sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

ALAN RESNAIS 2 – O QUE É CERTO NO CINEMA?


O Espaço Unibanco de Cinema (Augusta) exibe amanhã em sua Sessão Cinéfila (12h- ingresso a R$5) o filme "Ano Passado em Marienbad"(foto) como parte o ciclo Alan Resnais. "Marienbad" é, junto de "Hiroshima Mon Amour" o filme mais importante de Resnais. Seu foco, no entanto, está no tempo e na forma de representação; quem for ver poderá notar omo ele faz uso do som, que não serve para completar uma cena, mas sim para colocar uma narrativa dentro da outra. Diálogos e sons pertendentes a outro tempo da história narrada, por exemplo.

Bom, semana que vem prossigo com a análise da obra de Resnais focando outro filme seu em cartaz, "Medos Privados em Lugares Públicos". Hoje, no entanto, me dedico a destacar a diferença entre sua maneira de narrar e a dos filmes hollywoodianos.


Como se constrói um filme? Digo, não todo filme, mas sim aqueles que tomam conta das salas dos Cinemark ou da programação dos canais a cabo. Ou mesmo uma novela. Dou uma dica que vem do livro "Como aprimorar um bom roteiro", de Linda Seger (ed. Bossa Nova):

“O objetivo é parte essencial do drama.É comum ouvir a pergunta´mas, afinal, oque esse personagem quer?´ Sem um objetivo claro em mente, a história fica vaga e se torna extremamente confusa”

“Também já vimos filmes em que o personagem parece irritado, perde a cabeça ou se apaixona, sem que haja alguma razão aparente que justifique esses estados de espírito. O que acontece nesses casos é que a motivação do personagem não está clara ou não é forte o suficiente.E se não sabemos por que um personagem está tomando determinadas atitudes, fia difícil nos envolvermos com a história”

Pois bem, são essas convenções que dão o espectador a noção daquilo que é “certo”num filme. O que fugir dessas convenções imediatamente causará estranheza e aí o espectador dirá que “não faz sentido” porque entende que o mundo no filme é perfeitamente ordenado e coerente,mas forçado que é a esquecer da ligação possível entre cinema e a vida, que Resnais explora como poucos. Relação que não precisa ser nem de imitação, nem de redução(caso da maioria dos filmes). Ou seja, já esperamos algo acontecer dentro de cada gênero cinematográfico (falei dos gêneros lá atrás, ao tratar de Abraços Partidos, de Pedro Almodóvar). Há que se entender que quem coloca centenas de milhares de dólares do seu bolso na produção de um filme espera receber uma quantia bem maior de volta. Para que isso ocorra com a maior certeza possível, o filme é submetido de maneira rigorosa ao maior ao maior número possível de fórmulas capazes de gerar empatia com o público, afinal aquilo que é familiar não cria estranheza nem desconforto. E é isso o que querem também as grandes redes exibidoras instaladas nos shopping centers, que o sujeito entre lá para ver o blockbuster da semana e, caso não consiga por causa do horário(o que é difícil dado o número de salas em que passa um mesmo filme-evento) veja um outro que não o desagrade, não lhe cause desconforto. A experiência cinematográfica então passa a ser algo que exige pouco ou nada do espectador que, por conseqüência, fica mal acostumado, pois só vê o que lhe é familiar, fato agravado pela mania de se medir o sucesso de um filme pela bilheteria no primeiro final de semana que praticamente elimina qualquer possibilidade do sucesso boca-a-boca, de se dar a chance para que um filme sem verba para aportar em centenas de salas de uma só vez consiga fazer seu público aos poucos. Mau desempenho inicial é sinônimo de morte certa para o filme. Não deveria, afinal Atividade Paranormal provou que é possível o contrário(se bem que contou com um eficiente marketing pela internet).
Bom, o resultado disso é a criação de um público que só vê(por que é só isso o que passa) filmes simples e de estrutura acomodada que, ao menor contato com algo que quebre a regra, rejeita o filme, dizendo que ele é ruim ou “mal-feito”(a expressão diz muito sobre o que se pensa ser fazer um filme). Por isso não vemos nem nunca veremos um filme de Alan Resnais num cinema de shopping center e por isso também que o público em geral não gosta de seus filmes. É triste porque, para escapar ileso desse moedor de carne que é a máquina Hollywoodiana, é preciso muita personalidade, muita precisão e talento, para fazer o jogo dos gigantes sem entregar algo rarefeito. Estatura para tanto, pouquíssimo tem. Há Clint Eastwood, Tim Burton,Sam Raimi e James Cameron, claro. Mas para cada um deles há dezenas de Michael Bays por aí.


PS. Só depois de yer escrito isso oi que fiquei sabendo que Sam Raimi pulou fora da franquia Homem Aranha, por discordar das imposições do estúdio. A série prossegue, com data de lançamento adiada e novo diretor, certamente alguém bem subserviente.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

ERIC ROHMER (1920-2010)


Esta postagem estava pronta aguardando o momento de ser lançada, mas eis que somos todos pegos de surpresa hoje pela morte de Eric Rohmer. Perto de completar 90 anos (faria em abril) foi, de seus pares da nouvelle vague, o que teve o reconhecimento mais tardio, talvez porque fosse o mais próximo das teorias de André Bazin, que animaram a geração imediatamente anterior, a do neo-realismo. Mas isso não fez dele um cineasta ultrapassado em seu tempo, pelo contrário. Sua poesia era outra. Ao Cinelcube, pois:

O projeto Cineclube do HSBC Belas Artes exibe desde 1 de janeiro um precioso ciclo de quatro filmes dedicados ao cineasta francês Eric Rohmer. Oriundo da revista Cahiers du Cinema, foi integrante da Nouvelle Vage, mas diferia de seus pares, principalmente de Godart por que se seu cinema rompia com o academicismo então em voga na França, não o fazia através da radicalidade da montagem e das experimentações formais e sim pelo uso “abusivo”do diálogo, que traz uma ligação poderosa e fecunda com a literatura. Os quatro filmes pertencem a uma série dos anos 1990 dedicada às estações do ano. O primeiro a ser exibido foi “Conto de Primavera” e esta semana passa o “Conto de Outono”,seguido, um por semana, por Conto de Inverno e “Conto da Primavera”.
Em Conto de Outono, vemos uma série de relacionamentos amorosos se entrelaçando, mas tendo como ponto central Magali, viúva e vinicultora para quem todos teimam em arrumar um par. É sintomaticamente num casamento que tudo chega ao ápice, com dois homens apresentados a ela.Os Contos das Quatro Estações são comédias que tratam de escolhas e suas conseqüências e do compromisso das pessoas consigo mesmas. E é através do falar que se constrói o filme, uma vez que neles isso equivale a uma sessão de psicanálise, onde através do jorro de palavras, os personagens aos poucos se descortinam. Ou seja, muito frequentemente aquilo que eles dizem não corresponde àquilo em que acreditam ou que pretendem fazer. O desejo também tem papel preponderante, uma vez, ainda que surgido do acaso, desarranja as coisas mais certas .
Comum a todos seus filmes era o fato de evitar a todo custo o uso da música incidental (aquela que reforça o sentimento da cena) e os movimentos complexos de câmera, porque Rohmer acreditava sobretudo que a poesia reside não no modo de filmar, mas naquilo que se filma.
O Projeto Cineclube do HSBC Belas Artes exibe esta semana Conto de Outono na Sala Carmem Miranda (97 lugares) ás 19h20 (os filmes do cineclube são sempre exibidos entre 19h e 19h30). Informações pelo tel. 3258-4092 ou em http://www2.hsbc.com.br/hs/quem_somos/cultural/hsbc_belas_artes.shtml?WT.mc_id=HBBR_Dominos049.
O HSBC Belas Artes fica na rua da Consolação, 2423.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

ALAN RESNAIS 1 – AS ERVAS DANINHAS


Tudo o que escrevi a respeito de Blow-Up vale, de certa forma, para Ervas Daninhas, de Alan Resnais, pelo menos naquilo que toca à estranheza que o espectador possa sentir em relação ao filme. Nada surpreendente, afinal Resnais é daquela geração de modernizadores do cinema, que empreende uma revolução modo de se fazer essa arte que se torna parâmetro para tudo o que virá depois, coisa até então não vista desde Cidadão Kane. Embora não fosse da nouvelle vage (afinal seus membros eram críticos da revista Cahièrs du Cinema e tinham uma relação forte com o cinema norte-americano, em especial Hitchcock e Vincent Minneli), seu filme chave, Hiroshima Mon Amour é da mesma época (1960) e compartilha mais semelhanças do que diferenças com Goddart, Truffaut e cia. Vejamos o que disse Glauber Rocha num artigo publicado no Diário de Notícias de Salvador, em 2 de outubro de 1960 :

“Hiroshima deixa atordoado qualquer espectador que o veja pela primeira vez. E
só começamos a ‘descobrir’ o filme muito depois de te-lo visto. É um perigo ver
Hiroshima. Eu por exemplo,não tenho vergonha de confessar que assistir Hiroshima
foi uma das minhas maiores experiências humanas”.

Há diferenças entre o filme de 1960 e o de agora, claro. Mas ao que interessa ao espectador que nunca tomou contato com Resnais ou com o chamado cinema moderno (que é pra quem se destina esse texto) a experiência é a mesma. A chave para “entender” Ervas Daninhas é a da imprevisibilidade do desejo. É de paixão que fala o filme e, por acaso, existe algo mais imprevisível, incoerente do que uma paixão? Pois bem, a forma corresponde ao conteúdo e o filme é incoerente e cheio de situações absurdas, de arroubos, inclusive na “irrealidade” de alguns cenários, no uso da core, da luz, tudo nos entrega a um certo delírio. E como notou muito bem o Inácio Araújo, também tem uma ligação muito forte com o real, na forma da interpretação dos atores e de detalhes como a mulher que ao ver o telefone tocar insistentemente, diz “calma, já vou”. Coisa comum na vida real, mas raríssima no cinema (tem bastante disso em É Proibido Fumar). Esses dois pólos opostos coexistem talvez para nos mostrar o quanto uma vida ordinária de uma pessoa ordinária, pode se tornar absurda extra-ordinária quando se entrega a uma paixão, ou a mais de uma.
Ah, a história? Nem precisaria contar, afinal não é uma trama que se desenvolve com começo, meio e fim e sim aos pedaços, com situações que, sim, umas desencadeiam as outras, mas sem essa relação de causa e efeito coerente do cinema tradicional, mas vamos lá: uma mulher a bolsa roubada, o ladrão pega o dinheiro e joga a carteira fora. Um senhor a encontra e fica imaginando quem é essa mulher. Não parece muito bonita pela foto, mas desperta seu interesse mesmo assim principalmente porque ele percebe que ela é aviadora (por algum documento que está lá). Devolve a carteira para a polícia e fica aguardando que ela o ligue em agradecimento, cria expectativas. E por aí vai, por caminhos tão estranhos quanto podem ser os de uma paixão.
O “segredo”para apreciar este filme é degusta-lo aos pedaços, ver a beleza de cada cena, de cada situação e se identificar com essas incoerências, não com os personagens ou a história. Aí você poderá dizer mais ou menos o que disse o Glauber. Na próxima postagem, outro filme de Resnais em cartaz, Medos Privados em Lugares Públicos.

Ervas Daninhas (Les Herbes Folles) tem 104 min. E está em cartaz nos cinemas :
UOL Lumière(Sala2) às 14h, 16h10 e 18h20, Espaço Unibanco Augusta(Sala5) às 14h, 16h e 22h, no HSBC Belas Artes(Sala Aleijadinho) às14h10, 16h10, 18h20 e 20h30 e no Reserva Cultural(Sala2) às 13h10, 15h10, 19h15 e 21h20.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

CURSO- QUENTIN TARANTINO

Pessoal, dias 19, 20 e 21 de janeiro, às 19h30 (de terça a quinta) acontece o mini-curso O Cinema de Quentin Tarantino ministrado por Sérgio Alpendre, crítico do UOL e do Guia Especial da Folha(Livros, Discos,Filmes). Em ada uma das aulas um tema seguido de trechos de filmes. Na primeira aula, por exemplo, o tema é "Os primeiros filmes. Influências e influenciados" que tratará desde ios filmes de Brian De Palma até o cinema barato europeu e o cinema oriental.
O valor do curso é R$ 150,00.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

PEQUENO GUIA PARA AJUDAR SÃO LUIZ DO PARAITINGA


Faça sua doação. Isso é o mais importante.


Faça campanha, divulgue que QUALQUER batalhão da Polícia Militar recebe arrecadação. Muita gente não sabe como doar nem o que doar.


Mande e–mails, publique em seu blog, twitter, faça panfletos em Xerox e deixe nos comércios de seu bairro.


Atitudes como estas fazem muita diferença para o povo de Paraitinga, Cunha e as outras cidades atingidas pela chuva.
Está ao seu alcance ajudá-los !

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

TV- BLOW-UP


O canal TCM tem renovado seu acervo de filmes e caprichado na programação. Hoje, por exemplo, às 22 h exibe o incontornável Blow-Up- Depois daquele Beijo (1966 – 88 min.), de Michelangelo Antonioni. Filme chave da modernidade do cinema, Blow-Up dialoga tanto com as conquistas da nouvelle-vage quanto com uma obra prima (uma das) de Alfred Hitchcock, Janela Indiscreta, a fim de pensar o cinema, a imagem cinematográfica e seu contato com o público. A história em si é um thriller simples com um fotógrafo de moda que acredita ter acidentalmente, flagrado um crime com sua câmera. Mas é mais do que isso.
É esse pensamento, próprio dos anos 1960, que permite que existam filmes hoje como Hotel Atlântico, Abraços Partidos ou mesmo um diretor como Quentin Tarantino. Ou seja, é um pensar o cinema e levar o público a ter uma relação diferente com o filme que não apenas a de apreciar a história. Não há em Blow Up uma postura de quem tem fé no cinema como arte capaz de catar o real (volto a esse tema em breve), crença que nasce com a fotografia. Bem, mas isso Hitchcock já tinha feito em Vertigo e também em Janela Indiscreta. Quem assistiu lembra da cena da montagem das fotos (que foi recriada com muita inventividade primeiro em Blow Out- Um tiro na noite, de Brian de Palma e depois em Meu Tio Matou um Cara, do Jorge Furtado) . Lá a cada vez que se mexe na ordem das fotos tiradas pelo personagem de James Stewart enquanto bisbilhota o vizinho suspeito de matar a esposa cria histórias diferentes, possibilidades diferentes e, mais ainda, significados diferentes. Ou seja, uma hiostória existe a parir do momento em que se articula uma série de imagens. Elas, por si, não contém um significado fechado, correspondente da realidade.
Em Blow Up esta cena é recriada de outra maneira, o fotógrafo busca também na imagem a verdade para um crime, mas acredita tanto na foto como reprodução do real que passa a ampliá-la mais e mais em busca de algum detalhe revelador, que ele não encontra afinal, quando mais próximo da imagem, menor sua definição e maior a incerteza.
Se em Hitchcock a incerteza acaba em determinado momento em Blow-Up tudo é incerteza, desde o mistério da trama até as ações dos personagens e o tempo toma o lugar da ação, com personagens que vagueiam sem que isso necessariamente seja importante para op transcorrer da história. Antonioni faz isso para questionar a construção de um filme. Em qualquer manual de roteiro, dons muito bons aos muito ruins, recomenda-se não inserir nenhuma ação que não seja indispensável ao progresso da trama e nenhuma ação que não tenha um precedente. Ou seja, se um personagem demonstra ter uma habilidade surpreendente em determinado momento, essa habilidade deve ter sido explicada antes. De maneira semelhante, toda ação deve ter uma motivação, numa das convenções mais idiotas da dramaturgia, afinal, se tem algo que as pessoas são é incoerentes. Quantas vezes você já ouviu uma mãe dizer “eu pensei que conhecia meu filho” ou um marido dizer “e eu que pensei que conhecia essa desgraçada”. Ninguém no mundo age como uma molécula num tubo de ensaio, só mesmo no mundo do cinema. Por isso tudo, Blow Up é um filme estranho, de gosto amargo, principalmente para quem não é acostumado com a chamada modernidade do cinema (Goddart, Truffaut, Glauber Rocha, Nagisa Oshima, etc). Mas, principalmente para esses, é um desafio que deve ser encarado mas com isso em mente: um filme é uma mentira que se passa por verdade. Nada mais.

RECADO AO LEITOR

Bom, após externar a tristeza por São Luiz do Paraitinga este blog volta à sua função de boletim cultural. Mas antes, renovo o recado :
Qualquer batalhão da Polícia Militar recolhe doações para ajudaras cidades do
Vale do Paraíba(São Luiz, Cunha, etc). Doe alimentos não perecíveis(incluindo
leite longa vida), água mineral (que está muito em falta por lá) , roupas ou
produtos de higiene (shampoo, sabonete, absorvente) e limpeza (principalmente
água sanitária). No site da Polícia Militar
http://www.polmil.sp.gov.br/inicial.asp
você pode digitar seu endereço e encontrar o quartel mais próximo de sua
casa. Vale lembrar que 10L. de água mineral custam aproximadamente R$ 10,00, 5 L. de água saniitária ,apenas R$4,99 e 8 rolos de papel higiênico, módicos R$ 2,89. Vamos todos fazer uma forcinha.
Pois bem, convido também os leitores a visitar o blog Contemporartes http://www.contemporartes-contemporaneos.blogspot.com/ extensão da revista eletrônica Contemporâneos, ambos criações da ProfªDrª em História Social Ana Maria Dietrich. No blog, um texto meu (acompanhado de uma apresentação carinhosa da Profa) , uma crítica da HQ Frankenstein, de Marion Mousse, lançada pela editora Salamandra.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

LUTO POR SÃO LUIZ DO PARAITINGA -2









Recebi um e-mail de uma amiga que eu não vejo há muito tempo. Era uma carta de memórias e também (e principalmente) de lamentação pela destruição de São Luiz do Paraitinga de alguém que conhece a cidade muito bem. Reproduzo um trecho :





Que São Luiz consiga se reconstruir... Nunca mais será a mesma porque os
casarões do Século XIX não serão os mesmos... Mas que São Luiz consiga voltar a
respirar cultura... E que viva Elpídio, Cinira, Paranga... E que viva os
bonecões, os carnavais de marchinhas e os São João tradicionais da cidade!





Assim ficou a praça do coreto (o menor, não o que ficava em frente à Igreja Matriz).



As notícias hoje dão conta de que o acervo do músico e compositor Elpídio dos Santos ficou intacto, uma vez que estava numa das poucas casas não atingidas pela enchente. Elpídio(já morto) foi homenageado junto de seu parceiro Afonso Pinto em novembro último na festa de Santa Cecília (foi quando estive lá). A casa do sanitarista Oswaldo Cruz (mais um dos filhos ilustres da cidade) e que hoje é um centro cultural, ficou preservada, pois estava numa parte mais alta da cidade. Já a capela de Nossa Senhora das Mercês(foto - FolhaImagem), construção em taipa de pilão do século 18 não teve a mesma sorte(a casa de Oswaldo Cruz fica no alto da rua que se pode ver no lado esquerdo da foto). Me lembro que passei um bom tempo num sushi-bar onde se reúne o pessoal da SoSaci (associação de defesa do folclore que luta pela implantação do Dia do Saci), observando a capela e vendo as fotos do carnaval que estavam expostas. Aliás, o carnaval deste ano já foi cancelado. Imagino o prejuízo para a economia da cidade, com a perda de empregos e tudo que advém da tragédia. A alegria dos bonecões vai demorar um bom tempo para voltar...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

LUTO POR SÃO LUIZ DO PARAITINGA




Difícil saber o que dizer sobre a tragédia em São Luis do Paraitinga. Quem acompanha este blog vai lembrar que eu postei algumas fotos de lá sob pretexto nenhum. Não uso este espaço para assuntos pessoais, mas meio que abri uma exceção naquele caso, exceção que abro novamente agora que sei que a cidade deve perder 80 % de seu patrimônio histórico (70 dos 90 imóveis tombados pelo Condephaat) e que 9 mil de seus 10.500 habitantes estavam desabrigados (pelo menos até ontem).
Fico pensando nas pessoas com quem conversei, bebi, dei risada. No genial Afonso Pinto, no barulhento e divertido Totó, nos músicos do Estrambelhados, nas moças todas (algumas de olhar inocente, outras nem um pouco), nos garotos vestidos como se estivessem na cidade de são Paulo, mas sem disfarçar o sotaque “caipira”. Que é deles todos exatamente agora?
Penso também em tudo que se perde de memória. Não só a coletiva, do Patrimônio Histórico,que é uma perda irremediável, mas também aquela dentro das casas das pessoas, as fotos, os documentos, o brinquedo preferido da infância, a roupa de criança de um filho que já se casou. Me lembro de um café que ficava bem próximo ao coreto, aquele em frente à Igreja Matriz, que desabou. Lá havia fotografias do passado recente e distante, da cidade. As fotos estavam enquadradas, junto de mapas e outros documentos e reportagens de jornal que faziam valer o nome ao local de “Café Cultural”. Você sentava, pedia o café e ficava lá vendo aquilo tudo que agora se perdeu definitivamente. Lembro também de um antiquário. A dona do local mantinha no mesmo endereço um espaço cultural, na verdade um porto seguro para os estudantes de humanas da Unicamp beberem e curtir sua MPB mal tocada. Tinha algumas tranqueiras, mas também coisas lindas, muitos oratórios, um deles lindo, imponente e caríssimo, vendido como sendo francês do século 19. Podia ser ou não, mas agora nunca vou saber.
Sempre pensei como forma de conforto que quando alguém muito querido morre, o que fica é a memória, ela vive naqueles que o amavam. O que me angustia bem agora é pensar que em São Luís do Paraitinga, algo dessa memória morreu também.


PS. A Polícia Militar está recebendo donativos e encaminhando para as cidades de Cunha e Paraitinga. Basta ir a qualquer batalhão ou posto policial e entregar alimentos não perecíveis, principalmente leite longa-vida e água mineral.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

HQ- NEGRINHA


É verdade que 2009 está terminando, mas isso não é pretexto para se esquecer de “Negrinha”, excelente álbum de Jean-Cristophe Camus e Olivier Tallec que a Desiderata lançou como parte das comemorações do ano da França no Brasil. Delicado, profundo e emocionante são alguns dos adjetivos que se podem enfileirar para falar desta obra de rara sensibilidade em que cada quadrinho é uma pequena pintura em aquarela. Como é próprio da técnica, a atenção se desloca do desenho para as nuances da cor, que criam dois universos visual e antropologicamente distintos, o da casa e o da rua(parafraseando o livro do antropólogo Roberto DaMatta).
A imagem se abre para a imaginação, tão mais que o desenho imita o traço de uma criança, trazendo o leitor definitivamente para o mundo da pequena Maria, “morena quase branca” órfã de pai e filha de mãe negra e que mora com ela na casa dos patrões na Copacabana dos anos 1950. A menina tem um choque quando visita pela primeira vez o morro do Cantagalo, onde Olinda, sua mãe, cresceu e onde ainda vive sua família, quer ela mal conhece. Não se trata do enredo típico de telenovela, em que “menina rica se apaixona por menino pobre”, mas de mexer na intimidade da sociedade brasileira, naquilo que o sociólogo Gilberto Freire decifrou em sua obra mais famosa, Casa Grande e Senzala; a relação de dominação,porém não explicitamente(ou não necessariamente) conflituosa, com os negros que vivem na casa grande assumindo valores e costumes de seus senhores . Das imagens mais poderosas desta HQ estão uma página só com empregadas negras levando meninas loiras para brincarem na casa de Maria e Olinda rezando para santos católicos e do candomblé. Tal percepção tão aguda de nossa realidade pode ser creditada (pelo menos em parte) ao fato de Camus ser um francês filho de mãe brasileira. Negrinha é um belíssimo olhar estrangeiro sobre o Brasil, mais lúcido que muitos de nossos filmes e HQs.
O prefácio da obra fica é do músico e ex-ministro Gilberto Gil que é sinônimo de palavras compostas para maquiar de complexidade um texto bem simples. Dispensável.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

UMA ÚLTIMA POSTAGEM

O comentário fica para 2010, mas aqui está algo absolutamente genial, o filme Bastardos Inglóreos, de Quentin Tarantino, recriado em forma de HQ por Martin Duhovic. O detalhe é que não há um traço do autor, quer dizer, é como se o autor aqui (dos desenhos ao estilo do texto)fosse o mestre das HQs de super heróis dos anos 60-70 Jack Kirby.
Bem, este blog não vair parar ompletamente até 2010, apenas os textos exclusivos. Devo postar aqui algumas das críticas de HQs que faço para o site HQManiacs
Bem, de qualquer maneira, um feliz Natal e ótimo Ano Novo para todos.
Valeu pela presença aqui no bar !!

CINEMA - É PROIBIDO FUMAR


Bom, este blog entra agora, como o leitor também(eu imagino), em férias. Antes, porém, uma última dica, o filme É Proibido Fumar, da diretora Anna Muylaert (Durval Discos)que venceu o prêmio principal do 42º Festival de Brasília. No seu blog http://inacio-a.blog.uol.com.br/, o crítico Inácio Araújo disse "Achei formidável, sensibilíssimo, inteligentíssimo, um desses filmes que não vale a pena perder, não vale a pena esperar pelo DVD, nada". E é verdade. A história da professora de música que é fumante inveterada (Glória Pires)que se apaixona pelo vizinho, músico de bar e inimigo mortal do cigarro(Paulo Miklos), é uma história de amor à moda da diretora, ou seja, classe-média (mas média mesmo, não de novela) e com uma morte bizarra que, tal qual o fumo, põe á prova o amor do casal. Entre eles, uma disputa entre Chico Buarque(o preferido dela) e Jorge Ben (o dele)- "o Chico é...meio devagar, né" diz o personagem de Miklos. Aliás os diálogos são tão vivos que impressionam, provavelmente tem um trabalho envolvendo improvisação ali.
Uma história de amor sem atores com cara de quem faz Malhação e sem as convenções da omédia romântica, onde, om 15 min de filme você já onsegue antecipar tudo o que virá pelo frente. Insegurança, briguinhas familiares, picuinhas, tudo isso que faz a vida a dois de pessoas normais está lá. E é tão natural que até aquela morte absurda (não adianta, não vou dizer qual) se encaixa na normalidade toda.

Como disse o Inácio, não espere pelo DVD ou mesmo pelo Canal Brasil(ainda que este faça um trabalho bem digno ao exibir no formato original e não mutilar com intervalos comerciais). Um ou outro servem para se rever o filme (e há muita coisa ali para ser descoberta, aproveitada numa segunda vista), mas a experiência do filme, de qualquer bom filme, é no cinema.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

TEATRO - NATAL NOS PARLAPATÕES !

Apesar do violento episódio em que o drmaturgo Mario Bortolloto foi na sede de sua companhia de teatro, Os Satyros, a prgramação de natal do vizinho Parlapatões segue inalterada, como espécie de escudo contra a barbárie de nossa cidade.
São todas comédias natalinas. A hilária Auto dos Palhaços Baixos já foi apresentada ano passado,mas deve sofrer algumas mudanças, até por conta de toda improvisação do grupo.A história? Um diretor ranzinza e pretensioso e seu auxiliar, estiudante de cinema da Faap, tentam fazer um grupo de palhaços fracassados a encenarem a paixão de Cristo .Piadas internas, tiração de sarro com o mundo das celebridades, críticos de teatro que por fim leva boa parte do público para o palco. Imperdível !
- Missa do Galho, sábado(19), meia-noite.

- Farsas de Natal, sexta(18), meia-noite.

- Auto dos Palhaços Baixos, sexta, 21h30, sábado, 21h e domingo, 20h

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

CINEMA - ABRAÇOS PARTIDOS(E OS GÊNEROS CINEMATOGRÁFICOS)




Pedro Almodóvar é o James Cameron do circuito "alternativo" de cinema (aquele fora dos multiplexes), a julgar pelo frisson que causa no público. Filas enormes em sessões que normalmente não lotam as salas, gente falando do filme antes e depois dele ser exibido. Mas dessa vez Almodóvar decepcionou esse pessoal e não entregou um "filme do Almodóvar", ao invés disso teceu uma intrincada olha de retalhos cujo tecido não é outro senão a tradição cinematográfica. É claro que estão lá as paixões arrebatadoras e o uso ostensivo e agressivo do vermelho, tão caros ao diretor espanhol , mas ele foi bem além e costurou gêneros cinematográficos.


Cinema de gênero é aquele que obedee a certas regras internas; numa comédia é perfeitamente coerente que uma briga entre dois homens termine om um levando um tmbo e caindo de bunda no chão, tornando-se motivo de risos, o que o faria levantar e fugir envergonhado, o que soaria absurdo num filme de ação. Há gêneros e subgêneros inclusive, com situações e personagens que são caraterísticos só a eles. Os filmes de terror, por exemplo, tem uma certa gama de personagens próprios dele(aquela pessoa soturna que aparece e dá um mal presságio, um aviso à pessoa em perigo, mas que quanse nunca recebe atenção desta).


Pois bem, Almodóvar costurou o melodrama mais escancarado(aquele da telenovela mesmo) com a comédia rasgada, com o suspense e o terror. O mais brilhante disso é que ele o faz sem sacrificar a unidade da obra, sem torná-la declaradamente um experimento. Percebemos em qual gênero o filme se transformou em dado instante, mas em nenhum momento deixamos de nos identificar com os personagens. Almodóvar teve seu dia de Tarantino, por assim dizer. Em Kill Bill 1 e2 ele salta do filme de Kung-Fu para o Western, o de Samurais, volta para o western e por fim retorna o de Kung Fu. Isso mantendo as regras e os personagens típicos de cada gênero (o mestre Pai Mei é um desses).


Em abraços partidos, vemos também a deslumbrante Penélope Cruz se converter em várias figuras do mundo do cinema. Nas fotos acima, Audrey Hepburn e Marilyn Monroe.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

CINEMA - ATIVIDADE PARANORMAL


Falou-se muito, antes da estréia, deste Atividade Paranormal, do diretor estreante Oren Peli . Que custou 15 mil dólares e faturou mais de 120 milhões, que é o terror da década, que é uma porcaria, que pela internet circulou como se fosse um documentário sobre uma casa assombrada e que todo mundo acreditou nisso.

Não é o terror da década nem uma porcaria. Também é bem difícil que alguém tenha assistido trehos dele e pensado ser real, isso provavelmente é ação de marketing ara compara-lo a Bruxa de Blair, de 1999, de quem se falou o mesmo (que era o terror da déada, porcaria, verdade, mentira, etc). É um falso video caseiro em que um asal de jovens registraria a tal atividade paranormal em sua casa. Os 120 milhões de doletas foram feitos lentamente, não de uma paulada só, como pe praxe com os blockbusters americanos, o que talvez se deva ao fato de não tem cristão que não se lembre do filme ao levantar de madrugada para visitar o banheiro ou assaltar a geladeira. É uma recriação divertida do ancestral medo de escuro.

Atividade Paranormal foi comparado também ao terror espanhol REC. Só que aí o negócio é outro. Ainda que se finja fazer um video caseiro é preciso fazer cinema, neste casoe specificamente, cinema de gênero(terror) ou seja, dividir o roteiro em atos bem definidos, ter curva dramática etc. Isso está em REC, em Cloverfield-Monstro, no prórpio Bruxa de Blair. E este Atividade Paranormal peca ela falta de ritmo;quando parece que vai, não vai. E quando o terror chega com tudo, já é tarde demais, porque o filme está no final.

Mas oque há de mais importante é entender o motivo de tantos filmes simulando videos caseiros. Tanto pode ser a influênia dos reality shows (que eleva o vouyerismo cinematográfico a níveis ainda mais altos), pode ser a própria internet, pode ser a influência da narrativa dos games em primeira pessoa. Fico com a última possibilidade, pela força que ela pode ter nos jovens cineastas, mais ainda do que o cinema clássico(falei disso quando resenhei "Semum").

É só notar como neste Atividade Paranormal muita situação teria sido melhor resolvida como uma montagem tradicional. Mas vale a ida ao cinema.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

MAUS


Está chegando às livrarias novo trabalho do quadrinista de "vanguarda" Art Spigelman, autor de MAUS, única HQ até hoje já premiada com o prêmio Pulitzer(2002), o mais importante do mundo do jornalismo. Se Spigelman merece ser chamado de vanguarda (essa palavra requer cuidado, porque é delimitada históricamente) é por sua experimentação e liberdade com as imagens, que tornam muitas de suas HQs obras não-narrativas, exercícios de interação da imagem com as palavras, verdadeiro rompimento na tradição de contar histórias à que as HQs tem se dedicado desde sua origem.

Não é o caso de MAUS. Nesta obra cujo primeiro volume é de 1986, ele se rende à história, mas faz um cruzamento do "new journalism" (corrente jornalística surgida nos anos 1960 e que flertava sem medo com a subjetividade) com as artes visuais. A história se passa parte durante a segunda grande guerra, parte no presente, quando o autor entrevista seu pai (protagonista da história). Interagem a narrativa passada, om os sentimentos do autor e seus problemas familiares. Como se não bastasse, ele reinterpreta a peleja de seu pai nas mãos dos nazistas, retratando os judeus como ratos, os alemães como gatos e os poloneses como porcos, trazendo para MAUS toda a carga simbólica dessas criaturas (os judeus eram comparados a ratos pela propaganda oficial nazista). E, ainda por cima, a arte não está lá só para ilustrar a narrativa. Quem já viu esboços, ou mesmo a primeira versão da história (que é um conto ) sabe que ele pensou em desenhar "bem", mas abriu mão disso. Por que? Para que seu desenho parecesse bruto como uma xilogravura, que não existisse "beleza" como aquela que se vê normalmente nos quadrinhos e que, os quadrinhos amontoados, os detalhes encobertos pelo ontorno grosso das figuras causasse mal -estar, opressão.

Lê-se, MAUS, portanto em três níveis, como jornalismo(e documento de uma época), como uma história pessoal do autor e seu pai e como arte visual.

E uma obra e tanto.