segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

QUANDO OS QUADRINHOS TENTAM SER CINEMA











Entre o Homem de Ferro de 2007 (a primeira imagem de baixo para cima, ) e o de 1979 há grandes diferenças.
Na cena extraída de Guerra Civil nº 7, publicada pela Panini ano passado e que tem desenhos de Steve McNiven, vemos claramente uma daquelas tentativas dos quadrinhos de super-heróis de se aproximarem do cinema em mais de um aspecto . Em primeiro lugar, a busca por um certo realismo dos desenhos (com as proporções dos corpos correspondendo às humanas, o uso correto da perspectiva,etc) que é parte de uma tendência de se tornar as histórias “sérias” de dar a elas “complexidade” inserindo tramas mais complicadas e longas , muitas vezes com intrigas governamentais. Às vezes tem-se resultados muito bons, noutras vezes , constrangedores, o que não é o caso aqui. A seqüência é um exemplo de decupagem cinematográfica, com o uso correto de plano e contraplano (mostra-se o rosto do Capitão,depois o do Homem de Ferro, então volta ao Capitão) numa seqüência lógica que poderia muito bem ser um storyboard (os desenhos feitos a partir do roteiro e que orientam o diretor) de um filme.
Já o de 79(extraída de Os Grandes lássios do Homem de Ferro nº1,com traço de John Romita Jr), tem à sua disposição muito mais elementos que são próprios à linguagem dos quadrinhos e só a ela. Se isso lhe custa em “realismo”,em desenhos detalhados, lhe dá em expressividade e riqueza de significado. Um simples fundo azul, ali é entendido como um céu, linhas brancas tanto como vento ou velocidade. Um fundo amarelo (absolutamente irrealista, sem cenário ou figura de fundo),por exemplo, amplia o impacto visual e dramático de um desenho.
Lembremos que o cinema, em seus momentos expressionistas (na Alemanha dos anos 1920) a fim de conseguir estes mesmos efeitos(com objetivos outros,claro), trabalhava arduamente para extrapolar as sombras, explodir a iluminação e distorcer cenários, maquiagem e cenografia.
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Extraídas de seus contextos, o resultado é desigual. O desenho de McNiven se enfraquece sem a seqüência que o sustenta, que é impactante, com belos desenhos, mas não mais do que isso. Já o de Romita Jr poderia muito bem ser transposto para uma tela e pedurado numa parede de Galeria de Arte que ganharia significado próprio, dialogando com a linguagem da pintura (a tela, as cores, a tinta) e sua tradição visual bem como com o público, que participaria da interpretação da obra a partir de seus elementos mais abstratos (as linhas, as cores puras).
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Quanto às histórias, a mais recente é claro, é mais madura,complexa e melhor construída (ainda que a primeira traga o interessante lado alcoólatra do Homem de Ferro), com noções de clímax e depuração de roteiro superiores. Mas isso está ao alcance do cinema.

DIA DE CÃO, DIA A DIA

É assistindo a Um Dia de Cão, que Sidney Lumet dirigiu em 1975 que percebe-se como grandes filmes (e grandes romances,contos,peças) não envelhecem e ainda ganham constantemente novos significados.
Baseado num caso real, conta a história de Sonny (Al Pacino nos bons tempos) e seu parceiro, que invadem um banco, mas acabam encurralados pela polícia, dividindo-se entre as exigências absurdas (um helicóptero e um jato para a fuga) e a simpatia do população (que cerca o local) e do reféns, que se divertem com o fato de não estarem trabalhando.
A presença das câmeras de TV no local, os entrevistadores falando ao vivo por telefone com Sony , tudo isso faz dele uma celebridade instantânea . Um momento iluminado é o que mostra um entregador de pizzas (negro com o melhor visual black power)na porta do banco e que, após receber o dinheiro de Sony, faz alguns passos de dança e grita: “sou uma estrela”.
Impossível não relacionar com a estupidez de apresentadores-animadores como Brito Jr, Geraldo Luís e outros tantos na condução de casos policiais, o mais recente deles o de Lindemberg Alves que terminou com assassinato de Eloá Pimentel em Santo André.
E numa outra análise, com os bancos sendo parte da roda de ganância que atirou os EUA e o mudo numa recessão quase sem precedentes, ver o povo aplaudindo alguém que ataca uma instituição bancária (mas não seus funcionários) e atira notas em direção à multidão tem um outro significado, atualíssimo.
Duas coisas:
1- De lá pra cá boa parte da imprensa não aprendeu nada.
2-Fosse dirigido por um Michael Bay (Transformers, Armaggedon) da vida esse filme já teria sido esquecido. Mas não, é obra de quem entende do riscado, e por isso permanece.

DE VOLTA AO BALCÃO

Bem, primeiramente peço desculpas ao leitores como o Dj Mandio e o caríssimo Daniel Luppi, que perguntaram o motivo das férias prolongadas deste blog. Concluídos(ou quase) os compromissos acadêmicos, já posso voltar a escrever.
E a primeira dose é por conta da casa!

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

HULK, JÁ PRO DIVÃ !!!




Que dizer do mais recente filme da Marvel Entertainement, Hulk? Que, nos melhores momentos, é tão somente um passatempo divertido. E esse problema não se deve em nada ao fato dele ser adaptação de uma história em quadrinhos de super-heróis e sim ao filme não ter absolutamente nada a dizer.
Sem rodeios: não há história, só um jogo de gato e rato entre o Hulk e seu perseguidor ,o obcecado General Ross, pai da namorada do herói, Betty.No meio do caminho, um dos soldados de Ross exagera nas vitaminas e acaba se transformando no Abominável, um monstrengo maior e mais assutador que o próprio Hulk. E é a isso que esse filme se presta, a mostrar a briga dos dois gigantes. De resto, só um vazio barulhento.
Quem é esse exército que o persegue? O que ele representa? Nada. Quanto do drama de um pai que quer prender e destruir a todo custo o grande amor da vida de sua filha é aproveitado? Apesar da dimensão humana (pais e mães castradores, que buscam frustrar a vida pessoal de seus filhos a fim de mantê-los sempre dependentes e próximos são comuns) , absolutamente nada. E que uso o diretor Louis Letterier faz do drama do homem que tem de viver longe de todos os que ama por que põem em risco a vida deles por se transformar num mostro? Nenhum. E olha que levar isso para a vida real é bem fácil, basta buscar uma identificação com pessoas com certos tipos bem comuns de comportamentos anti-sociais e transtornos (obesssivos-compulsivos, neuróticos, esquizofrênicos) que os faz, nalguns momentos, “monstruosos” aos olhos de parentes e amigos.
Para ficar em outro exemplo da própria Marvel, Homem de Ferro é um filme cheio de ação mas que, logo em seu início enfia o dedo na ferida da política externa americana, mostrando que quem lucra com as guerras em países distantes como Iraque e Afeganistão são os milionários, fabricantes e vendedores de armas que se divertem com uísques caríssimo e belas modelos enquanto jovens são mortos nas trincheiras. Tony Stark, o herói, é um deles. Um filme de super-heróis não precisa ser vazio.
O Divã
O Hulk, um gigante descontrolado que surge quando o Dr. Banner fica irritado é, no fim das contas, um caso clínico, uma derivação simplificada do “Mr. Hyde” de “O Médico e o Monstro”, novela que Robert Louis Stevenson escreveu em 1866 (há até mesmo os dois Drs. como alter-egos dos monstros) . Mas se surgiu simplificada não quer dizer que tenha de permanecer assim para sempre.
Vale transcrever uma fala do Dr.Jeckyll, sobre sua transformação ( tradução é de Mario Fondelli): “Ao primeiro sopro desta nova vida, senti de ser malvado,vendido como um escravo à minha primitiva crueldade”. Já Vieri Razzini, no prefácio à edição da Newton Compton (1996) diz : “O ‘mal puro’que Hyde encarna emana da sua própria pessoa(...)Hyde personifica,e reflete nos outros,a maldade interior,sem que seu corpo mostre qualquer deformação”. A deformidade do corpo é cortesia de gravuras subseqüentes que ficaram no imaginário popular gerando versões de desenhos animados (Pernalonga e Pica Pau, entre tantos outros), filmes (A Liga Extraordinária e Van Helsing por exemplo) e o próprio Hulk.
Outra diferença fundamental entre os dois está na origem dos monstros: como de praxe nos quadrinhos de super-heróis, Dr.Banner“recebe” seus poderes de Hulk, que, no entanto, lhe são quase uma maldição, tamanhos os transtornos que lhe causam, através de uma experiência malsucedida, um acidente.Ele é uma vítima, portanto.
Já Dr.Jeckill fazia de tudo para “esconder meus prazeres...com um senso de vergonha quase mórbido” e por isso toma a poção para conseguir uma espécie de libertação da moral repressora de seu tempo.
Uma versão em quadrinhos feita para o selo Ultimate da Marvel (histórias paralelas à cronologia oficial da editora) é bastante ousada e interessante. Banner, um cientista com todo tipo de frustração, cria o “soro do Hulk” com a justificativa de ajudar o Capitão América, mas que na verdade busca dar a ele força superior e outra personalidade que lhe possibilitem a fuga de suas fragilidades (faz isso logo após levar um fora de Betty Ross). Se Hyde era uma reação violenta à repressão, este Hulk é uma busca desesperada de uma pessoa frágil por ser super (como seus colegas de equipe), exatamente a exigência que a sociedade faz a todos nós (falei a este respeito no texto sobre Nelson Rodrigues). O Hulk aqui é uma clara analogia para as drogas (ou à posse de uma arma!).
Com todas estas possibilidades, o filme de Louis Letterier preferiu ser um mero passatempo barulhento. Fazer o quê?

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As imagens (clique para ampliar)que reproduzi são da revista Marvel Millenium-Homem Aranha, publicada pela Panini em abril de 2003(com desenhos do espetacular Bryan Hitch) e republicada posteriormente em volume encadernado . O Hulk, nesta versão “Ultimate”(que no Brasil recebeu o nome de Millenium) é cinza, com era, aliás, nas primeiras histórias da década de 60, que podem ser conferidas no encadernado de luxo Enciclopédia Marvel- Hulk da mesma Panini . Problemas técnicos nas gráficas fizeram com que acabasse sendo impresso verde.
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"O Médico e o Monstro" , como Crime e Castigo, de Dostoiévski, é daqueles livrosque antecederam a psicanálise na compreensão de que existem motivações obscuras por detrás dos atos humanos e que, sobre elas, a razão tem pouco domínio .

terça-feira, 14 de outubro de 2008

COMO SERÃO OS FUTUROS SUPERVILÕES ?


Não tenho acompanhado quadrinhos de super heróis já há algum tempo, no entanto sei (pela revista Wizmania, da Panini) que a nova estratégia da Marvel Comics para atrair leitores é a de dizer que muitos de seus heróis são, já há muito tempo, Skrulls disfarçados e que os heróis verdadeiros estão desaparecidos ou raptados. Ninguém até agora sabe quem, entre os superpoderosos é humano ou um Skrull. Para quem não está entendendo nada, explico : os Skrulls não são nada mais do que uma raça de alienígenas transmorfos malvados. E alienígenas malvados, todos sabemos muito bem, são a metáfora perfeita que os norte-americanos encontraram para todos aqueles que eles temem, ou seja, os estrangeiros. A tal da ameaça externa, gente bárbara e gananciosa que querem destruir a terra da oportunidade e da democracia. Há inúmeros exemplos, principalmente no cinema dos anos 1950, auge da Guerra Fria que fazia dos aliens uma versão fantasiosa dos soviéticos.

Pois bem, agora os vilões não são mais meros invasores(como eram os klingons de Star Trek), são transmorfos, ou seja, aqueles que se fazem passar um de nós, como foram os terroristas do 11 de setembro. O clima de delação e desconfiança estimulado por Geroge W.Bush levou os norte-amerianos a demonizarem tanto quanto possível os imigrantes. O reflexo está aí, nos quadrinhos .

Interesante é imaginar de que forma a nova crise , desta vez financeira, irá afetar o imaginário dos americanos (e, em consequência, os quadrinhos e o cinema). É uma rise de confiança também afinal tudo iniciou com a concessão livre e desenpedida de crédito, mas desta vez ela recai sobre os próprios norte-americanos, afinal foram eles mesmos quem contraíram dívidas e não conseguiram pagar, gerando a bola de neve que arrastou bancos centenários para o buraco e, na esteira, o resto do mundo.
Aí fica a pergunta : Que forma terão os futuros vilões, quando tudo isso for assimilado pelos artistas? Como fazer de seu próprio povo um monstro, da mesma maneira que eles tão facilmente sempre fizeram com o resto do mundo?
Acho que os próximos apítulos serão os mais interessantes.


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A imagem foi extraída da wikipédia e é a capa de Fantastioc Four 2, de janeiro de 1962, desenhada por Jack Kirby, onde os Skrulls aparecem pela primeira vez. Essa história foi republicada pela Panini na série enadernada de luxo Encilopédia Marvel - Quarteto Fantástico.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Para quem assistiu ou pretende assistir Ensaio sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles é praticamente obrigatório dar um pulo neste link:

http://www.revistacinetica.com.br/blindnessdebate.htm
A Revista Cinética reuniu nada menos do que 9 textos curtos escritos por seus redatores, cada um com uma opinião bem particular (e muitas vezes divergente das dos outros) sobre o filme.

BATMAN EM LIVROS DE ARTE? - UMA BELA DOR DE CABEÇA (parte2)


Para completar devidamente a postagem anterior, é preciso dizer que também existem livros da Taschen dedicados a cineastas como Antonioni, Kubrick e Truffaut e que também é possível analisar a construção das cenas estáticas no cinema, como se fossem pinturas. Este, aliás, foi o tema do curso “Afinidades Eletivas: Cinema e Pintura” ministrado pelos Profs.Dr.s Marcelo Augusto e Vera Bungarten entre os dias 03 e 13 de abril deste ano. Dito isto, é preciso ressaltar que se no caso dos quadrinhos a ligação com a pintura é ainda mais íntima (exatamente por causa dos desenhos) ,reproduzir uma página inteira de uma HQ equivale a reproduzir não uma única cena de um filme, mas toda uma sequência.
Desta maneira os limites ficam bastante embaralhados. De qualquer modo Neil Adams é um artista gráfico soberbo, que sabe dominar como poucos toda a expressividade dos traços sintéticos e do uso do nanquim. Em minha opinião, não pode haver violência maior do que colorizar seus desenhos.

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Para não ficar no “achismo”e lidar de maneira imprecisa com os termos, vale dizer que , segundo o Dicionário Teórico e Crítico de Cinema de Jaques Aumont e Michel Marie (Papirus Editora) seqüência é “um momento facilmente isolável da história contada por um filme:um sequenciamento de acontecimentos,em vários planos,cujo conjunto é fortemente unitário”que também “pode ser contida em um único plano(o que se chama,justamente,de um plano sequência)”.

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Faltou dizer também que as imagens foram extraídas da revista Batman - Almanaque Classic que a Opera Graphica lançou em 2001, acertadamente em preto e branco.

LINHA DE PASSE - O VERDADEIRO JOGO DA VIDA

Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, tem uma virtude rara: não é preconceituoso. Sabemos bem que cinema é feito para uma elite que pode pagar R$ 15,00 para ver um filme. E, quase sempre quem escreve e dirige (para a TV, inclusive)pertence a um grupo ainda mais restrito, ou seja, de conta bancária beeem gorda. Então o que vemos com uma freqüência assustadora na representação audiovisual é a repetição das mesmas idéias pré concebidas. Repare num comercial de TV que se passa dentro de um ônibus e você verá que ninguém ali se parece realmente usuários de transporte público. Esse pessoal quase sempre retrata a si mesmo e, quando não o faz, nos mostra o que eles acham dos Outros, os “pobres”(o que quer que eles entendam por isso).
Linha de Passe é, então, uma exceção. Lá os protestantes não são nem desonestos nem fanáticos idiotas, como não são também os torcedores que vão a estádios de futebol (numa bela sequência,logo no início, vemos que a fé os une), o futebol não é um mundo mágico de encanto, mas sim o lugar onde se faz todo tipo de falcatruas, de forjar identidade falsa à vender vaga na equipe. Os tais “pobres” (qualquer pessoa que não more em áreas nobres de São Paulo ou na zona sul carioca) não são criaturas disfuncionais, grotescas (como na maioria dos filmes) nem ingênuos bondosos e quase cômicos(como em 100% das telenovelas).
E o ônibus não é um lugar onde criaturas esquecidas por Deus sofrem o pão que o diabo amassou de cada dia,mas uma metáfora de liberdade, movimento , que a grande idéia por trás do filme, “seguir em frente”. Bem diferente, vale notar do keep walking da propaganda de Whisky ou do caminhar dos vitoriosos economicamente da propaganda da Nextel. Em linha de passe o que temos é muito mais próximo do conselho tradicional em horas difíceis: bola pra frente.

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Linha de Passe, paradoxalmente, fica completamente fora do alcance das pessoas nele retratadas. Se o públio que pode pagar R$16,00 num ingresso de cinema de shopping Center, que dirá daquele que pode se deslocar à avenida paulista para ver o filme?
Mesmo com Sandra Corvelloni tendo recebido prêmio de melhor atriz em Cannes.

A VIDA NÃO É TÃO SIMPLES NO MUNDO DOS SOPRANOS


A partir de hoje às 21h o Warner Channel passa a exibir o seriado Família Soprano, cujas seis temporadas já passaram na HBO e estão disponíveis em DVD. Serão dois episódio seguidos, diariamente até o dia 10 quando a emissora passa a exibir a série aos domingos, também às 21h.
Família Soprano, quase todo mundo já sabe, foi, junto de Sex and the City, a responsável pela existência das chamadas “séries adultas”, que não economizam em violência, sexo e palavrões e trata da vida de Tony Soprano (James Gandolfini), um chefe mafioso que sofre de síndrome do pânico e tem de se confrontar com sua insuspeita fragilidade indo a uma psicanalista.
Mas é muito,muito mais do que isso. Família Soprano tem tramas e personagens complexos como raramente (estou sendo otimista) se vê no cinema, principalmente se o filme for produzido em Hollywood. Por tramas e personagens complexos entenda-se “incompletos”, que não se fecham em si mesmos, ou seja, nada lá é tão simples. Tony é um chefão violento, mas ao mesmo tempo (em não em contraposição) um pai amoroso, marido dedicado, mas também infiel. Por vezes arrepende-se de suas traições amorosas e das mortes que causa, por vezes não. E não nos é dito o tempo todo o porquê das coisas. Não veremos também, como seria o caso de um filme medíocre de gângster (e eles existem às pencas), uma oposição entre a família (mulher e filhos) e a famiglia mafiosa. Tudo se mescla, chega praticamente à unicidade. E é assim com todos os personagens, que podem ser a um só tempo justos e decentes , egoístas e mesquinhos. Não somos todos assim?
As tramas também fogem para bem longe da obviedade, ou seja, se algo de ruim acontecer com Dra.Melfi (Lorraine Bracco), não espere por ela pedir socorro a Tony, que, assim, agiria como agente vingador de nossos sentimentos de espectador, aquele que lava nossa alma e que nos faz exclamar “é isso aí”, heroificando-o através da catarse. A vida não é assim. E não espere também que, ao longo dos 86 episódios você vai conhecer os personagens tão bem a ponto de antecipar cada atitude deles. ninguém conhee uma pessoa tão a fundo assim.
É essa indefinição das coisas e pessoas, essa complexidade, que faz desta uma das melhores séries de TV já exibidas.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

BATMAN EM LIVROS DE ARTE? - UMA BELA DOR DE CABEÇA



Na sua coluna no site omelete
(http://www.omelete.com.br/conteudo_colunas.aspxid=100014953&secao=colunas) Érico Borgo , ao resenhar a HQ encadernada Batman por Neil Adams -vol.1, lançada este mês pela Panini fez duas afirmações bastante interessantes. A primeira foi :
“Na série, Adams começou a experimentar os limites da arte seqüencial. Aos poucos, foi deixando de lado o engessamento dos quadros e passou a explorar o dinamismo que o meio tornava possível”
Incontestável. Dá para ver isso na primeira figura, onde há um claro “desrespeito”para com os quadros e o próprio espaço entre eles passa a compor a cena, que ganha assim enorme expressividade.
A outra afirmação faz referência à uma das mais conceituadas editoras de livros de arte, a Taschen:
“Não fossem tais personagens propriedade da DC, creio que veríamos coleções da elegante Taschen dedicadas a criadores como Neal Adams”.

Analisar a questão é complexo, envolve um mergulho em teorias da arte, terreno em que existe pouquíssima unanimidade. Seria preciso estabelecer um critério para o que é arte e assim dizer se seu desenhos, desvinculados das histórias, teriam valor de “grande arte”(taí outro conceito espinhoso) a fim de figurar ao lado de catálogos de pintores como Michelangelo ou Matisse. Uma aproximação mais obvia e tentadora seria com a Pop Art. E,já que falamos da Taschen, vamos a ela, mais propriamente ao livro Pop Art, deTilman Osterworld:
“A trama estereotipada opõe uma retenção impessoal de criatividade. É assim que se manifesta claramente a contradição entre a emoção pessoal e a emoção anônima”.
Osterworld fala sobre toda a Pop, mas mais especificamente sobre Roy Lichteinstein, que reconstruía imagens extraída de histórias em quadrinhos em suas gravuras. O essencial na Pop é a impessoalidade (um conceito que nasce com Marcel Duchamp) expressa nas figuras da sociedade de massas, os quadrinhos, a publicidade e por aí vai. Não seria então sob o rótulo de Pop Art que os desenhos de Neil Adams, figurariam (fosse o caso) num livro da Taschen.
Isto tudo pode parecer bobagem, mas o caso é que os quadrinhos, entendidos Omo ate, precisam ser encarados não só como desenho, mas também como narrativa. Entendê-los só como desenho seria o equivalente a ver atributos artísticos no cinema somente através da figura estática (o fotograma), uma imagem pausada. No livro “A Estética do Filme”(Ed.Papirus), Michel Marrie fala que “a fim de provar que o cinema era de fato uma arte, era preciso dotá-lo de uma linguagem específica, diferente da linguagem da literatura e do teatro” a fim de mostrar todo o problema que envolve reconhecer uma “linguagem” ou uma “gramática” do cinema, que é um dos caminhos para reconhecer seu atributo artístico.
Portanto, se levarmos em conta só os desenhos de Neil Adams, teríamos de abandonar todo ritério para o qual os quadrinhos são reconhecidos (com boa dose de má vontade) Omo a Nona Arte.
Bom, tudo isso para retornar à pergunta: o trabalho de Adams cabe num livro da Taschen ou, é Arte por si só, livre da estética dos quadrinhos?
Não vou me aventurar a responder agora (antes, estudarei melhor o tema), mas se a editora lançasse um livro destes eu o compraria com certeza. A força da segunda figura fala por si só.

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“Existe, todavia, uma maneira radical de superar a heterogeneidade da linguagem crítica e da linguagem objeto de análise(o filme).Consiste na utilização do próprio filme como suporte de análise do cinema:o cinema didático não tem qualquer dificuldade em citar extratos de outros filmes,basta-lhe reproduzi-los,como faz uma análise crítica que cita um texto literário” – diz Marrie no livro já citado. Trazendo a coisa para os quadrinhos, dois autores fizeram o equivalente, ou seja, discorrer sobre a linguagem das HQs , seus limites e possibilidades utilizando o próprio meio,ou seja, uma HQ. Um deles é Scott McCloud, no livro Desvendando os Qudrinhos (M. Books). O outro é o brasileiro Jozz em O Circo de Luca(Devir), premiado como artista revelação no último HQMix.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

CACHORRO,NÃO !

O documentário Waldick- Sempre no Meu Coração, dirigido por Patrícia Pillar (e de que já falei neste blog)passa hoje às 22h no Canal Brasil.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

BELEZA E SIMPLICIDADE EM "MESA PARA DOIS"


Uma garota é contratada por Milo, um escritor com bloqueio criativo que quer alguém para conversar ( vale notar que ele na verdade é o Lourenço Mutarelli, para quem o álbum é dedicado). Em paralelo, vemos que ela trabalha num restaurante onde conhece um garoto de cabelos bagunçados. Ele, nas horas vagas é músico, mas não um rocker estiloso, mas um trompetista de uma orquestra que toca em bailes onde a maioria dos freqüentadores são idosos.
Eles pegam lotação juntos e às vezes conversam. Ele gosta dela, ela não sabe.
Foi sem pretensão ou grandiloqüência que os gêmeos paulistas Fábio Moon e Gabriel Bá , vencedores em três categorias do Eisner Awards (o Oscar dos quadrinhos) deste ano, conseguiram com este "Mesa para Dois"(Devir) algo raro (até mesmo no cinema, principalmente o brasileiro) : construir uma história simples (apenas na forma) mas encantadora sobre a incompletude de todos nós ,a dificuldade que temos em nos comunicar e sobre a importância das pequenas coincidências em nossas vidas.
“O senhor Milo diz que a gente não enxerga as coisas que estão bem debaixo do nosso nariz”, diz a garota. Verdade.

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dedicado especialmente ao casal Mário e Leila (e à Sophia também !)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

O QUE FAZ VOCÊ FELIZ? - continuação

Só como complemento ao "o que faz você feliz", vale dizer que na chamada para o programa Dr. 90210(ignoro o nome que ele tem na tv aberta), reality show sobre a vida de um cirugião plástico exibido pela RedeTv! domingo passado a apresentadora anunciava que iriram mostrar "como a operação plásica pode melhorar a vida profissional de alguém".
Também em outdoors pode se ver o anúncio de uma marca de calçados infantis cujo slogan é "a sandália que faz o meu mundo mais colorido".
Em comum a ambos a noção de que uma transformação externa leva a alguma forma de melhora na vida ( o "colorido"). Isso, calro, vaoi na contramão de toda psicanálise, para quem os desonfortos tem,na realidade, origem intena. Não é nem a posse de um bem, ou a conquista de um "grande amor", ou o "banho de loja" que elimina as angústias (usando os termos om toda liberdade a que um não psicológo pode ter).

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

NELSON RODRIGUES E O LEMA " O QUE FAZ VOCÊ FELIZ?"

O conto O Pastelzinho, de Nelson Rodrigues, que pode ser lido no livro “A Coroa de Orquídeas e outros contos de A Vida como ela É” (Companhia das Letras) é um dos cinco encenados pela Cia Paulista de Artes na peça As Noivas de Nelson, que tem direção e adaptação de Marco Antônio Braz. Segue um trecho:

“Muito carioca, estabanado, Sérgio mudava diante da noiva assim doce e assim macia. Sem querer, ele a tratava com relativa e involuntária cerimônia. O chamado “beijo bem molhado”era a máxima liberdade formal que se permitia. Mas, na véspera do casamento, ela o chamou de lado.No seu jeito manso, começou:
- Vou lhe pedir um favor, meu filho.
Abriu-se:
- Pois não!
E ela:
- Eu não queria que você falasse mais em “beijo molhado”. Acho tão sem poesia!
Pela primeira vez, Sérgio quis resistir:
- Mas,meu bem,escuta cá- por quê?
Explicou:
- É o seguinte: - quando você fala assim eu penso logo em saliva.
O outro animou-se:
-Mas é por isso mesmo!A graça do beijo está, justamente, na saliva meu anjo.-E insistia, já inspirado:-Na mistura de saliva.
Dalva encerrou a discussão com sua doçura irredutível:
- Eu não penso assim.
Sérgio transigiu, imediatamente:
- Está bem, coração. Todo meu interesse é de te agradar
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Acerca dos personagens de Nelson Rodrigues, Ruy Castro diz na apresentação do livro “O Melhor do Romance, Contos e Crônicas” (Companhia das Letras/Folha de São Paulo) que eles são “homens de bem, senhoras honestas e virgens de catorze anos, roídos por fantasias inconfessáveis”.
É interessante notar o quanto isso mudou, o quanto a sexualidade reprimida dos tempos de Nelson (e que levava seus personagens a situações constrangedoras e de desespero) hoje é escancarada. Basta dizer que qualquer celebridade de quinta categoria hoje faz um filme pornográfico e vai a programas de TV divulgar seu “trabalho”. Isso não pode ser explicado apenas pelo que se chamaria de “evolução dos costumes”, mas sim por uma cultura que privilegia o prazer e a felicidade do indivíduo acima de tudo. A evolução ocorreu sim e uma peça como Beijo no Asfalto, em tempos de Parada Gay, soa até estranha. E se um dia já foi considerada valorosa e “decente” a mulher que permanecia virgem até o momento do casamento, hoje ela é motivo de, no mínimo, estranheza. Mas há mais do que apenas a evolução da sexualidade rumo a uma maior liberdade.
Hoje a obrigação é ser feliz, e o que conta mesmo é o Indivíduo, e não há porque se colocar entraves à satisfação de nossos desejos (sexuais, de consumo ou de outra ordem). Daí muito daquilo que antes era moralidade ser hoje tabu, (por exemplo, a virgindade).
A publicidade o tempo todo nos mostra imagens de pessoas felizes (O que faz você feliz? -nos pergunta um anúncio da rede Pão de Açúcar) e que assumem uma postura vitoriosa diante da vida. Ficamos assim numa obrigação de sermos “vencedores” e “felizes” (passando por cima de tudo quanto de abstração há nestas palavras). Se não nos encaramos nem como vitoriosos nem como felizes (e se todo sofrimento é inaceitável, toda dor, um defeito) temos sempre à mão nossas soluções mágicas, que já não são mais os patuás benzidos ou as fitinhas trazidas de alguma romaria, mas sim produtos de uma sociedade que mesmo quando é religiosa, se mostra “científica” e, quando se diz “científica”, é quase mística.
Temos desde as pílulas do amor e as da felicidade a inúmeros livros de auto-ajuda que nos “ensinam” a obter “sucesso” e ter uma vida “vitoriosa”, curiosamente as mesmas promessas feitas por tele-evangelistas, padres cantores e todo um sem número de crenças religiosas, que, ao contrário do que vemos nas peças de Nelson, buscam não mais recalcar, mas exacerbar. Se, por um lado, seus problemas podem ser resolvidos engolindo alguma pílula, eles também podem desaparecer apenas assumindo a atitude “correta” (seja ela o “pensamento positivo” dos livros ou a afirmação da fé, ou mesmo algum tipo de doação)
A transformação da aparência é apenas outra face da solução mágica. Não é de surpreender a busca desesperada pela operação plástica ou a crença (literalmente) no poder de um banho de loja. Acredita-se, do mesmo modo, que mudando o “visual” muda-se a personalidade – os livros de auto-ajuda falam em “mudança de atitude”; o “banho de loja” que muda para melhor a vida de uma pessoa é comum em filmes, principalmente as comédias românticas e é apresentado como o primeiro passo para a superação dos obstáculos apresentados ao protagonista( a conquista do grande amor , o sucesso no emprego, etc). Essa crença na personalidade “ideal” conseguida através da construção da identidade (maquiagem da aparência) está no cerne da existência, por exemplo, dos sites de relacionamento e boa parte da comunicação via internet. É no universo virtual que se transforma naquilo que se gostaria de ser e assim se apresenta aos outros.
O que a idéia de soluções mágicas traz consigo é que tudo está ao seu alcance (o que faz você feliz?) , basta assumir a atitude correta. Portanto o “fracasso” ou a frustração gera toda uma nova gama de males, como síndrome do pânico, consumismo, ninfomania e depressão (vale notar que Freud se referia apenas à melancolia).
É o mal-estar da pós-modenidade.

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“não há nada de especificamente psicanalítico na idéia de depressão. Na verdade,pode-se afirmar que a depressão,na forma como a concebemos hoje, é produto tanto da influência sutil da indústria farmacêutica no modo como encaramos nossa vida emoional quanto da medicina psicológica. Os fabricantes de antidepressivos fazem questão de que a aflição seja entendida como depressão para criar a necessidade dos seus produtos” diz Jeremy Holmes no pocket book “Depressão” (Ediouro/Duetto).

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Que as drogas tenham se tornado uma epidemia não surpreende. Elas são a maneira mais rápida e fácil de se obter prazer e esquecer frustrações.

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Não passa nem perto das intenções desse texto dizer que a obra de Nelson Rodrigues está ultrapassada. As figuras de filhos dependentes, mães castradoras, sogras dominadoras e toda sorte de tipos urbanos estão vivíssimos. E o repórter justiceiro e oportunista de Beijo no Asfalto só trocou os periódicos sensacionalistas pela TV.

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A peça As Noivas de Nelson está em cartaz no Teatro Arthur Azevedo (av.Paes de Barros,955-Mooca) até o dia 28 deste mês que é também quando sai de cartaz Senhora dos Afogados, dirigida pelo gigante Antunes Filho, que está no Sesc Consolação (r.Dr.Vila Nova,245- região central).

PAPO DE BALCÃO

- Um grande abraço para o superamigo Zidane, cuja identidade secreta é o jornalista do Diário de São Paulo, Fábio Saraiva !

- Reproduzo aqui o recado do Nicolau Soares, jornalista do site Futepoca (futebol,política e chachaça). Já visitei e recomendo. Ao recado : O Futepoca (www.futepoca.com.br) está com a promoção Praga do Zé que vai premiar com três exemplares do Prontuário 666 (ed. Conrad) as melhores pragas de futebol. Vale texto, vídeo, charge, desenho, repente, cordel etc. contra time de futebol, jogador, técnico, cartola... É só ver no blog como participar. Aguardamos as contribuições!

- Um abraço também para a Jô e para o retorno do Daniel Lupi !

- E finalmente ao Anderson (Dj Mandio) que mesmo sem poder postar comentários, continua visitando este Bar1211 !

NELSON RODRIGUES EM HQ- O GRANDE DILEMA

Na hora de se fazer uma adaptação de Nelson Rodrigues, uma HQ sai em larga desvantagem em relação ao cinema e o teatro. Nestes, os diálogos perfeitos de Nelson podem ser reproduzidos com pouca ou nenhuma alteração. Já numa história em quadrinhos eles têm obrigatoriamente de ser mutilados e espremidos para caberem dentro dos balões, o que é uma agressão e tanto à obra do dramaturgo. Agrava ainda o fato das palavras disputarem a atenção do leitor com a força da imagem . Sendo assim, talvez (o grifo aqui é importante) uma adaptação ideal de Nelson devesse ter os diálogos deslocados do quadro onde estão inseridos os desenhos, ou, como na obras de Will Eisner, os desenhos ficariam melhor soltos na página, livres dos quadros, com mais espaço para o texto. Mas essa versão de Beijo no Asfalto graphic novel da dupla Arnaldo Branco e Gabriel Góes publicada pela Via Lettera tem seus triunfos: o desenhos “relaxado”, ajuda a compor a caráter dos personagens. Arandir, que está na desconfortável posição de ser acusado por um jornalista de homossexualismo (que é tratado como um crime- voltamos aqui ao post anterior) tem o corpo pequeno em proporção à enorme cabeça, que o fragiliza. O delegado boçal e violento por vezes tem o rosto deformado em relação aos desenhos anteriores, o que mostra bem sua mutação perigosa de personalidade. Isso sem falar nos violentos jogos de preto e branco das imagens, que têm tudo a ver com essa história onde se opõem obscurantismo retrógrado e ingenuidade,certo e errado, inocência e culpa acusadores e acusados, discurso proferido e os desejos inconfessáveis.