terça-feira, 30 de setembro de 2008

CACHORRO,NÃO !

O documentário Waldick- Sempre no Meu Coração, dirigido por Patrícia Pillar (e de que já falei neste blog)passa hoje às 22h no Canal Brasil.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

BELEZA E SIMPLICIDADE EM "MESA PARA DOIS"


Uma garota é contratada por Milo, um escritor com bloqueio criativo que quer alguém para conversar ( vale notar que ele na verdade é o Lourenço Mutarelli, para quem o álbum é dedicado). Em paralelo, vemos que ela trabalha num restaurante onde conhece um garoto de cabelos bagunçados. Ele, nas horas vagas é músico, mas não um rocker estiloso, mas um trompetista de uma orquestra que toca em bailes onde a maioria dos freqüentadores são idosos.
Eles pegam lotação juntos e às vezes conversam. Ele gosta dela, ela não sabe.
Foi sem pretensão ou grandiloqüência que os gêmeos paulistas Fábio Moon e Gabriel Bá , vencedores em três categorias do Eisner Awards (o Oscar dos quadrinhos) deste ano, conseguiram com este "Mesa para Dois"(Devir) algo raro (até mesmo no cinema, principalmente o brasileiro) : construir uma história simples (apenas na forma) mas encantadora sobre a incompletude de todos nós ,a dificuldade que temos em nos comunicar e sobre a importância das pequenas coincidências em nossas vidas.
O senhor Milo diz que a gente não enxerga as coisas que estão bem debaixo do nosso nariz”, diz a garota. Verdade.

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dedicado especialmente ao casal Mário e Leila (e à Sophia também !)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

O QUE FAZ VOCÊ FELIZ? - continuação

Só como complemento ao "o que faz você feliz", vale dizer que na chamada para o programa Dr. 90210(ignoro o nome que ele tem na tv aberta), reality show sobre a vida de um cirugião plástico exibido pela RedeTv! domingo passado a apresentadora anunciava que iriram mostrar "como a operação plásica pode melhorar a vida profissional de alguém".
Também em outdoors pode se ver o anúncio de uma marca de calçados infantis cujo slogan é "a sandália que faz o meu mundo mais colorido".
Em comum a ambos a noção de que uma transformação externa leva a alguma forma de melhora na vida ( o "colorido"). Isso, calro, vaoi na contramão de toda psicanálise, para quem os desonfortos tem,na realidade, origem intena. Não é nem a posse de um bem, ou a conquista de um "grande amor", ou o "banho de loja" que elimina as angústias (usando os termos om toda liberdade a que um não psicológo pode ter).

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

NELSON RODRIGUES E O LEMA " O QUE FAZ VOCÊ FELIZ?"

O conto O Pastelzinho, de Nelson Rodrigues, que pode ser lido no livro “A Coroa de Orquídeas e outros contos de A Vida como ela É” (Companhia das Letras) é um dos cinco encenados pela Cia Paulista de Artes na peça As Noivas de Nelson, que tem direção e adaptação de Marco Antônio Braz. Segue um trecho:

Muito carioca, estabanado, Sérgio mudava diante da noiva assim doce e assim macia. Sem querer, ele a tratava com relativa e involuntária cerimônia. O chamado “beijo bem molhado”era a máxima liberdade formal que se permitia. Mas, na véspera do casamento, ela o chamou de lado.No seu jeito manso, começou:
- Vou lhe pedir um favor, meu filho.
Abriu-se:
- Pois não!
E ela:
- Eu não queria que você falasse mais em “beijo molhado”. Acho tão sem poesia!
Pela primeira vez, Sérgio quis resistir:
- Mas,meu bem,escuta cá- por quê?
Explicou:
- É o seguinte: - quando você fala assim eu penso logo em saliva.
O outro animou-se:
-Mas é por isso mesmo!A graça do beijo está, justamente, na saliva meu anjo.-E insistia, já inspirado:-Na mistura de saliva.
Dalva encerrou a discussão com sua doçura irredutível:
- Eu não penso assim.
Sérgio transigiu, imediatamente:
- Está bem, coração. Todo meu interesse é de te agradar
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Acerca dos personagens de Nelson Rodrigues, Ruy Castro diz na apresentação do livro “O Melhor do Romance, Contos e Crônicas” (Companhia das Letras/Folha de São Paulo) que eles são “homens de bem, senhoras honestas e virgens de catorze anos, roídos por fantasias inconfessáveis”.
É interessante notar o quanto isso mudou, o quanto a sexualidade reprimida dos tempos de Nelson (e que levava seus personagens a situações constrangedoras e de desespero) hoje é escancarada. Basta dizer que qualquer celebridade de quinta categoria hoje faz um filme pornográfico e vai a programas de TV divulgar seu “trabalho”. Isso não pode ser explicado apenas pelo que se chamaria de “evolução dos costumes”, mas sim por uma cultura que privilegia o prazer e a felicidade do indivíduo acima de tudo. A evolução ocorreu sim e uma peça como Beijo no Asfalto, em tempos de Parada Gay, soa até estranha. E se um dia já foi considerada valorosa e “decente” a mulher que permanecia virgem até o momento do casamento, hoje ela é motivo de, no mínimo, estranheza. Mas há mais do que apenas a evolução da sexualidade rumo a uma maior liberdade.
Hoje a obrigação é ser feliz, e o que conta mesmo é o Indivíduo, e não há porque se colocar entraves à satisfação de nossos desejos (sexuais, de consumo ou de outra ordem). Daí muito daquilo que antes era moralidade ser hoje tabu, (por exemplo, a virgindade).
A publicidade o tempo todo nos mostra imagens de pessoas felizes (O que faz você feliz? -nos pergunta um anúncio da rede Pão de Açúcar) e que assumem uma postura vitoriosa diante da vida. Ficamos assim numa obrigação de sermos “vencedores” e “felizes” (passando por cima de tudo quanto de abstração há nestas palavras). Se não nos encaramos nem como vitoriosos nem como felizes (e se todo sofrimento é inaceitável, toda dor, um defeito) temos sempre à mão nossas soluções mágicas, que já não são mais os patuás benzidos ou as fitinhas trazidas de alguma romaria, mas sim produtos de uma sociedade que mesmo quando é religiosa, se mostra “científica” e, quando se diz “científica”, é quase mística.
Temos desde as pílulas do amor e as da felicidade a inúmeros livros de auto-ajuda que nos “ensinam” a obter “sucesso” e ter uma vida “vitoriosa”, curiosamente as mesmas promessas feitas por tele-evangelistas, padres cantores e todo um sem número de crenças religiosas, que, ao contrário do que vemos nas peças de Nelson, buscam não mais recalcar, mas exacerbar. Se, por um lado, seus problemas podem ser resolvidos engolindo alguma pílula, eles também podem desaparecer apenas assumindo a atitude “correta” (seja ela o “pensamento positivo” dos livros ou a afirmação da fé, ou mesmo algum tipo de doação)
A transformação da aparência é apenas outra face da solução mágica. Não é de surpreender a busca desesperada pela operação plástica ou a crença (literalmente) no poder de um banho de loja. Acredita-se, do mesmo modo, que mudando o “visual” muda-se a personalidade – os livros de auto-ajuda falam em “mudança de atitude”; o “banho de loja” que muda para melhor a vida de uma pessoa é comum em filmes, principalmente as comédias românticas e é apresentado como o primeiro passo para a superação dos obstáculos apresentados ao protagonista( a conquista do grande amor , o sucesso no emprego, etc). Essa crença na personalidade “ideal” conseguida através da construção da identidade (maquiagem da aparência) está no cerne da existência, por exemplo, dos sites de relacionamento e boa parte da comunicação via internet. É no universo virtual que se transforma naquilo que se gostaria de ser e assim se apresenta aos outros.
O que a idéia de soluções mágicas traz consigo é que tudo está ao seu alcance (o que faz você feliz?) , basta assumir a atitude correta. Portanto o “fracasso” ou a frustração gera toda uma nova gama de males, como síndrome do pânico, consumismo, ninfomania e depressão (vale notar que Freud se referia apenas à melancolia).
É o mal-estar da pós-modenidade.

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não há nada de especificamente psicanalítico na idéia de depressão. Na verdade,pode-se afirmar que a depressão,na forma como a concebemos hoje, é produto tanto da influência sutil da indústria farmacêutica no modo como encaramos nossa vida emoional quanto da medicina psicológica. Os fabricantes de antidepressivos fazem questão de que a aflição seja entendida como depressão para criar a necessidade dos seus produtos” diz Jeremy Holmes no pocket book “Depressão” (Ediouro/Duetto).

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Que as drogas tenham se tornado uma epidemia não surpreende. Elas são a maneira mais rápida e fácil de se obter prazer e esquecer frustrações.

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Não passa nem perto das intenções desse texto dizer que a obra de Nelson Rodrigues está ultrapassada. As figuras de filhos dependentes, mães castradoras, sogras dominadoras e toda sorte de tipos urbanos estão vivíssimos. E o repórter justiceiro e oportunista de Beijo no Asfalto só trocou os periódicos sensacionalistas pela TV.

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A peça As Noivas de Nelson está em cartaz no Teatro Arthur Azevedo (av.Paes de Barros,955-Mooca) até o dia 28 deste mês que é também quando sai de cartaz Senhora dos Afogados, dirigida pelo gigante Antunes Filho, que está no Sesc Consolação (r.Dr.Vila Nova,245- região central).

PAPO DE BALCÃO

- Um grande abraço para o superamigo Zidane, cuja identidade secreta é o jornalista do Diário de São Paulo, Fábio Saraiva !

- Reproduzo aqui o recado do Nicolau Soares, jornalista do site Futepoca (futebol,política e chachaça). Já visitei e recomendo. Ao recado : O Futepoca (www.futepoca.com.br) está com a promoção Praga do Zé que vai premiar com três exemplares do Prontuário 666 (ed. Conrad) as melhores pragas de futebol. Vale texto, vídeo, charge, desenho, repente, cordel etc. contra time de futebol, jogador, técnico, cartola... É só ver no blog como participar. Aguardamos as contribuições!

- Um abraço também para a e para o retorno do Daniel Lupi !

- E finalmente ao Anderson (Dj Mandio) que mesmo sem poder postar comentários, continua visitando este Bar1211 !

NELSON RODRIGUES EM HQ- O GRANDE DILEMA

Na hora de se fazer uma adaptação de Nelson Rodrigues, uma HQ sai em larga desvantagem em relação ao cinema e o teatro. Nestes, os diálogos perfeitos de Nelson podem ser reproduzidos com pouca ou nenhuma alteração. Já numa história em quadrinhos eles têm obrigatoriamente de ser mutilados e espremidos para caberem dentro dos balões, o que é uma agressão e tanto à obra do dramaturgo. Agrava ainda o fato das palavras disputarem a atenção do leitor com a força da imagem . Sendo assim, talvez (o grifo aqui é importante) uma adaptação ideal de Nelson devesse ter os diálogos deslocados do quadro onde estão inseridos os desenhos, ou, como na obras de Will Eisner, os desenhos ficariam melhor soltos na página, livres dos quadros, com mais espaço para o texto. Mas essa versão de Beijo no Asfalto graphic novel da dupla Arnaldo Branco e Gabriel Góes publicada pela Via Lettera tem seus triunfos: o desenhos “relaxado”, ajuda a compor a caráter dos personagens. Arandir, que está na desconfortável posição de ser acusado por um jornalista de homossexualismo (que é tratado como um crime- voltamos aqui ao post anterior) tem o corpo pequeno em proporção à enorme cabeça, que o fragiliza. O delegado boçal e violento por vezes tem o rosto deformado em relação aos desenhos anteriores, o que mostra bem sua mutação perigosa de personalidade. Isso sem falar nos violentos jogos de preto e branco das imagens, que têm tudo a ver com essa história onde se opõem obscurantismo retrógrado e ingenuidade,certo e errado, inocência e culpa acusadores e acusados, discurso proferido e os desejos inconfessáveis.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

PAPO DE BALCÃO – DE VOLTA AO BATENTE

Depois de fechar uma semana para balanço, este Bar1211 reabre as portas. Sem enrolação, vamos aos abraços e agradecimentos (aliás, isto aqui está muito bem freqüentado!) a quem apareceu aqui pela primeira vez:
Ao magro de alma gorda, André di Peroli ator e idealizador da peça Hoje Acordei Gorda, que aliás deve reestrear em breve. Avisaremos assim que isso acontecer.
Stella Florence, autora do livro que inspirou a peça, por ter visitado este Bar1211.
Jô Barranova, contista e poeta que milita pela democratização da cultura em Santo André com afinco invejável. Pouca gente têm a propriedade que ela tem quando diz que “No subsolo. É assim mesmo que as coisas acontecem nesta cidade.”
E, Maria Batatais, garanto que as letrinhas chatas na hora dos comentários não vão mais dar o ar da graça.

O MISTÉRIO DO SAMBA – POR ONDE ANDAM OS SAMBISTAS?

O Mistério do Samba, de Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda é um filme imperdível por mais de um motivo; não só por ser belíssimo, mas também por seu caráter documental, de raridade mesmo.
A memória do brasileiro, diz a sabedoria popular, é curta. E é para corrigir este problema, que este documentário serve.
Artistas brilhantes e esquecidos existem em qualquer gênero musical de qualquer país. Muita gente boa, por um motivo ou por outro acabou jogada para escanteio ou recebendo um reconhecimento tardio. Pode-se dizer isso de Ike Turner, que pouca gente sabe, foi autor de “Rocket 88”, primeira composição de rock and roll, mas que ficou famoso pela violenta convivência com a ex-mulher, Tina. King Keppard, maior músico de Jazz de seu tempo, que poderia ter se tornado o primeiro artista do gênero a ser gravado (o que não o fez por medo de que outros músicos aprendessem a tocar como ele após ouvirem o disco). Aqui, entre tantos outros exemplos, poderíamos citar Johny Alf, precursor (e transcendente, nas palavras de Ed Motta) da bossa nova que acabou ofuscado pelo gênero que poderia tê-lo consagrado. Pode acontecer até com quase todos os grandes nomes de um gênero musical. Foi assim com um a soul music, que “morreu” ao surgirem seus desdobramentos, o funk e a disco, até renascer nas gargantas de Joss Stone, Amy Winehouse e Duffy. O ocaso destes músicos, compositores e cantores é mostrado no filme “Only The Strong Survive”, de que já falamos aqui neste blog (no post sobre Isaac Hayes).
No entanto, quando isso acontece com todo um gênero musical vivo e pulsante, podemos dizer que os motivos são outros e bem mais mesquinhos.
Não foi só a ganância das gravadoras multinacionais que afastou boa parte dos sambistas do grande público, mas há um sistemático isolamento das velhas-guardas que acontece dentro das próprias Escolas de Samba, que em certo momento passaram a privilegiar o espetáculo em detrimento das composições. Disso padeceu Jamelão, que morreu tendo sua carreira como cantor de sambas-canção e grande intérprete de Lupicínio Rodrigues quase completamente esquecida.
O grande público hoje ignora, não um ou outro, mas quase todos os grandes nomes do samba. E, infelizmente, iniciativas como esta O Mistério do Samba são raras. Para uma comparação, vale ver quantos documentários sobre jazz estão disponíveis nas lojas de DVDs. De alguns oportunistas, como “Lois Armstrong – um retrato íntimo do pai do Jazz” (que erra já no título, ao atribuir uma paternidade que não é dele) de John Akomfra, até o magnífico “Jazz”, de Ken Burns com mais de 12 horas de duração, há uma oferta enorme. Tivemos, é verdade, Cartola – Música para os olhos, Paulinho da Viola- Meu tempo é hoje e a ficção Noel, o poeta da Vila . É pouco. A TV, os jornais e as revistas também só raramente se lembram do samba, muito menos de seus ídolos.
Agora, sobre o filme propriamente: acompanhamos durante os pouco mais de 70 minutos de duração, a cantora Marisa Monte, (por vezes acompanhada por Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho) na busca por canções nunca gravadas de grandes compositores da Portela. Nessa jornada, que durou aproximadamente dez anos e gerou, além deste documentário, três álbuns, nos deparamos com entrevistas históricas como as primeiras de Argemiro Patrocínio e Seu Jair do Cavaquinho. Históricas porque, por iniciativa deste projeto, eles gravaram seus primeiros discos somente em 2002, respectivamente, com 80 e 79 anos (ambos morreram durante a produção do filme, Argemiro em 2003 e Seu Jair três anos depois).
É absolutamente encantador de se ver (e ouvir) como o samba é vivo, como continua passando de geração a geração e como pulsa nas comunidades, mesmo que distante da mídia.
Das muitas histórias deliciosas, veremos Seu Jair contar que saiu de casa às broncas da esposa, que se irritava com o fato dele ir para o samba, onde estaria rodeado de mulheres. Ao retornar, percebeu que estava trancado para o lado de fora. Só com muita conversa é que conseguiu entrar em casa, onde, na maior cara de pau, apresentou à companheira o samba “Voltei”, criado durante a noitada:

Voltei, voltei
Já chegou quem lhe socorre
Já lhe avisei
Que por falta de amor
Você não morre
Voltei pra matar os desejos seus
Pra não me esquecer a quem não me esqueceu
Lhe adoro tanto criatura
E o nosso amor ainda não morreu


Já Argemiro Patrocínio canta “Solidão”, de versos rascantes como: “É dor, angústia e sofrimento/ O tédio é um eterno tormento/Assim é a solidão” para logo em seguida, sobre o mesmo tema disparar que “pelo menos pra isso a mulher serve, pra brigar. Tem vezes que isso faz falta”.
Com se tudo isso não bastasse, vale ainda dizer que será literalmente impossível segurar os aplausos após as apresentações musicais (feitas em botequins e barracões), como se elas estivessem acontecendo ali mesmo no cinema.
É bom corrigir, O Mistério do Samba não é só imperdível, é obrigatório.

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Podemos ouvir samba tradicional aqui no ABC com o projeto Samba de Terreiro de Mauá, que inclusive já trouxe para uma homenagem, outro compositor esquecido, o octagenário Xangô da Mangueira. É um trabalho de resgate não só de sambas antigos, (semelhante ao que faz o Berço do Samba de São Mateus), mas também de uma tradição, a de tocar numa roda em volta de uma mesa, emendado um samba com o outro e, por vezes, contando histórias entre eles. Em cada apresentação há também exposição de capas de discos históricos e raros, livros, pinturas outras coisas ligadas ao universo do samba. Neste sábado (dia 13) eles estarão no Bar SET, avenida Padre Anchieta 230 em Santo André, por volta das 21 h.
Quem quiser conhecer um pouco mais pode visitar: http://www.terreirodemaua.blogspot.com/

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No caso da memória da nossa cultura musical, as majors (grandes gravadoras multinacionais) fizeram de tudo para encurtá-la ainda mais. Jogaram carreiras num buraco tão profundo que acabaram tragadas, elas também, para dentro dele. Num dado momento, trataram de fazer duas coisas: investir em modismos, com criação (promoção) de artistas em linha de produção (foi assim com o sertanejo, depois com o axé e o pagode), sempre copiando ao de maior sucesso no gênero. Para isso, viciaram as rádios a só tocarem músicas mediante o famigerado jabá (valor pago pela gravadora por música executada ou incluída nas “mais pedidas do dia”. E trataram também de desmontar a cultura do álbum musical, ao investir na venda de coletâneas com as “melhores”músicas de cada artista e nos “Ao Vivo”. Não havia a necessidade de se investir na gravação de um novo disco e o lucro, conseqüentemente, era bem maior. Com interesse concentrado num único gênero musical por temporada e fazendo o possível para despersonaliza-lo ao máximo (desagradando ao menor número possível de pessoas) gente muito boa foi sendo esquecida, as grandes composições foram rareando e o gosto popular, se degradando. Chegou a pirataria dos CDs e o MP3 e as gravadoras, sem nomes consistentes, sem a cultura do disco físico (que valorizava não só a música, ma a capa e o encarte) que eles trataram de destruir , desmoronaram. Com elas, foram suas lacaias, as rádios FM, que agora estão nas mãos de outras empresas (Mitsubishi Motors, Oi, Sul América).

EU NÃO FUI CACHORRO NÃO! – O ÚLTIMO UIVO DE WALDICK


Waldick Soriano, morto na última quinta-feira é figura central do livro Eu Não Sou Cachorro Não(Editora Record) de Paulo César de Araújo (o mesmo da biografia censurada de Roberto Carlos). Nele o autor mostra o preconceito da imprensa que ignorou o fato de que os “cafonas” foram tão perseguidos e censurados pelo regime militar quando os “inteligentes” (aspas enormes) da MPB. Mas também o de gente ligada à música, como Nelson Motta, que em seu livro de memórias “Noites Tropicais” “esquece”. (aspas maiores ainda) que escreveu a música “Drama Passional” em 1976 para Odair José.
Mas o mais interessante é que ele desmonta o conceito de “cafona”.Para ele, as definições tradicionais (grandiloquecia, sentimentalismo exagerado e artificial) também se aplicam perfeitamente a músicas consagradas como, por exemplo, Rosa, de Pixinguinha que tem versos “Waldickianos” como tu és a forma ideal, estátua magistral, oh ! alma divinal. No entanto, só se chama de “cafona”ou “brega”a musicas de artistas de apelo abertamente popular. Paulo César separa a música brasileira em duas tendências: a tradição que engloba toda música feita até 1945 e a modernidade ou tudo o que veio depois de 1950. A produção musical entre estes períodos seria tachada de “baixo nível artístico”. Assim, à toda a geração de cantores e cantoras do rádio (Nora Ney, Cauby e Ângela Maria inclusos) seria legado o limbo. E todos aqueles não identificados com as duas vertentes (como as canções aboleradas) seriam “cafonas”. Sofreu com isso também Nelson Gonçalves, que teria várias vezes negado o direito à gravação de sua voz e depoimentos no MIS (Museu da Imagem e do Som).
Já nosso man in black de beira de estrada, nosso Johnny Cash de coração mole, Waldick ainda poderá ser visto mais uma vez quando (se) estrear em circuito do documentário “Waldick, sempre no meu coração” feito ano passado pela atriz Patrícia Pillar e que foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo deste ano em duas apresentações.

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A opção é sempre por entrevistar artistas articulados, bem vestidos e com livre trânsito em festas badaladas, bairros nobres e casas de empresários colunáveis. Os motivos vão desde o eficiente trabalho das assessorias de imprensa destes artistas, que tratam de “plantá-los” em colunas sociais e eventos cheios de jornalistas bem como ao extrato social preconceituoso de onde vem os jornalistas das editorias de cultura (sem generalizações, claro), que têm uma noção bem particular de “bom gosto” e acham que um Seu Jorge ou uma Ana Carolina têm muito mais a dizer do que tinha, por exemplo, Argemiro Patrocínio. “O Mistério do Samba” e “Eu não sou cachorro Não” provam bem o contrário.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

MORREU O CRIADOR DA MIRZA

A notícia que era ruim ficou pior, morreu Eugênio Colonese. Ele está enterrrado no cemitério da saudade na Vila Assunção em Santo André. A prefeitura do município, sempre cheia de boas intenções, nunca lhe rendeu uma homenagem maior do que a exposição de seus desenhos no subsolo da biblioteca municipal.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

PAPO DE BALCÃO: ABRAÇOS E RECADOS DO BALCONISTA

Abraços : justiça feita às mulheres
O primeiro(e duplo) vai para a mamãe da Sophia (que está chegaaando) adorável Leila, que nem precisa ficar mais P da vida com este humilde balconista !
E um enorme para os braços, pernas, voz e coração deste blog: minha querida Olga Defavari !!!

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O comentário do amigão Anderson foi muito interessante: Zé do Caixão passando num cinema de Mauá. Talvez a maior barreira foi superada, aquela que faz com que a maioria dos filmes brasileiros(até mesmo alguns da GloboFilmes) fiquem ou restrito aos cinemas da avenida Paulista ou consigam no máximo duas semanas em cartaz em cinemas de shopping.
Aliás, como os links da semana passada foram mal colocados, vai aí novamente os endereços para quem quer conhecer melhor o projeto Vira5Acaba10 : http://www.myspace.com/vira5acaba10http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=42191922http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=42191922
E quem quiser saber o que o site BaresSp achou do dom deles no PuriMuziK dê um pulo em:
http://www.baressp.com.br/fotos/fotos.asp?b=9019

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Altamente recomendado o programa semanal Quadrinhos – A Nona Arte, do canal Brasil (passou ontem 21h) que conta a história das HQs por aqui. Entre os entrevistados (o pesquisador Álvaro de Moya, o ilustrador Patati) está o grande mestre Waldomiro Vergueiro, que já visitou este blog. Na próxima terça-feira, o tema será os quadrinhos de terror e quem assistir verá um pouco mais da Mirza, de que tratamos em nosso primeiríssimo post. Reprise hoje às 15h30 e sábado 12h.

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Infelizmente Eugênio Colonnese, criador e desenhista da Mirza, sofreu um AVC recentemente. Está incapacitado não só de desenhar como de dar aulas de desenho. Com pouco tempo de contribuição ao INSS e sem ainda ter conseguido qualquer befício, sua situação é bastante difícil.

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Saiu um box com três filmes da Blaxploitation (que comentamos no post sobre Isaac Hayes), Rififi no Harlem (1970), O Chefão do Gueto(1973) e Sweet Sweetbacks Bacadassss Song´s (1971) – os nomes são sensacionais!. A nota vale pela curiosidade, uma vez que a distribuidora é a Magnus Opus, o que significa preço alto (cerca de R$ 120,00 a caixa) que nunca entra em promoção.

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Cientistas divulgaram esta semana um estudo que prova que o Homem de Neandertal não era um “parente burro” do Homo Sapiens, era apenas fisicamente diferente. Seu desenvolvimento tecnológico, ficou provado, era equivalente ao de nossa espécie. As razões para sua extinção (que antes era m atribuídas á incapacidade de construir ferramentas eficientes), portanto, permanecem um mistério. Isso vem ao encontro das idéias expressas lá no início deste blog, acerca da ingenuidade das idéias “evolucionistas” que infestam nossa cultura pop.

FAT IS BEATIFUL ! – PEÇA “HOJE ACORDEI GORDA” É UM SAUDÁVEL CONTRAPONTO ÀS NEUROSES DE NOSSA SOCIEDADE



Nossa sociedade é de uma hipocrisia assustadora: inúmeras inovações tecnológicas (a escada rolante e o controle remoto) nos prometem conforto, mas terminam por reduzir drasticamente nossa atividade física total no final do dia. Nos acelera o ritmo de vida e, em nome da conveniência nos oferece o fast-food entupido de gorduras literalmente venenosas (as trans) que, aliás, só com pesada pressão da opinião pública foram ou diminuídas ou informadas ao consumidor de sua existência. E por fast-food entenda-se não só a comida de shopping, mas também aquela coxinha ou pastel que substituem a refeição na correria do dia-a-dia.
A publicidade exclui o gordo de anúncios onde se ofereçam lanches, refrigerantes e cervejas. Neste mundo irreal, todos são não só magros, como atléticos.
O único retrato sem maquiagens dessa realidade cínica e cruel acabou vindo de uma ficção, a maravilhosa animação Wall-E, (ainda em cartaz e na qual deteremos com mais profundidade numa próxima oportunidade). Lá vemos um anúncio de tv de uma empresa, BnL(prováveis siglas para Buy and Live – compre e viva, corrupção da máxima cartesiana do “penso, logo existo”) que promete disponibilizar todo tipo de conforto (espécie de “tudo ao seu alcance”) em um misto de shopping center e condomínio de luxo no espaço. Alguns séculos depois, é mostrada a aterradora realidade: os seres humanos são como animais obesos de laboratórios que mal podem se mover sem a ajuda de cadeiras flutuantes. O corpo, gigantesco, é desproporcional aos membros atrofiados. Desnudada a publicidade, vemos a realidade de todos nós.
Que o ideal de beleza seja hoje a magreza, não é de se surpreender, uma vez que é preciso sobretudo tempo para se manter, ou magro ou tornar-se atlético. Gordura já foi sinal de beleza quando a população era composta por uma maioria absoluta de famintos. Das “Três Graças” de Rubens, no séc17 às várias “Banhistas” de Renoir dois séculos depois, as pinturas nos mostram exatamente isso. Comer bem (muito) já foi um privilégio e fazer exercício físico, um indicativo de trabalho braçal, portanto,de pobreza. Era preciso tempo de sobra para poder engordar.
Engordamos com facilidade, mas não só não admitimos isso como odiamos essa realidade. É no cinema e na TV que declaramos isso. Ao gordo é reservado quase sempre papéis cômicos (o tipo atrapalhado simpático), bizarros (normalmente um porcalhão ou um tipo esquisito) e, às vezes, vilanescos. Se é para ser um herói, que o seja um do tipo atrapalhado, que atinge seu objetivo mais por uma conjunção de fatores (tudo conspira a seu favor), como, por exemplo, num filme do tipo de Kung-Fofo. No limite, temos a horrenda versão de Eddie Murphy para “Professor Aloprado” (cujo original, de Jerry Lewis, será tema de um texto em breve), onde uma família gorda (todos interpretados pelo próprio Murphy) senta-se à mesa como verdadeiros animais, chafurdando a comida, arrotando, peidando, cutucando o nariz e se divertindo muito com isso. Ser gordo é ser nojento, grosseiro e imbecil, nos diz o filme.
“Hoje Acordei Gorda” é um monólogo musical engraçadíssimo baseado no livro de mesmo nome escrito por Stella Florence, adaptado pela dramaturga Adélia Nicolete e cujos vários personagens são interpretados por André di Perolli sob a direção de Daniele Pimenta.
A peça é, em mais de um sentido, uma experiência singular. Primeiro por que trata da questão da obesidade sem julgamentos de valor, sem uma mensagem edificante-mala (do tipo ‘vamos nos aceitar como somos’) e o, melhor, sem ridicularizar as pessoas gordas. Está tudo lá, da crítica à sociedade que oferece gorduras e depois produtos emagrecedores à neurose da dieta. Mas o que de mais interessante ela oferece é nos aproximar da vida dos gordinhos com humor (mas não com escárnio), e mostrá-los não através de abstrações ridículas (com os exemplos já citados), mas como pessoas que todos conhecemos.
Veremos lá a Mama Italiana com suas comidas tão deliciosas quanto gordurosas, a mulher que, aos tantos anos de casamento, ouve do marido um “tu tá gorda” e se vinga preparando para ele comidas irresistíveis (e extremamente calóricas), ou ainda a garota que, após levar um fora, entra numa dieta severa a fim de aparecer “gostosa” e com ar de superioridade na frente do ex. Feito isso, comemora matando uma lata de leite condensado no bico. Há ainda várias outras personagens, todas muito engraçadas, mas o destaque acaba ficando com as músicas.Só este trecho já dá uma boa idéia:
Croissant, fondant, bombom/Petit four, fricassé, filé mignon/ Baguete, croquete, pardon!/ Engordar em francês é “très” bom!
Para completar o “combo”, há ainda divertidas citações a Psicose, Iluminado e Star Wars.Vale dizer que os gordinhos pagam meia-entrada, concedida após pesagem numa hilária balança em frente à bilheteria. Quem quiser assistir terá de queimar algumas calorias e correr, pois ela fica em cartaz só até o próximo final de semana (sábado e domingo, às 20h) no Teatro Elis Regina (R. João Firmino, nº 900) em São Bernardo do Campo. A entrada inteira custa R$ 20,00. Informações pelo telefone: 4351-3479

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Quem quer que tenha visto filme, novela ou programa humorístico onde haja um gordo fazendo papel ridículo, estará ajudando muito este blog se disser qual foi.
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Pelo que ouvi dizer,a animação Kung-Fu Panda não compartilha destes estereótipos manjados. Estou certo? Alguém assistiu?

OS DOIS LADOS DA QUESTÃO – A PALESTINA VISTA PELO CINEMA E PELA HQ


Primeiro de tudo, alguns dados históricos:
- 1850 aC – é o ano que alguns pesquisadores estimam que os fatos atribuídos ao patriarca Abraão tenham ocorrido.
- 70 – Tito toma Jerusalém e destrói o Templo, expulsando os sacerdotes e autoridades judias. Ob domínio romano, passa a ser Aelia Capitolina e a Judéia , a Palestina.
- Desde 638, quando o sultão Omar tomou Jerusalém do Império Bizantino, os árabes estão instalados na região da Palestina (que inclui a cidade santa). Entre 1099 e 1187 Jerusalém fica sob domínio dos cruzados, até que Saladino a devolva aos muçulmanos.
- 1917 é o ano em que cai o Império Otomano e os Ingleses tomam toda a região.
- Em 1947 havia resolução da ONU aprovando a criação de um Estado Árabe e um Estado Judeu na região da Palestina.
- Em 14 de maio de 1948 foi instituído o Estado de Israel como forma de compensação pelos horrorres nazistas ao povo judeu. O movimento sionista, marcadamente anti-árabe, teve preponderância no processo. Logo em seguida, inicia-se o primeiro conflito entre árabes e judeus.
- Na Gerra dos Seis Dias, conflito em 1967 contra a frente árabe(Egito Jordânia e Síria) Israel (armado pelos EUA) antecipa-se à guerra e ataca primeiro ficando com territórios que esses países haviam conquistado m 1948 ( incluindo a Cisjordânia ). Incicia-se a colonização judia das áreas ocupadas.

Tudo isso serviu para duas coisas, mostrar o quão complexa é a questão palestina e o quanto qualquer recuo na História (com vistas a justificar a “razão’de um ou do outro lado) não só não resolve nada como pode tocar o terreno da mitologia.
Dito isso, fica mais fácil dizer o quanto o noticiário é falho, quando não burro, na hora de tocar a questão. Tanto na mídia impressa, com sua sanha de dizer tudo ocupando cada vez menos espaço e tomando menos tempo do leitor, quanto na televisiva com a superficialidade que lhe é peculiar, o que temos é meramente a notícia (homem bomba explode e mata sei-lá quantos). E a parcialidade é tamanha que só sabemos dos atos de violência dos terroristas palestinos, quase nunca dos do exército israelense muito menos há a comparação de dados dessa violência (o número de mortes causados pelo exército israelense contra o número de mortes causadas por terroristas ) não é exposto tampouco nos é mostrado toda a violência e arbitrariedade destes.
Sendo-nos inútil o jornalismo, vejamos o que a Arte nos oferece:
Palestina (Conrad), escrita e desenhada por Joe Sacco é uma HQ em duas partes (“Uma Nação Ocupada” e “Na Faixa de Gaza”) fruto do período entre 1991 e 1992 em que o artista-jornalista esteve na região. Foi na forma de uma história em quadrinhos que Sacco encontrou o meio ideal para fazer seu documentário que percorre ruas, entra em casas e mostra de muito perto toda a violência e sofrimento causados pelo exército israelense, o que incluía desde prisões arbitrárias e tortura de “suspeitos” a ações repressoras como impedir os palestinos de cavarem poços, o que engessa boa parte de sua economia,como o plantio de tomates(convenientemente eliminando a concorrência). Também nos é mostrada a ação das milícias que atacam casas de palestinos a esmo.
O grande triunfo do formato dos quadrinhos é que ele não trata com a imagem fotográfica (como o cinema) que clama para si o estatuto de “verdade”. Uma pintura é só a visão de um artista sobre um fato (sabemos bem do falseamento da realidade em O Grito do Ipiranga, de Pedro Américo), mas um filme não, afinal as imagens são captadas mecanicamente. O filme parece incontestável, o que é um problema maior ainda quando se trata de um documentário (Eduardo Coutinho é um dos que encaram o desafio de provar a subjetividade do meio). A HQ não nos obriga a ter fé nela mesma, pelo contrário, exige descrença. E Sacco não crê nem por um instante na objetividade; não nos esconde o fato de que sua presença altera os rumos (e o conteúdo) das conversas com os entrevistados, desconfia deles e de suas convicções. Seu traço irônico e escrachado, herdado do estilo da revista MAD, por contraditório que possa parecer, nos dá todo o peso da existência sofrida dessas pessoas, ao captar suas feições, sua individualidade.
Lemon Tree, filme de Eran Riklis que está em cartaz nos cinemas da Paulista e arredores, foi significativamente filmado nos dois lados (palestino e israelense) para nos contar a história real da viúva Salma Zidane que se opõe ao Ministro da Defesa israelense quando este decide derrubar suas oliveiras com a justificativa de que elas podem servir de esconderijo a terroristas que pretendam atacar sua casa (eles são vizinhos separados por uma enorme cerca metálica e torres de guardas). É uma metáfora perfeita (involuntária, dado que é história real) da situação de pessoas que moram no mesmo território mas não conseguem superar o muro que as divide. O filme se chama Lemon Tree pelo fato do diretor ter optado por trocar as oliveiras (cujo significado emotivo para os palestinos podemos ver no primeiro volume da HQ de Sacco) por pés de limão, talvez pelo fato de os frutos renderem suco refrescante (vemos o tempo todo pessoas bebendo limonada), tão vital num local árido como aquele. E sendo a água fonte da vida, sua necessidade nos faz todos iguais. É uma opção pela poesia, o que faz deste um filme universal, não fechado no contexto da Palestina, muito embora vejamos vez por outra as arbitrariedades israelenses. “Lemon Tree” fala a todos nós desta universalidade trataremos semana que vem.

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A situação mudou muito desde que Sacco escreveu Palestina. Ele mesmo avisa isso no prefácio, que é de 1995: “Os habitantes de Gaza têm agora algum grau de liberdade pessoal. Por exemplo, eles não encontram mais patrulhas israelenses nas suas vizinhanças nem são submetidos ao toque de recolher noturno(...)mas o panorama atual de Gaza está longe do ideal”. De lá para cá houve a retirada dos assentamentos judeus nos territórios ocupados e, anteontem, Israel libertou sem contrapartida 198 prisioneiros palestinos. No entanto três coisas não mudam: as negociações de paz são cheias de indas e vindas, ainda não foi criado um Estado Palestino e ainda muito pouco sabemos do dia-a-dia dessas pessoas.

domingo, 24 de agosto de 2008

DUAS ÓTIMAS CRÍTICAS DE "ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO"

Este não é um blog de crítica, mas sim de reflexão a partir de filmes, HQs, peças, etc. Quem quiser ler textos excelentes sobre Encarnação do Demônio deve visitar as revistas eletrônicas Paisá e Cinética. Abaixo, alguns trechos. Primeiro, do amigo Francis Vogner dos Reis, na Cinética, depois de Filipe Furtado, na Paisá. Ambos, vale lembrar, são professores do curso "Panorama do Cinema Japonês" citado no post anterior:

"Se as cenas de torturas e sangue, por exemplo, escapam ao fetichismo (que é a sensação da série Jogos Mortais), é porque elas não são concebidas como uma câmara de tortura para um espectador voyeur e sádico, mas como um delírio, um pesadelo. O próprio personagem/diretor seria um maestro de cenas extremas, que impressionam mais pela plasticidade e agressão, do que pela mera e simples crueldade. Cenas como a mulher saindo da barriga do porco e a cena de sexo inundada por sangue, ou mesmo o purgatório com Zé Celso Martinez, aproximam mais o diretor da parceria Luis Buñuel e Salvador Dali do que desses recentes filmes de horror de tortura, porque o horror vem pela via das imagens absurdas (e até do sarcástico), não da mera representação da dor e da psicose" disponível em : http://www.revistacinetica.com.br/encarnacaododemonio.htm

"Tudo no filme gira em torno do ícone. A começar por um Zé do Caixão muito mais sedutor, capaz de trazer consigo um séqüito de admiradores e de encontrar belas mulheres mais do que dispostas a carregar seu filho. Não deixa de ser uma bela metáfora para a carreira do próprio Mojica: o Zé do Caixão de Encarnação é pop, mas é ainda mais marginal". Disponível em:
http://www.revistapaisa.com.br/agosto08/encarnacao.htm

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

PAPO DE BALCÃO: AGRADECIMENTOS, ABRAÇOS E SUGESTÕES DO BALCONISTA

*Primeiro, os abraços:
Ao Mário César, historiador, grande amigo (de longa data) e, de quebra, pai da Sophia (que na barriga da mamãe Leila já adora ouvir Roberto Carlos). Um texto sobre as tiras do Calvin está no forno.
Ao grande camarada Anderson, também conhecido como Dj Mandio. Para quem quiser conferir o set list do rapaz (que num pulo vai de Tim Maia a Funkadelic, passando por indie rock, eletrônico e hip hop old school) ele está quinzenalmente no Puri Muzik, na Rua Augusta 2052, no projeto Vira5Acaba10 e numa porção de outros locais. A agenda do fera está em:
http://www.myspace.com/vira5acaba10

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=42191922

A querida Letícia Macedo, jornalista francófona a quem devo um pastel de bacalhau do Mercadão. Quem quiser conferir uma de suas matérias feitas para a editoria de Turismo do IG é só dar um pulo em : http://turismo.ig.com.br/julho/noticias/2008/07/29/europa_em_dezembro_1476247.html

Ideal para quem pretende passar uns dias na Europa.
Ao Daniel Lupi, colega das aulas do Inácio Araújo.
Dois abraços muito especiais pelos e-mails elogiosos e por terem me honrado visitado o blog:
ao Prof.Dr. Waldomiro Vergueiro, presidente do Núcleo de Pesquisas em Histórias em Quadrinhos da USP e referência nacional e internacional no estudo das HQs.
E o jornalista e escritor premiado Luiz Ruffato (autor de Eles Eram Muitos Cavalos,entre outros), de cujas aulas de criação literária eu tive a felicidade de participar.

*Quem se interessa em conhecer mais sobre cinema e cultura japonesa não pode perder o curso Panorama do Cinema Japonês ministrado pelo jornalista, professor e crítico das revistas eletrônicas Cinética e Paisà, Francis dos Reis, que também costuma dar as caras neste boteco. Junto dele, outros bambas da nova geração de críticos, Sérgio Alpendre e Felipe Furtado apresentarão desde os clássicos de Ozu, Mizoguchi e Kurosawa até os contemporâneos, como Takashi Miike. Curso recomendado por ninguém menos que o mestre Inácio Araújo. As aulas serão dadas todas as quintas-feiras de 04 de setembro a 20 de novembro, a partir das 19 h Informações pelo telefone 3825-8141 ou pelo e-mail cursos@revistapaisa.com.br .

*Bobeada feia: faltou dizer, sobre a HQ Prontuário 666, o básico; que ela é uma prequel ao filme Encarnação do Demônio, ou seja, conta fatos que teriam acontecido durante o período em que o Zé do Caixão esteve preso. Foi mal (sem trocadilho).

BOSSA NA OCA- UMA NOVA (VELHA) FORMA DE SENTIR O TEMPO E OUVIR MÚSICA

Em tempos de excesso de informação e imagens e escassez de tempo, quando se busca fazer tudo ao mesmo tempo (ver tv, falar ao celular, navegar na internet- o iphone chega ainda este ano !) visitar a exposição Bossa na Oca parece ser um ato da mais absoluta transgressão. Viver o “menos é mais” do som criado por João Gilberto no final dos anos cinquenta e que foi emblema das modernizações dos tempos JK é ir na contramão da vida contemporânea;é preciso, sobretudo, “perder tempo” percorrendo os três andares da exposição, gastá-lo deitado em confortáveis estofados espalhados pelo chão vendo documentários, ou recostado num sofá ouvindo Tom Jobim e assistindo imagens que são projetadas no teto e nos mostram praias desertas, ondas que se chocam com as rochas, e mar, muito mar.
É preciso esquecer de tudo para melhor “sentir”a música, seja tocando a areia da praia, seja contemplando o calçadão de Ipanema (reconstruído especialmente para a exposição).
Contra as neuroses dos zapping e da conhecida sensação de que “o tempo passa cada vez mais rápido”, um convite à lentidão, contra o excesso de informações, o silêncio absoluto da câmara anecóica (sem eco).
A exposição fica até o dia 07 de setembro na Oca, Parque do Ibirapuera. O horário de funcionamento é das 10 às 21h e o ingresso inteiro custa R$ 20,00, e às terças é grátis. Informações pelo telefone: 4003-2050