segunda-feira, 20 de outubro de 2008

HULK, JÁ PRO DIVÃ !!!




Que dizer do mais recente filme da Marvel Entertainement, Hulk? Que, nos melhores momentos, é tão somente um passatempo divertido. E esse problema não se deve em nada ao fato dele ser adaptação de uma história em quadrinhos de super-heróis e sim ao filme não ter absolutamente nada a dizer.
Sem rodeios: não há história, só um jogo de gato e rato entre o Hulk e seu perseguidor ,o obcecado General Ross, pai da namorada do herói, Betty.No meio do caminho, um dos soldados de Ross exagera nas vitaminas e acaba se transformando no Abominável, um monstrengo maior e mais assutador que o próprio Hulk. E é a isso que esse filme se presta, a mostrar a briga dos dois gigantes. De resto, só um vazio barulhento.
Quem é esse exército que o persegue? O que ele representa? Nada. Quanto do drama de um pai que quer prender e destruir a todo custo o grande amor da vida de sua filha é aproveitado? Apesar da dimensão humana (pais e mães castradores, que buscam frustrar a vida pessoal de seus filhos a fim de mantê-los sempre dependentes e próximos são comuns) , absolutamente nada. E que uso o diretor Louis Letterier faz do drama do homem que tem de viver longe de todos os que ama por que põem em risco a vida deles por se transformar num mostro? Nenhum. E olha que levar isso para a vida real é bem fácil, basta buscar uma identificação com pessoas com certos tipos bem comuns de comportamentos anti-sociais e transtornos (obesssivos-compulsivos, neuróticos, esquizofrênicos) que os faz, nalguns momentos, “monstruosos” aos olhos de parentes e amigos.
Para ficar em outro exemplo da própria Marvel, Homem de Ferro é um filme cheio de ação mas que, logo em seu início enfia o dedo na ferida da política externa americana, mostrando que quem lucra com as guerras em países distantes como Iraque e Afeganistão são os milionários, fabricantes e vendedores de armas que se divertem com uísques caríssimo e belas modelos enquanto jovens são mortos nas trincheiras. Tony Stark, o herói, é um deles. Um filme de super-heróis não precisa ser vazio.
O Divã
O Hulk, um gigante descontrolado que surge quando o Dr. Banner fica irritado é, no fim das contas, um caso clínico, uma derivação simplificada do “Mr. Hyde” de “O Médico e o Monstro”, novela que Robert Louis Stevenson escreveu em 1866 (há até mesmo os dois Drs. como alter-egos dos monstros) . Mas se surgiu simplificada não quer dizer que tenha de permanecer assim para sempre.
Vale transcrever uma fala do Dr.Jeckyll, sobre sua transformação ( tradução é de Mario Fondelli): “Ao primeiro sopro desta nova vida, senti de ser malvado,vendido como um escravo à minha primitiva crueldade”. Já Vieri Razzini, no prefácio à edição da Newton Compton (1996) diz : “O ‘mal puro’que Hyde encarna emana da sua própria pessoa(...)Hyde personifica,e reflete nos outros,a maldade interior,sem que seu corpo mostre qualquer deformação”. A deformidade do corpo é cortesia de gravuras subseqüentes que ficaram no imaginário popular gerando versões de desenhos animados (Pernalonga e Pica Pau, entre tantos outros), filmes (A Liga Extraordinária e Van Helsing por exemplo) e o próprio Hulk.
Outra diferença fundamental entre os dois está na origem dos monstros: como de praxe nos quadrinhos de super-heróis, Dr.Banner“recebe” seus poderes de Hulk, que, no entanto, lhe são quase uma maldição, tamanhos os transtornos que lhe causam, através de uma experiência malsucedida, um acidente.Ele é uma vítima, portanto.
Já Dr.Jeckill fazia de tudo para “esconder meus prazeres...com um senso de vergonha quase mórbido” e por isso toma a poção para conseguir uma espécie de libertação da moral repressora de seu tempo.
Uma versão em quadrinhos feita para o selo Ultimate da Marvel (histórias paralelas à cronologia oficial da editora) é bastante ousada e interessante. Banner, um cientista com todo tipo de frustração, cria o “soro do Hulk” com a justificativa de ajudar o Capitão América, mas que na verdade busca dar a ele força superior e outra personalidade que lhe possibilitem a fuga de suas fragilidades (faz isso logo após levar um fora de Betty Ross). Se Hyde era uma reação violenta à repressão, este Hulk é uma busca desesperada de uma pessoa frágil por ser super (como seus colegas de equipe), exatamente a exigência que a sociedade faz a todos nós (falei a este respeito no texto sobre Nelson Rodrigues). O Hulk aqui é uma clara analogia para as drogas (ou à posse de uma arma!).
Com todas estas possibilidades, o filme de Louis Letterier preferiu ser um mero passatempo barulhento. Fazer o quê?

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As imagens (clique para ampliar)que reproduzi são da revista Marvel Millenium-Homem Aranha, publicada pela Panini em abril de 2003(com desenhos do espetacular Bryan Hitch) e republicada posteriormente em volume encadernado . O Hulk, nesta versão “Ultimate”(que no Brasil recebeu o nome de Millenium) é cinza, com era, aliás, nas primeiras histórias da década de 60, que podem ser conferidas no encadernado de luxo Enciclopédia Marvel- Hulk da mesma Panini . Problemas técnicos nas gráficas fizeram com que acabasse sendo impresso verde.
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"O Médico e o Monstro" , como Crime e Castigo, de Dostoiévski, é daqueles livrosque antecederam a psicanálise na compreensão de que existem motivações obscuras por detrás dos atos humanos e que, sobre elas, a razão tem pouco domínio .

terça-feira, 14 de outubro de 2008

COMO SERÃO OS FUTUROS SUPERVILÕES ?


Não tenho acompanhado quadrinhos de super heróis já há algum tempo, no entanto sei (pela revista Wizmania, da Panini) que a nova estratégia da Marvel Comics para atrair leitores é a de dizer que muitos de seus heróis são, já há muito tempo, Skrulls disfarçados e que os heróis verdadeiros estão desaparecidos ou raptados. Ninguém até agora sabe quem, entre os superpoderosos é humano ou um Skrull. Para quem não está entendendo nada, explico : os Skrulls não são nada mais do que uma raça de alienígenas transmorfos malvados. E alienígenas malvados, todos sabemos muito bem, são a metáfora perfeita que os norte-americanos encontraram para todos aqueles que eles temem, ou seja, os estrangeiros. A tal da ameaça externa, gente bárbara e gananciosa que querem destruir a terra da oportunidade e da democracia. Há inúmeros exemplos, principalmente no cinema dos anos 1950, auge da Guerra Fria que fazia dos aliens uma versão fantasiosa dos soviéticos.

Pois bem, agora os vilões não são mais meros invasores(como eram os klingons de Star Trek), são transmorfos, ou seja, aqueles que se fazem passar um de nós, como foram os terroristas do 11 de setembro. O clima de delação e desconfiança estimulado por Geroge W.Bush levou os norte-amerianos a demonizarem tanto quanto possível os imigrantes. O reflexo está aí, nos quadrinhos .

Interesante é imaginar de que forma a nova crise , desta vez financeira, irá afetar o imaginário dos americanos (e, em consequência, os quadrinhos e o cinema). É uma rise de confiança também afinal tudo iniciou com a concessão livre e desenpedida de crédito, mas desta vez ela recai sobre os próprios norte-americanos, afinal foram eles mesmos quem contraíram dívidas e não conseguiram pagar, gerando a bola de neve que arrastou bancos centenários para o buraco e, na esteira, o resto do mundo.
Aí fica a pergunta : Que forma terão os futuros vilões, quando tudo isso for assimilado pelos artistas? Como fazer de seu próprio povo um monstro, da mesma maneira que eles tão facilmente sempre fizeram com o resto do mundo?
Acho que os próximos apítulos serão os mais interessantes.


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A imagem foi extraída da wikipédia e é a capa de Fantastioc Four 2, de janeiro de 1962, desenhada por Jack Kirby, onde os Skrulls aparecem pela primeira vez. Essa história foi republicada pela Panini na série enadernada de luxo Encilopédia Marvel - Quarteto Fantástico.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Para quem assistiu ou pretende assistir Ensaio sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles é praticamente obrigatório dar um pulo neste link:

http://www.revistacinetica.com.br/blindnessdebate.htm
A Revista Cinética reuniu nada menos do que 9 textos curtos escritos por seus redatores, cada um com uma opinião bem particular (e muitas vezes divergente das dos outros) sobre o filme.

BATMAN EM LIVROS DE ARTE? - UMA BELA DOR DE CABEÇA (parte2)


Para completar devidamente a postagem anterior, é preciso dizer que também existem livros da Taschen dedicados a cineastas como Antonioni, Kubrick e Truffaut e que também é possível analisar a construção das cenas estáticas no cinema, como se fossem pinturas. Este, aliás, foi o tema do curso “Afinidades Eletivas: Cinema e Pintura” ministrado pelos Profs.Dr.s Marcelo Augusto e Vera Bungarten entre os dias 03 e 13 de abril deste ano. Dito isto, é preciso ressaltar que se no caso dos quadrinhos a ligação com a pintura é ainda mais íntima (exatamente por causa dos desenhos) ,reproduzir uma página inteira de uma HQ equivale a reproduzir não uma única cena de um filme, mas toda uma sequência.
Desta maneira os limites ficam bastante embaralhados. De qualquer modo Neil Adams é um artista gráfico soberbo, que sabe dominar como poucos toda a expressividade dos traços sintéticos e do uso do nanquim. Em minha opinião, não pode haver violência maior do que colorizar seus desenhos.

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Para não ficar no “achismo”e lidar de maneira imprecisa com os termos, vale dizer que , segundo o Dicionário Teórico e Crítico de Cinema de Jaques Aumont e Michel Marie (Papirus Editora) seqüência é “um momento facilmente isolável da história contada por um filme:um sequenciamento de acontecimentos,em vários planos,cujo conjunto é fortemente unitário”que também “pode ser contida em um único plano(o que se chama,justamente,de um plano sequência)”.

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Faltou dizer também que as imagens foram extraídas da revista Batman - Almanaque Classic que a Opera Graphica lançou em 2001, acertadamente em preto e branco.

LINHA DE PASSE - O VERDADEIRO JOGO DA VIDA

Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, tem uma virtude rara: não é preconceituoso. Sabemos bem que cinema é feito para uma elite que pode pagar R$ 15,00 para ver um filme. E, quase sempre quem escreve e dirige (para a TV, inclusive)pertence a um grupo ainda mais restrito, ou seja, de conta bancária beeem gorda. Então o que vemos com uma freqüência assustadora na representação audiovisual é a repetição das mesmas idéias pré concebidas. Repare num comercial de TV que se passa dentro de um ônibus e você verá que ninguém ali se parece realmente usuários de transporte público. Esse pessoal quase sempre retrata a si mesmo e, quando não o faz, nos mostra o que eles acham dos Outros, os “pobres”(o que quer que eles entendam por isso).
Linha de Passe é, então, uma exceção. Lá os protestantes não são nem desonestos nem fanáticos idiotas, como não são também os torcedores que vão a estádios de futebol (numa bela sequência,logo no início, vemos que a fé os une), o futebol não é um mundo mágico de encanto, mas sim o lugar onde se faz todo tipo de falcatruas, de forjar identidade falsa à vender vaga na equipe. Os tais “pobres” (qualquer pessoa que não more em áreas nobres de São Paulo ou na zona sul carioca) não são criaturas disfuncionais, grotescas (como na maioria dos filmes) nem ingênuos bondosos e quase cômicos(como em 100% das telenovelas).
E o ônibus não é um lugar onde criaturas esquecidas por Deus sofrem o pão que o diabo amassou de cada dia,mas uma metáfora de liberdade, movimento , que a grande idéia por trás do filme, “seguir em frente”. Bem diferente, vale notar do keep walking da propaganda de Whisky ou do caminhar dos vitoriosos economicamente da propaganda da Nextel. Em linha de passe o que temos é muito mais próximo do conselho tradicional em horas difíceis: bola pra frente.

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Linha de Passe, paradoxalmente, fica completamente fora do alcance das pessoas nele retratadas. Se o públio que pode pagar R$16,00 num ingresso de cinema de shopping Center, que dirá daquele que pode se deslocar à avenida paulista para ver o filme?
Mesmo com Sandra Corvelloni tendo recebido prêmio de melhor atriz em Cannes.

A VIDA NÃO É TÃO SIMPLES NO MUNDO DOS SOPRANOS


A partir de hoje às 21h o Warner Channel passa a exibir o seriado Família Soprano, cujas seis temporadas já passaram na HBO e estão disponíveis em DVD. Serão dois episódio seguidos, diariamente até o dia 10 quando a emissora passa a exibir a série aos domingos, também às 21h.
Família Soprano, quase todo mundo já sabe, foi, junto de Sex and the City, a responsável pela existência das chamadas “séries adultas”, que não economizam em violência, sexo e palavrões e trata da vida de Tony Soprano (James Gandolfini), um chefe mafioso que sofre de síndrome do pânico e tem de se confrontar com sua insuspeita fragilidade indo a uma psicanalista.
Mas é muito,muito mais do que isso. Família Soprano tem tramas e personagens complexos como raramente (estou sendo otimista) se vê no cinema, principalmente se o filme for produzido em Hollywood. Por tramas e personagens complexos entenda-se “incompletos”, que não se fecham em si mesmos, ou seja, nada lá é tão simples. Tony é um chefão violento, mas ao mesmo tempo (em não em contraposição) um pai amoroso, marido dedicado, mas também infiel. Por vezes arrepende-se de suas traições amorosas e das mortes que causa, por vezes não. E não nos é dito o tempo todo o porquê das coisas. Não veremos também, como seria o caso de um filme medíocre de gângster (e eles existem às pencas), uma oposição entre a família (mulher e filhos) e a famiglia mafiosa. Tudo se mescla, chega praticamente à unicidade. E é assim com todos os personagens, que podem ser a um só tempo justos e decentes , egoístas e mesquinhos. Não somos todos assim?
As tramas também fogem para bem longe da obviedade, ou seja, se algo de ruim acontecer com Dra.Melfi (Lorraine Bracco), não espere por ela pedir socorro a Tony, que, assim, agiria como agente vingador de nossos sentimentos de espectador, aquele que lava nossa alma e que nos faz exclamar “é isso aí”, heroificando-o através da catarse. A vida não é assim. E não espere também que, ao longo dos 86 episódios você vai conhecer os personagens tão bem a ponto de antecipar cada atitude deles. ninguém conhee uma pessoa tão a fundo assim.
É essa indefinição das coisas e pessoas, essa complexidade, que faz desta uma das melhores séries de TV já exibidas.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

BATMAN EM LIVROS DE ARTE? - UMA BELA DOR DE CABEÇA



Na sua coluna no site omelete
(http://www.omelete.com.br/conteudo_colunas.aspxid=100014953&secao=colunas) Érico Borgo , ao resenhar a HQ encadernada Batman por Neil Adams -vol.1, lançada este mês pela Panini fez duas afirmações bastante interessantes. A primeira foi :
“Na série, Adams começou a experimentar os limites da arte seqüencial. Aos poucos, foi deixando de lado o engessamento dos quadros e passou a explorar o dinamismo que o meio tornava possível”
Incontestável. Dá para ver isso na primeira figura, onde há um claro “desrespeito”para com os quadros e o próprio espaço entre eles passa a compor a cena, que ganha assim enorme expressividade.
A outra afirmação faz referência à uma das mais conceituadas editoras de livros de arte, a Taschen:
“Não fossem tais personagens propriedade da DC, creio que veríamos coleções da elegante Taschen dedicadas a criadores como Neal Adams”.

Analisar a questão é complexo, envolve um mergulho em teorias da arte, terreno em que existe pouquíssima unanimidade. Seria preciso estabelecer um critério para o que é arte e assim dizer se seu desenhos, desvinculados das histórias, teriam valor de “grande arte”(taí outro conceito espinhoso) a fim de figurar ao lado de catálogos de pintores como Michelangelo ou Matisse. Uma aproximação mais obvia e tentadora seria com a Pop Art. E,já que falamos da Taschen, vamos a ela, mais propriamente ao livro Pop Art, deTilman Osterworld:
“A trama estereotipada opõe uma retenção impessoal de criatividade. É assim que se manifesta claramente a contradição entre a emoção pessoal e a emoção anônima”.
Osterworld fala sobre toda a Pop, mas mais especificamente sobre Roy Lichteinstein, que reconstruía imagens extraída de histórias em quadrinhos em suas gravuras. O essencial na Pop é a impessoalidade (um conceito que nasce com Marcel Duchamp) expressa nas figuras da sociedade de massas, os quadrinhos, a publicidade e por aí vai. Não seria então sob o rótulo de Pop Art que os desenhos de Neil Adams, figurariam (fosse o caso) num livro da Taschen.
Isto tudo pode parecer bobagem, mas o caso é que os quadrinhos, entendidos Omo ate, precisam ser encarados não só como desenho, mas também como narrativa. Entendê-los só como desenho seria o equivalente a ver atributos artísticos no cinema somente através da figura estática (o fotograma), uma imagem pausada. No livro “A Estética do Filme”(Ed.Papirus), Michel Marrie fala que “a fim de provar que o cinema era de fato uma arte, era preciso dotá-lo de uma linguagem específica, diferente da linguagem da literatura e do teatro” a fim de mostrar todo o problema que envolve reconhecer uma “linguagem” ou uma “gramática” do cinema, que é um dos caminhos para reconhecer seu atributo artístico.
Portanto, se levarmos em conta só os desenhos de Neil Adams, teríamos de abandonar todo ritério para o qual os quadrinhos são reconhecidos (com boa dose de má vontade) Omo a Nona Arte.
Bom, tudo isso para retornar à pergunta: o trabalho de Adams cabe num livro da Taschen ou, é Arte por si só, livre da estética dos quadrinhos?
Não vou me aventurar a responder agora (antes, estudarei melhor o tema), mas se a editora lançasse um livro destes eu o compraria com certeza. A força da segunda figura fala por si só.

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“Existe, todavia, uma maneira radical de superar a heterogeneidade da linguagem crítica e da linguagem objeto de análise(o filme).Consiste na utilização do próprio filme como suporte de análise do cinema:o cinema didático não tem qualquer dificuldade em citar extratos de outros filmes,basta-lhe reproduzi-los,como faz uma análise crítica que cita um texto literário” – diz Marrie no livro já citado. Trazendo a coisa para os quadrinhos, dois autores fizeram o equivalente, ou seja, discorrer sobre a linguagem das HQs , seus limites e possibilidades utilizando o próprio meio,ou seja, uma HQ. Um deles é Scott McCloud, no livro Desvendando os Qudrinhos (M. Books). O outro é o brasileiro Jozz em O Circo de Luca(Devir), premiado como artista revelação no último HQMix.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

CACHORRO,NÃO !

O documentário Waldick- Sempre no Meu Coração, dirigido por Patrícia Pillar (e de que já falei neste blog)passa hoje às 22h no Canal Brasil.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

BELEZA E SIMPLICIDADE EM "MESA PARA DOIS"


Uma garota é contratada por Milo, um escritor com bloqueio criativo que quer alguém para conversar ( vale notar que ele na verdade é o Lourenço Mutarelli, para quem o álbum é dedicado). Em paralelo, vemos que ela trabalha num restaurante onde conhece um garoto de cabelos bagunçados. Ele, nas horas vagas é músico, mas não um rocker estiloso, mas um trompetista de uma orquestra que toca em bailes onde a maioria dos freqüentadores são idosos.
Eles pegam lotação juntos e às vezes conversam. Ele gosta dela, ela não sabe.
Foi sem pretensão ou grandiloqüência que os gêmeos paulistas Fábio Moon e Gabriel Bá , vencedores em três categorias do Eisner Awards (o Oscar dos quadrinhos) deste ano, conseguiram com este "Mesa para Dois"(Devir) algo raro (até mesmo no cinema, principalmente o brasileiro) : construir uma história simples (apenas na forma) mas encantadora sobre a incompletude de todos nós ,a dificuldade que temos em nos comunicar e sobre a importância das pequenas coincidências em nossas vidas.
“O senhor Milo diz que a gente não enxerga as coisas que estão bem debaixo do nosso nariz”, diz a garota. Verdade.

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dedicado especialmente ao casal Mário e Leila (e à Sophia também !)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

O QUE FAZ VOCÊ FELIZ? - continuação

Só como complemento ao "o que faz você feliz", vale dizer que na chamada para o programa Dr. 90210(ignoro o nome que ele tem na tv aberta), reality show sobre a vida de um cirugião plástico exibido pela RedeTv! domingo passado a apresentadora anunciava que iriram mostrar "como a operação plásica pode melhorar a vida profissional de alguém".
Também em outdoors pode se ver o anúncio de uma marca de calçados infantis cujo slogan é "a sandália que faz o meu mundo mais colorido".
Em comum a ambos a noção de que uma transformação externa leva a alguma forma de melhora na vida ( o "colorido"). Isso, calro, vaoi na contramão de toda psicanálise, para quem os desonfortos tem,na realidade, origem intena. Não é nem a posse de um bem, ou a conquista de um "grande amor", ou o "banho de loja" que elimina as angústias (usando os termos om toda liberdade a que um não psicológo pode ter).

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

NELSON RODRIGUES E O LEMA " O QUE FAZ VOCÊ FELIZ?"

O conto O Pastelzinho, de Nelson Rodrigues, que pode ser lido no livro “A Coroa de Orquídeas e outros contos de A Vida como ela É” (Companhia das Letras) é um dos cinco encenados pela Cia Paulista de Artes na peça As Noivas de Nelson, que tem direção e adaptação de Marco Antônio Braz. Segue um trecho:

“Muito carioca, estabanado, Sérgio mudava diante da noiva assim doce e assim macia. Sem querer, ele a tratava com relativa e involuntária cerimônia. O chamado “beijo bem molhado”era a máxima liberdade formal que se permitia. Mas, na véspera do casamento, ela o chamou de lado.No seu jeito manso, começou:
- Vou lhe pedir um favor, meu filho.
Abriu-se:
- Pois não!
E ela:
- Eu não queria que você falasse mais em “beijo molhado”. Acho tão sem poesia!
Pela primeira vez, Sérgio quis resistir:
- Mas,meu bem,escuta cá- por quê?
Explicou:
- É o seguinte: - quando você fala assim eu penso logo em saliva.
O outro animou-se:
-Mas é por isso mesmo!A graça do beijo está, justamente, na saliva meu anjo.-E insistia, já inspirado:-Na mistura de saliva.
Dalva encerrou a discussão com sua doçura irredutível:
- Eu não penso assim.
Sérgio transigiu, imediatamente:
- Está bem, coração. Todo meu interesse é de te agradar
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Acerca dos personagens de Nelson Rodrigues, Ruy Castro diz na apresentação do livro “O Melhor do Romance, Contos e Crônicas” (Companhia das Letras/Folha de São Paulo) que eles são “homens de bem, senhoras honestas e virgens de catorze anos, roídos por fantasias inconfessáveis”.
É interessante notar o quanto isso mudou, o quanto a sexualidade reprimida dos tempos de Nelson (e que levava seus personagens a situações constrangedoras e de desespero) hoje é escancarada. Basta dizer que qualquer celebridade de quinta categoria hoje faz um filme pornográfico e vai a programas de TV divulgar seu “trabalho”. Isso não pode ser explicado apenas pelo que se chamaria de “evolução dos costumes”, mas sim por uma cultura que privilegia o prazer e a felicidade do indivíduo acima de tudo. A evolução ocorreu sim e uma peça como Beijo no Asfalto, em tempos de Parada Gay, soa até estranha. E se um dia já foi considerada valorosa e “decente” a mulher que permanecia virgem até o momento do casamento, hoje ela é motivo de, no mínimo, estranheza. Mas há mais do que apenas a evolução da sexualidade rumo a uma maior liberdade.
Hoje a obrigação é ser feliz, e o que conta mesmo é o Indivíduo, e não há porque se colocar entraves à satisfação de nossos desejos (sexuais, de consumo ou de outra ordem). Daí muito daquilo que antes era moralidade ser hoje tabu, (por exemplo, a virgindade).
A publicidade o tempo todo nos mostra imagens de pessoas felizes (O que faz você feliz? -nos pergunta um anúncio da rede Pão de Açúcar) e que assumem uma postura vitoriosa diante da vida. Ficamos assim numa obrigação de sermos “vencedores” e “felizes” (passando por cima de tudo quanto de abstração há nestas palavras). Se não nos encaramos nem como vitoriosos nem como felizes (e se todo sofrimento é inaceitável, toda dor, um defeito) temos sempre à mão nossas soluções mágicas, que já não são mais os patuás benzidos ou as fitinhas trazidas de alguma romaria, mas sim produtos de uma sociedade que mesmo quando é religiosa, se mostra “científica” e, quando se diz “científica”, é quase mística.
Temos desde as pílulas do amor e as da felicidade a inúmeros livros de auto-ajuda que nos “ensinam” a obter “sucesso” e ter uma vida “vitoriosa”, curiosamente as mesmas promessas feitas por tele-evangelistas, padres cantores e todo um sem número de crenças religiosas, que, ao contrário do que vemos nas peças de Nelson, buscam não mais recalcar, mas exacerbar. Se, por um lado, seus problemas podem ser resolvidos engolindo alguma pílula, eles também podem desaparecer apenas assumindo a atitude “correta” (seja ela o “pensamento positivo” dos livros ou a afirmação da fé, ou mesmo algum tipo de doação)
A transformação da aparência é apenas outra face da solução mágica. Não é de surpreender a busca desesperada pela operação plástica ou a crença (literalmente) no poder de um banho de loja. Acredita-se, do mesmo modo, que mudando o “visual” muda-se a personalidade – os livros de auto-ajuda falam em “mudança de atitude”; o “banho de loja” que muda para melhor a vida de uma pessoa é comum em filmes, principalmente as comédias românticas e é apresentado como o primeiro passo para a superação dos obstáculos apresentados ao protagonista( a conquista do grande amor , o sucesso no emprego, etc). Essa crença na personalidade “ideal” conseguida através da construção da identidade (maquiagem da aparência) está no cerne da existência, por exemplo, dos sites de relacionamento e boa parte da comunicação via internet. É no universo virtual que se transforma naquilo que se gostaria de ser e assim se apresenta aos outros.
O que a idéia de soluções mágicas traz consigo é que tudo está ao seu alcance (o que faz você feliz?) , basta assumir a atitude correta. Portanto o “fracasso” ou a frustração gera toda uma nova gama de males, como síndrome do pânico, consumismo, ninfomania e depressão (vale notar que Freud se referia apenas à melancolia).
É o mal-estar da pós-modenidade.

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“não há nada de especificamente psicanalítico na idéia de depressão. Na verdade,pode-se afirmar que a depressão,na forma como a concebemos hoje, é produto tanto da influência sutil da indústria farmacêutica no modo como encaramos nossa vida emoional quanto da medicina psicológica. Os fabricantes de antidepressivos fazem questão de que a aflição seja entendida como depressão para criar a necessidade dos seus produtos” diz Jeremy Holmes no pocket book “Depressão” (Ediouro/Duetto).

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Que as drogas tenham se tornado uma epidemia não surpreende. Elas são a maneira mais rápida e fácil de se obter prazer e esquecer frustrações.

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Não passa nem perto das intenções desse texto dizer que a obra de Nelson Rodrigues está ultrapassada. As figuras de filhos dependentes, mães castradoras, sogras dominadoras e toda sorte de tipos urbanos estão vivíssimos. E o repórter justiceiro e oportunista de Beijo no Asfalto só trocou os periódicos sensacionalistas pela TV.

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A peça As Noivas de Nelson está em cartaz no Teatro Arthur Azevedo (av.Paes de Barros,955-Mooca) até o dia 28 deste mês que é também quando sai de cartaz Senhora dos Afogados, dirigida pelo gigante Antunes Filho, que está no Sesc Consolação (r.Dr.Vila Nova,245- região central).

PAPO DE BALCÃO

- Um grande abraço para o superamigo Zidane, cuja identidade secreta é o jornalista do Diário de São Paulo, Fábio Saraiva !

- Reproduzo aqui o recado do Nicolau Soares, jornalista do site Futepoca (futebol,política e chachaça). Já visitei e recomendo. Ao recado : O Futepoca (www.futepoca.com.br) está com a promoção Praga do Zé que vai premiar com três exemplares do Prontuário 666 (ed. Conrad) as melhores pragas de futebol. Vale texto, vídeo, charge, desenho, repente, cordel etc. contra time de futebol, jogador, técnico, cartola... É só ver no blog como participar. Aguardamos as contribuições!

- Um abraço também para a Jô e para o retorno do Daniel Lupi !

- E finalmente ao Anderson (Dj Mandio) que mesmo sem poder postar comentários, continua visitando este Bar1211 !

NELSON RODRIGUES EM HQ- O GRANDE DILEMA

Na hora de se fazer uma adaptação de Nelson Rodrigues, uma HQ sai em larga desvantagem em relação ao cinema e o teatro. Nestes, os diálogos perfeitos de Nelson podem ser reproduzidos com pouca ou nenhuma alteração. Já numa história em quadrinhos eles têm obrigatoriamente de ser mutilados e espremidos para caberem dentro dos balões, o que é uma agressão e tanto à obra do dramaturgo. Agrava ainda o fato das palavras disputarem a atenção do leitor com a força da imagem . Sendo assim, talvez (o grifo aqui é importante) uma adaptação ideal de Nelson devesse ter os diálogos deslocados do quadro onde estão inseridos os desenhos, ou, como na obras de Will Eisner, os desenhos ficariam melhor soltos na página, livres dos quadros, com mais espaço para o texto. Mas essa versão de Beijo no Asfalto graphic novel da dupla Arnaldo Branco e Gabriel Góes publicada pela Via Lettera tem seus triunfos: o desenhos “relaxado”, ajuda a compor a caráter dos personagens. Arandir, que está na desconfortável posição de ser acusado por um jornalista de homossexualismo (que é tratado como um crime- voltamos aqui ao post anterior) tem o corpo pequeno em proporção à enorme cabeça, que o fragiliza. O delegado boçal e violento por vezes tem o rosto deformado em relação aos desenhos anteriores, o que mostra bem sua mutação perigosa de personalidade. Isso sem falar nos violentos jogos de preto e branco das imagens, que têm tudo a ver com essa história onde se opõem obscurantismo retrógrado e ingenuidade,certo e errado, inocência e culpa acusadores e acusados, discurso proferido e os desejos inconfessáveis.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

PAPO DE BALCÃO – DE VOLTA AO BATENTE

Depois de fechar uma semana para balanço, este Bar1211 reabre as portas. Sem enrolação, vamos aos abraços e agradecimentos (aliás, isto aqui está muito bem freqüentado!) a quem apareceu aqui pela primeira vez:
Ao magro de alma gorda, André di Peroli ator e idealizador da peça Hoje Acordei Gorda, que aliás deve reestrear em breve. Avisaremos assim que isso acontecer.
Stella Florence, autora do livro que inspirou a peça, por ter visitado este Bar1211.
Jô Barranova, contista e poeta que milita pela democratização da cultura em Santo André com afinco invejável. Pouca gente têm a propriedade que ela tem quando diz que “No subsolo. É assim mesmo que as coisas acontecem nesta cidade.”
E, Maria Batatais, garanto que as letrinhas chatas na hora dos comentários não vão mais dar o ar da graça.

O MISTÉRIO DO SAMBA – POR ONDE ANDAM OS SAMBISTAS?

O Mistério do Samba, de Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda é um filme imperdível por mais de um motivo; não só por ser belíssimo, mas também por seu caráter documental, de raridade mesmo.
A memória do brasileiro, diz a sabedoria popular, é curta. E é para corrigir este problema, que este documentário serve.
Artistas brilhantes e esquecidos existem em qualquer gênero musical de qualquer país. Muita gente boa, por um motivo ou por outro acabou jogada para escanteio ou recebendo um reconhecimento tardio. Pode-se dizer isso de Ike Turner, que pouca gente sabe, foi autor de “Rocket 88”, primeira composição de rock and roll, mas que ficou famoso pela violenta convivência com a ex-mulher, Tina. King Keppard, maior músico de Jazz de seu tempo, que poderia ter se tornado o primeiro artista do gênero a ser gravado (o que não o fez por medo de que outros músicos aprendessem a tocar como ele após ouvirem o disco). Aqui, entre tantos outros exemplos, poderíamos citar Johny Alf, precursor (e transcendente, nas palavras de Ed Motta) da bossa nova que acabou ofuscado pelo gênero que poderia tê-lo consagrado. Pode acontecer até com quase todos os grandes nomes de um gênero musical. Foi assim com um a soul music, que “morreu” ao surgirem seus desdobramentos, o funk e a disco, até renascer nas gargantas de Joss Stone, Amy Winehouse e Duffy. O ocaso destes músicos, compositores e cantores é mostrado no filme “Only The Strong Survive”, de que já falamos aqui neste blog (no post sobre Isaac Hayes).
No entanto, quando isso acontece com todo um gênero musical vivo e pulsante, podemos dizer que os motivos são outros e bem mais mesquinhos.
Não foi só a ganância das gravadoras multinacionais que afastou boa parte dos sambistas do grande público, mas há um sistemático isolamento das velhas-guardas que acontece dentro das próprias Escolas de Samba, que em certo momento passaram a privilegiar o espetáculo em detrimento das composições. Disso padeceu Jamelão, que morreu tendo sua carreira como cantor de sambas-canção e grande intérprete de Lupicínio Rodrigues quase completamente esquecida.
O grande público hoje ignora, não um ou outro, mas quase todos os grandes nomes do samba. E, infelizmente, iniciativas como esta O Mistério do Samba são raras. Para uma comparação, vale ver quantos documentários sobre jazz estão disponíveis nas lojas de DVDs. De alguns oportunistas, como “Lois Armstrong – um retrato íntimo do pai do Jazz” (que erra já no título, ao atribuir uma paternidade que não é dele) de John Akomfra, até o magnífico “Jazz”, de Ken Burns com mais de 12 horas de duração, há uma oferta enorme. Tivemos, é verdade, Cartola – Música para os olhos, Paulinho da Viola- Meu tempo é hoje e a ficção Noel, o poeta da Vila . É pouco. A TV, os jornais e as revistas também só raramente se lembram do samba, muito menos de seus ídolos.
Agora, sobre o filme propriamente: acompanhamos durante os pouco mais de 70 minutos de duração, a cantora Marisa Monte, (por vezes acompanhada por Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho) na busca por canções nunca gravadas de grandes compositores da Portela. Nessa jornada, que durou aproximadamente dez anos e gerou, além deste documentário, três álbuns, nos deparamos com entrevistas históricas como as primeiras de Argemiro Patrocínio e Seu Jair do Cavaquinho. Históricas porque, por iniciativa deste projeto, eles gravaram seus primeiros discos somente em 2002, respectivamente, com 80 e 79 anos (ambos morreram durante a produção do filme, Argemiro em 2003 e Seu Jair três anos depois).
É absolutamente encantador de se ver (e ouvir) como o samba é vivo, como continua passando de geração a geração e como pulsa nas comunidades, mesmo que distante da mídia.
Das muitas histórias deliciosas, veremos Seu Jair contar que saiu de casa às broncas da esposa, que se irritava com o fato dele ir para o samba, onde estaria rodeado de mulheres. Ao retornar, percebeu que estava trancado para o lado de fora. Só com muita conversa é que conseguiu entrar em casa, onde, na maior cara de pau, apresentou à companheira o samba “Voltei”, criado durante a noitada:

Voltei, voltei
Já chegou quem lhe socorre
Já lhe avisei
Que por falta de amor
Você não morre
Voltei pra matar os desejos seus
Pra não me esquecer a quem não me esqueceu
Lhe adoro tanto criatura
E o nosso amor ainda não morreu


Já Argemiro Patrocínio canta “Solidão”, de versos rascantes como: “É dor, angústia e sofrimento/ O tédio é um eterno tormento/Assim é a solidão” para logo em seguida, sobre o mesmo tema disparar que “pelo menos pra isso a mulher serve, pra brigar. Tem vezes que isso faz falta”.
Com se tudo isso não bastasse, vale ainda dizer que será literalmente impossível segurar os aplausos após as apresentações musicais (feitas em botequins e barracões), como se elas estivessem acontecendo ali mesmo no cinema.
É bom corrigir, O Mistério do Samba não é só imperdível, é obrigatório.

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Podemos ouvir samba tradicional aqui no ABC com o projeto Samba de Terreiro de Mauá, que inclusive já trouxe para uma homenagem, outro compositor esquecido, o octagenário Xangô da Mangueira. É um trabalho de resgate não só de sambas antigos, (semelhante ao que faz o Berço do Samba de São Mateus), mas também de uma tradição, a de tocar numa roda em volta de uma mesa, emendado um samba com o outro e, por vezes, contando histórias entre eles. Em cada apresentação há também exposição de capas de discos históricos e raros, livros, pinturas outras coisas ligadas ao universo do samba. Neste sábado (dia 13) eles estarão no Bar SET, avenida Padre Anchieta 230 em Santo André, por volta das 21 h.
Quem quiser conhecer um pouco mais pode visitar: http://www.terreirodemaua.blogspot.com/

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No caso da memória da nossa cultura musical, as majors (grandes gravadoras multinacionais) fizeram de tudo para encurtá-la ainda mais. Jogaram carreiras num buraco tão profundo que acabaram tragadas, elas também, para dentro dele. Num dado momento, trataram de fazer duas coisas: investir em modismos, com criação (promoção) de artistas em linha de produção (foi assim com o sertanejo, depois com o axé e o pagode), sempre copiando ao de maior sucesso no gênero. Para isso, viciaram as rádios a só tocarem músicas mediante o famigerado jabá (valor pago pela gravadora por música executada ou incluída nas “mais pedidas do dia”. E trataram também de desmontar a cultura do álbum musical, ao investir na venda de coletâneas com as “melhores”músicas de cada artista e nos “Ao Vivo”. Não havia a necessidade de se investir na gravação de um novo disco e o lucro, conseqüentemente, era bem maior. Com interesse concentrado num único gênero musical por temporada e fazendo o possível para despersonaliza-lo ao máximo (desagradando ao menor número possível de pessoas) gente muito boa foi sendo esquecida, as grandes composições foram rareando e o gosto popular, se degradando. Chegou a pirataria dos CDs e o MP3 e as gravadoras, sem nomes consistentes, sem a cultura do disco físico (que valorizava não só a música, ma a capa e o encarte) que eles trataram de destruir , desmoronaram. Com elas, foram suas lacaias, as rádios FM, que agora estão nas mãos de outras empresas (Mitsubishi Motors, Oi, Sul América).

EU NÃO FUI CACHORRO NÃO! – O ÚLTIMO UIVO DE WALDICK


Waldick Soriano, morto na última quinta-feira é figura central do livro Eu Não Sou Cachorro Não(Editora Record) de Paulo César de Araújo (o mesmo da biografia censurada de Roberto Carlos). Nele o autor mostra o preconceito da imprensa que ignorou o fato de que os “cafonas” foram tão perseguidos e censurados pelo regime militar quando os “inteligentes” (aspas enormes) da MPB. Mas também o de gente ligada à música, como Nelson Motta, que em seu livro de memórias “Noites Tropicais” “esquece”. (aspas maiores ainda) que escreveu a música “Drama Passional” em 1976 para Odair José.
Mas o mais interessante é que ele desmonta o conceito de “cafona”.Para ele, as definições tradicionais (grandiloquecia, sentimentalismo exagerado e artificial) também se aplicam perfeitamente a músicas consagradas como, por exemplo, Rosa, de Pixinguinha que tem versos “Waldickianos” como tu és a forma ideal, estátua magistral, oh ! alma divinal. No entanto, só se chama de “cafona”ou “brega”a musicas de artistas de apelo abertamente popular. Paulo César separa a música brasileira em duas tendências: a tradição que engloba toda música feita até 1945 e a modernidade ou tudo o que veio depois de 1950. A produção musical entre estes períodos seria tachada de “baixo nível artístico”. Assim, à toda a geração de cantores e cantoras do rádio (Nora Ney, Cauby e Ângela Maria inclusos) seria legado o limbo. E todos aqueles não identificados com as duas vertentes (como as canções aboleradas) seriam “cafonas”. Sofreu com isso também Nelson Gonçalves, que teria várias vezes negado o direito à gravação de sua voz e depoimentos no MIS (Museu da Imagem e do Som).
Já nosso man in black de beira de estrada, nosso Johnny Cash de coração mole, Waldick ainda poderá ser visto mais uma vez quando (se) estrear em circuito do documentário “Waldick, sempre no meu coração” feito ano passado pela atriz Patrícia Pillar e que foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo deste ano em duas apresentações.

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A opção é sempre por entrevistar artistas articulados, bem vestidos e com livre trânsito em festas badaladas, bairros nobres e casas de empresários colunáveis. Os motivos vão desde o eficiente trabalho das assessorias de imprensa destes artistas, que tratam de “plantá-los” em colunas sociais e eventos cheios de jornalistas bem como ao extrato social preconceituoso de onde vem os jornalistas das editorias de cultura (sem generalizações, claro), que têm uma noção bem particular de “bom gosto” e acham que um Seu Jorge ou uma Ana Carolina têm muito mais a dizer do que tinha, por exemplo, Argemiro Patrocínio. “O Mistério do Samba” e “Eu não sou cachorro Não” provam bem o contrário.