terça-feira, 18 de agosto de 2009

GAMES E ARTES PLÁSTICAS NO ITAÚ CULTURAL


Interatividade é a palavra chave para se compreender a exposição GamePlay que fica no Instituto Cultural só até o dia 30 deste mês e é composta por 6 instalações artísticas e 11 jogos, entre eles Halo 3 , Mario Kart wii e Fifa Street 3. Mais do que promover um encontro entre as artes plásticas e os games, a exposição busca explorar o conceito de gameplay, um “conjunto de experiências interativas entre 2 ou mais sistemas, humanos ou artificiais” e testar seu alcance. A atenção da curadoria se voltou para a capacidade única dos games de prenderem a atenção de quem joga (que é muito maior do que a de quem vê um filme ou admira uma obra de arte) e de tornarem possível uma autêntica troca de experiências entre a máquina e o jogador. Isso tudo se reflete nas instalações, que só se completam quando o visitante entra em ação. É assim com a melhor obra, “KinoArcade Machine”, em que um fliperama exibe o clássico Encouraçado Potemkin (1925), de Sergei Eisenstein. Extrapolando a tradicional ligação entre games e cinema (filmes que viram jogos e vive versa), este Arcade permite que o visitante, através dos botões e do joystick, interfira na textura e na ordem das imagens, acrescentando inclusive cores que inexistem no filme original, criando uma obra nova que não pode jamais ser reproduzida.
A GamePlay coincidiu com o 7º Simpósio Internacional de Artemídia e Linguagens Digitais (que aconteceu entre 7 e 12 de agosto no quase vizinho prédio da Casa das Rosas) e com o lançamento do livro ArteMidia e Cultura Digital, organização de Artur Matuck e Jorge Luis Antonio em que intelectuais se debruçaram sobre conceitos como realidade virtual, cibermídia, arquitetura líquida e games.
Olhar os jogos eletrônicos com atenção não é novidade;o próprio ItaúCultural já promoveu em 2002 outra exposição, a “Game o quê?” , onde o foco era a evolução tecnológica e as possibilidades criadas pela linguagem digital. Um ano antes o professor do MIT(Massachusetts Institute of Technology) dizia “chegou a hora de levar os jogos a sério como uma forma popular de arte que moldará a sensibilidade do século 21” lembrando de outras artes populares que por muito tempo foram vistas com desdém, como o Cinema, o Jazz e as Histórias em Quadrinhos*.
Agora, no entanto, quando se solidificam conceitos como “pós-humano” e “cíbrido” (a presença ao mesmo tempo no mundo físico e no ciberespaço) é que se pode medir a importância dos games, para além de sua relação com a industria do cinema ou da crescente sofisticação tecnológica. É a interação possibilitada por estes jogos que abre as portas do novo século.


O Itaú Cultural fica na Av Paulista 149 (próximo à estação Brigadeiro do Metrô) e está aberto à visitação de terça a sexta, das 10h às 21h e aos sábados e domingos, das 10h às 19h.
A entrada é gratuita e o visitante também não paga para jogar, precisa apenas retirar uma senha.
Mais informações em
http://www.itaucultural.org.br/gameplay/


* publicado originalmente na Technology Review e reproduzido pela Folha de São Paulo no Caderno Mais de 14/01/2001.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

HIPER-REALISMO




A primeira imagem, assim como a da postagem anterior, é uma escultura do artista plástico Ron Mueck feita em espuma de poliuretano e fibra acrílica, materiais comuns à construção de modelos para o cinema, principalmente para filmes de terror e ficção científica. A segunda, a foto de uma bailarina adolescente imitando a pose de uma réplica em bronze (como a que está no MASP) da escultura de Degas de que falarei mais adiante.
Muita gente deve se lembrar de “A Nona Hora”, polêmica escultura do espanhol Maurizio Catellan, em que o papa João Paulo 2º aparecia esparramado pelo chão, atingido por um meteoro e que, claro, causou protestos por parte da comunidade católica.A escultura fora feita num momento em que o Papa estava em cirrado confronto com idéias científicas, as quais Catellan represnetou na forma do meteoro.
São esculturas chamadas de hiper-realistas. Quem é fanático por Action Figures (os bonequinhos para marmanjos- pausa: eu mesmo comprei um, semana passada) sabe bem a que nível de perfeição produtos industrializados podem chegar. Uma miniatura de aprox. 40 cm de Marlon Brando em o Poderoso Chefão é de uma semelhança impressionante. Por aí, ainda que o trabalho de Muek ou Castellan seja muito superior tecnicamente, que a grande questão não está na semelhança com este ou aquele modelo. A primeira imagem é a obra “Um Fantasma” , de 1998 e que, apesar de seus 12 m de altura (ou até mesmo por isso), transmite de forma aguda toda a fragilidade de um adolescente em contato/confronto com o mundo.
A maior ou menor semelhança com um modelo (ideal ou real) deixou de ser a questão ou o objetivo da arte já no Séc.19, com Cèzanne, Gauguin e Van Gogh (lembremos que o impressionismo buscava uma fidelidade de outra ordem, científica, ao reproduzir perfeitamente o espectro das cores no olho de quem vê a obra). Cubismo, surrealismo, expressionismo e outras vanguardas radicalizaram e ampliaram essas conquistas.
No entanto, foi ainda durante o impressionismo que Degas, mais conhecido pelo seu trabalho com giz pastel, fez em 1878 “A pequena bailarina de 14 anos” escultura em cera coberta com tecidos , tal qual uma pequena boneca. No entanto era tamanho seu realismo que, quando de sua exposição, críticos sugeriram que seu lugar era o museu de etnografia (onde ficavam animais empalhados e reconstituições de ancestrais humanos )e a tacharam de grotesca. Apesar de seu realismo, era minúscula, o que criava o mal-estar. No entanto, Degas, ao lidar num só tempo com o real e o fantástico, travava ali um diálogo poderoso com seu tempo. Da postura a um só tempo altiva e arrogante da bailarina à sua posição social dúbia (grandiosa nos palcos, desqualificada fora deles – as bailarinas eram de famílias pobres, no entanto eram admiradas por ricos burgueses e muitas se tornavam suas amantes) está tudo nessa pequena criatura que era construída com material nada nobre (cera) e recoberta com roupas em tecido e que ainda tinha uma peruca, o que só contribuía para a rejeição do público. Degas, naquele momento, impunha uma questão ao realismo, que era o de qual seria seu lugar na História da Arte, qual sua função.
A atual geração dos hiper realistas encara novamente essa questão sob uma perspectiva ainda mais ampla, afinal o realismo deixou de ser a perfeita imitação da natureza dos tempos de Caravaggio ou Velazquez , tanto quando o retrato sem retoques da homem do povo levado a cabo pela geração naturalista de Courbet ou Daumier. Que sentido tem o realismo num tempo em que a imagem fotográfica ou cinematográfica, em decorrência da manipulação digital, perdeu seu estatuto de portadora da verdade documental ?
Mais do que ser perfeita como uma actionfigure, essas esculturas são obras de arte, por que a arte, afinal, é um discurso sobre a realidade.
PS. Mais uma vez peço desculpas ao leitor, afinal este texto estava prometido para segunda-feira.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Por hora vou apenas dizer que a imagem é uma escultura de uma corrente artística chamada hiper-realismo . A intenção não é fazer suspense, trata-se apenas de falta de tempo . Segunda feira retomo o tema. Até lá.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

UM ANO


Termina Julho e posso dizer que este blog comemora um ano de existência. Durante esse período, passaram por aqui figuras ilustríssimas como os Professores Doutores(e especialistas em quadrinhos) Roberto Elisio e Waldomiro Vergueiro, o premiado escritor Luis Ruffato, o quadrinista mais roker do Brasil, Mario Baraldi e brilhante ator João Bourbonnais. A todos eles e a vocês, leitores, meu muito obrigado e um enorme abraço !
Até a próxima postagem !


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A primeira postagem foi sobre o personagem dos quadrinhos de Eugenio Colonnese, Mirza. Ressaltei seu caráter hibrido,antropofágico , que unia os clichês das lendas de vampiros aos cenários dos filmes de Drácula da Hammer `a praia ensolarada na qual a vampira se bronzeava. Para comemorar o aniversário com o mesmo tema, lembro que num desses domingos após a morte de Michael Jackson, num programa de auditório o MC Créu fez sua versão de Triller, com uma jaqueta vermelha e bailarinos maquiados como zumbis. Na maior parte do tempo ele repetiu a coreografia, até que os mortos-vivos fizeram um trenzinho sacana, típico do funk carioca. Mirza era bem isso aí.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

A ERVA DO RATO


A Erva do Rato é um filme estranhíssimo em que coisas estranhas acontecem o tempo todo. Quem for à única sala de cinema em que ele é exibido buscando “entender” alguma coisa, ou perderá seu tempo ou terá de voltar outras vezes e fazer uma análise cuidadosa, porque é assim o cinema do Júlio Bressane,poético, composto de figuras de linguagem e que presta muito mais à experiência do que à compreensão completa.Um cinema,enfim, de significantes mais do que de significados. Por isso apenas amontôo aqui algumas observações :

Há presença significativa e recorrente do mar (ou do elemento água) que muitas vezes se faz presente apenas como som e que ora empresta seu significado à cena mostrada, ora funciona como um comentário/complemento. É também íntima a relação água-sexo-morte que percorre todo o filme e está maravilhosamente explicitada num único movimento de câmera, não por acaso o primeiro, em que a imagem se desloca de uma paisagem de praia belíssima para um pequeno cemitério, onde estão os dois únicos personagens do filme,interpretados por Selton Mello e Alessandra Negrini.

Há uma relação sexual que nunca se concretiza, pela repulsa que ambos personagens parece ter ao sexo e que está encarnada na figura do rato, que é o próprio desejo, ao mesmo tempo invasivo e abjeto, vida e morte e que escapa a quase toda tentativa de freá-lo.
Uma abóbora aberta e o rato a entrar e sair dela, representação do sexo repulsivo, da invasão odiosa aos olhos do homem amedrontado.


Há este casal que não ousam tocar-se e cujo erótico só se manifesta intermediado pela câmera fotográfica. A profusão de espelhos ao longo do filme demosntra e que refletem os atores destaca a importância da imagem. Esta é para ele perfeita, não a mulher e a ira dele contra o rato começa por que esse rói as fotos. Numa cena magnífica vemos ele fotograando Negrini a uma boa distância. Sua sombra, no entanto, assim que ele toca com a mão a câmera fotográfica , projeta-se sobre ela, tocando seus seios. Ao fundo, no espelho, a imagem é projetada de modo que eles parecem estar se beijando.


Seria um comentário a isso tudo o fato de, durante os créditos finais aparecer Bressane dirigindo a dupla de atores, para nos lembrar da representação, dessa existência dupla intermediada pela câmera?- o cinema não é mais do que fotografias em movimento.
E há, por fim, sequencias poderosas, que começam ridículas, quase cômicas, mas que de tão longas causam desconforto, como a do cadáver(não explico para não tirar o impacto de quem for assistir) ou a dos “espectadores” da nudez de Negrini.


Pode ser apenas coincidência, mas grandes obras extrapolam seu intento original. A Erva do Rato parece dialogar com uma mania que, se tem origem com a invenção da fotografia(ou até antes) agora ganha dimensão incomparável, que é a da excitação pela fotografia, pelo filme, como se ele tivesse uma vida independente do corpo. Hoje isso é chamado de sexting e virou mania entre adolescentes e jovens(mas não só), que enviam via celular ou postam na internet fotos de seus corpos nus, ou em poses sensuais . Devo retornar a esse tema com mais cuidado, em breve.


No mais, maiores significados devem ser buscados no significado da obra de Machado de Assis, sobreposta ao filme. Não é um trabalho fácil, mas Bressane nunca quis facilitar a vida de ninguém.

***A Erva do Rato está em cartaz na sala 7 do Frei Caneca Unibanco Arteplex (rua Frei Caneca ,569) somente às 18h10. Informações pelo fone: 3472-2365***

segunda-feira, 27 de julho de 2009

JUBIABÁ


JUBIABÁ é a adaptação para HQ do romance de mesmo nome escrito por Jorge Amado em 1935 e que conta a história do “negro valente e brigão” Antônio Balduíno, aquele que “ furtou mulata bonita,brigou com muito patrão” , desde sua infância no morro do Capa-Negro, interior da Bahia, até a idade adulta, em Salvador.
Naquilo que diz respeito apenas ao trabalho de Spacca, podemos lembrar da máxima de Flavio de Campos em seu livro Roteiro de cinema e televisão (Jorge Zahar) : “Uma adaptação só estará plenamente realizada se,ao final,ela se sustentar como obra autônoma”. O excesso de zelo e fidelidade à obra original pode custar um preço alto à alma da adaptação. Nesse sentido é quase didático o desencontro entre texto e imagem no filme Um Copo de Cólera, de Aluízio Abranches, que transpôs palavra por palavra o livro de Raduan Nassar. Já Lavoura Arcaica,de Luiz Fernando Carvalho, também uma adaptação de Nassar, se deu melhor pois soube transmitir a essência (e não apenas a superfície)do livro. A fidelidade canina também feriu de morte Watchmen, de Zack Snider, decalque sem alma dos quadrinhos de Alan Moore e Dave Gibbons.
No caso de uma adaptação literária, não para o cinema, mas para os quadrinhos, há um fator complicador : muitas vezes é quase uma obrigação manter algo do texto original, seja nos diálogos, seja na voz do narrador, dado que se lida não com a palavra falada (como no cinema) mas sim com a palavra escrita. Ainda mais quando se lida com um texto que tem ritmo, sonoridade e cadência próprias, como o do autor de Dona Flor e seus dois Maridos.
Spacca ,sempre reverente, cumpriu bem a tarefa de traduzir em imagens toda a riqueza descritiva do escritor baiano. Num único quadro de página inteira, onde nos mostra o jovem Antônio Balduíno caminhando altivo pelo Pelourinho, entendemos a maneira como o garoto briguento vive livre, como um pequeno rei, um Zumbi em seu Palmares. São preciosas as últimas páginas do álbum que trazem, além de estudos de roteiro e comparação com trechos do livro, esboços de Spacca. Lá é possível ver como ele poderia ter desenhado os personagens e cenários de maneira realista. Tivesse optado por isso, no entanto, entregaria um retrato fiel da Bahia da década de 1930, mas não conseguiria transmitir tão bem o espírito da obra. Seus desenhos são cheios de curvas, alegres e coloridos como a Bahia de Jorge Amado.Numa comparação bem livre, pode-se dizer que Spacca trilhou menos o caminho do retratismo de Debret ( pintor oficial do Brasil nos tempos do Império) e mais o da sensualidade e da liberdade no trato com as cores e formas, de Di Cavalcanti. E é por isso que devemos considerar esta HQ como uma obra autônoma, com identidade própria, não mero convite à leitura do romance.
Quanto à história , ela é exatamente a mesma do original , portanto aqui deixamos de falar do quadrinista para nos concentrar unicamente no romancista. Apesar de não ser obra madura(Jubiabá foi escrita mais de vinte anos antes de Gabriela cravo e canela) já se pode notar aqueles elementos que posteriormente serviriam de inspiração para que o antropólogo Roberto DaMatta escrever seu clássico A Casa e a Rua, um dos mais importantes estudos sobre a construção , organização e identidade da sociedade brasileira. Para ficar num único exemplo: a figura do Comendador Pereira, português que diz que cria Balduíno como a um filho, mas o trata como um senhor que permite que seu escravo more na Casa Grande. Esse personagem expressa muito do paternalismo e do racismo cordial que infelizmente ainda hoje imperam, assim como os garotos pedintes e sua lábia, que apenas migraram para os trens metropolitanos.
Agora, se o leitor quiser realmente saber quem é Jubiabá, que compre o álbum ou o romance.

terça-feira, 21 de julho de 2009

CÂNDIDA - Correção

Prontos para mais uma paspalhice deste blogueiro? Então vamos lá.
Eu disse que se tratava da "história da esposa de um pastor anglicano que se envolve com um poeta"(de onde surgiria um triângulo amoroso) ecoando o que diziam os guias de cultura dos jornais , que provavelmente repetiam o que lhes havia sido passado pela assessoria de imprensa. Errei e já lhes digo o porquê. Também adiantei que, em se tratando de George Bernard Shaw ,nada transcorreria de acordo com o previsto e não teríamos um melodrama.Nesse caso,enfim, um acerto.
Pra começar, Cândida não “se envolve” com o jovem poeta de origem nobre,mas sim passa a ser assediada por ele. Logo de início existe uma tensão sexual (apenas de início, por que depois é muito mais do que isso), mas não um triângulo amoroso. Mas interessa falar mais das virtudes da peça do que das limitações deste blog (uma pesquisa decente sobre o texto da peça teria evitado o erro).
O pastor, grande orador, é o homem da doutrina, do discurso. O poeta é pura exacerbação (e afetação) dos sentimentos ; tudo então parece se encaminhar para que a figura do jovem diabrete leve desassossego à vida pacata e monótona de dona de casa levada por Cândida, que se veria obrigada a optar entre segurança e aventura, amor e paixão, ou seja, entre a prosa e a poesia. Mas só parece(e eu fiz você,leitor, crer que era de fato isso o centro da peça)
É,na realidade, a figura de Cândida que,ao invés de ser passivo objeto de desejo masculino, joga luz sobre a fragilidade dos discursos(sejam eles oratória ou poesia) e das figuras humanas,sobretudo a tolice do orgulho masculino.
Não digo mais (e haveria muito a se dizer) sobre o risco de estragar o prazer de quem for assistir à peça. Para estes, aliás, um recado: atenção especial o significado que envolve o quadro “Assunção da Virgem” de Ticiano (pintor do Renascimento veneziano) .

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Merecedora de atenção também é a atuação de corpo inteiro dos atores. Bourbonnais, por exemplo, interpreta o pai de Cândida, sujeito autoritário, orgulhoso, arrogante e oportunista. O modo como o ator se move, a passos largos e pés que parecem ir cada um numa direção diz muito sobre o personagem. É um espetáculo a parte o modo como ele cumprimenta as pessoas, com a mão retesada e os dedos tão abertos quanto lhe fisicamente é possível. Seu genro, o pastor, é nesse sentido, seu oposto;retesado rijo, em tudo exprime firmeza.

terça-feira, 14 de julho de 2009

TEATRO CÂNDIDA / SENHORA DOS AFOGADOS


A dica não podia vir de fonte melhor;o ator João Bourbonnais, que fez o papel de Antero (pai da protagonista) no filme Falsa Loura visitou este blog e convidou a todos a assistirem as peças Cândida e Senhora dos Afogados, ambas do Núcleo experimental da Cooperativa Paulista de Teatro, companhia da qual faz parte.
Os dois espetáculos têm direção de Zé Henrique de Paula, sendo que Bourbonnais atua em “Cândida”, que conta também com a presença da atriz Bia Siedl (foto). A peça é originalmente um texto de 1895 do jornalista e dramaturgo irlandês George Bernard Shaw, um dos modernizadores do teatro inglês cuja obra mais famosa talvez seja Pigmalião(que deu origem ao musical My Fair Lady,no cinema estrelado por Audrey Hepburn). “Cândida” conta a história da esposa de um pastor anglicano que se envolve com um poeta; no entanto Shaw, com seu texto irônico e ácido e suas personagens femininas marcadamente inteligentes, não entrega o dramalhão que se pode supor de um triângulo amoroso desse tipo.
Já esta “Senhora dos Afogados” (que foi recentemente encenada pelo gigante Antunes Filho), é uma versão musical do texto de Nelson Rodrigues, em que a releitura do cronista carioca para a tragédia grega de Electra (aquela que planeja a morte da mãe por estar apaixonada pelo próprio pai) ganha o acompanhamento de onze canções brasileiras de compositores como Chico Buarque e Djavan.



Ambas as peças estão em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso às sextas, sábados e domingos, 21h30, 21h e 19h respectivamente.
O teatro fica na rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista, Centro.

Os ingressos custam R$ 20,00 (inteira).

Informações pelo fone (11) 3288-0136

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Quem ler o campo dos comentários poderá se divertir com mais uma mancada minha. Chamei de Anselmo o personagem de João Bourbonnais em Falsa Loura quando na verdade o nome correto era Antero...Mais um erro causado pela falta de atenção, exatamente como chamar de "fracasso" um disco que vendeu 20 milhões de cópias. Isso já está virando um blog de humor...De qualquer maneira, foi melhor do que dizer que Boris Karloff foi o vampiro mais famoso do cinema...Quem disse? A Folha de São Paulo, ora...heheheh

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A IMPRENSA E MICHAEL JACKSON


Apenas um complemento ao texto de ontem. Gay Talese, expoente do new jornalism, corrente norte americana que nos anos 1960 rompeu com os limites entre jornalismo e literatura, disse em entrevista à Folha de São Paulo que "a imprensa deve desculpas a Michael Jackson". Ele diz também que Gay Talese,que está no Brasil para participar da 7ªFLIP(Festa Literária Internacional de Paraty), na entrevista não se detém sobre a Internet, diz que "nem vale a pena discutir". Aliás, uma busca simples pelo nome do cantor no Google Imagens traz muito mais trucagens e piadas maldosas do que fotos de arquivo - é importante frisar aqui que Talese negligencia o potencial útil da internet,como as imagens gravadas por celular sobre a repressão no Irã que ganharam o mundo via o microblog Tweeter. Mas isso já é outro assunto.

Abaixo, transcrição de alguns trechos da matéria:



"A forma como o trataram é horrível" . Para ele,os problemas do astro pop-drogas,isolamento se agravaram pela forma irresponsável com que a imprensa lidou com as acusações de abuso sexual que pesavam sobre ele."Morreu difamado antes de ter morrido. Seja qual for a razão que o legista der para a morte,não vai fazer diferença.Ele começou a morrer quando as acusações ganharam as manchetes.Em conluio com os acusadores estava a mídia americana".



"Agora que Michael Jackson está morto todos se lamentam,como se sua morte fosse uma tragédia nacional. Mas ele já era uma tragédia nacional todos esses anos e ninguém o ajudou.Viveu em infâmia"





quarta-feira, 1 de julho de 2009

A RESSURREIÇÃO DO REI DO POP


Bem uns oito anos atrás, um amigo me disse, a propósito do volume altíssimo no qual eu ouvia Beat it (ou Billie Jean, não me lembro bem)no carro: “mulher nenhuma vai olhar pra nós enquanto você continuar tocando Michael Jackson”. Ele não estava errado. Até sua inesperada morte, o nome de Jackson era somente lembrado para falar de sua aparência cadavérica e de seu comportamento bizarro.
Um teórico da comunicação (não lembro quem,exatamente agora) afirmou certa vez que,ao olharmos para um quadro de Delacroix (1798-1863) vemos não só a obra - o exemplo era A Liberdade guiando o povo(1830)- , mas a somatória de interpretações que já foram feitas sobre ela, sob o filtro de nosso tempo e nossas experiências pessoais. Pois bem, estou inclinado a pensar que é o que se passou com M.J. No fim de semana seguinte a sua morte “99% dos DJs tocaram Michael Jackson” para usar as palavras do meu amigo DJ Mandio, ele próprio um desses. E o pessoal, eu incluso, dançava Billie Jean como se ela fosse uma das melhores canções pop de todos os tempo, o que de fato é. Fosse uma semana atrás a empolgação certamente não seria a mesma. Michael Jackson, que estava morto em vida, agora renasceu musicalmente.
O que mudou? Na minha opinião, a dramática morte fez com que ficasse para trás a imagem acumulada todos esses anos e prestássemos atenção somente à sua música. E o que antes era desprezo ou indiferença se converteu em homenagens. É possivel venham a surgir reavaliações de seus discos mais recentes.


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É muito delicado (apesar de fácil e tentador) atribuir parte da culpa à decadência da carreira de Michael Jackson à imprensa, uma vez que sua vida pessoal era envolta em mistério e bizarrices. Sua aparência também não ajudava nem um pouco. Mas me parece estranho que soa agora comece a se falar no vicio de Michael em Demerol, droga de uso rigorosamente controlado por ser extremamente viciante e cujo uso abusivo leva a uma deterioração física e psicológica. O medicamento é usada geralmente por pessoas que passam por algum tipo de sofrimento insuportável, não necessariamente físico. Os traumas da infância,a acusação de pedofilia,a carreira indo ladeira abaixo,o vitiligo, tudo isso contribuiu para o vício no Demeorol, vício este do qual ninguém falava,ou porque não tivessem fontes dispostas a dar a informação ou por que ninguém pensou em atribuir sua decadência física a outra coisa que não a um comportamento excêntrico.
Ao morrer, Michael, que tinha mais de um metro e 70 de altura, pesava pouco mais de 50 kg e estava careca,boa parte culpa do Demerol ,que, além de tudo, inibe o apetite. Por aí se mede seu sofrimento.



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Vale uma correção ao texto anterior, causada menos por desconhecimento e mais por desatenção: HIStory não foi um fracasso comercial (vendeu 20 milhões de cópias), ao passo que o disco seguinte, Invencible, de 2001,vendeu bem menos, 10 milhões de discos. Mesmo assim está longe de ser um fracasso. Thriller,claro,não é parâmetro para nada. Não foi dado,no entanto, importância devida à sua música. Enquanto a imprensa e a crítica musical louvava a reinvenção de Madonna e o fato dela estar cercada pelos melhores DJs e produtores musicais da atualidade, nem um nem outro dedicava atenção aos discos de M.J, cujas músicas ,se não estavam no mesmo nível das de Madonna, por vezes chegavam porto. Uma coisa não tem a ver om a outra, mas apenas para efeito de comparação, vale lembrar que a produção inicial da cantora tem uma sonoridade anos 80 tão indelével quanto uma marca d´água, o que fez com que envelhecesse mal. Já o som de Jackson, seja o de Off the Wall , Thriller ou tudo o que foi feito antes, continua extremamente fresco,com exceção das baladas, estas sim, impiedosamente marcadas pelo tempo.



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Já que o assunto é música , vale lembrar o samba imortal de Nelson Cavaquinho,
“Quando eu me chamar Saudade”.



Sei que amanhã quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha bom coração
Alguns hão até de chorar
E querer me homenagear
Fazendo de ouro um violão
Mas depois que o tempo passar
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora
Por isso é que eu penso assim
Se alguém há de fazer por mim
Que faça agora
Me dê as flores em vida
O carinho da mão amiga
Para aliviar meus ais
Depois que eu me chamar saudade
Não preciso de vaidade
Quero preces e nada mais

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O ADEUS AO REI DO POP


Basicamente tudo já foi dito sobre a morte de Michael Jackson. Da cobertura ostensiva da CNN às entrevistas com músicos da Band News, passando pelas estupidezas de Nelson Rubens e Luciana Gimenes, sem contar os cadernos especiais dos jornais, lembrou-se a infância sofrida, o fenômeno precoce, a fase de “rei do pop”e,claro, as mudanças na aparência, o comportamento estranho e os escândalos envolvendo acusações de pedofilia. O que resta então a este blog dizer? Muito pouco. Mas é bom lembrar do impacto de sua arte.
Os Jackson Five,onde o menino Michael estreou aos em 1965 aos 5 anos de idade, eram uma boy band,claro que eram. Mas isso no tempo em que boy band era coisa para gente do calibre de Smoking Robinson,Isley Brothers e Temptaions. E foram a última grande sacada da Motown, gravadora de hitmakers por excelência que deu ao mundo não só os grupos já citados como também Marvin Gaye e Diana Ross e que se destinava a fazer música negra para ser vendida para brancos.
Antes de serem pinçados pela Motown,no entanto, eles gravavam pela naninca Steeltown, onde emulavam o som de Chicago (da gravadora Chess) com versões de clássicos do blues como Stormy Monday, e do doo wop, como My Girl.
A veia pop do grupo era tamanha que eles estrearam em 1970 na Motown com uma inacreditável sequencia de três músicas a atingirem o primeiro lugar das paradas. “I Want You Back”, “ABC” e “The Love you Save” chegaram ao topo não só da parada de R&B, reservada à música negra, mas também da chamada parada Pop,onde competiam om músicos brancos pela atenção do público branco que nos EUA, vale lembrar, é maioria. Eles eram,naquele momento, como Elvis ou os Beatles. Um ano depois cravaram a dolorida “Never can Say Goodbye”(gravada ao mesmo tempo que a versão do monstro Isaac Hayes)em primeiro lugar da parada de R&B e segundo da de Pop music.O feito foi quase repetido pela romântica “Got to be There”, (quarto lugar em ambas paradas)na primeira gravação solo de Michael. Em 1972, ainda solo, a dobradinha de segundo lugar com a animadíssima Rockin´Robin,com direito a um “tchu bi ri bi doo” assobiado por M.J. Daí se seguiram sucessos como a melosa “Ben” até a grande virada em 1979, com “Off the Wall”, para muitos,musicalmente o melhor disco da carreira do cantor. Daí em diante o resto é Thriller e história.


Abaixo, uma escolha completamente aleatória de álbuns e músicas para quem quiser aproveitar que as lojas estão oferecendo tudo o que tiverem de Michael Jackson no estoque.




The SteelTown Sessions: 1965-1967 – Aqui pode-se ver o quanto já havia de talento no grupo dos filhos de Joe Jackson antes de serem burilados por Berry Gordy e sua Motown. Uma adorável Big Boy escancara o encanto da voz de Michael, que coloca todo mundo pra se mexer sua versão de Under the BroadWalk.
Jackson Five:The Ultimate Colection –Da trinca de ouro (I Want You Back, ABC e The Love you Save) a pérolas desconhecidas como Dancing Machine e The Life of the Party, ambas de 1974.Coletânea de rara qualidade.
SkyWriter (1973)- Álbum irregular do J5,mas que traz as ótimas "Upper Most" e "The BoogieMan".
Blood on the DanceFloor-HIStory in the Mix(1997) – disco produzido pelo próprio Michael Jackson com remixes do fracasso comercial HIStory. Deveria corrigir a injustiça,mas a atenção sobre sua vida pessoal foi maior do que a sobre o álbum. Ficaram imperdoavelmente esquecidas músicas poderosas como “Morphine” e “Blood on the DanceFloor” (composição em parceria com Teddy Riley) que, sozinhas, são melhores do que todo álbum Bad (1987).

quinta-feira, 25 de junho de 2009

O MÉDICO E O MONSTRO




Ontem, após indiciamento do médico Roger Abdelmassih pela justiça, ressuscitou na imprensa o caso do especialista em reprodução humana acusado de molestar sexualmente várias de suas pacientes. O número de acusações variava de emissora para emissora;ora eram 60,ora 70. Nos jornais impressos, a notícia correu o país,na internet, claro, se espalhou como vírus.
Não é a intenção deste texto acusar ou defender Abdelmassih;para defendê-lo há seu advogado, para acusá-lo, já existe a TV e todo o resto da blogosfera.
Se ele praticou tais atos ou não, fica a cargo da justiça dizer. O que não impede a repercussão da coisa toda,claro.Uma tia minha com aguçado senso de humor disse que finalmente havia descoberto o pai dos filhos do apresentador Augusto Liberato, o Gugu,numa alusão ao boato que dá conta de sua suposta homossexualidade, explorada inclusive pelos humoristas do Pânico, com o personagem Glu-Glu. Genial.
O que interessa aqui, de fato, é o tratamento da imprensa em casos de linchamento moral,como este. Foi destaque o fato do médico ter ouvido calado sua intimação,como se isso fosse crime. Não é. Aliás, é um direito. Também foi dado como atestado de culpa o fato dele ter saído pelos fundos da delegacia. Não é crime recusar-se a dar entrevista.
Mas um caso em particular se destaca,como sempre. É José Luis Datena e seu grotesco “Brasil Urgente”, que não perde a oportunidade diária de fazer sua farra do boi com o estardalhaço de um Boi Bumbá por cima de cadáveres insepultos.
A receita de Datena é simples: ele diz apenas aquilo que seu espectador médio pensa, fazendo uso do senso comum; para ele, investigar, dar uma chance à dúvida está fora de questão pois isso enfraqueceria seu caráter de justiceiro. Aliás, a analogia com o personagem da Marvel Comics é interessante. Geraldinho Vieira em seu livro “Complexo de Clark Kent” (Summus Editorial,1991)ensina que a maior tentação do jornalista é a de fazer justiça, de achar que sua profissão o capacita a ser um super-herói. “ O poder da palavra,da imagem,da seleção dos fatos,e de sua multiplicação cria a ilusão do repórter super-homem,como,a começar pela tradicional história em quadrinhos,foi tantas vezes utilizada pela ficção”, diz, e completa a ficção coloriu uma profissão onde o dia-a-dia é uma maravilhosa aventura no combate aos males sociais e na procura da verdade,onde as portas parecem abertas a toda sorte de liberdade,da manipulação da realidade ao acesso e divulgação da informação”.
. Quem vê a si mesmo como herói e enxerga o mundo através de simples antagonismos, exime-se da dúvida no exercíio de suia profissão, fundamental no jornalismo. Datena parece ver a si mesmo como o personagem da Marvel que surgiu como um vilão nas histórias do Homem Aranha, mais foi alçado a herói a medida que o radicalismo de direita progredia nos EUA.Justiceiro(Punisher,no original) não é como os outros heróis, ele não dá socos e prende os vilões, mas os fuzila sem piedade. Ele pune(o nome em inglês é melhor por que exclui a noção de justiça) aqueles que considera errados, aqueles cuja conduta não está de acordo com seu código facista de moral. A HQ, e os filmes, mostram,claro, que ele está sempre certo. Datena é o mesmo caso. Para ele não basta acusar, é preciso agredir,destruir. Pouca gente se lembra, mas foi dessa maneira que ele procedeu quando surgiu uma denúncia de que uma jovem mãe colocava cocaína na mamadeira de seu filho(ou filha, não me recordo bem). Ela foi presa sob a fúria televisiva típica e,na cadeia, teve seu tímpano perfurado por uma caneta enfiada por uma outra detenta, indignada com a história.A moça, depois ficou provado era inocente e não havia cocaína alguma na história, e sim uma tipo de farináceo e uma denúncia falsa.
Datena,claro, nunca se retratou na TV. Pergunte a qualquer pessoa que assiste o Brasil Urgente o que pensa do apresentador e você terá, quase sempre, a mesma resposta: “ele fala verdade, doa a quem doer”. O conceito de verdade (junto de uma busca por “restabelecer a moral) é sempre a justificativa para todo tipo de atrocidade, seja um ataque terrorista , seja um golpe ditatorial. A dor, nesses casos, é um “mal necessário”.
Todo esse falatório serve apenas para retornar ao primeiro parágrafo, à reportagem sobre o indiciamento do Dr Roger Abdelmassih. Sendo ele pai dos filhos do Gugu ou não(parabéns, Tia!) uma reportagem deveria ter dado espaço para o advogado do médico falar. Não durou mais do que dez segundos seu pronunciamento(isso numa matéria de vários minutos),que estava lá apenas por precaução jurídica. Todo o resto foi acusação. Justa ou injusta, não interessa. Apareceu uma testemunha ex-funcionária da clínica que, segundo o repórter Marcio Campos “não tinha nada a esconder”, mas que estranhamente escondia o rosto. O repórter apresentava como verdade sua acusação, sem questionamento algum, nem mesmo quando ela afirmava ter ficado psicologicamente abalada com o que teria visto e por isso não conseguir trabalhar mais em lugar nenhum. Aliás, o verbo no condicional não era uilizado em momento algum por Marcio Campos.
Já Datena dizia que, caso ele tenha cometido o crime, mereceria ser “execrado pela sociedade”. O verbo no condicional aqui é mero ardil jurídico, afinal ele mesmo já execrava o médico, até porque dizia , exasperado : “você chega lá na esperança de te um filho e esse sujeito faz o que?”.
Datena bate prende e julga e executa, tudo com o discurso de que age em defesa do “povo”. É o que faz o Justiceiro, é o que fez o exército brasileiro em 1964, é o que fez Fidel Castro.
Isso é monstruoso.



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É preciso dizer que os pré-julgamentos não são sempre acusatórios, basta lembrar do caso Eloá, em que jornalistas, quase em uníssono, cantavam em verso e prosa como o jovem Lindenberg era decente, estudioso e trabalhador e ofereciam a ele adulações de todo tipo, até que ele se transformasse numa sofrida celebridade. Ao final, todos sabemos, a morte da refém e o constrangimento midiático. Só então passou a encontrar pessoas que faziam a ligação do passado do rapaz com criminosos. Ao partirem de uma certeza, de uma verdade, chegaram a um beco sem saída. E o motivo mais forte(senão o único) que impediu o comandante da operação de utilizar os atiradores de elite, era a imagem do jovem como inocente trabalhador. Tivesse ele ordenado o tiro, teria sido crucificado como monstro. Como não fez, foi acusado de permitir a morte da jovem Eloá.

O MÉDICO E O MONSTRO - PARTE2 ( a questão do diploma de jornalista)

O nome do programa, “Brasil Urgente!", entrega o conteúdo. A urgência se dá em casos extremos e para esses males extremos(como dizia o grego Hipócrates, o pai da medicina) remédios extremos.Datena se apresenta como o justiceiro , a solução última. O que não se diz é que essa sensação de pânico, de “urgência” conseguida através do sensacionalismo,se faz para que ele pareça indispensável, o remédio utilizado nos últimos casos de todos os dias. O objetivo, bem menos nobre, é garantir a fidelidade do espectador e entregar a audiência alta para o bem mais comedido Jornal da Band, que por si só não conseguiria atrair tanto IBOPE. Jornalismo e business se misturam com mais facilidade do que pode parecer. Retomando o livro de Vieira, “a ficção no entanto não mostrou quanta arrogância adquirem o empresário e o jornalista que uma vez embriagados por toda essa ilusão rompem os mais primários preceitos éticos(que sequer são regras específicas da profissão mas que,poderíamos imaginar,deveriam orientar todas as relações humanas). Não mostrou que se a imparcialidade exige uma boa dose de ceticismo é impossível fazer Jornalismo sem uma apaixonada vocação pelo contato íntimo com realidades nem sempre prazerosas (...)não mostrou que por mais honesto e ético que seja o profissional da mídia, ele é tão humano quanto o leitor que também lê com olhos diferentes aquilo que lhe agrada e aquilo que lhe fere”.
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O fim do diploma em comunicação social como exigência para o exercício do jornalismo só tende a agravar a situação e multiplicar os justiceiros.A universidade é o local privilegiado de discussão desta profissão, que não se faz apenas de conhecimentos técnicos.É preciso estudar, debater as diferentes posições tomadas pelos jornalistas e suas conseqüências.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

APENAS O FIM


É um caso tão raro, tão de exceção o de Apenas o Fim, filme do diretor estreante Matheus Souza, que chega a assustar. Primeiro: o filme foi feito com pouquíssimo dinheiro(R$ 8.000,00), sem verba vinda de leis de incentivo. Dinheiro via ANCINE (Agência nacional de cinema) só veio depois, na forma de verba extra e quando o filme já estava pronto e premiado(Menção Honrosa no Festival do Rio de 2008).Uma câmera digital ,um punhado de amigos , alguma improvisação e em quinze dos 30 dias de férias da faculdade de cinema já estava tudo filmado.
Segundo: conseguiu chegar aos cinemas, ainda que com poucas cópias(apenas duas salas exibem o filme em São Paulo),coisa que um diretor veterano como Ivan Cardoso tenta sem sucesso já ha dois filmes (“A Marca do Terrir” e “O Lobisomem da Amazônia”).
Terceiro: é feito por jovens e para jovens. O diretor de apenas 19 anos entupiu o longa de referências à cultura pop (quadrinhos, cinema de ação, games, ast food), o que fez com que fosse considerado um filme da “geração Orkut”. A história é simples : a menina decide terminar o namoro e ir embora, mas não diz o por quê nem para onde. A ele resta uma hora de conversa com ela, a qual gastam lavando uma roupa suja (só de leve),relembrando bons momentos e pensando sobre a vida com uma “filosofia” calcada em Star Wars e MacDonalds, enquanto caminham pelo campus da PUC do Rio. Acertou quem se lembrou de Antes do Amanhecer (1995) e Antes do Pôr-do Sol(2004), filmes de Richard Linklater cuja única ação constitui no diálogo quase em tempo real entre dois namorados (ex-namorados no segundo filme).
Os diálogos de Apenas o Fim são de um frescor, de uma vitalidade rara no cinema nacional e quase ausente na TV. Aliás, na tela pequena os jovens vêem a si mesmos através do retrato idiotizado de Malhação.
Curiosamente o filme não foi bem compreendido onde deveria ser, nos sites de cultura pop, que reclamaram da falta de ação ou de reviravolta do filme, mau acostumados que estão com o esquema engessado das superproduções que aportam toda semana no Cinemark. Tempos longos e diálogos soam cansativos aos jovens acostumados à edição frenética de filmes como Transformers.
Por último, vale dizer que no meio de tantas referências ainda há espaço para sensibilidade,no que a ótima dupla de atores Gregório Duvivier e Érica Mader colaboram muito. Ainda que você não seja um nerd que conhece de trás para frente a trilogia Senhor dos Anéis, não vai ficar insensível quando o garoto diz “eu não queria ser como o Tom Bombadill , que tinha a maior importância para os Hobbits mas ficou fora do filme. Eu não queria ser cortado se fizessem um filme da sua vida”.
Se houvesse vida inteligente nos escritórios das redes de TV, a esta hora algum executivo estaria conversando com Matheus Souza e quem sabe teríamos algo como um novo “Confissões de Adolescente”. Mas aí já seria exceção demais à regra; os jovens continuarão com "Mutantes" e "Malhação"
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Apenas o fim não é um filme perfeito,claro. Apesar de curto (80 min.), parece longo demais para o que tem a dizer;o final ensaia chegar várias vezes, mas o filme se prolonga, perdendo a chance de acabar de maneira mais inspirada. A divisão da tela (já quase no final), com dois acontecimentos distintos mostrados simultaneamente, destoa do tom adotado até então e parece despropositada, fora do lugar. Já a direção dá atenção demais ao texto e de menos à imagem; sobram palavras, faltam momentos de silêncio. Para o bem e para o mal, acaba por vezes parecendo um espiódio sério da série de TV Seinfeld- e nesse caso 80 minutos é muito tempo. Mas nada disso compromete o prazer enorme que se tem ao assistir a esse filme,muito menos seu caráter de excessão. Filme jovem no Brasil não existe desde a chamada geração BRock, nos anos 1980. Naquela época filmava-se namoros, praia, "azaração" como se dizia então, em tramas despretenciosas estreladas por astros juvenis e com trilha sonora afinada ao gosto jovem da época. "Menino do Rio", "Rádio Pirata" e tantos outros são bons exemplos dessa época.
Vale só como exemplo e comparação, até por que nenhum deles valia grande coisa (nem se sustenta quando visto hoje)o que não é o caso de "Apenas o Fim".
Até quinta feira (25) o filme estará em cartaz na sala 3 do Espaço Unibanco às 14h50, 16h40, 20h20 e 22h10. Na sala Cândido Portinari ,do HSBC Belas Artes, passa às 16h10,18h e 19h50.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

TV- FALSA LOURA


Se houvesse uma disputa oficial de segundo melhor filme brasileiro de 2008 ela seria acirradíssima e Falsa Loura, de Carlos Reichenbach, que o Canal Brasil exibe hoje, às 22h00, certamente estaria no páreo, junto de Cleópatra, de Julio Bressane e Encarnação do Demônio do Mojica. Isso ficou claro nas várias listas dos melhores e nas mostras retrospectivas (Cinesesc, Reserva Cultural, etc).
O melhor, incontestavelmente, foi Serras da Desordem, de Andrea Tonacci o que não diminui em nada a qualidade dos outros.
De todos esses,Falsa Loura é o mais acessível,mais palatável ao público, ainda que guarde uma certa dose de estranheza característica do cinema de Reichenbach(como a intromissão da leitura de textos clássicos, completamente descolados da narrativa).
Falsa Loura é um filme que expõe a atual sociedade onde uma espécie de manipulação publicitária da imagem tomou conta das relações pessoais, há e onde quem melhor manipula sua aparência exerce poder sobre os demais. Ou seja, um vício da política que se aplica à vida comum. Todos personagens, num certo grau, manipulam suas imagens a fim de construírem uma identidade .

É para melhor trabalhar essa idéia de manipulação da imagem que o diretor acumula diversos níveis de imagens construídas, a começar pela presença no elenco apresentadores que se travestem,como Léo Áquila e Mama Bruscheta, ou ainda de Suzana Alves, a ex-Tiazinha. Maurício Mattar usa outro nome, mas faz na verdade papel dele mesmo, ou de todos cantores românticos, com Fábio Jr ou Leonardo .
Personagens cujas aparências remetem imediatamente a um “arquétipo” cinematográfico forçam nosso juízo de valor ,melhor dizendo, é pela vestimenta e aparência deles que deduzimos seus passados ou ações meramente insinuadas. Para não estragar nada, resta só dizer que imediatamente “reconhecemos” um bandido e um gângster assim que os vemos em tela. Reichenbach coloca aí uma questão de maneira bem sutil por que sabe o que é que pensaremos, induzidos que somos pela imagem a que o cinema sempre recorre.Mas nos dá uma oportunidade de questioná-la. E há a construção da imagem dos próprios personagens durante a trama,que, aliás,dá nome ao filme; Silmara não é loura e isso terá um peso terrível para ela em dado momento.

No início, nos parece que tudo se trata de mais uma daquelas versões da gata borralheira, com a jovem operária Silmara (Rosane Mulholland), a falsa loura do título, transformando sua colega de trabalho Biducha (Djin Sganzerla), de “bruxinha”(esse é o apelido) numa mulher sedutora capaz de conquistar o homem que deseja, com direito até à manjada seqüência do “banho de loja” em ritmo de videoclipe, típico de comédia romântica. É o que prega, aliás, a sociedade de consumo: ao fazer uma operação plástica, usar a roupa adequada ou assumir a “postura” correta (e isso remete à chamada auto-ajuda) pode-se conquistar seus sonhos. O interesse constitui no desenrolar da trama, que, aliás, por si só daria um filme.
Silmara, já experimentada na construção de sua imagem, é quem “constrói” Biducha e ,portanto, manipula sua vida, exerce influência, poder. Seu pai,no entanto, ex- presidiário e com o rosto marcado por uma cicatriz, é vítima de sua aparência. O irmão de Silmara (Léo Áquila) é um travesti , ser de dupla identidade, manipulando-a a bel prazer e que por isso tem desenvoltura plena em dois mundos, masculino e feminino.

Há o salão de baile , o local onde se abandonam as vestes da firma e se apresentam essas novas imagens, maquiadas, construídas com o banho de loja e é também onde Silmara entrará em contato com o mundo da Imagem por excelência, o palco. É lá que conhece e encanta o rock star Bruno de André (Cauã Reymond). Se na fábrica ou na pista de dança Silmara tinha desenvoltura invejável, aqui ela se encanta pela imagem do astro pop (rebeldia, liberdade, sexualidade) e se deixará seduzir. Será ,portanto, manipulada por ele. É significativo o momento em que retorna à fabrica e diz em alto e bom som para as amigas que ele é o homem mais gentil, sexy e bem dotado do planeta, por que sabe que é isso que as colegas querem ouvir.
Silmara irá além. Decepcionada com o roqueiro, ela parte em busca não mais do mito sexual, mas do mito romântico (e o amor se presta a muito mais falsificações do que o sexo) e é quando irá parar nos braços de um ídolo da música romântica, interpretando(?) por Maurício Mattar. Surge aí um daqueles momentos de estranheza dos filmes de Reichenbach, pois irrompe um clipe romântico brega do qual Silmara participa. Se fosse preciso uma “explicação”, poderia se dizer que o diretor compartilha conosco o modo como ela enxerga o acontecimento.


Quando estiver despida de toda maquiagem, de toda postura artificialmente assumida, é que Silmara mostra que não é loura de fato. Completamente entregue, dominada e manipulada, terá seu rosto “ deformado”, “marcado” (quase como seu pai), numa inversão da típica cena de mulher vitoriosa(comum no cinema e na publicidade), que anda em direção à câmera e contra o vento . Não haverá então mais nada a dizer.
Falsa Loura tem reprise dia 20/06 às 23:00 no Canal Brasil

quarta-feira, 10 de junho de 2009

TEATRO- A LOUCADORA DE VÍDEO


No ano de 2012, num futuro dominado pelos DVDs e Blu-Rays , uma jovem linda e inocente(Luciana Caruso) decide entrar numa sinistra vídeo locadora em busca de filmes clássicos em VHS,que não existem em nenhum outro lugar. O que ela não imagina é que o lugar esconde muito mais do que fitas empoeiradas.

Esta bem poderia ser a sinopse de um filme de terror pra lá de vagabundo, no entanto também serve para descrever o divertido espetáculo “A Loucadora de Vídeo”, que entrou em cartaz esta semana no espaço N.Ex.T (Núcleo Experimental de Teatro) , no centro de São Paulo.
A brincadeira com o cinema começa já no nome da peça,que faz referência às típicas traduções brasileiras de títulos e se estende por toda a trama de Antonio Rocco (texto e direção) . O diretor faz uso de vários elementos dos filmes B , como a personagem desfigurada e com delírios de grandeza , o futuro “apocalíptico” ,a mocinha com pouca roupa e até mesmo a trama defeituosa, para tecer sua bem particular declaração de amor ao cinema e ao teatro. Pode não parecer, mas há porções iguais de comédia melancolia na história dessa estranha locadora onde os filmes ,antes de serem alugados, são interpretados na frente do cliente por Estúpido(Ivan Capuá), único funcionário e cativo da proprietária, Magdalena(Lulu Pavarin) . Com isso vemos cenas de “Cantando na Chuva” (inspiração também do cartaz) , “Dona Flor e Seus dois Maridos” , “Casablanca” e ” Ata-me”, bem como referências rápidas a vários outros filmes - a de “Um Corpo que Cai” é especialmente hilária.
A peça, que fica em cartaz até 26/07, comemora o aniversário de dez anos do N.Ex.T, que entre outros espetáculos de sucesso, lançou o Terça Insana, referência de humor nos palcos paulistanos.
Vale e pena chegar um pouco antes e curtir o espaço, que dispõe de bar, exposição de fotos de espetáculos encenados no local e curtir a seleção musical com temas de filmes que rola nas caixas de som.

O teatro N.Ex.T tem 70 lugares e fica na R. Rego de Freitas ,454, República – centro SP.
Sexta e Sábado 21h30, Domingo 19:30
Ingresso : R$ 30,00 (inteira) Estacionamento R$ 5,00
Informações pelo Tel. 3259-9636