terça-feira, 8 de setembro de 2009

O BEIJOQUEIRO E O ESTUPRADOR

Semana passada ganhou certo destaque no noticiário a prisão de um italiano por beijar na boca sua filha de 8 anos num praia cearense. O turista, cuja identidade permanece preservada, fora denunciado aos policiais por duas pessoas (de 70 e 75 anos) que se sentiram incomodadas com a cena e (provavelmente) acreditaram se tratar de um caso de pedofilia. A mãe da criança, que é brasileira, alegou que esta é uma prática comum entre os italianos. Pois bem, ao noticiário então. Para Sandra Annenberg, no Jornal Hoje de quinta feira(3), ele havia sido preso por dar uma “beijoca” na boca da criança. Para o portal G1l ”italiano é preso por beijar a filha na boca em barraca de praia no CE”. Para o Jornal da Band era “ato libidinoso”. Já Carla Vilhena disse na sexta-feira(4) no SPTV 1ª Edição que ele havia dado um “beijo, um selinho,uma bitoca” o que é “abuso sexual e pela nova lei é enquadrado como estupro”.
Tanto zelo com as palavras chega a impressionar, principalmente quando comparado com outro caso onde a acusação recaía sobre o mesmo artigo do código penal, estupro. Quando o médico Roger Abdelmassih foi preso o trato da imprensa foi bem diferente. “Médico é preso acusado de 56 estupros”. Está correto. Pela nova lei que trata dos “Crimes contra a Dignidade Sexual” ,sancionada em 07 de agosto deste ano, todas acusações dirigidas a Abdelmassih são classificadas como estupro, tanto quanto a “bitoca” do alemão (estupro a vulnerável) - que aos olhos das testemunhas não parecia assim tão inocente. Mas não foi lembrado que, das 56 acusações feitas a Abdelmassih - houve mulheres que fizeram mais de uma acusação,daí o número ser maior que o de acusadoras,36 ou 39 dependendo de quem dá a notícia - “apenas” (aspas enormes aqui) duas se enquadrariam no que a lei anterior classificava como estupro, ou seja, a tal “conjunção carnal”.
Num caso, o do médico, os acusadores foram dignos da confiança absoluta dos jornalistas enquanto no outro, mereceram a mais completo descrédito. Se a Lei é a mesma para todos porque cabe aos jornalistas decidirem por um ou outro lado? Por que num caso é bitoca, ato libidinoso(que nem existe mais) e abuso sexual e noutro é estupro?
É até desnecessário frisar a diferença entre os casos e até bom que não se noticie “italiano preso por estuprar filha de 8 anos ”. É,aliás, função do jornalista esclarecer os fatos, mas isso não foi feito nem em um caso nem em outro. Mas no caso do médico, os jornalistas, certos da culpa, tomaram parte na condenação e não muniram o leitor/espectador de conhecimento suficiente para entender a lei e o processo. Já com o turista, inocentaram-no com veemência (chega a parecer que Carla Vilhena estava presente na hora da bitoca).
É certo que parece mesmo que Roger Abdelmassih é culpado e o italiano, inocente. Mas é sempre bom lembrar que entre o “parece” e o fato existe muitas vezes um abismo pra onde foram atirados muitos inocentes e de onde escaparam ilesos muitos culpados. E no fim, entre culpa e inocência cabe ao juiz decidir, não a nenhum jornalista.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

NAÇÃO DOS ZUMBIS



Foi com pouco dinheiro, uma câmera digital e uma boa dose de criatividade que Rodrigo Aragão fez seu “Mangue Negro”, originalíssimo filme de zumbis de que circulou o país em diversos festivais e agora aporta direto nas locadoras, sem ter estreado em circuito comercial. O longa metragem consegue ser original num subgênero do terror que ,salvo raras exceções, tem tendência a se repetir; mais do que mortos vivos de andar trôpego, vemos ostras monstruosas (!) , defuntos surgindo da água escura do mangue e feitiçaria cabocla, tudo mostrado com ajuda de muita maquiagem, animação em stop motion e até computação gráfica. Já a história é uma fábula, quase um “João e Maria” ultraviolento, contando tentativa de um casal de fugir do mangue e chegar ao topo de uma montanha, onde estariam livres da epidemia de mortos-vivos.
Em meio a tantas idéias, umas funcionam, outras não. Talvez o maior problema esteja nos diálogos muito formais, de português corretíssimo, que tiram algo do impacto brutal do manguezal, e dos rostos tão diferentes do que estamos habituados a ver na TV. Nisso ele só teria a lucrar soasse como O Céu de Suely (de Karin Aïnouz), Cinema Aspirinas e Urubus (de Marcelo Gomes) ou Baixio das Bestas( de Cláudio Assis) . O cinema do nordeste tem se mostrado dono de uma identidade fortíssima e sem medo do acento regional. Também o uso da maquiagem para envelhecer rostos parece despropositado, deixa os atores com cara de boneco de cera ou de quem sofreu queimaduras graves.
Mais até do que a originalidade, salta aos olhos o laboratório de influências que é este filme. Tem algo do Zombie, de Lucio Fulci , por causa das cenas ensolaradas, dos mortos putrefatos. As vezes o herói parece descaradamente com o Ash, da série Evil Dead- A Morte do Demônio, de Sam Raimi, de onde Aragão também parece ter tirado o gosto pelo humor. Já a sangueira é típica de HQ , assim como o visual de alguns cadáveres . E é num instante que surge um cenário tratado digitalmente e uma câmera em primeira pessoa que faz parecer que estamos diante de um game estilo “Doom”. Há também cenas que foram tiradas da prateleira dos clichês do filme de terror (a mocinha encosta num parede de madeira, de onde surge a mão do monstro que lhe agarra o cabelo). Tudo ali parece uma colagem com vista a se chegar a um produto novo, com identidade própria.Está errado? Não mesmo. É dessa mistureba que vive o cinema de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, por exemplo.
Ninguém é obrigado a gostar do resultado, mas todo mundo deveria dar uma chance aos zumbis “mangue beat” de Rodrigo Aragão. Chance que as salas de cinema não lhe deram.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

MAIS TWITTER, MAIS XUXA ! SASHA PACIÊNCIA!




Essa tira (clique para ampliar) veio do excelente site Quadrinhos Gonzo http://quadrinhosgonzo.wordpress.com/ , da jornalista e quadrinhista Jussara Nunes e satiriza a saia justa de uma assessora de imprensa explicando o caso do twitter da Rainha dos Baixinhos a um repórter. Volto em breve a falar deste site. Mas o caso teve desdobramentos. Na última terça-feira (dia 1º) Xuxa foi fotografada pela Revista Quem passeando com um cãozinho num shopping center de luxo do Rio de Janeiro. Solícita, aceitou até posar para foto ao lado de um fã. Trabalho de bombeiro da assessoria de imprensa, que deve ter passado por apuros semelhantes aos satirizados nessa tirinha para livrar a apresentadora da imagem de burra e antipática que lhe ficou colada.






O caderno Folha Informática de ontem apresentou uma tendência representada por sites como o Tweetfeel http://www.tweetfeel.com/ que filtram as opiniões emitidas no Twitter e as classificam como positivas ou negativas. É um passo largo rumo à identificação de emoções dos usuários. O que se faz com isso? Basicamente o que fez a assessoria de Xuxa, que é possibilitar seu cliente a dar a volta por cima de uma situação adversa. Ou focar-se mais naquilo que é elogiado. Será uma festa para os marketeiros de políticos., por exemplo. No cinema uma coisa será certa, com um conheimento infinitamente mais apurado do gosto das massas, os diretores terão cada vez menos liberdade. Quem financia uma obra de centenas de milhões de dólares nuna quis correr riscos e terá a seu serviço exatamente aquilo de que se agradam as grandes platéias. Pra que mudar, pra que arriscar ? Ou seja, veremos ainda mais filmes rendidos
às mesmas fórmulas prontas, feitas à medida para agradarem adolescentes. A opinião abobalhada do garoto de que eu falei na postagem anterior terá um peso muito maior na hora, por exemplo, de se financiar um filme de terror de Sam Raimi (hipoteticamente falando). Se você acha que é infernal entrar num Cinemark hoje é porque não sabe o que te espera amanhã. Transformers vai ser fichinha...






Pois é, os blogs, os sites de relacionamento e o Twitter permitiram que muita gente possa expressar sua opinião. Mas, no final, a coisa é como num tribunal: o que você disser poderá ser usado contra você.




Quem aguentar a Quem pode ir em http://revistaquem.globo.com/Revista/Quem/0,,EMI90998-9531,00-XUXA+PASSEIA+EM+SHOPPING+E+E+ASSEDIADA.html e curtir um ótimo exemplo de jornalismo a serviço de uma Assessoria de Imprensa. E dá-lhe elogios à Rainha...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

É rabugice minha criar caso com os erros ortográficos? Acho que não, até porque eu mesmo erro, e de montão. Citei a Xuxa, cito agora um anônimo. Fui ler a resenha do filme "Arraste-me para o Inferno" que o ótimo crítico Sérgio Alpendre fez para o apenas razoável site Cineclick (disponível em:
http://cinema.cineclick.uol.com.br/criticas/ficha/filme/arrasta-me-para-o-inferno/id/2208 ) quando topei com o seguinte comentário(assim mesmo em caixa alta) :
MEU DEUS QUE FILME HORRIVEL PIOR FILME QUE EU VI NA MINHA VIDA NA MORAL GENTE ACONSELHO A NÃO VERPQ QUEM VIU PARECE QUE FOI PRO INFERNO MUITO RUINFINAL MEIO E FIM COMPLETAMENTE HORRIVELESSE SAM RAIMI NÃO SABE FASER FILME AINDA QUER BOTAR PARTES ENGRAÇADAS EM FILME DE TERROR EU RI MAIS DO QUE ME ASSUSTEI NA VERDADE NEM ME ASSUSTEI
Pode ter sido um garoto o autor do texto (o que justificaria certos erros), mas é interessante notar que ele se preocupou em não errar o nome do diretor. Ou seja, ele não deu a mínima importância à escrita, que parece mimetizar a exasperação com que ele falaria com algum colega (isso explica o uso da caixa alta). A internet desestimula o uso de pontuação e acentuação, isso a gente bem sabe.
Mas há algo mais aí, algo sério. Esse garoto ( quero crer que seja um garoto - e pela linguagem devo estar certo) é parte de um grupo enorme ,Xuxa e Sasha inclusas, que parece não ver utilidade na escrita. É de se pensar em quais fatores levam a isso . A alfabetização é cada vez mais precária; hoje mais pessoas são alfabetizadas, mas apenas nas planilhas do governo. Crianças chegam aos 8 ou 9 anos de idade sem sabererem escrever uma única palavra, tudo isso por entraves burocráticos e interesses diversos, que vão do impedimento da reprovação à ação de diretores que não querem índices ruins de alfabetização em suas escolas, e por isso dão como preparados alunos praticamente (ou completamente) analfabetos. Há também a diminuição persistente no hábito da leitura - o crescimento na venda de livros não quer dizer que mais pessoas estão lendo-nem diz quais livros são vendidos. E com certeza outras coisas que façam as pessoas crerem que escrever é algo quase desnecessário.
Mas quais ?
PS. A propósito, não acreditem no garoto, o filme é excelente.
PS2. O Cineclick é site que publicou o texto do crítico Celso Sabadin sobre o "xou" da Xuxa no Festival de Gramado de que o Daniel falou nos comentários:
PS3. Ainda Xuxa, ainda twitter . Um fã, revoltado com as críticas à sua musa e rainha, postou na internet um vídeo para defendê-la. Deu nisso aqui : http://pepsi.gizmodo.com.br/conteudo/mexeu-com-xuxa-mexeu-comigo

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O TWITTER DA XUXA

Um dos assuntos mais comentados essa semana pelos usuários do Twitter foi o bate-boca da apresentadora Xuxa com os seguidores do seu microblog. Tudo começou quando ela digitou sua primeira mensagem toda em caixa alta (letras maiúsculas) o que, para quem usa o site (ou até para quem te e-mail) equivale a dizer alto gritando. Xuxa se desculpou, mas o emenda saiu pior do que o soneto, porque escreveu “OUTRA COISA , NÃO FIQUEM TRISTE POR EU NÃO RESPONDER TUDO EU FICO DOIDINHA , VOU APRENDER AOS POUCOS TÁ”. Logo em seguida, outro motivo de estresse; Sasha postou uma mensagem em que escrevia “cena”com “s” (sena). Ante a esculhambação geral e as respostas agressivas, Xuxa justificou dizendo que a filha, de 11 anos, havia sido alfabetizada em inglês. E desabafou, em caixa baixa, mas sem vírgula: “fui vcs não merecem falar comigo nem com meu anjo”.
!!!

Xuxa é nossa versão nacional de Michael Jackson; quanto mais envelhece, mais age como criança. A diferença (além do fato de que ela ainda não morreu),fica por conta do talento gigante do americano, frente à inexplicável empatia da ex-modelo com o público televisivo. Mas ela parece ter mergulhado tão fundo nessa fantasia de “rainha dos baixinhos” que age como se vivesse num mundo de conto de fadas. Só isso explica tamanha ingenuidade no uso do Twitter. Xuxa, isolada primeiro pelos altos muros de sua mansão, depois por seus seguranças e por fim pela trincheira inexpugnável da imagem fantasiosa da TV (a mesma fantasia que tentaram vestir, até agora sem sucesso, em Carlinhos) achou que realmente tinha “seguidores” num sentido de devoção e por isso se espantou tanto com areação negativa às suas postagens, ou à péssima alfabetização da anglófona filhota. Uma coisa é se relacionar com pessoas que estão numa platéia de um programa de auditório, outra é lidar com elas sem mediadores, como é o caso do Twitter. A Rainha sentiu brevemente um gostinho de bastilha e talvez seus cabelos tenham ficado ainda mais descoloridos. Mas ela ainda conta com sua guarda real, a imprensa de celebridades. A revista "Quem" (que como a Caras e a Contigo, faz de tudo pra injetar sangue azul em qualquer BBB) minimizou e disse que o problema se deveu a pequenos erros de português na postagens. Ah, ta.
!!!

Xuxa e sua filha demonstraram um domínio precário da língua portuguesa. Mas, ao mesmo tempo, vale lembrar o quanto isso é um problema quase epidêmico. No trajeto que o trem faz de Rio Grande da Serra até a Estação da Luz, lá pela altura da Mooca, pode se ler uma pixação que diz : “A panela esta formada”. O acento agudo de está não está lá. No sentido inverso, perto de Santo André, escreveram “Mauá”, sem acento mesmo, demonstrando que não sabia escrever o nome da cidade onde provavelmente morava. Em outro lugar, na rua, vejo uma estranha “O silêncio dos inocetes”. Não, ele não escreveu errado sem querer, assim como Xuxa também não e nem Sasha.
Em fóruns de discussão vejo pessoas que debatem, em termos técnicos complicadíssimos,
a montagem de um Home Theater de R$11 mil, mas com erros tão primários na escrita quanto os dos pixadores que eu mencionei acima. Já a maneira mais fácil e segura de identificar vírus que finge ser uma mensagem de banco solicitando recadastramento da conta é justamente encontrar erros grosseiros de portugês no corpo do e-mail. Ou seja, uma pessoa que é capaz de criar um programa que esvazia sua conta bancária não sabe escrever corretamente ! Num blog, não me lembro qual, alguém irritado com uma pessoa que criticava justamente a má escrita nos outros comentários, respondeu dizendo algo como “você que vá então pra academia brasileira de letras”. Ou seja, escrever de maneira minimamente correta é coisa de outro mundo, portanto perfeitamente dispensável. Os incomodados que se mudem.
Qual a razão disso? Eu bem que gostaria de saber. Mas escrever sem erros grosseiros (e este blog está cheio de erros de diversos calibres), mantendo um mínimo de concordância não é exibicionismo. Esse pouco domínio da língua que vemos tanto em gente muito pobre quanto nos mais ricos cria uma dificuldade de comunicação, uma fragilidade na hora de se expressar. E isso não é bom para ninguém.


segunda-feira, 24 de agosto de 2009

CARLINHOS: DO REALITY SHOW À NOVELA


A esta altura qualquer um, mesmo que não seja fã de reality shows ou não tenha visto um dia sequer de A Fazenda, na Rede Record, sabe que de lá saiu consagrado(embora perdedor) Carlinhos, humorista que interpretava o personagem Mendigo no programa Pânico na TV, antes de ser contratado pela emissora de Edir Macedo.
Programa após programa exploraram seu passado de menino de rua, os anos longe da família e a volta por cima em sua nova profissão. Até um encontro ao vivo com a mãe (negligente e violenta )que ele não via há anos foi providenciado, bem como imagens do pai (ironicamente mendigando). Este só não apareceu também porque fora levado pelo veículo de uma outra emissora, também faminta por um naco de audiência que a tragédia pessoal do humorista podia render. Do Hoje em Dia, pendurado uma passarela suspensa a 45 metros de altura, ao Geraldo Brasil, onde sua popularidade elevava os números da audiência, Carlinhos protagonizou cenas do dramalhão mais rasgado. Geraldo Luis, que em outros tempos chegou a sacudir uma boneca através de uma tela rasgada para ilustrar o assassinato da menina Isabella Nardoni e a enviar seus repórteres para encontrar casas assombradas, extra terrestres no interior de São Paulo ou animais falantes, agora agradecia o décimo abraço dado por dona Maria de Lurdes do Nascimento, no filho Carlinhos com um possante “obrigado meu Deus!”.
Bom, isso tudo é uma novela já vista inúmeras vezes, em diferentes circunstâncias, apenas com diferentes protagonistas. Só que agora o alvo não é bobo (como Carlinhos se referira ao paspalho Dado Dollabela, ainda dentro do reality), ele questiona um programa em que pessoas se expõem por dinheiro, em que fazem caras e bocas a fim de enganar o público, em que imagens são editadas e apresentadas como “realidade”. Mas, mais do que isso, ele se recusa a ceder ao sentimentalismo de novela mexicana e afirma que não quer vínculo nem convivência com os pais. Fica a pergunta: será isso suficiente para manter sua integridade(no sentido de se manter inteiro mesmo) quando se está até na capa da Contigo? Programas como este e revistas desse tipo viver de criar personagens, de simplificações, de mostrar a realidade em termos quase infantis como bom, mau, chato ou legal.Ou seja, transforma a vida em um enredo de novela. Carlinhos agora é o rapaz sofrido que deu a volta por cima, o moço de bom coração que não cedeu à drogas ou ao crime, aquele que fia com a mocinha no final.
O que será dele, criador de personagens, agora que sua vida foi mexida, remexida e reinterpretada pelos TV Fama Brasil afora e ,ele mesmo, tornado personagem? O que será de seu humor, cujo mérito estava em expor ao ridículo essa máquina de moer carne humana que é a indústria das celebridades?

terça-feira, 18 de agosto de 2009

GAMES E ARTES PLÁSTICAS NO ITAÚ CULTURAL


Interatividade é a palavra chave para se compreender a exposição GamePlay que fica no Instituto Cultural só até o dia 30 deste mês e é composta por 6 instalações artísticas e 11 jogos, entre eles Halo 3 , Mario Kart wii e Fifa Street 3. Mais do que promover um encontro entre as artes plásticas e os games, a exposição busca explorar o conceito de gameplay, um “conjunto de experiências interativas entre 2 ou mais sistemas, humanos ou artificiais” e testar seu alcance. A atenção da curadoria se voltou para a capacidade única dos games de prenderem a atenção de quem joga (que é muito maior do que a de quem vê um filme ou admira uma obra de arte) e de tornarem possível uma autêntica troca de experiências entre a máquina e o jogador. Isso tudo se reflete nas instalações, que só se completam quando o visitante entra em ação. É assim com a melhor obra, “KinoArcade Machine”, em que um fliperama exibe o clássico Encouraçado Potemkin (1925), de Sergei Eisenstein. Extrapolando a tradicional ligação entre games e cinema (filmes que viram jogos e vive versa), este Arcade permite que o visitante, através dos botões e do joystick, interfira na textura e na ordem das imagens, acrescentando inclusive cores que inexistem no filme original, criando uma obra nova que não pode jamais ser reproduzida.
A GamePlay coincidiu com o 7º Simpósio Internacional de Artemídia e Linguagens Digitais (que aconteceu entre 7 e 12 de agosto no quase vizinho prédio da Casa das Rosas) e com o lançamento do livro ArteMidia e Cultura Digital, organização de Artur Matuck e Jorge Luis Antonio em que intelectuais se debruçaram sobre conceitos como realidade virtual, cibermídia, arquitetura líquida e games.
Olhar os jogos eletrônicos com atenção não é novidade;o próprio ItaúCultural já promoveu em 2002 outra exposição, a “Game o quê?” , onde o foco era a evolução tecnológica e as possibilidades criadas pela linguagem digital. Um ano antes o professor do MIT(Massachusetts Institute of Technology) dizia “chegou a hora de levar os jogos a sério como uma forma popular de arte que moldará a sensibilidade do século 21” lembrando de outras artes populares que por muito tempo foram vistas com desdém, como o Cinema, o Jazz e as Histórias em Quadrinhos*.
Agora, no entanto, quando se solidificam conceitos como “pós-humano” e “cíbrido” (a presença ao mesmo tempo no mundo físico e no ciberespaço) é que se pode medir a importância dos games, para além de sua relação com a industria do cinema ou da crescente sofisticação tecnológica. É a interação possibilitada por estes jogos que abre as portas do novo século.


O Itaú Cultural fica na Av Paulista 149 (próximo à estação Brigadeiro do Metrô) e está aberto à visitação de terça a sexta, das 10h às 21h e aos sábados e domingos, das 10h às 19h.
A entrada é gratuita e o visitante também não paga para jogar, precisa apenas retirar uma senha.
Mais informações em
http://www.itaucultural.org.br/gameplay/


* publicado originalmente na Technology Review e reproduzido pela Folha de São Paulo no Caderno Mais de 14/01/2001.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

HIPER-REALISMO




A primeira imagem, assim como a da postagem anterior, é uma escultura do artista plástico Ron Mueck feita em espuma de poliuretano e fibra acrílica, materiais comuns à construção de modelos para o cinema, principalmente para filmes de terror e ficção científica. A segunda, a foto de uma bailarina adolescente imitando a pose de uma réplica em bronze (como a que está no MASP) da escultura de Degas de que falarei mais adiante.
Muita gente deve se lembrar de “A Nona Hora”, polêmica escultura do espanhol Maurizio Catellan, em que o papa João Paulo 2º aparecia esparramado pelo chão, atingido por um meteoro e que, claro, causou protestos por parte da comunidade católica.A escultura fora feita num momento em que o Papa estava em cirrado confronto com idéias científicas, as quais Catellan represnetou na forma do meteoro.
São esculturas chamadas de hiper-realistas. Quem é fanático por Action Figures (os bonequinhos para marmanjos- pausa: eu mesmo comprei um, semana passada) sabe bem a que nível de perfeição produtos industrializados podem chegar. Uma miniatura de aprox. 40 cm de Marlon Brando em o Poderoso Chefão é de uma semelhança impressionante. Por aí, ainda que o trabalho de Muek ou Castellan seja muito superior tecnicamente, que a grande questão não está na semelhança com este ou aquele modelo. A primeira imagem é a obra “Um Fantasma” , de 1998 e que, apesar de seus 12 m de altura (ou até mesmo por isso), transmite de forma aguda toda a fragilidade de um adolescente em contato/confronto com o mundo.
A maior ou menor semelhança com um modelo (ideal ou real) deixou de ser a questão ou o objetivo da arte já no Séc.19, com Cèzanne, Gauguin e Van Gogh (lembremos que o impressionismo buscava uma fidelidade de outra ordem, científica, ao reproduzir perfeitamente o espectro das cores no olho de quem vê a obra). Cubismo, surrealismo, expressionismo e outras vanguardas radicalizaram e ampliaram essas conquistas.
No entanto, foi ainda durante o impressionismo que Degas, mais conhecido pelo seu trabalho com giz pastel, fez em 1878 “A pequena bailarina de 14 anos” escultura em cera coberta com tecidos , tal qual uma pequena boneca. No entanto era tamanho seu realismo que, quando de sua exposição, críticos sugeriram que seu lugar era o museu de etnografia (onde ficavam animais empalhados e reconstituições de ancestrais humanos )e a tacharam de grotesca. Apesar de seu realismo, era minúscula, o que criava o mal-estar. No entanto, Degas, ao lidar num só tempo com o real e o fantástico, travava ali um diálogo poderoso com seu tempo. Da postura a um só tempo altiva e arrogante da bailarina à sua posição social dúbia (grandiosa nos palcos, desqualificada fora deles – as bailarinas eram de famílias pobres, no entanto eram admiradas por ricos burgueses e muitas se tornavam suas amantes) está tudo nessa pequena criatura que era construída com material nada nobre (cera) e recoberta com roupas em tecido e que ainda tinha uma peruca, o que só contribuía para a rejeição do público. Degas, naquele momento, impunha uma questão ao realismo, que era o de qual seria seu lugar na História da Arte, qual sua função.
A atual geração dos hiper realistas encara novamente essa questão sob uma perspectiva ainda mais ampla, afinal o realismo deixou de ser a perfeita imitação da natureza dos tempos de Caravaggio ou Velazquez , tanto quando o retrato sem retoques da homem do povo levado a cabo pela geração naturalista de Courbet ou Daumier. Que sentido tem o realismo num tempo em que a imagem fotográfica ou cinematográfica, em decorrência da manipulação digital, perdeu seu estatuto de portadora da verdade documental ?
Mais do que ser perfeita como uma actionfigure, essas esculturas são obras de arte, por que a arte, afinal, é um discurso sobre a realidade.
PS. Mais uma vez peço desculpas ao leitor, afinal este texto estava prometido para segunda-feira.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Por hora vou apenas dizer que a imagem é uma escultura de uma corrente artística chamada hiper-realismo . A intenção não é fazer suspense, trata-se apenas de falta de tempo . Segunda feira retomo o tema. Até lá.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

UM ANO


Termina Julho e posso dizer que este blog comemora um ano de existência. Durante esse período, passaram por aqui figuras ilustríssimas como os Professores Doutores(e especialistas em quadrinhos) Roberto Elisio e Waldomiro Vergueiro, o premiado escritor Luis Ruffato, o quadrinista mais roker do Brasil, Mario Baraldi e brilhante ator João Bourbonnais. A todos eles e a vocês, leitores, meu muito obrigado e um enorme abraço !
Até a próxima postagem !


!!!


A primeira postagem foi sobre o personagem dos quadrinhos de Eugenio Colonnese, Mirza. Ressaltei seu caráter hibrido,antropofágico , que unia os clichês das lendas de vampiros aos cenários dos filmes de Drácula da Hammer `a praia ensolarada na qual a vampira se bronzeava. Para comemorar o aniversário com o mesmo tema, lembro que num desses domingos após a morte de Michael Jackson, num programa de auditório o MC Créu fez sua versão de Triller, com uma jaqueta vermelha e bailarinos maquiados como zumbis. Na maior parte do tempo ele repetiu a coreografia, até que os mortos-vivos fizeram um trenzinho sacana, típico do funk carioca. Mirza era bem isso aí.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

A ERVA DO RATO


A Erva do Rato é um filme estranhíssimo em que coisas estranhas acontecem o tempo todo. Quem for à única sala de cinema em que ele é exibido buscando “entender” alguma coisa, ou perderá seu tempo ou terá de voltar outras vezes e fazer uma análise cuidadosa, porque é assim o cinema do Júlio Bressane,poético, composto de figuras de linguagem e que presta muito mais à experiência do que à compreensão completa.Um cinema,enfim, de significantes mais do que de significados. Por isso apenas amontôo aqui algumas observações :

Há presença significativa e recorrente do mar (ou do elemento água) que muitas vezes se faz presente apenas como som e que ora empresta seu significado à cena mostrada, ora funciona como um comentário/complemento. É também íntima a relação água-sexo-morte que percorre todo o filme e está maravilhosamente explicitada num único movimento de câmera, não por acaso o primeiro, em que a imagem se desloca de uma paisagem de praia belíssima para um pequeno cemitério, onde estão os dois únicos personagens do filme,interpretados por Selton Mello e Alessandra Negrini.

Há uma relação sexual que nunca se concretiza, pela repulsa que ambos personagens parece ter ao sexo e que está encarnada na figura do rato, que é o próprio desejo, ao mesmo tempo invasivo e abjeto, vida e morte e que escapa a quase toda tentativa de freá-lo.
Uma abóbora aberta e o rato a entrar e sair dela, representação do sexo repulsivo, da invasão odiosa aos olhos do homem amedrontado.


Há este casal que não ousam tocar-se e cujo erótico só se manifesta intermediado pela câmera fotográfica. A profusão de espelhos ao longo do filme demosntra e que refletem os atores destaca a importância da imagem. Esta é para ele perfeita, não a mulher e a ira dele contra o rato começa por que esse rói as fotos. Numa cena magnífica vemos ele fotograando Negrini a uma boa distância. Sua sombra, no entanto, assim que ele toca com a mão a câmera fotográfica , projeta-se sobre ela, tocando seus seios. Ao fundo, no espelho, a imagem é projetada de modo que eles parecem estar se beijando.


Seria um comentário a isso tudo o fato de, durante os créditos finais aparecer Bressane dirigindo a dupla de atores, para nos lembrar da representação, dessa existência dupla intermediada pela câmera?- o cinema não é mais do que fotografias em movimento.
E há, por fim, sequencias poderosas, que começam ridículas, quase cômicas, mas que de tão longas causam desconforto, como a do cadáver(não explico para não tirar o impacto de quem for assistir) ou a dos “espectadores” da nudez de Negrini.


Pode ser apenas coincidência, mas grandes obras extrapolam seu intento original. A Erva do Rato parece dialogar com uma mania que, se tem origem com a invenção da fotografia(ou até antes) agora ganha dimensão incomparável, que é a da excitação pela fotografia, pelo filme, como se ele tivesse uma vida independente do corpo. Hoje isso é chamado de sexting e virou mania entre adolescentes e jovens(mas não só), que enviam via celular ou postam na internet fotos de seus corpos nus, ou em poses sensuais . Devo retornar a esse tema com mais cuidado, em breve.


No mais, maiores significados devem ser buscados no significado da obra de Machado de Assis, sobreposta ao filme. Não é um trabalho fácil, mas Bressane nunca quis facilitar a vida de ninguém.

***A Erva do Rato está em cartaz na sala 7 do Frei Caneca Unibanco Arteplex (rua Frei Caneca ,569) somente às 18h10. Informações pelo fone: 3472-2365***

segunda-feira, 27 de julho de 2009

JUBIABÁ


JUBIABÁ é a adaptação para HQ do romance de mesmo nome escrito por Jorge Amado em 1935 e que conta a história do “negro valente e brigão” Antônio Balduíno, aquele que “ furtou mulata bonita,brigou com muito patrão” , desde sua infância no morro do Capa-Negro, interior da Bahia, até a idade adulta, em Salvador.
Naquilo que diz respeito apenas ao trabalho de Spacca, podemos lembrar da máxima de Flavio de Campos em seu livro Roteiro de cinema e televisão (Jorge Zahar) : “Uma adaptação só estará plenamente realizada se,ao final,ela se sustentar como obra autônoma”. O excesso de zelo e fidelidade à obra original pode custar um preço alto à alma da adaptação. Nesse sentido é quase didático o desencontro entre texto e imagem no filme Um Copo de Cólera, de Aluízio Abranches, que transpôs palavra por palavra o livro de Raduan Nassar. Já Lavoura Arcaica,de Luiz Fernando Carvalho, também uma adaptação de Nassar, se deu melhor pois soube transmitir a essência (e não apenas a superfície)do livro. A fidelidade canina também feriu de morte Watchmen, de Zack Snider, decalque sem alma dos quadrinhos de Alan Moore e Dave Gibbons.
No caso de uma adaptação literária, não para o cinema, mas para os quadrinhos, há um fator complicador : muitas vezes é quase uma obrigação manter algo do texto original, seja nos diálogos, seja na voz do narrador, dado que se lida não com a palavra falada (como no cinema) mas sim com a palavra escrita. Ainda mais quando se lida com um texto que tem ritmo, sonoridade e cadência próprias, como o do autor de Dona Flor e seus dois Maridos.
Spacca ,sempre reverente, cumpriu bem a tarefa de traduzir em imagens toda a riqueza descritiva do escritor baiano. Num único quadro de página inteira, onde nos mostra o jovem Antônio Balduíno caminhando altivo pelo Pelourinho, entendemos a maneira como o garoto briguento vive livre, como um pequeno rei, um Zumbi em seu Palmares. São preciosas as últimas páginas do álbum que trazem, além de estudos de roteiro e comparação com trechos do livro, esboços de Spacca. Lá é possível ver como ele poderia ter desenhado os personagens e cenários de maneira realista. Tivesse optado por isso, no entanto, entregaria um retrato fiel da Bahia da década de 1930, mas não conseguiria transmitir tão bem o espírito da obra. Seus desenhos são cheios de curvas, alegres e coloridos como a Bahia de Jorge Amado.Numa comparação bem livre, pode-se dizer que Spacca trilhou menos o caminho do retratismo de Debret ( pintor oficial do Brasil nos tempos do Império) e mais o da sensualidade e da liberdade no trato com as cores e formas, de Di Cavalcanti. E é por isso que devemos considerar esta HQ como uma obra autônoma, com identidade própria, não mero convite à leitura do romance.
Quanto à história , ela é exatamente a mesma do original , portanto aqui deixamos de falar do quadrinista para nos concentrar unicamente no romancista. Apesar de não ser obra madura(Jubiabá foi escrita mais de vinte anos antes de Gabriela cravo e canela) já se pode notar aqueles elementos que posteriormente serviriam de inspiração para que o antropólogo Roberto DaMatta escrever seu clássico A Casa e a Rua, um dos mais importantes estudos sobre a construção , organização e identidade da sociedade brasileira. Para ficar num único exemplo: a figura do Comendador Pereira, português que diz que cria Balduíno como a um filho, mas o trata como um senhor que permite que seu escravo more na Casa Grande. Esse personagem expressa muito do paternalismo e do racismo cordial que infelizmente ainda hoje imperam, assim como os garotos pedintes e sua lábia, que apenas migraram para os trens metropolitanos.
Agora, se o leitor quiser realmente saber quem é Jubiabá, que compre o álbum ou o romance.

terça-feira, 21 de julho de 2009

CÂNDIDA - Correção

Prontos para mais uma paspalhice deste blogueiro? Então vamos lá.
Eu disse que se tratava da "história da esposa de um pastor anglicano que se envolve com um poeta"(de onde surgiria um triângulo amoroso) ecoando o que diziam os guias de cultura dos jornais , que provavelmente repetiam o que lhes havia sido passado pela assessoria de imprensa. Errei e já lhes digo o porquê. Também adiantei que, em se tratando de George Bernard Shaw ,nada transcorreria de acordo com o previsto e não teríamos um melodrama.Nesse caso,enfim, um acerto.
Pra começar, Cândida não “se envolve” com o jovem poeta de origem nobre,mas sim passa a ser assediada por ele. Logo de início existe uma tensão sexual (apenas de início, por que depois é muito mais do que isso), mas não um triângulo amoroso. Mas interessa falar mais das virtudes da peça do que das limitações deste blog (uma pesquisa decente sobre o texto da peça teria evitado o erro).
O pastor, grande orador, é o homem da doutrina, do discurso. O poeta é pura exacerbação (e afetação) dos sentimentos ; tudo então parece se encaminhar para que a figura do jovem diabrete leve desassossego à vida pacata e monótona de dona de casa levada por Cândida, que se veria obrigada a optar entre segurança e aventura, amor e paixão, ou seja, entre a prosa e a poesia. Mas só parece(e eu fiz você,leitor, crer que era de fato isso o centro da peça)
É,na realidade, a figura de Cândida que,ao invés de ser passivo objeto de desejo masculino, joga luz sobre a fragilidade dos discursos(sejam eles oratória ou poesia) e das figuras humanas,sobretudo a tolice do orgulho masculino.
Não digo mais (e haveria muito a se dizer) sobre o risco de estragar o prazer de quem for assistir à peça. Para estes, aliás, um recado: atenção especial o significado que envolve o quadro “Assunção da Virgem” de Ticiano (pintor do Renascimento veneziano) .

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Merecedora de atenção também é a atuação de corpo inteiro dos atores. Bourbonnais, por exemplo, interpreta o pai de Cândida, sujeito autoritário, orgulhoso, arrogante e oportunista. O modo como o ator se move, a passos largos e pés que parecem ir cada um numa direção diz muito sobre o personagem. É um espetáculo a parte o modo como ele cumprimenta as pessoas, com a mão retesada e os dedos tão abertos quanto lhe fisicamente é possível. Seu genro, o pastor, é nesse sentido, seu oposto;retesado rijo, em tudo exprime firmeza.

terça-feira, 14 de julho de 2009

TEATRO CÂNDIDA / SENHORA DOS AFOGADOS


A dica não podia vir de fonte melhor;o ator João Bourbonnais, que fez o papel de Antero (pai da protagonista) no filme Falsa Loura visitou este blog e convidou a todos a assistirem as peças Cândida e Senhora dos Afogados, ambas do Núcleo experimental da Cooperativa Paulista de Teatro, companhia da qual faz parte.
Os dois espetáculos têm direção de Zé Henrique de Paula, sendo que Bourbonnais atua em “Cândida”, que conta também com a presença da atriz Bia Siedl (foto). A peça é originalmente um texto de 1895 do jornalista e dramaturgo irlandês George Bernard Shaw, um dos modernizadores do teatro inglês cuja obra mais famosa talvez seja Pigmalião(que deu origem ao musical My Fair Lady,no cinema estrelado por Audrey Hepburn). “Cândida” conta a história da esposa de um pastor anglicano que se envolve com um poeta; no entanto Shaw, com seu texto irônico e ácido e suas personagens femininas marcadamente inteligentes, não entrega o dramalhão que se pode supor de um triângulo amoroso desse tipo.
Já esta “Senhora dos Afogados” (que foi recentemente encenada pelo gigante Antunes Filho), é uma versão musical do texto de Nelson Rodrigues, em que a releitura do cronista carioca para a tragédia grega de Electra (aquela que planeja a morte da mãe por estar apaixonada pelo próprio pai) ganha o acompanhamento de onze canções brasileiras de compositores como Chico Buarque e Djavan.



Ambas as peças estão em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso às sextas, sábados e domingos, 21h30, 21h e 19h respectivamente.
O teatro fica na rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista, Centro.

Os ingressos custam R$ 20,00 (inteira).

Informações pelo fone (11) 3288-0136

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Quem ler o campo dos comentários poderá se divertir com mais uma mancada minha. Chamei de Anselmo o personagem de João Bourbonnais em Falsa Loura quando na verdade o nome correto era Antero...Mais um erro causado pela falta de atenção, exatamente como chamar de "fracasso" um disco que vendeu 20 milhões de cópias. Isso já está virando um blog de humor...De qualquer maneira, foi melhor do que dizer que Boris Karloff foi o vampiro mais famoso do cinema...Quem disse? A Folha de São Paulo, ora...heheheh

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A IMPRENSA E MICHAEL JACKSON


Apenas um complemento ao texto de ontem. Gay Talese, expoente do new jornalism, corrente norte americana que nos anos 1960 rompeu com os limites entre jornalismo e literatura, disse em entrevista à Folha de São Paulo que "a imprensa deve desculpas a Michael Jackson". Ele diz também que Gay Talese,que está no Brasil para participar da 7ªFLIP(Festa Literária Internacional de Paraty), na entrevista não se detém sobre a Internet, diz que "nem vale a pena discutir". Aliás, uma busca simples pelo nome do cantor no Google Imagens traz muito mais trucagens e piadas maldosas do que fotos de arquivo - é importante frisar aqui que Talese negligencia o potencial útil da internet,como as imagens gravadas por celular sobre a repressão no Irã que ganharam o mundo via o microblog Tweeter. Mas isso já é outro assunto.

Abaixo, transcrição de alguns trechos da matéria:



"A forma como o trataram é horrível" . Para ele,os problemas do astro pop-drogas,isolamento se agravaram pela forma irresponsável com que a imprensa lidou com as acusações de abuso sexual que pesavam sobre ele."Morreu difamado antes de ter morrido. Seja qual for a razão que o legista der para a morte,não vai fazer diferença.Ele começou a morrer quando as acusações ganharam as manchetes.Em conluio com os acusadores estava a mídia americana".



"Agora que Michael Jackson está morto todos se lamentam,como se sua morte fosse uma tragédia nacional. Mas ele já era uma tragédia nacional todos esses anos e ninguém o ajudou.Viveu em infâmia"





quarta-feira, 1 de julho de 2009

A RESSURREIÇÃO DO REI DO POP


Bem uns oito anos atrás, um amigo me disse, a propósito do volume altíssimo no qual eu ouvia Beat it (ou Billie Jean, não me lembro bem)no carro: “mulher nenhuma vai olhar pra nós enquanto você continuar tocando Michael Jackson”. Ele não estava errado. Até sua inesperada morte, o nome de Jackson era somente lembrado para falar de sua aparência cadavérica e de seu comportamento bizarro.
Um teórico da comunicação (não lembro quem,exatamente agora) afirmou certa vez que,ao olharmos para um quadro de Delacroix (1798-1863) vemos não só a obra - o exemplo era A Liberdade guiando o povo(1830)- , mas a somatória de interpretações que já foram feitas sobre ela, sob o filtro de nosso tempo e nossas experiências pessoais. Pois bem, estou inclinado a pensar que é o que se passou com M.J. No fim de semana seguinte a sua morte “99% dos DJs tocaram Michael Jackson” para usar as palavras do meu amigo DJ Mandio, ele próprio um desses. E o pessoal, eu incluso, dançava Billie Jean como se ela fosse uma das melhores canções pop de todos os tempo, o que de fato é. Fosse uma semana atrás a empolgação certamente não seria a mesma. Michael Jackson, que estava morto em vida, agora renasceu musicalmente.
O que mudou? Na minha opinião, a dramática morte fez com que ficasse para trás a imagem acumulada todos esses anos e prestássemos atenção somente à sua música. E o que antes era desprezo ou indiferença se converteu em homenagens. É possivel venham a surgir reavaliações de seus discos mais recentes.


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É muito delicado (apesar de fácil e tentador) atribuir parte da culpa à decadência da carreira de Michael Jackson à imprensa, uma vez que sua vida pessoal era envolta em mistério e bizarrices. Sua aparência também não ajudava nem um pouco. Mas me parece estranho que soa agora comece a se falar no vicio de Michael em Demerol, droga de uso rigorosamente controlado por ser extremamente viciante e cujo uso abusivo leva a uma deterioração física e psicológica. O medicamento é usada geralmente por pessoas que passam por algum tipo de sofrimento insuportável, não necessariamente físico. Os traumas da infância,a acusação de pedofilia,a carreira indo ladeira abaixo,o vitiligo, tudo isso contribuiu para o vício no Demeorol, vício este do qual ninguém falava,ou porque não tivessem fontes dispostas a dar a informação ou por que ninguém pensou em atribuir sua decadência física a outra coisa que não a um comportamento excêntrico.
Ao morrer, Michael, que tinha mais de um metro e 70 de altura, pesava pouco mais de 50 kg e estava careca,boa parte culpa do Demerol ,que, além de tudo, inibe o apetite. Por aí se mede seu sofrimento.



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Vale uma correção ao texto anterior, causada menos por desconhecimento e mais por desatenção: HIStory não foi um fracasso comercial (vendeu 20 milhões de cópias), ao passo que o disco seguinte, Invencible, de 2001,vendeu bem menos, 10 milhões de discos. Mesmo assim está longe de ser um fracasso. Thriller,claro,não é parâmetro para nada. Não foi dado,no entanto, importância devida à sua música. Enquanto a imprensa e a crítica musical louvava a reinvenção de Madonna e o fato dela estar cercada pelos melhores DJs e produtores musicais da atualidade, nem um nem outro dedicava atenção aos discos de M.J, cujas músicas ,se não estavam no mesmo nível das de Madonna, por vezes chegavam porto. Uma coisa não tem a ver om a outra, mas apenas para efeito de comparação, vale lembrar que a produção inicial da cantora tem uma sonoridade anos 80 tão indelével quanto uma marca d´água, o que fez com que envelhecesse mal. Já o som de Jackson, seja o de Off the Wall , Thriller ou tudo o que foi feito antes, continua extremamente fresco,com exceção das baladas, estas sim, impiedosamente marcadas pelo tempo.



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Já que o assunto é música , vale lembrar o samba imortal de Nelson Cavaquinho,
“Quando eu me chamar Saudade”.



Sei que amanhã quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha bom coração
Alguns hão até de chorar
E querer me homenagear
Fazendo de ouro um violão
Mas depois que o tempo passar
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora
Por isso é que eu penso assim
Se alguém há de fazer por mim
Que faça agora
Me dê as flores em vida
O carinho da mão amiga
Para aliviar meus ais
Depois que eu me chamar saudade
Não preciso de vaidade
Quero preces e nada mais