terça-feira, 11 de janeiro de 2011

TELENOVELA -1

Crime é uma qualidade que certos tipos de sociedade atribuem a determinadas práticas,em momentos precisos de sua história. A qual supõe o estabelecimento de leis. Ilegal ou criminoso é o que se desvia do padrão ditado por normas legais.Não há m sem o outro.E,como as leis variam de sociedade para sociedade mudam radicalmente com o tempo,por razões as mais diversas, também o crime varia”.

São palavras do antropólogo e ex- secretário estadual da segurança do Rio,  Luiz Eduardo Soares, em entrevista ao LeMonde Diplomatique de agosto do ano passado.



O criminoso é sempre punido ao final das telenovelas (exceção feita à histórica ValeTudo). Parte de sua punição é a execração pública, como acontece com a personagem de Mariana Ximenes em Passione. Execração frente aos outros personagens e também ao público, que sente quue a justiça foi feita e a punição, aplicada.

Ao final da Segunda Guerra, a humilhação pública foi prática imposta às mulheres francesas que haviam tido algum tipo de relacionamento com homens alemães durante o período da ocupação alemã na França. Seus cabelos eram totalmente raspados.

Também (por séculos) mulheres acusadas de bruxaria foram marcadas de diversas formas para que todos soubessem de seu “crime”. Também o foram os judeus pelos alemães. E por aí vai.

O que é considerado crime muda com o tempo, mas algumas práticas sociais persistem.



sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

"THE ARCHERS" NO CCBB

Quem assistiu ao excelente Tetro, novo filme de Francis Ford Copolla, notou que ele mostra trechos de “Contos de Hoffmann” e um dos personagens cita “Sapatinhos Vermelhos”. São ambos filmes assinados pela versátil  dupla de diretores Michael  Powell e Emerich Pressburger e que integram a mostra retrospectiva CCBB São Paulo (depois vai para o Rio) dedicada a eles. É a chance de conferir o porquê da admiração do diretor de O Poderoso Chefão e de outros grandes cineastas,como MartinScorsese. "Contos de Hoffman"  passa hoje, às 19h30 e Sapatinhos Vermelhos, domingo e quarta, no mesmo horário. Powell, quem tiver a memória afiada, vai lembrar que é o diretor de Peeping Tom- A  Tortura do Medo (que também integra a mostra).O filme, que ele assinou sem a companhia de Pressburger, foi tido na época como doentil e enterrou a carreira de sucesso do diretor, que só viria a ser revisada anos depois pela geração de Coppola e Socorsese.

A mostra "The Archers- O Cinema de Michael  Powell e Emerich Pressburger" vai até 16 de janeiro. O CCBB fica na rua Álvares Penteado, 112. tel 3113-3651. Os ingressos custam R$ 4,00 (inteira).

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

CINEMA É ARTE, NÃO ACOMPANHAMENTO PARA A PIPOCA

É flagrante que a Ilustrada, caderno de cultura da Folha de São Paulo está fora dos eixos, principalmente no que diz respeito a cinema. Na busca por textos mais “acessíveis”, os editores preterem os críticos tradicionais em benefício de jornalistas,ou usam a idéia estapafúrdia de que, se um filme fala asobre o universo da moda,por exemplo, quem escreve o texto é o editor de moda do caderno. Tudo vai ao encontro da ideia de que o leitor hoje não gosta de textos longos, nem complicados.
É estranho, no caso da Folha, porque a cobertura de teatro e artes visuais é até satisfatória. Parece que a lógica dominante do mercado, de que cinema é passatempo de quem vai ao Shopping, dominou de vez o caderno.

Em face dessa situação é um verdadeiro bálsamo o lançamento pela imprensa Oficial do livro da coleção Apaluso, “Cinema de Boca em Boca- Críticas de Inácio Araújo” . No calhamaço de 678 páginas foram reunidos mais de 280 textos selecionados pelo jornalista e também crítico Juliano Tosi, além de uma preciosa entrevista de Araújo em 1992 ao então ombusdman da Folha, Mário Vitor Santos. Tudo isso por módicos R$ 7,50. Essencial a quem ama o cinema e o enxerga não como entretenimento e, sim,como arte.

PS. Inácio Araújo é o entrevistado do programa "Sala de Cinema" desta semana que vai ao ar nesta quinta-feira, dia 06, às 22h00 na TV Sesc (canal 137 da NET Digital).

JOGOS DE PODER

No dia da posse da presidente Dilma Roussef a Globo exibiu matéria no Jornal Nacional sobre a mobilização de milhares de evangélicos pedindo um ano-novo abençoado ao missionário Valdemiro, dono da Igreja Mundial do Poder de Deus. Valdemiro é ex-membro e maior rival da Igreja Universal do Reino de Deus (parece que “deus” é nome de  franquia) de quem tem tomado pastores e fiéis as montes.

A Globo é claramente católica, no entanto a matéria, mais do que tentar fazer as pazes com os evangélicos, buscava fincar bandeira, afinal Edir Macedo,dono daa Record e da Universal, esteve abraçando Dilma . Seu canal foi um dos meios de comunicação da linha de defesa de Lula, largamente malhado pelo resto da imprensa,majoritariamente tucana.
O abraço de Macedo em Dilma, a Folha de São Paulo noticiou ontem, foi estrategicamente cortado da transmissão da  Globo para dar lugar a um compacto do programa "Caldeirão do Huck".

De parte a parte, trata-se de jogos de poder.

sábado, 18 de dezembro de 2010

MACHETE É UM TROPA DE ELITE2 "MEXICANO"


Tanto lá como cá. Em Machete, de Robert Rodriguez, como em Tropa de Elite 2 de José  Padilha,  há  a relação entre tráfico, milícias e campanhas políticas. No meio disso tudo, gente comum, bucha de canhão. Nos dois casos não háa um vilão que, derrotado, coloque as  coisas em ordem.  Há conflito,pancadaria, sangue e,no final, mudam-se os atores, mas o cenário continua o mesmo. Há hipocrisia, mentiras dadas para seduzir a opiniãao pública e a resposabilização ao "sistema" (o termo é dito nos dois filmes) essa ordem de coisas abstrata, difusa em que pessoas, por mais poderosas que sejam, são meras peças do jogo. Nãao se trata de não dar nomes aos bois até porque eles são somente isso, bois. Morre um, vem outro.
O flerte com a comédia e o trash nesse sentido prejudicam Machete, porque meio que desviam o foco, ou melhor, faz com que boa  parte das pessoas não leve a sério o que ele tem a dizer quee  é tão grave quanto nosso Tropa. Entre outras coisas, há traficantes  financiando políticos de extrema direita que dizem lutar pela moralidade. Machete toca fundo na questão da imigração ilegal  dos EUA, num momento em que  se discute a criação de um muro separando a "terra das oportunidades" do México.
Alguém aí se lembra da idéia de construir um muro fechando as favelas cariocas, que ganhou a imprensa pouco tempo atrás?
Pois é...

***
Machete é sensacionaal e,de quebra, tem uma Michelle Rodriguez de enfartar qualquer marmanjo e fazer Lindsay Lohan tão sexy quanto a freira que ela interpreta...

***
O bar  fecha  as portas agora para um tiquinho de férias.
Meus sinceros agradecimento a todos que me acompanharam neste ano! Um feliz Natal e um ótimo 2011 para todos !

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

SOBRE TROPA DE ELITE2 E VERA FISCHER

O trecho a seguir foi retirado da entrevista dada pela atriz Vera Fischer à coluna da jornalista Mônica Bergamo, na Folha de São Paulo do dia 13 deste mês. Fischer estava anunciando o lançamento de uma coleção de nada menos que dez romances de sua autoria.

Vera F. - Meus personagens não são nunca pobres, são sempre ricos(gargalhadas).

Coluna-Por que?

Vera- Porque eu não gosto,eu não sei escrever pra gente pobre.Eu detesto.

C-Os que você chama de pobres podem comprar seus livros.

V- Podem.Porque eles não custam caro. Eles vão se identificar e adorar. Coisa bonita é sempre melhor.

Tropa de Elite 2 jogou luz de maneira única sobre o quanto é ilusória essa idéia de que a violência nasce no morro, na favela.
Porque sempre se tratou de,seja no jornalismo como na ficção, de identificar o inimigo, o culpado pelos males e dar a ele uma feição clara: o preto da favela. Devidamente identificado, era fácil descobrir uma solução para a tal da violência: prender e jogar a chave fora,pena de morte, fazer uma prisão no meio da Amazônia e outras bobagens que o povo repete a torto e a direito por aí. Era pra isso que os ricaços no auto do Cristo redentor rezavam durante a invasão no morro do alemão, era pra isso que esses mesmos ricaços se vestiam de branco e saíam em passeata pelas ruas de Copacabana uns anos atrás por causa de algum desses crimes que causam comoção popular. Quando fala-se em violência remete-se diretamente ao traficante, ao negrinho armado com fuzil mas violência é um conceito amplo demais. Vera Fisher por exemplo, é a mais acabada personificação da violência social, de uma elite (vamos esquecer o ranço sidicalista que essa palavra ganhou), de um grupo de poder aquisitivo muito alto, que quer apenas viver a parte do “populacho”, ainda que às custas dele o que é o caso dela, que construiu sua carreira tanto em filmes como novelas de alcance extremamente popular.

Ou seja, qualquer identificação com a relação da Casa Grande com a Senzala não é mera coicidência. E a polícia, para essa elite, não é muito mais do que um Capitão do Mato. Só que o Capitão da vez, o Nascimento, mira agora sua fúria para seus patrões.


***
Penso  que até hoje não se reconhece a violência social pelo pouco empenho da ficção em deter-se sobre ela. É sem dúvida muito mais fácil lidar com o inimigo que, posto na cadeia ou morto com um tiro, resolve os problemas. A violência social é difusa, não pode ser atribuída a este ou aquele vilão. As novelas muitas vezes trazem um rico arrogante e malvado, mas fica claro que é aquele indivíduo em si que é daquele jeito, que nãooo expressa todo um pensamento de uma camada social, uma maneira de ver o mundo. E,vida de regra, ao final  ele é punido, colocando as coisas na ais santa paz. Paz que não existe nesta sociedade camuflamente violenta.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

TROPA DE ELITE 2

Depois de ver Tropa de Elite2 ninguém mais pode dizer que é inocente. Está tudo ali, a corrpução policial, as ligações espúrias do crime com a política,os assassinatos mandados e a ação direta e indireta da imprensa em favor desse esquema todo. Páginas e mais páginas de artigos sobre violência e corrupção encontraram uma representação perfeita em duas horas de filme.

A profundidade do poço de lama em que o filme mergulha é tão grande que fica a sensação de que ele deveria ser mais longo,ter pelo menos uma hora a mais,  mas isso prejudicaria o desempenho nas bilheterias, arrumaria dor de cabeça com os distribuidores, os cinemas e tal. Enfim, não é o caso de elogiar o Tropa2, porque ele fala por si e porque gente muito melhor do que eu já escreveu sobre ele.

Mas uma palavrinha sobre os defeitos, vale a pena. O problema todo está na narração em primeira pessoa. É uma opção problemática, típica do film noir e que aqui repete suas manias, principalmente a de fazer do narrador personagem um narrador onisciente. Como se fosse um livro em terceira pessoa. Nascimento,agora coronel, sabe e narra coisas que ele não presenciou e que o filme não coloca em cheque. Nesse caso não dá pra atribuir subjetividade ao que ele diz (dizer que é o ponto de vista dele, não do filme-como era possível no primeiro “Tropa”), não dá pra julgar Nascimento um Bentinho que diz e “prova” por A+B que Capitu é adúltera mas o livro não nos dá prova alguma. E com isso vêm alguns furos no roteiro. Bráulio Mantovani,o roteirista, tem momentos de brilhantismo alternados com alguns erros meio primários.

A cena inicial é a de um atentado à vida de Nascimento. Crepúsculo dos Deuses, obra –prima de Billy Wilder começa um pouca assim, só que o narrador entrega logo de cara que é Brás Cubas, ou seja, está morto. Como não tem nada de fantástico no universo de Tropa de Elite, fica claro que é um truque meio safado pra enganar o público e que, claro, não engana, afinal,se ele está narrando é porque está bem vivo. E com isso nada de suspense na cena também. Isso remete ao Kill Bill também, mas lá sabemos que a Noiva era pra ter morrido e não morreu. E remete também ao Pânico nos Bastidores, de Hitchcock em que, pra surpreender o espectador, começa com um flashback falso. Hitch depois admitiu ter sido este o maior erro de sua carreira, pois não se deve mentir para o espectador.

O fato da narração de Nascimento não ser subjetiva não é o problema (a gravidade das coisas que o filme aponta pedem uma objetividade, uma firmeza de opinião que não se deve flexibilizar a nenhum custo) e sim os pequenos tropeços advindos dessa opção.

Nada que diminua a intensidade do,com o perdão da expressão, sonoro “puta que o pariu” que a gente solta ao final do filme.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O MAL NOSSO DE CADA DIA

Christoph Türcke é professor de filosofia de uma universidade de nome impronunciável em Leipzig,na Alemanha e autor do livro "Sociedade Excitada" (Unicamp). Em entrevista à revista Cult n 151(outubro 2010) ele falou sobre o foco de seu livro, a comunicação de massas. Vai bem ao encontro das últimas postagens nas  quais tratei  dos programas policiais. Mas  é bom atentar que não é exatamente deles que Türcke fala, seu especrto é mais amplo.
Vejamos:


Na mídia(...)os horrores do mal fazem o papel do entretenimento.Ocultam não apenas os agrados cotidianos, os progressos sociais, os modelos de responsabilidade e coragem civil; desviam,antes,a atenção daqueles problemas que chateiam o público cada vez mais,pois continuam tanto mais conhecidos quanto irresolvidos,como o desemprego, a fome, a força nuclear,a camada de ozônio,a Mata Atlântica. Tais problemas exigem paciência,concentração,repetição,insistência,resistência. Não cabem no esquema sensacionalista da indústria cultural,que atrai a atenção de um evento ao outro,enquanto esse evento é atendido perfeitamente pela apresentação disjunta de crimes,corrupções,acidentes.
Sugere-se que a realidade não consiste senão em horrores.Cobrem-se os problemas gerais,estruturais e sociais por uma multidão de horrores particulares.Transformam-se,finalmente,tais horrores em eventos de entretenimento”.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O FIM DA VIOLÊNCIA (?)

Palaras do  cientistra político e professor da PUCRS, Álvaro Oxley Rocha para a revista "Sociologia" nº 31 (Ed Escala) de outubro de 2010. A matéria, Desafios da Segurança Pública, citava os ataques do  PCC em 2006 e tratava da Polícia comunitária, projeto semelhante às UPPs de que tanto se fala agora:

A população precisa ser educada para conviver com os agentes do Estado,mas os agentes do Estado,no Brasil, também precisam ser educados para a realização do bem comum,a que se destina o dinheiro público. Se for abaandonada à própria sorte,com costuma ser entree nós,mesmo louváveis iniciativas como essa (Polícia Comunitária)serão tragadas pela corrupção,que resulta da falta das políticas de educação e de renda”.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

NOTÍCIAS DE UMA GUERRA PARTICULAR



Era uma operação militar, mas parecia final de Copa do Mundo. Sai que é sua, BOPE ! 
Para a Record, o  Rio de Janeiro voltava "a ser a cidade maravilhosa",para a Globo, era um "dia histórico" .Teve até  missa no Cristo Redentor.  Em ambos os canais (nem vou citar Datena por que ele não merece ser lembrado) anunciava-se algo como uma nova era, onde o "cidadão comum"(existe isso?) poderia voltar a andar tranquilo pelas ruas. Um dos "heróis do BOPE" chegou a dizer no Faantástico que os roubos de carros, sequestros e assaltos  a bancos terminariam, uma vez que os traficantes tinha sido vencidos. Podia até ter assoviado "Imagine" pra ficar mais  bonitinho...

A quem interessa esse tipo de abordagem? Sinceramente não sei, uma vez que isso acaba sendo triunfo capitalizado por Sérgio Cabral e pelo governo Federal, de quem a Globo não gosta nada. Talvez seja um tanto de ingenuidade, costume de enquadrar a realidade nos moldes da ficção, no caso Tropa de Elite com final de novela(só faltou casamento).
Um repórter do Fantástico fala que os traficantes haviam tentado fugir se passando por moradores, mas que a polícia os  pegara. E exibiu um rapaz preso  com a "prova" de sua ligação com o tráfico: no braço, uma tatuagem de uma índia (dessas genéricas) e a inscrição "Fernandinho Beira-Mar". Ora , prende-se alguém por uma tatuagem?

Ele poderia ter mencionado que não e que o rapaz em poucas horas provavelmente seria  liberado,caso não fosse constatada alguma prova de verdade.
Sim, foi um fato significativo e importante até porque no Rio o tráfico era dono de territórios onde a polícia não entrava a não ser aqueles que vendiam armas e munições aos traficantes. A Lei lá eraa a deles e ponto.  Mas agora, só agora, prende-se a mulher do bandido por que ela mora num condomínio de luxo sem ter renda para tal, o advogado do bandido porque levava ordens de dentro para fora da cadeia, os soldados do bandido por sei lá o que e por aí vai. Quer dizer, que diabos de serviço de inteligência é esse que por anos nunca funcionou e agora, de um estalido teve esse rampante de eficiência? A Globo não diz.

Ora, é sabido que o tráfico funconava bem por que rendia dinheiro para todos os setores da sociedade, inclusive para a classe média que só pede paz quando um branco rico morre assassinado  e que não vê problema na polícia corrupta,desde que ela relaxe flagrantes de quem dirige embriagado, atropela e mata, de que não jogue o filho de paai ruico numa cela comum, essas coisas. Lucrava a banda podre da polícia, o juiz , o advogado, o político e todo mundo que fazia vista grossa ao crime por dinheiro.
 Só que a  galera abusou, passou dos limites, tocou o terror, se sentiu não dona do morro, mas do asfalto também. E tem Copa e Olimpíada chegando então...a casa caiu  ! 
E tem as UPPs que, ao que dizem os jornalistas, parecem mais enviadas pelo próprio Cristo. Ora, vamos pensar: quantas toneladas de droga foram apreendidas? Quantas  refinarias desativadas?
E quantos  consumidores ficaram na mão? Os traficantes  que restaram vão ter um lucro absurdo porque,como o tráfico é a parte mais selvagem do sistema capitalista,  o preço da droga vai lá pra cima. Pode-se bem enriquecer fácil e rápido. Pode-se trazer droga, pessoal e equipamentos de São Paulo, ou tomaar uma grana emprestada com eles.  Ou podem vir eles mesmo. Vamos  dizer que a empresa que detinha o monopólio no Rio faliu e os concorrentes chegarão em breve. E, com dinheiro, faz-se o que sempre se fez, inclusive corromper a polícia que patrulha o morro.

O crime não acaba. Vai,certamente, ser menos ostensivo do que  era , talvez seja mesmo bem menor e mais fraco  (algo que já  aconteceu na Itália e em Nova Iorque, por exemplo) mas vai continuar existindo e lucrando muito.
Não acredidem nessa Era de Aquário da Globo, ela só existe em novela.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

ELES FAZEM JORNALISMO?

O propósito do jornalismo é a "difusão objetiva dos fatos através da informação e interpretação  dos acontecimentos  que são notícia".O jornalismo(ou as ações jornalísticas) deve ser guiado por um "princípio ético universal". Deve também assegurar a todo indivíduo o direito de ser informado.

propósito da publicidade é a "difusão de idéias pela via da sugestão emocional para coagir sobre o receptor".  Deve servir e ffazer valer os objetivos da organização a que representa. Por sugestão emocional entender apelo ao imaginário e ao inconsciente.

Ass citações são de um livro de teoria da comunicação e jornalismo cujo nome e autor  eu, desastrosamente, perdi.  Mas são literais,garanto.

Para quem não é familirizado com o termo, "receptor" é parte do jargão da linguística, da semiótica e das teorias da comnicação em geral que designa, grosso modo, aquele que recebe a mensagem, que  pode ser uma frase dita, um programa de tv, um filme e por aí vai. È aquele esquema : emissor-meio-mensagem-receptor.
Abro um parêntesis para retomar rapidamente as  postagens anteriores: a noção de receptor se aplicaria ás artes em geral, esta é a visão da semiótica, que se empenhou em desenvolver maneiras de se interpretar a arte.fecha parêntesis.

Pode-se critiocar o autor pela ênfase na idéia algo kantiana de "princípio ético universal" e da noção utópica de "objetividade" no jornalismo, todos conceitos de certa forma  ultrapassados, ou,pelo menos, relativizados.
No entanto chega a ser didático pegar essas definições e aplicá-las à descrição de duas reportagens exibidas pelo SP Record, de Reynaldo Gottino, que têm objetivos bem claros. Ou uma "intenção".

Mais definições do autor:
Inteção: execução de um fazer (ela controla conscientemente a ação)
Propósito: É a função que um fazer pode ter.

E  aí eu pergunto; é jornalismo o que eles fazem?

***

Como já  adiantara o Mario Cesar nos comentários da postagem anterior, é um verdadeiro show. Ou showrnalismo,pra usar um termo criad pelo jornalista José Arbex Jr e que deu nome a um livro de sua autoria  que tratava de boa parte da midia jornalística. Acrescento que,além de show, além de uma publicidade feita para endossar a idéia de um mudo em colapso onde o jornalista-justiceiro é necessário, nesse caso em particular é um show de grand guignol, o teatro popularesco do século 19 onde o público ia para assistir perfeitas encenações de corpos mutilados, violêncioa extrema e muito sangue.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O GALHOFEIRO E A INDECÊNCIA DA IMAGEM



É corriqueiro nos programas policiais julgamento moral sobre o que é exibido. O apresentador se mostra indignado e faz o papel do justiceiro, como quem cobra uma providência “das autoridades” para que essa “barbaridade” tenha fim. Aí, antes de tudo está embutida uma mentalidade bem brasileira, de que um decreto, uma lei resolve tudo, típica de um país que viveu sempre ou sob o comando de uma monarquia (seja como colônia ou país independente) ou sob o jugo de governos autoritários, não eleitos pelo povo. O “tenho dito” do governante” é a solução final, feita, não raro, na base da pancada. Sociologismos à parte, o que interessa a esse texto é outra coisa: a mentira descarada desses programas. Que os produtores, diretores e apresentadores acreditam na “força” (no sentido mais amplo possível, do braço de ferro mesmo) da lei, é indiscutível, mas que eles pouco se lixam para a solução dos problemas apresentados, também.

Algumas postagens atrás tratei do significado das imagens usando como exemplo grandes cineastas. Resumindo: imagem tem um sentido conotativo(principalmente a jornalística);o que o cinema faz é, articulando-as, criar novos sentidos.

Agora, ao mau exemplo: O SP Record mostrou semana passada imagens da  batida de uma perua escolar, não me lembro se em outra perua ou um veículo de passeio. A chamada era “pessoas agridem motorista de perua escolar”. Uma menininha de uns quatro ou cinco anos saía da perua chorando, com a boca sangrando. Alguma pessoas partiam para cima do motorista. E a equipe de TV lá filmando(equipe ou câmera amadora, não sei).
Enfim, tudo não durou mais do que 30 segundos, mas, enquanto Gottino falava e falava, a imagem imagem da menina sangrando e do motorista apanhando ia e voltava, foi explorada ao limite. É quase um leit motiv, (recurso cinametográfico da repetição usado para enfatizar ou dar ritmo) que não tem outra intenção a não ser provocar no espectador a emoção indignada que o apresentador traz na voz, indignação essa que o material gravado, na duração original, não provocaria.

A destruição do sentido original daimagem para criar outra coisa e, a partir dela, construir todo um discurso adequado com o mundo cão, apocalíptico, que o programa explora e de que precisa para existir, para que o apresentador pareça necessário, alguém que ajuda as pessoas em perigo.

 

No mesmo dia outra "reportagem" (exibida originalmente pela versão carioca d programa apresenetada por Wagner Montes e onde o caráter de circo é  mais acentuado) falava sobre a "polêmica" em torno de uma professora que havia sido repreendida ou algo assim por usar roupas insinuantes demais em sala  de aula. O tom da matéria, lógico, era de condenação à postura da mulher, no entanto aparecia a professora enfiada num decote meio absurdo, ela provando as roupas que provocaram a tal “polêmica” e fazendo a  dança do ventre(?!).Eram duas ou três imagens só, mas que se repetiam indefinidamente.

 Ou seja, você condena, mas oferece aquilo como deleite ao espectador, explora e lucra com aquilo. Logo, fica claro que, para enriquecer, eles precisam disso que tanto condenam .
Pouca coisa pode ser tão indecente e imoral quanto a conduta desses moralistas.


PS. Pelo tempo cada vez mais escasso, este blog anda meio abandonado, pelo que peço desculpas ao leitor. Tentarei aumentar a frequência das postagens.


quinta-feira, 11 de novembro de 2010


Terminada a Mostra Internacional de Cinema, voltemos às artes visuais.  Retomo do ponto em que parei, quando falava sobre o quanto  a relação entre arte e linguagem sempre foi problemática.

Que a arte “comunica” algo niguém nunca duvidou. O problema era saber “ler” a obra de arte,ou, ainda, estabelecer uma “gramática”, buscando leis e unidades mínimas que, bem entendidas e respeitadas, poderiam permitir a “leitura” de qualquer obra. Ou, em outras palavras, traduzir o significado da imagem num discurso.

Um após outro os teóricos davam com os burros n`água. Suzanne Langer(a última teórica que citei) explicava essa dificulade dizedo que a arte tem um “modo peculiar de falar”- (notar como a palavra “falar’ remete ao discurso, a lingüística, à gramática). Para ela, a arte não funcionaria como linguagem por que lidaria com “sentimentos”(para ela, ambíguos, plurais) e não com “pensamento”(objetivo). Hoje sabemos que nem o pensamento é tão objetivo assim como a arte ´sim uma forma de pensamento, um discurso sobre a realidade.

Está achando isso tudo muito teórico? Então dê um pulo no CCBB-SP confira a exposição I In U (eu em Tu), retrospectiva de 40 da artista Laurie Anderson composta de instalações, desenhos, fotografias, vídeos , música, documentação de performaces e filmes.

Na obra de Anderson “algo que parecia ser objeto é discurso e o discurso é a essência de seu objeto” diz Marcello Dantas, no folder da exposição.
O nome original dá melhor dica  do que sua tradução, afinal são duas letras que,pela sonoridade, significam palavras (I, U, eu, você). Ou : as unidades mínimas da linguagem que, agrupadas formam palavras, estabelecendo uma comunicação. E você irá percber com ela articula palvras e imagens, embaralha-as, dança com elas, criando e recriando significados.

Uma das obras é um livro que conta a história de coisas que tinha sdo roubadas de sua casa num assalto. Folha branco, na próxima só um palavra de um objeto(que nos remete à imagem dele). Em seguida, uma reproduçãode uma gravura (se não me engano, de Rubens), com um objeto da cena destav=cado em vermelho. Temos em nossa cabeça o significado da imagem, mas ela entra em conlfito com a a palvra escrita antes. Significante e significado em rota de colisão e recriando um ao outro.

Outra caracaterística da artista é contar histórias, narrar,de uma maneira quase ancestral, tocando mais no mistério(aquele algo que não se consegue explicar em palavras) mais do que na narrativa bem contada.
Com as artes visuais, ela recria a literatura, a oratória. Anderson lida com palavras, com imagens, com lguagem e mbém com sentimentos e sensações.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

CATERPILLAR NA REPESCAGEM DA MOSTRA


Quem tiver disposição para estar neste sábado à meia noite no CINE LIVRARIA CULTURA 1(Conjunto Nacional) vai poder conferir o ótimo filme japonês CATERPILLAR, de Koji Wakamatsu. É daqueles filmes estranhos, soturnos, que fazem os 85 minutos de exibição parecerem bem mais, não por ser ruim ou chato, mas pelo clima pesado que impõe.

Trata-se da história passada na segunda grande guerra, quando um soldado que retorna completamente mutilado para casa. E não é qualquer mutilação não, faltam-lhe as pernas, os braços, a voz e a audição. Além disso, seu rosto está desfigurado. De sua esposa, espera-se um comportamento exemplar, dedicação integral ao homem que deu seu corpo à defesa do império japonês e é considerado por todos um “deus da guerra”. Ou seja, ela deve lhe satisfazer integralmente, sexualmente inclusive.

Aliás as cenas de sexo são constantes nesse filme escuro, como se a mulher estivesse mergulhada num tipo de inferno(que PE seu próprio lar) afinal a tantas horas se percebe que o sujeito perdeu tudo, menos seu comportamento repulsivo. Uma cena impressionante, vemos ele começar a penetrar a esposa, que faz cara de dor. Em seguida, o treinamento de defesa das camponesas, que fincam lanças num saco feito de palha(ou algo do tipo).

Cinema é a arte da imagem, por certo, mas as imagens ganham sentido através da montagem. É na sequência delas que o cineasta melhor transmite a idéia de dor, agressividade e violência na relação do casal.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

UM BOM FILME NÃO ACABA AO FINAL DA PROJEÇÃO

O interessante de se ver bons filmes é que eles ficam na cabeça por um bom tempo, criam vida nova, relações com seu próprio universo cultural. Foi assim com alguns exibidos na Mostra e que provavelmente entram em cartaz em breve(com exceção, creio, do filme de Lluis Miñarro).


StripTease Familiar- Lluis Miñarro

De cara antipatizei com o filme, afinal só o vi por não ter conseguido ingresso para as 5 horas e meia de “Carlos”, de Olivier Assayas. Ainda por cima a sinopse prometia um filme que “mostraria a Espanha Omo um país marcado pela guerra e pela religiosidade”. Quando dei por mim estava vendo um filme caseiro em que o diretor entrevista seus pais.Quer dizer, em termos, porque sua mãe idosa quase não dá espaço ao esposo, quando não lhe corrige e dispara umas broncas. Sim, através da conversa percebemos alguns traços da religiosidade e da guerra, no que elas marcaram a família. Mas não é o interesse central do filme. Não fosse pelo texto de Filipe Furtado na Cinética  http://www.revistacinetica.com.br/familystrip.htm
eu não teria entendido que ali se dá a transformação da pessoa , do real em outra coisa, em arte. Como, aliás, entrega um pintor que faz um retrato da família. “essa aí não sou eu” diz a velhinha. Aquela é arte, como também o filme.Apesar de muita genbte ainda acreditar no cinema como a arte da recriação do real e essas coisas(aqui a conversa vai longe). Aliás, no texto da Cinética voc~e vai entender que “familystrip”, o título original, não se refere ao striptease da nossa traduição, mas ‘a tiras de quadrinhos. Não acredita? Pesquise o termo na internet.

Memórias de Xangai – I Wish I Knew – Jia Zhang -ke

Esse filme de imagens maravilhosas, encantadoras, dialoga perfeitamente com StripTease Familiar. Aqui , de fato, trata-se de contar a história recente da China de forma fragmentária, através de depoimentos de pessoas escolhidas aparentemente ao acaso. Quer dizer, é(com no outro filme) a história pessoal delas marcada pelos fatos históricos (a revolução comunista, principalmente). E há, o tempo todo, referência ao cinema, seja como documento histórico, seja como memória pessoal. História,cinema e realidade. É a arte dialogando com a vida.

O Estranho Caso de Angélica – Manoel de Oliveira

É Manoel de Oliveira, portanto lento, silencioso. Sua contemplação joga luz para a inexorável decomposição da tradição de Portugal, logo este país em que a tradição sempre foi muito forte, enraizada. A história flerta com surrealismo, com outras obras do cinema(novamente um diálogo entre realidade (a a marcha da história no país, que dilui as tradições) e a arte (o cinema e nossas memórias pessoais destes filmes). E o filme é solene ao extremo, para melhor ironizar toda essa solenidade. Quem está familiarizado com Manoel de Oliveira vai entender melhor o quanto de humor e ironia tem nessa história de um fotógrafo que se apaixona por uma morta a quem vai retratar ao ponto de fantasiar estar voando com ela pela cidade.