida pacata ao lado de um corretor de seguros.

Walter Burns (Cary Grant)tem só até sexta feira para salvar um condenado, trazer de volta sua repórter e , de quebra,conquistar seu coração. Nem que para isso infernize a vida de sua amada de todas as maneiras possíveis!



ENTRADA GRATUITA !

***
Meia hora antes da sessão rola boa música no nosso “tocacedês”; desta vez será o jazz dos anos 1940, com o melhor da incomparável big band de Duke Ellington e do inspirado clarinetista Sidney Bechet.



Na meia-hora seguinte ao filme, uma mini-palestra esmiuçando a obra de Howard Hawks e exibindo trechos de outros filmes do diretor que inspirou a geração da nouvelle vage a construir o conceito de “cinema de autor” e imprimiu sua marca em comédias, westerns, film noir e outros gêneros.




Espaço Cultural Gambalaia – R. das Monções, 1018


Santo André - SP - f. (11) 4316-1726

 http://www.gambalaia.com.br/

terça-feira, 29 de março de 2011

ROCOCÓ-3

Para terminar nossas postagens sobre o rococó incluo aqui um dado complementar:
a construção do palácio de Versalhes (imagens ao lado e abaixo) custou 2 milhões de liras (algo como 1 bilhão de euros hoje, dados do historiador Michel Vergé-Franceschi) e foi, junto de sucessivas guerras , do auxílio à independência dos EUA ,do atraso crônico da indústria têxtil francesa e das más colheitas de grãos,  um dos componentes que faziam o mundo da nobreza marchar para um fim que eles não percebiam e que decretaria a morte definitiva da arte rococó.


Diz Eric Hobsbawn(a tradução é de Maria Tereza L.Teixeira):

“As 400 mil pessoas aproximadamente que,entre os 23 milhões de franceses,formavam a nobreza(...)gozavam de consideráveis privilégios, inclusive a isenção de vários impostos(mas não de tantos quanto o clero,mais bem organizado),e o direito de receber tributos feudais”.

Para se ter uma idéia melhor do violentíssimo contraste desse fausto que era a vida da nobreza com a do povo, uma descrição precisa do historiador Alain Frerejean (tradução de Marly N.Peres):
“O trabalhador agrícola na França,no século XVII,geralmente morava numa casa de um único cômodo,algumas vezes,aklgumas vezes compartilhada com outra família.No interior,colchões de palha jogados no chão de terra batida(..)De maio a outubro,iam até os domínios dos nobres,do clero (...)para ajudar na colheita(...)Jornadas estafantes,nas quais homens,mulheres e crianças,dobrados sobre si mesmos durante horas e horasse esfalfavam a serrar,cortar,atar e empilhar.

A refeição dos camponeses restringia-se,quase exclusivamente,ao pão,uma mistura de centeio e de trigo,em porções diárias de cerca de 700 gramas,molhada numa sopa de legumes(...)Quase nunca havia carne ou derivados do leite(...)A caça e a pesca eram privilégio do senhor,mas alguns componentes,furtivamente,se arriscavam a abater um coelho ou conseguir um pouco de peixe”.




Obras consultadas

A Era das Revoluções (ed.Paz e Terra), Eric J. Hobsbawn

Revista História Viva ano III- nº25

Revista História Viva Especial temática nº2

sexta-feira, 25 de março de 2011

ROCOCÓ-2


Luis XIV (1701) , Hyacinthe Rigaud


“A escolha entre o desenho e a cor foi mas do que uma questão técnica;a decisão em favor da cor subentendia uma posição contrária ao espírito do absolutismo, à autoridade rígida e à arregimentação racional da vida-era também o sinal para um novo sensualismo e culminou em fenômenos como Watteau e Chardin(...)A tendência para o monumental,o cerimonioso e o solene já desaparece nos primeiros tempo do rococó e dá lugar a uma qualidade mais delicada e mais íntima.Na nova arte, a preferência recai sobre a cor e as nuances de expressão em lugar do grande e firme traço objetivo,e a nota da sensualidade e sentimento será ouvida em todas as suas manifestações”
                  - Arnold Hauser, "História Social da Arte e da Literatura"  ,ed.Martins Fontes.

A sugestão do autor acima, quem acmpanha os comentários do blog viu que foi do grande amigo e historiador Mario Cesar (o Marioc). A imagem acima eu incluí  a fim de que o leitor possa contrastar aquilo que Hauser identifica como "monumental,cerimonioso"  e "firme traço objetivo" com a arte rococó, da penúltima postagem . Claro que  arte como essa (retrato dos reis) continua a existir com algumas das mesmas características  ao mesmo tempo  em que Watteau e Fragonard produzem suas pinturas delicadas. O interessante é a mudança de sensibilidade, de modo de pintar, de motivos que surgem com o enfraquecimento dessa figura absoluta  que é o Rei- e essa grandiosidade percebemos perfeitammente na pintura de Rigaud. Aliás, justamente essa pintura já esteve aqui no Brasil, em exibição na  Pinacoteca,com outras obras produzidas para os Luises (14,15 e 16) no qual podia-se notar sutis mudanças no modo de se retratar cada  rei para outro, sintoma das mudaças porque passava a monarquia e a arte no período.

PS. A divulgação do cineclube fica para o início da semana que  vem, logo após uma  última postagem sobre a França de Luis XIV. Já adianto que o filme é "Jejum de Amor", de Howard Hawks e a sessão será dia 07 de abril, às 20h.

quarta-feira, 23 de março de 2011

NOVELA NÃO PRECISA SER BURRA


Quem acompanha este blog sabe que eu vivo resmungando contra as novelas. Pois bem, ontem paguei a  lingua ao assistir a algumas cenas do primeiro capítulo de Morde e Assopra.

Tem um núcleo de paleontologistas, do qual fazem parte Adriana Esteves(com visual meio Indiana Jones) e Bárbara Paz.
Adriana encontra um dinossauro numa fazenda ou sítio cujo dono é interpretado por Marcos  Pasquim o qual, já sabemos de antemão, formará par româtico com ela assim que superarem os tradicionais obstáculos que as  novelas impoem ao amor perfeito. Enfim, isso é o que menos importa. 
As  cenas que assiti  eram extremamente bem filmadas. O núcleo dos cientistas é  algo cômico (nesse sentido Bárbara Paz não estava ruim,  mas pareceu passar do ponto, fez um tipo com trejeitos demais, que destoava dos outros e mesmo dela própria outras cenas dela). Adriana Estevez foi perseguida por duas crianças que  a assustavam com um boi, na tentativa de botáa-la pra correr da fazenda. Ela tropeça e cai de cara num monte de esterco. Em primeiro plano vemos a cara dela toda suja e, bem ao fundo, desfocadas , as crianças com as mãos na cabeça certamente arrependidas. Cena visualmente bem construído e também muito engraçada.

Depois  vemos o grupo entrer num hotel de  luxo. Eles param na  porta, conversam um pouco e a câmmera faz um traveling acompanhando-os da escadaria até a  porrta. Lá, ela para e  nós vammos  aquele  salão ennorme, luxuoso e já antevemos a comédia que virá: aquela  gente emporcalhada tentando encontrar um quarto e recebendo olhares enviesados.
Há um outro núcleo, se bem entendi, ligado a inteligência artificial,robõs que parecem humanos (explico: assisti a novela sem som o que ressalta ainda mais a qualidade das imagens que falavam por si).

A novela em si traz um antogonismo interessante, que começa no título e se extende aos núcleos e opõe o mais ancestral (o dinossauro) ao mais adiante(os robôs), aquilo que é morto mas já teve vida(dinossauro) àquilo que está "morto" mas parece vivo(robô).

Enfim, esse texto bagunçado é só pra mostar que quando se dirige elogios a um filme e se ressalta esta ou aquela  qualidade ,muita gente torce o nariz, dizendo que é chatisse, que se deve levar como entretenimento e  pronto, mas não  é bem assim. Ser divertido não exclui um pensamento por detrás daquilo que se faz.
Morde e Assopra, pelo menos no primeiro capítulo, mostrou que não é  um amontoado de imagens vazias com muitos filmes que vemos por aí.

PS. Retorno ainda esta  semana com um breve complemento  ao texto sobre Rococó .Semana que vem, o  anúncio da próxima sessão do Cineclube Gambalaia.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O ROCOCÓ

Teatralidade e persuasão são as palavras chaves para se entender o período artístico imediatamente anterior a rococó, o barroco e com o qual há mais semelhanças do que diferenças. Era como se as figuras retratadas em suas pinturas (caravaggio, oos  irmãos  Carracci) e esculturas (Bernini)  fossem flagradas no momento mais impactante e comovente de uma cena de teatro . Vale ressaltar que não é o caso aqui de traçar a diferença entre barroco nórdico(protestante) e católico, vamos ficar mais com o último caso.



O Milagre de Sant´Anna,  Bernini


 Giulio Carlo Argan nota que
 “Em ambos os casos(católico e protestante) a religião preocupa-se mais em dirigir as escolhas e os comportamentos humanos do que em contemplar e descrever a lógica providencial do universo”

Essa "lógica do universo" era a "alma" da arte dos dois séculos anteriores, o período  do renascimento.

As igrejas católicas barrocas (até por oposição à austeridade protestante) flertavam com o exagero e buscavam mostrar-se como uma antessala do paraíso que permitisse ao devoto um breve contemplar da glória divina. Para isso, o excesso pinturas, imagens, esculturas, colunas e,sobretudo,muito ouro.

                 Biblioteca do mosteiro de Melk

Dos arquitetos desse período, E.H Gombrich diz que
“abandonavam todas as limitações(...)Há nuvens por toda a parte com anjos tocando música e gesticulando na bem-aventurança do Paraíso. Alguns pousam no púlpito, tudo parece mover-se e dançar,e a arquitetura que cerca o suntuoso altar parece oscilar ao ritmo dos cânticos jubilosos. Nada era normal ou natural em semelhante igreja,nem pretendia ser” .

A vida das cortes era também marcada pela teatralidade, por um excesso de regras de etiquetas e de conduta próprias de uma classe que não tem grandes obrigações e cujo maior orgulho era o ócio. As pequenas intrigas, os flertes amorosos são seu grande passatempo (a noção de família, amor e ciúmes eram bastante diferentes então a ponto da figura do/a amante ser quase uma instituição).

Quando chegamos à França do Rei Sol, Luís XIV(1638-1715), assistimos à transferência dessa lógica da teatralidade da arquitetura sacra para a das cortes. Ou, o que se chama de arquitetura rococó. Como nota John Summerson há mais semelhanças do que diferenças:

“Tenho certeza de que ´retórica´ é a palavra chave. Nesses edifícios, a linguagem clássica é empregada com força e drama para vencer nossa resistência e nos persuadir da da verdade que elas têm a comnicar-seja a glória dos invencíveis exércitos britânicos,seja a magnificência suprema de Luís XIV,ou ainda a abrangência universal da Igreja Romana.”

O palácio de Versalhes, construído entre 1655 e1682 não busca outra coisa senão a ostentação, a criação de um mundo fantástico e artificial habitado pela nobreza. E a moda pega no sul da Alemanha(o norte é protestante) , Áustria e outros países católicos onde casas de campo de nobres ganham  pequenas cascatas,jardins labirínticos trasnformando-se em verdadeiros cenários teatrais, no qual seria vivida com mais  desenvoltura o jogo de aparências dos nobres,  regado a saraus e festas intermináveis. Era o perfeito contraste com as ruas escuras, imundas e violentas das cidades 

No entanto Luís XIV era um rei de tamanha onipresença que basicamente toda pintura de seu período produzida na França era um classicismo grandiloquente voltada quase que unicamente à sua glorificação(ou à de fatso históricos dão reino). A arte,tal como seu governo, era centralizada em sua figura.





                                                                                            Palácio de Versailles
É com sua morte e a  ascensão de Luis XV que as coisas mudam substancialmente tanto para o governo quanto para a pintura. O novo rei comporta-se como um mero mortal, despreza toda  a liturgia do trono que marcava seu antecessor. Jean-Chrsitian Petitfils, diz que
 “o belo relógio da etiqueta-com seus horário imutáveis-acaba desregulado:o cerimonial do despertar e do deitar varia em função das noites passadas com as amantes e do sono ser recuperado. Luis XV prefere refugiar em seus gabinetes,proteger sua vida privada do olhar alheio”.

É exatamente esse desprezo pela teatralidade que o tornará um monarca desprezado, não-sagrado e, de “protetor do rebanho”, a um mero tirano.

Sem o vórtice que era Luis XIV os pintores agora podiam atender aos nobres que queriam,sobretudo, ver seu ideal de vida nas telas. É o que chama-se de pintura rococó.E aqui a cisão é drástica com o barroco. Para José Manuel Pita Andrade era uma arte marcada pela “intimidade, ligeireza,às vezes voluptuosidade”.
São cenas de vida campestre, onde músicos fazem serestas para donzelas enamoradas em cenários irreais. Um elogio ao ócio, à alegria de viver, à beleza dos pequenos prazeres.

Há certamente diferenças marcantes entre nomes como Antoine Watteau(1684-1721) , François Boucher(1703-1770) ou Jean-Honoré Fragonard (1732-1806) e uma breve descrição com a feita aqui pode levar o leitor a pensar que se tratava de uma arte vulgar, menor, o que não é o caso. Para não nos extendermos, o que separa a pintura rococó da arte de um  Renoir  (pra ficar no exemplo da postagem anterior) é mais a técnica da pincelada do que a temática.

     Os felizes azares do balanço (1717)- Jean-Honoré Fragonard

 

De qualqer modo era a arte feita para uma classe que ingenuamente não se apercebia do rufar dos tambores que lhes alcançariam em 1789, com a Revolução Francesa. Que não via que os privilégios conseguidos mil  anos antes, como a isenção de impostos, eram profundamente  atrasados e que, atrasada também era a França, que ignorava a Revolução Industrial ocorroida na Inglaterra e que mudava o ritmo da vida das pessoas(da badalada  dos relógios da igreja para a contagem do ritmo das máquinas a vapor) e também dava nova feição à arte.
A revolução Francesa traria o fim desse modo de vida e também da arte e arquitetura rococó.

 














Peregrinação à ilha de Citera(1717) Antoine Watteau



Diana saindo do banho, François Boucher  


Fontes consultadas

Imagem e Persuasão (Companhia das letras)  - Giulio Carlo Argan

A História da Arte (LTC) - E.H.Gombrich

A linguagem clássica da arquitetura
(Martin Fontes) -  John Summerson

História Geral da Arte Pintura - vol2 (Altaya) -  Vários autores

Revista História Viva Especial Grandes Temas nº.2- A Revolução Francesa

FILMES
O historiador  Marc Ferro recomenda todo o cuidado do  mundo com o cinema para exemplificação de momentos históricos. Para ele,  por melhor que seja a reconstituição, ainda é a visão de  um diretor e não deve sob hipótese alguma ser tomado como documento histórico. Com esse cuidado em mente  e mais  outro(um fiolme é uma obra de arte, não deve ser reduzido apenas á fidelidade histórica ou servir apenas de muleta para professores) , recomendo os três filmes abaixo:

Maria Antonieta (2006), Dir. Sofia Copolla - – A era essa vida de frivolidades de uma nobreza imersa em seu mundo de fantasia e  que sequer  se apercebe da grande tragédia que está por fim, a Revolução Francesa e a decapitação do casal real. A saída de Maria Antonieta (Kisrsten Dunst) do palácio de braço dado com as filhas é de  uma tristeza imensa.
 
Casanova e a Revolução (1982) Dir. Ettore Scola - Reconstituição cuidadosa para mostrar o  símbolo e perfeita metáfora da nobreza, o conquistador Casanova  (Marcello Mastroianni), envelhecido  (como sua instituição) e contemplando um mundo que já não existe mais de dentro de uma carruagem, último refúgio de sua antiga condição. 
 
Ligações Perigosas (1988) Dir.Stephen Frears - Para driblar o tédio, nobres franceses do séc 17 divertem-se armando jogos de conquista amorosa e intrigas sexuais.