segunda-feira, 27 de abril de 2009

TIRINHAS - PARTE 2 (FERNANDO GONSALES)


Fernando Gonsales é um sujeito sem grandes altos e baixos; é raro ele publicar algo que não seja digno de atenção. No entanto algumas vezes ele consegue ser ainda melhor do que o habitual, como nesta tira que não é só incrivelmente engraçada como também nos faz pensar em programas como TV Fama e SuperPop. Ele podia ter escolhido outro animal, em outra situação, mas uma porca prestes a ser comida é absurdamente significativo. Até onde vão as pessoas que querem se tornar (ou se manter como) celebridades ? Uma situiação humilhante, a mais degradante possível para a porquinha é igual àquela que faz de pessoas nada mais do que porcos.

Alguém aí falou em Leila Lopes ?

HOUSE


House , que desde semana passada voltou a ter episódios inéditos no Universal Channel, é um seriado frequentemente acusado de ser formulaico e ter uma estrutura rígida ou, em outras palavras, de ser sempre a mesma coisa. Isso ocorre por que a estrutura é a de uma série de investigação como a “franquia” CSI, com a diferença que no lugar de um crime enigmático a ser desvendado há uma doença misteriosa a ser diagnosticada e curada. De fato a estrutura de House é rígida; os roteiristas seguem certas normas tão à risca que é possível prever os desdobramentos da trama com uma boa antecedência. No entanto não é na trama central que reside o interesse maior da série e sim nas subtramas .
Já sabemos muito sobre House, o quanto seu físico aleijado é tanto um contraponto à sua mente supercapacitada quanto uma metáfora de sua fraqueza espiritual, sua incapacidade de se locomover equivalendo à de estabelecer relações afetivas seja com colegas, pacientes ou mulheres. Sendo assim, para evitar desgaste prematuro da série, os roteiristas frequentemente se concentram nas subtramas secundárias; até recentemente a mais explorada era a do casal de médicos Foreman-13, como já foi em temporadas passadas com Cameron-Chase. Há também a trama particular da diretora do hospital, Dra Cuddy, que cada vez mais se entrelaça com a de House.
Já a trama central evolui invariavelmente assim : House convoca a equipe e em seguida chega a um diagnóstico, que se mostra errado. Os sintomas do paciente se agravam ,surgem mais alguns dianóstico, tudo parece resolvido até que surge um sintoma absolutamente inesperado bem mais grave que os outros . Durante uma conversa casual que nada tem a ver com o caso do paciente, House tem uma revelação e descobre a cura. Normalmente uma trama secundária está lá para ajudar a evoluir a trama central,para dar suporte a ela. O que ocorre cada vez mais em House é o oposto. As doenças misteriosas interessam menos do que as relações entre os personagens, que se não chegam a ter a complexidade dos de séries da HBO como A Sete Palmos ou Família Soprano, são muito bem construídos. Suas personalidades não são entregues ao espectador numa bandeja, elas vão se revelando aos poucos e de maneiras muitas vezes surpreendentes. Para ficar num exemplo: Foreman adquiriu muito da personalidade de House e, para conquistar sua colega de trabalho, apelidada de 13, foi capaz de todo tipo de ação anti-ética. Mas ele não é apenas egoísta, descobrimos, mas alguém que toma medidas extremadas, tanto que cogita perder a licença médica para aliviar a culpa de ter infringido a ética médica.

Para uma série que segue uma estrutura repetitiva, House segue mostrando que tem ainda muito a oferecer.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

MUTTS - OS VIRA-LATAS


A frase “para um cão, todo dia é Natal” somada à imagem acima já bastaria para convencer qualquer pessoa (tenha ela um animal de estimação ou não) a ler Mutts-Os Vira-Latas, álbum da Devir que reúne as tiras criadas por Patrick McDonnell em 1994. As aventuras do cãozinho Duque e do gatinho Chuchu (que, contrariando o senso comum , são bons amigos) mais do que qualquer filme ou História em Quadrinhos torna possível entender o espírito (na falta de um termo melhor) de um animal.
Como Calvin, de Bill Waterson, Mutts é uma tira de que vale mais falar muito pouco, pois há sempre o risco bastante grande de pear pelo excesso, de contar em detalhes absolutamente todas as historinhas, descrever todos os desenhos.
Melhor lembrar que Matt Groening (criador Simpsons) e Charlie Shulz (Snoopy) são fãs declarados da obra de McDonnell.Daí não há mesmo mai nada a dizer.


Mutts-Os Vira-Latas tem 128 páginas e custa R$ 23,00.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

TIRINHAS - PARTE 1 (ANGELI)




Esses três quadrinhos dariam um tratado. Toda a arrogância dos bem nascidos (e da classe média, que neles se espelha) exposta num jato de vômito que à iguala a seu discurso cheio de preconceito e discriminação. Os que pedem por pena de morte são os que agam para escapar aos seus delitos. Aos olhos da lei (e de Angeli), estão todos imundos. Isso me lembra do programa de matinal de TV(não me reordo o nome) com José Luís Datena e Patrícia Maldonado. Datena, promotor, juíz, juri e (sobretudo)carrasco batia o martelo sobre o "caso Adriano" e o "mau exemplo" que este dava às crianças ao parar de jogar bola e entregar-se ao vício(dedução dele, Datena, o onisciente). Patrícia Maldonado, que há bem pouco tempo apresentava um programa onde tentava unir o amor de dois pré-adolescentes, foi taxativa ao comparar Adriano a Kaká: "mas ele é de berço" , "esses moços (vindos da favela, entenda-se) não têm preparo, não sabem administrar seu dinheiro". Certo, brancos classe média tem por caractarístia de sua casta o dom de bem gerir empresas e fortunas e não entregar-se a vícios de espécie alguma.

Sensatez veio só mesmo do "maloqueiro" Ronaldo, que, em defesa do colega, notou como o mundo está cheio de "santos que nunca erram". Essa gente que, com perdão da expressão, não fuma não bebe e não fode é que Angeli retratou tão bem.

Alguém precisava fazer isso.



Publicada pela Folha de São Paulo em 15 de Abril

terça-feira, 14 de abril de 2009

PAPO DE BALCÃO !


- Grande Abraço ao jornalista Clayton Melo, colega do curso do Inácio Araújo e editor do excelente site Ponto de Fuga http://www.pontodefuga.jor.br/ . Respondendo :É verdade, Piada Mortal foi relançada, mas é uma versão com cores "by photoshop"feita pelo desenhista, o inglês Brian Bolland, seguindo o que, segundo ele era a idéia original com o uso de cores mais frias. Na prática muito daquilo que a gente aprendeu a adorar (o roxo berrante do Coringa, por exemplo) desapareceu. E, creio, a versão que você comprou foi a primeira a sair no Brasil, em 1989, mesmo ano do Cavaleiro das Trevas encadernado, salvo engano.
A Piada Mortal, pra quem não sabe, celebrizou aquela que é a imagem mais famosa do Coringa, esta que eu reproduzo acima.
- "O cinema do papai está morto. Viva o Novo Cinema Alemão" é o nome do curso que será ministrado pelos críticos Francis Vogner dos Reis (Revista Cinética) e Sérgio Alpendre (Guia de livros e filmes da Folha) entre os dias 13/05 e 29/07. Por "novo cinema alemão" deve-se entender a geração de Werner Herzog, Rainer Fassbinder e Win Wenders que fez renascer acinematografia naquele país após um período de esterelidade pós-hitlerista.
- Em Santo André, aproveitando o suesso de Gran Torino, o Cineclube Alpharrabio presta homenagem a Clint Eastwood em duas sessões gratuitas (dias 22 e 29) em que serão exibidos
"Josey Wales, o Fora da Lei" (1976) e "As Pontes de Madson" (1995) respectivamente.

BLOG DO INÁCIO ARAÚJO

Este é um texto extraído do blog Cinema de boca em boca, do crítico da Folha de São Paulo Inácio Araújo e que foi postado no dia 20 do mês passado. Nele o crítico busca compreender os motivos que levam a um fenômeno facilmente visto fora do circuito dos Cinemarks da vida, o sujeito largar um filme antes do final.
Para quem não conhece o blog , o endereço é http://inacio-a.blog.uol.com.br/
Quando você sai do cinema?

Espero não estragar a pauta da "Zero Hora", que achei oportuníssima.
O repórter, Gustavo, me perguntou: por que as pessoas saem do cinema no meio do filme?
O caso atual era do filme do Laurent Cantet, "Entre os Muros da Escola".
A pergunta dele foi: você já saiu do cinema
?
Sim, várias vezes. Me lembro que uma vez fui ao cinema com o Jairo Ferreira. O filme tinha começado há dez minutos e ele, inquieto, falou pra gente ir embora. "Mas Jairo, eu ponderei, a gente acabou de comprar a entrada". "Então, ele respondeu na lata, eu já perdi meu dinheiro, não vou perder meu tempo".
Me parece, isso que eu disse ao Gustavo, que a pessoa sai do cinema por duas razões: ou porque o repertório lhe parece muito batido ou porque ele se sente perdido diante do que vê. São espectadores diferentes.
Fazendo uma comparação provavelmente ruim, eu disse que quem só ouve pagode, quando escuta Beethoven aquilo lhe parece inaudível. Do mesmo modo, quem escuta Beethoven o tempo todo não vê no pagode senão cacofonia.
A comparação é ruim porque desfaz do pagode, que eu não conheço, não sei se é bom ou ruim (e também não conheço Beethoven tanto assim, ninguém pense).
Mas poderia ser outra: quem gosta de ler, digamos, um best-seller como "O Código Da Vinci" deve achar o Kafka uma chatice infinita, uma coisa em que não acontece nada. Ou quem curte poesia melosa não aguenta a música do Cartola. Etc.
Ocorre que tanto a literatura como a música (e mesmo o teatro) têm seus estatutos definidos; o cinema, não.
Me parece que, hoje, o cinema tornou-se uma diversão de fim de semana. Quem vai, depois de apanhar de segunda a sexta, quer um pouco de sossego, quer encontrar coisas estabelecidas, espiões que espionam, vilões que fazem vilanias, etc. e tal.
Então, quando a pessoa cai diante de um filme do Laurent Cantet, do Kiarostami, do Oliveira, do Godard, enfim.., ela não admite que, às vezes, é preciso um pouco de sacrifício para gostar de uma coisa
.
E que o cinema comercial, nas últimas décadas, nos acostumou com as "cócegas nos olhos", como alguém definiu, de tal modo que qualquer coisa que demora um pouco mais parece insuportável a quem se acostumou com isso.
Acrescente-se ainda: hoje a crítica está desmoralizada (vamos falar disso outro dia). Para que servem os críticos? Para nada: o que conta na distribuição do filme é a publicidade (sempre foi assim, mas antes havia certa convivência).
Então, o cara que vai ao cinema porque "Entre os Muros" ganhou a Palma de Ouro ou coisa assim acha que tem diversão garantida e ponto final. Mas se vê diante de um objeto estranho para ele. Para ele existe o mocinho, o bandido e um obstáculo no meio. Ali a coisa é um pouco mais complicada. Trata-se de compreender um mundo que mudou muito (o europeu, o francês mais especificamente) e que nós hoje mal conhecemos. Compreender mudanças a partir de uma escola, da diversidade de experiências contidas na sala de aula, à qual se acrescenta ainda outro elemento: a adolescência. Não há trama, praticamente, no sentido americano. O espectador não tem como se situar.
Que fazer para mudar isso? Não faço a menor idéia.
Entre os muros do meu curso (Cinema - História e Linguagem) aconteceu uma coisa que me parece sintomática. No primeiro ano que apresentei o "Deus e o Diabo" mostrei só a segunda parte, porque eu temia que os alunos odiassem aquilo. Ora, para minha surpresa eles sentiram falta do que eu não tinha mostrado. Então mudei isso. Imagino que isso tenha acontecido porque quando a pessoa é confrontada "a seco" a um filme como "Deus e o Diabo" tem a impressão de ter visto um disco voador ou coisa assim. Quando observa a história do cinema se organizar, uma coisa surgir da outra, as conversas, etc., então quando acontece um filme como esse, tudo faz todo sentido.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

CAVALEIRO DAS TREVAS -CRISE ECONÔMICA E A VIOLÊNCIA DOS HERÓIS






A década de 1970 legou aos EUA uma herança maldita: inflação, desemprego próximo do recorde histórico e criminalidade crescente. Legou também dois duros golpes no moral norte-americano: a humilhante derrotada no Vietnã e um presidente, Richard Nixon, que renuncia a seu mandato para escapar do impeachment . O retorno das tropas, aliás, inunda a rua de homens dependentes de drogas, extremamente violentos e mentalmente abalados pelos horrores da guerra. Que justamente nesta época os heróis tenham se tornado problemáticos e agressivos não surpreende ninguém;heróis violentos e sem caráter já tinha surgido em outro momento de abalo social e econômico, os anos 1940, na forma do film noir.
Em 1970, a inflação, que já era alta , 7%, bateria nos 13 pontos dez anos depois, impulsionada pelas crises do petróleo (em 1973 e 1979) que fizeram disparar o preço dos combustíveis , oque abalou a economia e elevou as taxas de desemprego. Somente o governo Reagan (1981-1989)iria recolocar as coisas nos eixos , ajustando a economia e elevando o moral do cidadão - inicia-se a era dos blockbusters no cinema ,dos heróis anabolizados e da revisão da guerra(Rambo e Bradock retornam ao Vietnã e,sozinhos, vencem a guerra !).

No período de crise,no entanto, surgem filmes que irão pensar a violência social como “Dirty Harry- Perseguidor Implacável”, de Don Sigel (1970), “Taxi Driver”(1976) de Martin Scorcese e os faroestes de Sam Peckimpah, que retratavam um Oeste extremamente violento e desononrado, completamente despido da aura de mito fundador da nação. A graphic novel “O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight Returns), de Frank Miller é de 1986, portanto distante dez anos do olho do furacão econômico, mas nem a ferida desmoralizante do Vietnã ainda não havia sido completamente sanada, como mostra Rambo-Programado para Matar, de 1982, - este também um herói traumatizado e em desacordo com seu mundo - como a criminalidade continuava um problema por se resolver e a economia ainda sofria os efeitos da segunda crise do petróleo ( que duram até justamente 1986). Para se ter uma idéia, a prostituição e o crime continuariam sendo problema em Nova York (e Gotham City é N.Y !) até que a gestão Rudolph Giuliani (1994-2002) derrubasse as taxas em mais de 50 %.
Os problemas do mundo real já tinha chegado aos quadrinhos de super-heróis havia algum tempo; a série "Green Arrow/Green Lantern", por exemplo, na década de 1970 já lidava com questões como racismo, desemprego e drogas. No entanto os super-heróis continuavam além de qualquer questionamento, que só viria com "Watchmen", de Alan Moore em 1986. Em "O Cavaleiro das Trevas" Miller traz este elemento novo que é a perturbação psicológica do herói. Ele é tão obcecado quanto Travis Bickle, o personagem de Robert DeNiro em “Taxi Driver”. Há algo de maníaco na busca destes dois por limparem suas cidades que descende diretamente de Ethan Edwards , personagem de John Wayne em “Rastros de Ódio” , de John Ford (1956). Lá o herói do western fora reduzido a um quase morto-vivo a quem só importava sua busca insana e violenta pela sobrinha raptada pelos índios 14 anos atrás, ainda que ela se recusasse a retornar.
Bruce Wayne, aposentado, sente como se um demônio estivesse urrando para sair de dentro dele. A bebida cara, as mulheres, as corridas de carro, nada disso lhe satisfaz. Apenas quando volta a vestir a roupa de Batman é que se sente vivo de fato. Já Travis , veterano do Vietnã ,é uma criatura dominada por uma solidão patológica, incapaz de se relacionar com quem quer que seja, mas que acredita ser talhado para limpar as ruas, o que fará trabalhando seu corpo , mudando drasticamente seu visual (cabelo moicano e farda militar) e se valendo de uma tonelada de armamentos. Para Wayne como para Bickle, a apoteose desta missão autodestrutiva (que tem algo de sagrado e masoquista) deixa ambos a um passo da morte.
Ainda que tanto em “Taxi Driver” como em “O Cavaleiro das Trevas” conheçamos a cidade decadente pelos olhos dos protagonistas, no filme de Scorcese, através do uso da câmera lenta e outros efeitos ,percebemos o quanto esta é uma realidade distorcida pelo racismo, misoginia e isolamento patológico de Travis. Aliás, é frequente a câmera abandonar Robert DeNiro e focalizar somente as ruas de NY e sua fauna de prostitutas, bêbados e pequenos artistas.A cidade,aqui, está viva. Já na graphic novel o que Batman vê e nos diz é inquestionável. Não nos é mostrado nada além daquilo que corrobora a visão do herói. A cidade, para Miller, está morta.
O autor é tão ultradireitista que ridiculariza Ronald Reagan e o otimismo de sua política ao mostrar o presidente como um paspalho piadista. Também o Superman (que no cinema personificava essa fé nos valores americanos) é mostrado como um herói de cabresto, acovardado. Para Miller, nem o presidente nem o Homem de Aço sabem o que realmente acontece nas ruas de Gotham/New York nem compreendem que é pela força, pela iniciativa (violenta) do cidadão tornado Travis Bicle/Batman que as coisas se resolvem.
A equação pessimismo+crime+desemprego impôs mudanças drásticas ao perfil dos personagens heróicos nos anos 1970. Resta saber como eles irão se mostrar daqui em diante quando a situação parece se repetir; em entrevista à Folha de São Paulo, publicada no último dia 6, o cientista político Demetrius Papademetriou teceu comparações entre a crise da década de 1970 e a atual. Em 1982 os índices de desemprego eram maiores, no entanto os demais indicadores econômicos “não estavam nem perto de ser tão ruins”.
A diferença,claro, fica por conta do elemento utópico encarnado na figura de Barack Obama No cinema já tivemos Milk, de Gus Van San, sobre o heroísmo de um político homossexual na defesa dos direitos das minorias e Gran Torino, de Clint Eastwood, sobre o veterano reconciliando-se com aqueles que outrora foram tomados por inimigos. Talvez , mesmo com a crise, estes sejam tempos seja muito mais de um Superman do que de um Batman.

A OBSESSÃO MORALISTA DE FRANK MILLER

Miller nunca cessou de acreditar na luta do homem cristão ocidental contra um mundo em decadência. Para ele, a decadência é antes de tudo moral e ele a expressa na forma de cidades destruídas, sujas, escuras (tudo é uma grande Sin City). Extirpar “a escória do mundo”, mantra de seu Batman é uma obsessão constante. Tanto em "Cavaleiro das Trevas 2", quanto em "Ronin", mendigos são retratados como mortos vivos, criaturas que grunhem ao invés de falar e saem dos esgotos em busca de vítimas. Ao herói cabe espancá-los e colocá-los de volta ao buraco de onde vieram.
Em "300 de Esparta" há a exaltação da honra de uma sociedade tão belicista quanto os EUA da Era Bush em oposição a um povo oriental tomado por crendices místicas. Tal povo (todo oriente médio, a saber) deve ser exterminado. A missão, ainda que leve à morte dos nobres espartanos(norte-americanos) é não sucumbir ao avanço destes. Que esta graphic novel tenha sido produzida durante o momento em que a globalização levou a migração (legal e ilegal) a níveis inéditos na História humana, forçando a uma tomada de posição frente a culturas diferentes, é significativo. Ainda que qualquer um saiba que a taxa de natalidade da população dos países desenvolvidos é cada mais baixa, o que implica em pouca mão de obra disponível – pelo menos era assim antes da crise- reconhecer a necessidade que seu país tem destes “persas” com sua religião exótica é para ele impensável.
Quanta diferença de Gran Torino, portanto.
Por fim, percebemos que Miller é o exato oposto de Will Eisner, um home que via o mundo,em crise ou não, com olhos poéticos (como demonstrei neste blog ao longo de 4 textos). A adaptação de uma obra sua, Spirit, por Miller não poderia ser mais inadequada. O fracasso,portanto, foi justo.
Nada aqui leva em conta a qualidade ou não dos trabalhos de Miller. Isso já foi assunto de longo e caloroso debate no site Universo HQ.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

GRAN TORINO


Walt Kowalski é um veterano da Guerra da Coréia cujo temperamento intratável o afasta do convívio com os filhos. Viúvo, tem por companhia apenas uma cadela (também envelhecida), os vizinhos da etnia Hmong, a quem despreza e uma orgulhosa bandeira norte-americana na sacada onde, sentado numa cadeira de balanço, olha desgostoso para a rua.
Na garagem, um Gran Torino 1972, fabricação Ford, grande, elegante e de motor poderoso. É retrato de um tempo diferente, não só para a indústria automobilística quanto para a sociedade como um todo. De lá para cá a globalização reorganizou as forças no cenário internacional (a ponto da China cobrar as dívidas estadunidenses!) e as montadoras norte-americanas e européias não só perderam espaço como se mostraram obsoletas perante as asiáticas. A atual crise econômica só escancarou o que já era óbvio há bastante tempo. Os Hmongs, significativamente, são oriundos de uma região entre a China e a Tailândia,uma etnia sem pátria definida, portanto.
A xenofobia está diretamente relacionada, não só ao contato crescente e incontornável com o estrangeiro(o G8 cede cada vez mais espaço ao G20) mas também – e até por isso- à noção de identidade, que cada vez mais torna-se uma abstração
Não é de se espantar que cada um na vizinhança de Kowalski ,sejam eles latinos, asiáticos, negros ou brancos (caso dele próprio) defenda sua identidade da maneira mais radical possível, ou seja, com armas. Frente à inevitável descaraterização, radicalismo e violência como forma de defesa.
Durante esse embate velho contra-jovens, veterano contra gangues, moinho contra bandido somos em determinado momento levados a embarcar naquele cinema policial dos anos 70,das séries “Desejo de Matar” (com Charles Bronson) e “Dirty Harry” (com o próprio Clint) , em que o espectador compartilha a sede de vingança do policial e triunfa com ele. Mas Gran Torino não compactua com as certezas ingênuas e violentas daquele tempo em que o inimigo era facilmente identificado e merecia punição. Se então tudo se resolvia com socos, pontapés e o aperto de um gatilho, hoje ,após o fiasco de oito anos de uma política externa beligerante, Clint deixa claro que isso só traz mais problemas e mais violência.
Não há mais volta, os vizinhos são Hmongs, os médicos são indianos, os atendentes muçulmanos e por aí vai. A moral do enfrentamento torna-se tão absurda quanto as piadas xenófobas de Walt, que acabam provocando risos.
O filme significativamente começa com um enterro e um batizado. Que as armas fiquem no passado, nos diz Clint Eastwood.



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Na próxima sexta tratarei da situação dos EUA nos anos 1970 e como isso se traduziu na violência justiceira do cinema(Dirty Harry incluso) e seu reflexo na graphic novel O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, um autor, a propósito, que não cansa de afirmar sua fé na violência como forma de resolução de conflitos.

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Ao contrário do que se falou por aí, Walt Kowalski não é um Dirty Harry. Ele está muito mais próximo de Willian Muny,o pistoleiro “assassino de mulheres e crianças” de Os Imperdoáveis (1992), que ele mesmo dirigiu. Lá ele invertia os códigos do western(o bandido era o xerife) e mostrava, o quanto o herói deste gênero não tem nada de heróico. E sendo o western a mitologia de formação dos EUA como nação, ele varre para fora do tapete toda a violenta de seu heroísmo, exatamente como Walt Kowalski, que se envergonha da medalha ganha na Coréia. A construção da imagem do heroísmo com outros fins está também expressa em A Conquista da Honra(2006), que conta o destino dos soldados que posaram para a emblemática foto que se tornaria propaganda da entrada triunfante dos EUA na segunda Guerra Mundial. Já a tentativa -que perpassa todo Gran Torino- de compreender o Outro, tradicionalmente entendido como “inimigo”, está em Cartas de Iwo Jima(2006), que mostra o outro lado desta história, o dos japoneses que defendiam sua ilha da invasão norte-americana.


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É curioso notar o quanto o trailer do filme nos fazia acreditar numa típica história “velho durão enfrenta jovens petulantes e sai vitorioso”. Quem acreditou nisso comprou lebre por gato. Ainda bem.


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Num outro cenário, em 1992, Will Eisner escreveu e desenhou a graphic novel Avenida Dropsie para entender a gênese daquilo que Gran Torino nos mostra: difícil (e inevitável) coexistência de culturas diferentes num mesmo local. À vizinhança primeiro chegam os irlandeses e judeus, depois os italianos, os negros e por fim os latinos. Cada um que chega é hostilizado pelos predecessores, que vêm nos seus hábitos e cultura uma afronta ao costumes dos moradores do bairro.

sexta-feira, 27 de março de 2009

HQ- SUPERVILÕES ORDINÁRIOS



Ao mesmo tempo em que lança a versão recolorizada do clássico A Piada Mortal, a Panini traz às bancas “Coringa”, HQ de Brian Azzarello e Lee Bermejo em que o palhaço do crime também é astro absoluto desde a capa. Para as duas, o mesmo tratamento : capa dura ,papel especial e preço justo, (R$ 19,90, A Piada Mortal; R$ 24,90, Coringa).
A dupla Azzarelo-Bermejo já trabalhou junta outras vezes, em Batman-DeathBlow (publicada aqui em 2003 pela WildStorm) e em Lex Luthor – Homem de Aço (publicada em capítulos pela Panini na revista Superman em 2008). Em ambas a qualidade dos desenhos de Bermejo encontra rival à altura no texto de Azzarello, que quem já leu “100 Balas” conhece bem. O roteirista tem um cuidado com os diálogos que é raro no mundo dos quadrinhos, principalmente em se tratando de histórias de super-heróis.
Como no filme Batman-Cavaleiro das Trevas,de Cristopher Nolan, nesta Graphic Novel a caracterização do Coringa muda; o tradicional sorriso congelado na face branca é substituído pela cicatriz e pela maquiagem borrada. E Gotham City de gótica não tem mais nada, ela é uma apenas uma metrópole decadente (no que contribui muito o trabalho do auxiliar Mick Gray, desenhista técnico). Alguns cenários curiosamente lembram um (nada prazeroso) passeio noturno pelo Brás paulistano, com seus prédios do início do século 20 em frangalhos e seus enormes galpões industriais. A opção de Azzarello, fica claro, é pelo realismo, e é dessa forma que somos apresentados ao demais inimigos do Homem Morcego: Crocodilo, um negro anabolizado e gigantesco, com um problema que torna sua pele extremamente rugosa; Pinguim, um agiota, pequeno negociador envolvido com todo tipo de ilegalidade;Arlequina, stripper; Charada, traficante com pontos de interrogação tatuados em estilo tribal, e Harvey Dent, o Duas Caras, chefe de gangue com bons contatos com a banda podre da polícia.
Ou seja, são tipos que frequentam as páginas policiais de jornais todos os dias,fazendo negócios escusos ou se enfrentando numa cidade que pode ser São Paulo ou Praga ou Nova Iorque. E é neste mundo de vilões ordinários, que nada têm de super, é que acompanhamos o peixe-pequeno Johnny Frost desde o momento em que, eufórico, integra a gangue de um recém libertado Coringa à noite dramática em que este finalmente se depara com o Batman.
Como em “Caminhos Perigosos”(1973), de Martin Scorcese ou na série “Família Soprano”(1999-2007), de David Chase, os crimes aqui não têm nada de espetaculares, são mera rotina de um cotidiano violento, motivo pelo qual Azzarello não faz nenhum deles, nem mesmo um estupro, saltar aos olhos do leitor.A exceção fica por conta da primeira morte, que visa mostrar o tamanho da insanidade do Coringa e o quanto ele é diferente dos demais criminosos. Mesmo assim, não há emocionalismo e o fato do narrador estar bêbado gera dúvida sobre se a cena ocorreu exatamente como foi mostrada .
Num mundo que já viu o 11 de Setembro ao vivo pela TV e é bombardeado diariamente por imagens de violência vindas dos quatro cantos do mundo, supervilões já não impressionam ninguém. Sendo assim, só restam dois caminhos às revistas de super-heróis : um retorno ao lúdico e ao fantasioso ou um mergulho profundo na realidade ;quem ficar no meio vai apenas patinar. E a dupla Azzarello -Bermejo é certamente a mais indicada para a segunda opção.

quinta-feira, 19 de março de 2009

TEATRO- NEKRÓPOLIS


Nekrópolis, espetáculo de formação do Núcleo do Ator da Escola Livre de Teatro de Santo André conta a história de uma organização terrorista,a Estirpe ,cujos atos subversivos consistem em desenterrar corpos e expô-los em locais como Shopping Centers e parques freqüentados pela classe média alta.
A narração se dá em dois tempos diferentes, intercalados por números musicais; no presente assistimos ao julgamento dos membros da Estirpe(estamos aqui nos domínios do suspense, portanto); no passado, aos atos necrófilos e sua repercussão junto à imprensa e a população(muitas delas bem engraçadas).
O corpos desenterrados pelos terroristas são de pessoas pobres, mortas em circunstâncias em que o Estado se fez ausente(seja na forma de segurança, seja na da saúde).
Com isso eles pretendem esfregar o “verdadeiro Brasil” , com todo seu odor desagradável,na cara dos que se escondem em prédios de luxo e condomínios e de bacharéis que acreditam que o país finalmente entrou nos eixos ao consolidar o processo democrático e permitir a chegada de um legítimo representante do povo ao poder.
E é para implicar de vez o espectador na questão que os atores iniciam o espetáculo na platéia, para onde voltarão algumas vezes, durante os números musicais.
Pode-se argumentar que premissa da peça seja de certa forma questionável. Não há por que crer que o choque pelo horror de nossas mazelas faria as classes altas se compadecerem de um Brasil pobre e violento, ou pelo menos olharem para ele.Ou que isso seja “subversivo” para além do ato criminoso. Vivemos numa sociedade em que essas imagens estão diariamente na TVs e na internet.E a mídia,ou parte dela, exibe cadáveres com estardalhaço,sob a justificativa hipócrita de denúncia das injustiças (quando o que quer é apenas garantir uns pontos no IBOBE).Tal superexposição da violência tem como resultado não mais a indignação (até as passeatas de ricaços em Copacabana desapareceram), mas apenas entorpecimento.Todos nós, ricos ou pobres, vemos com certa naturalidade e indiferença essa desdita nacional que governo após governo diz estar a um passo de resolver.
No entanto, se apenas levantasse essas questões a peça já estaria fazendo mais do que boa parte de nossos cineastas(esforçados que estão em não desagradar as empresas que lhes financiam). Por fazer isso de maneira tão corajosa e divertida é que esta peça vale ser vista e revista.
Quando morre, todo mundo fede igual”, diz um verso de uma das músicas. Que o dissesse(se fosse possível) Sérgio Naya !
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E fica aí um apelo: trasnformem essa peça num filme a altura dela. Será que temos um David Fincher por aí?


Nekrópolis está em cartaz todo sábado e domingo até dia 31 de maio no Teatro Conchita de Moraes, Praça Rui Barbosa, s/nº - Santa Terezinha , Santo André - Telefone: 4996-2164

PAPO DE BALCÃO !

Por que, em nome de Deus, o canal TCM está exibindo filmes dublados E TAMBÉM COM legendas??? Isso lá faz sentido?? Enquanto isso o TelecineCult dá um passo a frente e exibe filmes como O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski (passou ontem) em widescreen legendado.
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Um Abraço vai para o Ed , do Cineclube Alpharrabio http://cineclubeemsantoandre.blogspot.com/ que visitou este blog ela primeira vez. Aliás, quem perdeu a sessão de Metrópolis (ver post anterior) pode assisti-lo no Telecine Cult, dia 22 (sexta-feira) às 22h ou dia 24(terça), às19h:50. Não é a mesma coisa, mas...
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Quem quiser conferir clipes bacanas deve sempre dar um pulo no Balaio Baio http://www.balaiobaio.blogspot.com/, blog do Daniel Luppi. Estam semana, "Barcelona", por Giulia y los Tellarini, trilha do filme "Vicky, Cristina,Barcelona", de Woody Allen.

sexta-feira, 13 de março de 2009

AGENDA CULTURAL- Eventos gratuitos no Grande ABC

  • Amanhã começa a mostra Pedro Almodóvar-o Homem que amava as mulheres no teatro Abílio Pereira de Almeida, em São Bernardo do Campo com o filme Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, de 1988. Serão exibidos até o dia 4 de abril (sempre às 20h dos sábados) Tudo sobre Minha Mãe (1999), Fale com Ela (2002) e Volver (2006) . É bom dizer que, ao contrário do que sugere o nome da mostra, Almodóvar não morreu.
    No mesmo local, também as mostras Documentário recente no cinema nacional(domingos, 20h) e Clássicos Disney(domingos 16h).
    O teatro fica na Praça Cônego Lázaro Equini, 240 Baeta Neves; tel.: 4125-0582

    A Casa da Palavra (Pça do Carmo, S/N- Santo André) dá início à sua programação com o ciclo de Palestras"Racionalidade e Melancolia, o Pensamento Humano de Ulisses a Frankenstein" com o professor Leandro Gaffo todo sábado, até o dia 28, sempre das 15 às 18 h. O tema de amanhã é Ulisses e o Canto das Sereias: Desejo, Sacrifício e Auto-Interesse no confronto com a Natureza.
    Ainda este mês as palestras A mulher ideal e a mulher real no Brasil do Século XVII com a professora Clarisse Assalim, dia 17 das 19 às 21h e no dia seguinte no mesmo horário, A estética barroca e marcas do feminino,com o Professor Juarez Donizete.
    Informações pelo fone :4992-7218

  • O Cineclube Alpharrabio segue exibindo filmes do alemão Fritz Lang. Dia 18 às 14h30 é a vez de O Tigre de Bengala(1959)e dia 25, no mesmo horário, passa Sepulcro Indiano (1959).
    O Cineclube, que fica no Espaço Cultural Alpharrabio (R.Eduardo Monteiro 151, Santo André) exibe filmes em DVD com retroprojetor. Após a sessão, um bate-papo entre os presentes.
    Inf. em
    www.alpharrabio.com.br ou http://cineclubeemsantoandre.blogspot.com


Vale lembrar do texto escrito em 16 de janeiro pelo crítico Francis Vogner dos Reis exclusivamente para este blog, em que ele analisa a obra de Lang.

sexta-feira, 6 de março de 2009

WILL EISNER E A REVOLUÇÃO NOS QUADRINHOS 1- O BALZAC DAS HQS


Em 1978, Will Eisner vira de cabeça para baixo o mundo dos quadrinhos com o lançamento do primeiro romance gráfico (graphic novel) “Um Contrato com Deus- e outras histórias de cortiço” (Devir), que formaria uma trilogia com “Força da Vida”, de 1988 e “Avenida Dropsie em 1995”. Nunca antes havia ocorrido aos quadrinhos se aproximarem tanto do mundo real, dos pobres, dos vitimados pela Grande Depressão, dos moradores de cortiço, enfim.
A nova empreitada de Eisner, que já havia alcançado a consagração com as aventuras do detetive Spirit, era marcada pela ousadia.
Contrato com Deus era um livro composto por quatro contos, só que desenhados, o que embaralhava de vez as fronteiras entre literatura e quadrinhos, até então restritos ou às tiras para jornais ou às revistas. Os contos, aliás, eram histórias passadas numa vizinhança pobre do Bronx, mas especificamente na Avenida Dropsie. Até então os quadrinhos eram, de modo geral, histórias aventurescas, fantasiosas ou cômicas (daí seu nome em inglês, comics). Havia também algum tipo de crônica de costumes, mas nada que se aproximasse da abordagem direta, sem desvios ou fabulações de nenhum tipo feita por Eisner.
A reviravolta de Contrato com Deus é uma chegada tardia dos quadrinhos à maturidade na única forma possível, o rompimento com a tradição e busca de alguma forma de “realismo”, numa guinada bastante semelhante à que representou Balzac (e de certa forma Stendhal) para a literatura.
Em História Social da Arte e da Literatura (Martins Fontes), Arnold Hauser nota que
O naturalismo não tem por alvo a realidade como um todo, não a ‘natureza’ou a ‘vida’ em geral, mas aquela província de realidade que se tornou especificamente importante para essa geração. Stendhal e Balzac assumiram a tarefa de retratar a nova sociedade em mudança”.
Balzac, nos 80 romances que compõem a sua Comédia Humana ousa tratar do dinheiro, da ascensão social e das tórridas paixões, da realidade caótica da moderna Paris descrevendo, sem piedade ou maquiagem, ricos e pobres, exploradores e explorados.
Somente o operário morre no hospital no fim do seu esgotamento físico, enquanto o pequeno-burguês persiste em viver e vive, nem que seja aparvalhado; o rosto cheio de rugas, aplastado, velho, sem brilho nos olhos nem firmeza nas pernas, arrastando-se com expressão idiota pelos bulevares” diz em Fisionomias Parisienses.
É exatamente esse espírito que percebemos em Contrato com Deus quando lemos histórias como a do Cantor de Rua, onde o belo rosto e a bela voz que lhe rendem algumas moedas pelas ruas dos cortiços escondem um alcoólatra violento e explorador de mulheres. Ou na d’O Zelador, alemão solitário que bota medo nos inquilinos, a quem vê com desprezo, mas que também deseja ardentemente uma pré-adolescente moradora do prédio de que cuida. Ela, por sua vez, oferece sua nudez em troca de algumas moedas. Os desdobramentos levam ao suicídio do zelador encarado com indiferença pela garotinha.
Não é drama, não há superseres, nem mesmo pode ser chamado de comics. É uma coisa nova, o romance gráfico e daí para diante os quadrinhos conhecem um novo rumo.

WILL EISNER E A REVOLUÇÃO NOS QUADRINHOS -2 AS MODERNIDADES NAS ARTES







A primeira fase da modernidade, em qualquer forma de arte, é uma revolução caracterizada por algum tipo de rompimento com a tradição em direção a uma aproximação da realidade, em detrimento de qualquer tipo de convenção ou idealização. Essa Realidade natural (por isso chamada de naturalismo) e quase sempre oposta à Verdade, expressão de uma verdade superior e inquestionável. Seria assim tanto na pintura como no cinema quando há rompimento com os temas e os gêneros e com as convenções próprias de cada arte. No entanto o que se quer fazer aqui é encontrar paralelismos, coincidências, precedentes, não uma relação direta do tipo a pintura que influenciou o cinema que influenciou os quadrinhos o que seria algo extremamente ingênuo.

Na Pintura
Na pintura há um rompimento com os Grandes Temas (Histórico, Alegoria, Sacro, Retrato, Paisagem , Natureza Morta) que eram hierarquizados (Histórico e Sacro tinham mais valor do que uma natureza morta, por exemplo) desde Aristóteles para seguir rumo a uma arte visual, sem embasamento filosófico.
Segue-se uma busca por retratar, com todo suor e rugas, as pessoas do povo, como fariam, por exemplo, Honoré de Daumier (1808-1879) e Goustave Courbet (1818-1877) que para Gombrich “não queria formosura, queria verdade”(A História da Arte- LTC)- verdade aqui no sentido de realismo. Giulio Carlo Argan diz que “Courbet quer viver realidade como ela é, nem bela nem feia”(Arte Moderna- Companhia das Letras).
Não há mais lugar, para estes artistas, para pose, linhas fluentes ou cores impressionantes. Tampouco para a grandiloqüência de herdeiros de Rafael, como Jean Domimique Ingres (1780-1867).
Baudelaire dizia, ao defender a pintura do aquarelista Constantine Guys (1805-1892 ) que “os planejamentos de Rubens ou Véronèse não nos ensinarão a fazer chamalote, cetim à rainha ou qualquer outro tecido de nossas fábricas(...)o tecido e a textura não são os mesmos que os da antiga Veneza”(Sobre a Modernidade - Paz e Terra), exaltando que os modelos acadêmicos era apenas convenções que, apesar da beleza do trabalho em que resultariam, eram incapazes de dar conta do mundo moderno,só acessível a esta nova geração de artistas que rompiam com a tradição.

No Cinema
No cinema dos anos 1950 foi o neo-realismo que co filmes como “Roma Cidade Aberta” (1945) ou “Alemanha Ano Zero”(1948), ambos de Roberto Rosselini, buscava através do uso do plano-sequência (cena sem cortes ou edição) restaurar a ambigüidade da imagem, uma vez que no cinema clássico o que era mostrado correspondia ao que era de fato, sem margem para dúvidas (por exemplo quanto ao caráter de um personagem, que era ou bom, ou mau). Nessa busca pelo Real, recusava-se a filmagem em estúdio, a iluminação artificial e as grandes narrativas (feitos grandiosos, por exemplo). Mais próximo do trabalho de Eisner, no entanto, está o moderno cinema norte-americano, de "Uma Rua Chamada Pecado" (1951) versão da peça Um Bonde Chamado Desejo, de Tenessee Willians dirigido por Elia Kazan ou "Juventude Transviada"(1955), de Nicholas Ray . Um Bonde... mostra também este universo de cortiços, de imigrantes, de paixões incontroláveis, violência e personagens humanos, demasiado humanos bem distante da classe-média harmoniosa até então reinante nas telas. Em Juventude... a imagem da família tal como retratada normalmente no cinema (como refúgio de paz e moralidade e espelho do Sonho Americano) é demolida e o abismo violento entre pais e filhos é escancarado.
Nestes filmes a tradicional oposição entre bem e mal desaparece junto da idéia de que existe um caminho desejável para todos (que era sempre apresentado sem questionamentos pelo cinema) para dar lugar à pluralidade de tipos humanos, de aspirações, de necessidades. Não há mais lugar para uma única Verdade aqui.
Aqui os personagens não são mais os do repertório cinematográfico clássico, não são mais “tipos” e sim pessoas.

Nos Quadrinhos
Will Eisner se tornou parte desta revolução ao romper com as convenções de gênero dos quadrinhos, ao adicionar complexidade e humanidade aos seus personagens e a despejá-los no mundo real, com problemas e dilemas reais ao mesmo tempo que abandona as grandes aventuras fantasiosas ou as histórias cômicas para se interessar pequenas histórias de pessoas anônimas, às quais alça ao patamar dos grandes dramas humanos.
Apesar de trazer para as HQs a pobreza, solidão e finais muitas vezes infelizes, Eisner guarda também alguma (contraditória?) semelhança com o cineasta Frank Capra (de "A Felicidade não se Compra" e "Aconteceu Naquela Noite" -1934) na medida em que tem uma fé inabalável na bondade humana, na possibilidade da redenção e vê o mundo com olhar não cruel, mas piedoso.

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Imagens :
Marlon Brando e Vivian Leight em "Uma Rua Chamada Pecado"; "Vagão de terceira classe", de Daumier; "O quebra-pedras", de Courbet.
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Usei o termo “modernidades”por que o conceito de modernidade é originalmente referido às artes plásticas e só pode ser tansposto para as outras artes(principalmente o cinema) de maneira problemática. Voltarei a este tema quando falar de Pós-modernidade e o cinema de Quentin Tarantino e Robert Rodrigues.

WILL EISNER 3- ATORES DE PAPEL




Will Eisner já foi elogiado por vários escritores, entre eles John Updike que disse que ele “não estava apenas a frente de seu tempo; os dias de hoje ainda estão tentando alcançá-lo”. Também o nome dado à sua obra a partir de 1978, romance gráfico (graphic novel) pode levar a crer que ele buscou uma associação com a literatura, que haveria de lhe emprestar alguma credibilidade inexistente nos quadrinhos.
A arte de Eisner é tão particular que fica difícil crer numa associação com qualquer outra forma de arte.

Em seu livro teórico “Narrativas Gráficas” (Devir) ele conta que usava uma associação com animais para desenhar seus personagens. Uma pessoa com feições leoninas seria entendida como perigosa, um com “cara de rato”(rosto miúdo, nariz fino, dentes proeminentes) como covarde , etc. Para ele, as pessoas associariam rapidamente (e inconscientemente) as características animais e as integrariam ao caráter do personagem, numa técnica que visava suprir uma deficiência inerente aos quadrinhos, a escassez de tempo e espaço (abundantes no cinema e na literatura).
No entanto ele mesmo ressalta que quando a ambientação sustenta o personagem, essa técnica pode ser até mesmo abolida.
Fazendo uso dessa técnica ou não Eisner teve uma capacidade única de criar personagens pois pensava com a mente de um ator, não de um desenhista. O desenhista de quadrinhos busca colocar o personagem numa posição que seja interessante visualmente e que exprima perfeitamente a ação; por isso nas histórias de super-heróis existem tantas cenas de luta idênticas, elas até fazem parte de um a espécie de ‘manual” de como se desenhar. Se Eisner, por outro lado, faz seus personagens se expressarem por gestos um tanto exagerados é por que eles “agem” como um ator de cinema mudo (que buscava que seus gestos fossem claros o suficiente na ausência de som) ou de teatro (que com técnica semelhante pode superar a distância entre o palco e o espectador). Os gestos são facilmente reconhecíveis, mas nunca uma mera reprodução de convenções. Ele conhece bem as particularidades dos corpos e mentes de seus personagens e usa isso na hora de coloca-los em movimento. Dois de seus personagens frente a uma mesma situação (perigo, por exemplo) nunca reagirão da mesma maneira, ainda que ambos estejam com medo.
E a caracterização dos rostos aliada à movimentação particular de cada um nos conta muito sobre a vida de cada personagem, coisas que nem são ditas nas histórias.
A primeira cena, de Pequenos Milagres (Devir) mostra A Sra Grepps, uma mulher sofrida, mas que luta para sustentar o casamento de Reba, a filha surda-muda. Já a segunda traz a Sra Fegel, mãe do rapaz sem uma perna casado com Reba. Duas mães de filhos deficientes, duas histórias de vida diferentes, duas pessoas completamente diversas.

WILL EISNER 4- A POESIA DAS ÁGUAS


Will Eisner é famoso por desenhar cenas de chuva como ninguém. Como já ressaltei ao tratar da peça Avenida Dropsie, este é o grande momento de suas HQs e está muito além da banalidade corrente na Tv ou no cinema, quando a chuva vem quase sempre endossar a tristeza de um personagem ou ainda adicionar alguma dificuldade à provação por que passa.
Eisner é um poeta nestes momentos.
Em O Edifício (Abril Jovem) Monroe Mensh fracassa ao se esquivar de uma bala num assalto vê uma criança ser atingida e morta. Desprezando a si mesmo, abandona o emprego e vai trabalhar de graça num orfanato. A caminhada para fora da loja onde era o principal vendedor rumo ao futuro incerto é feita debaixo de um temporal. Em Pequenos Milagres, Melba encontra nas ruas do cortiço um adolescente que age de maneira estranha e não sabe falar. É abraçada a ele que ela corre debaixo de chuva para casa, onde irá esconder o garoto e ensinar-lhe a ler, escrever e falar . Há exultação, ao contrário da resignação de Mensh, pois ficará nas entrelinhas uma atração sexual desta mulher madura e solteira que ao final da história, ‘fica para tia”trabalhando numa livraria. Em Contrato com Deus (imagem acima), a chuva cai pesadamente no dia em que o judeu praticante Frimme Hersh enterra sua pequena filha. Mais do que tristeza, a chuva é o cenário de uma batalha deflagrada assim que Hersh entra em casa e grita furioso contra Deus.
Seria tolo buscar um significado único que pudesse explicar todas essas cenas. É o grande Mistério da Vida, só acessível pela linguagem poética.